Uma crônica de Ladislaw Dowbor.
Sob ideais elevados, podridão é orgásmica – por isso, Big Techs, poluidoras e
genocidas investem no ódio coletivo. Se a deformação social é a regra,
reconstruir a democracia exige compreender o quão enredados estamos ao horror…
OUTRASPALAVRAS / CRISE CIVILIZATÓRIA por Ladislau
Dowbor Publicado 10/05/2024 às 20:09
Tradução: Glauco Faria
As complexas deformações sociais
que enfrentamos tornaram-se um sistema fortemente interligado: no nível
individual, a agressão ou mesmo o ódio são facilmente estimulados; as
plataformas globais de redes sociais maximizam esses sentimentos por meio de IA
e algoritmos; as sociedades financeiras contribuem com algoritmos.
Certa vez, um aluno me perguntou
como eu via o ser humano: somos humanos naturalmente bons, deformados pelas
instituições, em uma visão um tanto quanto rousseauniana de le bon
sauvage, ou um primata desesperadamente pervertido? O fato básico é que
conseguimos tornar a vida miserável uns para os outros, e para todos nós,
enquanto inventamos um belo discurso sobre “amar uns aos outros”, “fazer aos
outros…” etc. A questão básica é se a ideia de que ajudar uns aos outros
constrói uma vida decente na Terra é viável. E isso não diz respeito apenas aos
indivíduos: as empresas reivindicam ESGs e continuam a destruir nosso futuro,
os políticos reivindicam sua dedicação ao bem comum, e lá vamos nós para a
COP29 – sim, 28 anos discutindo o que devemos fazer e não fazendo nada a
respeito – enquanto a bagunça global se aprofunda.
Não se trata apenas de
privilégios absurdos no topo e de instabilidade econômica para muitos. Uma das
principais causas do sofrimento é o sentimento generalizado de insegurança, que
penetra todas as nossas vidas, insegurança quanto ao nosso futuro e ao dos
nossos filhos. Precisamos disso? Se alguns de nós – os poucos felizes –
acreditam que são os capitães gloriosos, a maioria é mais realista. Certa vez,
conheci um poderoso ex-ministro africano que cultivava um arrozal: assim é,
comentou ele, um dia você é ministro, no dia seguinte você está na “bolanha”, o
arrozal lamacento. Certamente podem ser estimulantes os altos e baixos da vida,
mas a facilidade com que você pode perder sua casa, ver seus filhos passarem
fome e a família se afogar em dívidas – sem falar em assassinatos, tortura,
guerras absurdas com violência que varia desde crianças violadas até
bombardeamentos de alta tecnologia – empurra-nos para uma batalha permanente
uns contra os outros, mesmo sabendo que a única coisa que funciona é a colaboração.
Parece que as vantagens individuais de curto prazo, misturadas umas com as
outras, assumiram o controle.
E quanto mais inseguras as
pessoas se sentem, mais elas lutam e mais acirrada é a competição. Chamam isso
de liberdade, você está preparando seu próprio sofá e é assim que vai dormir.
Esse é um ditado polonês. Mas quantos de nós temos escolha e sobre o que são
essas escolhas? Estamos enfrentando um drama comum e é deprimente ver
bilionários lutando para chegar ao topo da escala, sem perceber que todo o
terreno está afundando. Sim, é apenas uma imagem, mas é a realidade. Eles não
só lutam, mas constroem ativamente um sistema empresarial e político para
maximizar as suas vantagens, à custa de uma desigualdade explosiva e de um
desastre ambiental. Alguns constroem bunkers, outros afirmam que poderíamos ir
para outro planeta, depois de termos arruinado este. Uma perigosa mistura de
poder e infantilidade.
Não perceber as nossas dimensões
irracionais é simplesmente perigoso. E obviamente pouco inteligente. Não há
nada como a história que sugira que poderíamos substituir o conceito de homo
sapiens pelo de homo demens. Você já pensou que em nenhum
momento da história registrada da humanidade deixamos de matar uns aos outros?
Em cada guerra ou massacre que estudamos, somos levados a definir quem eram os
mocinhos e quem eram os maus. E se a própria incapacidade de viver em paz e em
colaboração, que seria sem dúvida mais proveitosa para todos, fosse o objeto da
nossa análise? Gosto muito do texto de Frans de Waal, Our Inner
Ape, no qual fica evidente o quanto nos comportamos, em termos de defesa de
nossos territórios ou tribos políticas, de forma muito parecida com nossos
parentes mais próximos, os chimpanzés. Guerras tribais, guerras nacionais,
guerras mundiais, alguma delas faz algum sentido? 1
Em outro belo texto, The
Righteous Mind, Jonathan Haidt analisa nossas motivações e, em particular,
como conseguimos embelezá-las. A Ku-Klux Klan massacrou para proteger as
virgens brancas e queimou casas para civilizar os negros, os nazis limparam a
raça, as guerras de religiões mataram e torturaram por todo o lado segundo as
ordens expressas dos seus respectivos deuses, a Inquisição torturou mulheres,
de preferência nuas, para extirpar o demônio que se apoderou de suas almas. No
Vietnã, mataram dois milhões; na Argélia, um milhão; na Segunda Guerra Mundial,
60 milhões, o Oriente Médio aumenta a conta todos os dias. Tudo em nome dos
ideais mais elevados. O que Haidt deixa claro é como é prazeroso e
profundamente satisfatório dar rédea solta ao que há de mais podre dentro de
nós, em nome dos ideais mais elevados. É o orgasmo final. O ódio justificado
gera gozo irreprimível. É ignorância? Sem dúvida, mas não faltam diplomas:
metade dos médicos alemães aderiram ao partido nazista. 2
Barbara Tuchman não tem muita
confiança na lógica do poder ou na inteligência dos grupos que o exercem.
A ausência de pensamento
inteligente no exercício do poder é outro fato universal, que levanta a questão
de até que ponto, nos Estados modernos, há algo na vida política e burocrática
que reduz o funcionamento do intelecto em favor do “manuseio das alavancas” sem
levar em conta as expectativas racionais. Essa parece ser uma perspectiva
válida. 3 (pág. 398)
A filosofia que permeia os
escritos de Barbara Tuchman é sem dúvida o resultado dos seus próprios estudos
de história, mas o seu ceticismo relativamente ao exercício do poder tem raízes
mais antigas. O autor lembra Platão:
Ele também teve que aceitar que
seus semelhantes estavam ancorados na vida dos sentimentos, agitados como
marionetes pelos fios dos desejos e medos que os fazem dançar. Quando o desejo
não está de acordo com o julgamento da razão, disse ele, há uma doença na alma.
E quando a alma se opõe ao conhecimento, ou à opinião, ou à razão, que são as
suas leis naturais, isso eu chamo de loucura. 3 (pág. 404)
Provavelmente o maior interesse
do livro de Haidt é que ele nos permite compreender um pouco melhor esse poço
obscuro dentro de nós, uma mistura de empatia, ódio e identificações políticas,
ao detalhar, com base em pesquisas, a diversidade de motivações. Ele trabalha
com uma “matriz moral” de seis motivações: o cuidado, que nos faz evitar causar
danos aos outros, querendo diminuir o sofrimento; liberdade, com o seu
correspondente repúdio à opressão; justiça, que nos faz buscar tratamento
igualitário e evitar trapaças; a lealdade, que nos faz buscar adotar os valores
do nosso grupo, considerando como traidores aqueles que não os adotam; a
autoridade, que nos faz considerar ético o que os líderes decidem e chamar de
subversivos aqueles que se rebelam; santidade, ligada a valores sagrados como
tradições ou razões religiosas, o que pelo lado negativo nos faz condenar ao
fogo do inferno aqueles que acreditam em outras cosmovisões. 2 (pág.
297)
Enquanto os três primeiros
grupos de motivações, cuidado, liberdade e justiça, nos levam a um mundo
colaborativo, os três últimos, lealdade, autoridade e santidade, facilmente nos
transformam em monstros. Na verdade, não apenas monstros, como nos mostrou
Hannah Arendt, mas monstros burocráticos. Christopher Hitchens nos mostra como
Henry Kissinger abriu o caminho com habilidade e paciência e justificou mais
massacres no Vietnã, no Chile com Pinochet, na Argentina com Videla, na Grécia
e Chipre com Papadopoulos, na Indonésia com Suharto, para mencionar
alguns. 4 O fato de ele ser essencialmente um
realista nos torna conscientes de quão vergonhoso é o que construímos. Os mais
de seis milhões de mortos na República do Congo mal chegam aos nossos manuais
de história. 5
Max Fisher, no seu recente
estudo sobre conflitos gerados por algoritmos de redes sociais, The
Chaos Machine, torna a questão muito mais transparente. 6 Fisher
dedica capítulos a Mianmar, onde o ódio entre comunidades de diferentes
religiões levou a massacres de minorias, mas também ao Sri Lanka, apresentando
o caso dos Estados Unidos, do Brasil, da Índia, da Alemanha e de outras regiões
europeias com a ascensão do fascismo ou movimentos neonazistas. De repente, os
fanáticos ideológicos encontram não apenas formas de falar com o mundo, mas os
algoritmos das plataformas aumentam de forma desproporcional o alcance os seus
discursos. Em dezembro de 2022, o Facebook reportava ter 2,96 bilhões de
utilizadores mensais: uma deformação global.
Estimular as divisões sociais, o
ódio e o fanatismo não era uma opção dos criadores do universo da comunicação
social. Para a Meta, 98% da receita vem de publicidade, e a publicidade é
precificada de acordo com o número de pessoas que atinge, os chamados m-DAUs
(monetizable Daily Average Users, unidade de conta utilizada nas negociações de
compra do Twitter por Elon Musk). Assim, todo o sistema busca mensagens
que maximizem a atenção: para vender mais espaço publicitário, o objetivo é
maximizar o compartilhamento, e os algoritmos são instruídos a canalizar,
estimular ou abafar as mensagens de bilhões de usuários de acordo com esse
critério, com a IA ajudando a encontrar as reorientações necessárias. Dado que
as polarizações emocionais, em particular os sentimentos de identidade de grupo
e de ódio tribal, são motivadores poderosos, acabam dominando as redes sociais.
Em outras palavras, a deformação
é incorporada e construída de forma inteligente pelo próprio critério de
maximização, guiado por sua vez pelo interesse geral de maximizar o retorno
financeiro. Em termos gerais, é inconsciente, quase animalesco e, portanto,
facilmente manipulado por líderes oportunistas ou algoritmos em busca de lucro.
Provavelmente ambos. 6 (pág. 243)
Mesmo que Trump, Bolsonaro e
outros líderes tenham utilizado companhias como a Cambridge Analytica e outras
empresas de divulgação direcionadas por algoritmos, a realidade é que, no
quadro da política de maximização da atenção das próprias plataformas, as
pessoas foram levadas à polarização e a reações fanáticas à medida que viram
seus preconceitos tão reproduzidos e compartilhados. As plataformas geraram, de
fato, um sistema de seleção negativa. Uma pesquisa com 300 milhões de
comentários descobriu como tratar pessoas e fatos em termos morais e emotivos
exacerbados traz à tona os instintos de ódio e violência no público – que é,
afinal, exatamente o que as plataformas sociais fazem, em uma escala de
bilhões, a cada minuto de todos os dias… Sociedades inteiras estimuladas ao
conflito, à polarização e à fuga da realidade – para algo como o
trumpismo. 6 (pág. 211)
Projetar a IA certamente mostra
o quão inteligentes podemos ser, mas os resultados, ao revelarem o que nos
estimula de forma mais poderosa, também mostram os idiotas políticos e os
selvagens morais que podemos ser. Os algoritmos simplesmente navegaram com base
em nossos motivos mais poderosos. E as plataformas programadas para maximizar a
atenção e os lucros simplesmente seguiram em frente. Quem investiu nas
plataformas, hoje os gigantes (Amazon, Apple, Alphabet, Microsoft, Meta,
Nvidia) olha apenas para os dividendos resultantes. A indústria de gestão de
ativos (BlackRock, State Street, Vanguard e similares) baseia-se em algoritmos
que direcionam os fluxos de dinheiro para a maximização de dividendos. E os
políticos tendem a navegar nas ondas mais poderosas.
Onde vou, preocupado com minha
pensão, colocar meu dinheiro? Pois bem, o lucro líquido da Microsoft no último
ano fiscal foi de 34,1%, pago por todos nós. Eu brinco com o sistema. Sim, é um
sistema.
Assim, Frans de Waal, que passou
a vida investigando os chimpanzés e como seu comportamento poderia ser
“humano”, mais recentemente inverteu a perspectiva e ficou surpreso com o quão
simiescos os humanos podem ser. Não se tratava de bons ou maus, mas de pessoas.
As muitas investigações sobre o papel dos algoritmos nas redes sociais levaram
Max Fisher a concluir que investir no animal que existe em nós é de fato um bom
negócio, porque estas são as motivações mais poderosas, e esta compreensão
define as prioridades de grande parte do mundo corporativo. Barbara Tuchman,
analisando as decisões políticas de quatro presidentes americanos, todos eles
pessoalmente convencidos de que a guerra no Vietnã não poderia ser vencida, nos
mostra quão sistêmica se tornou toda a deformação política. Jonathan Haidt faz
o seu trabalho como psicólogo social, exibindo um conjunto de motivações, tanto
negativas como positivas, mas não é otimista. E muitos políticos modernos, em
tantos países, compreenderam que a utilização dos meios de comunicação social,
das notícias falsas e, acima de tudo, do discurso de ódio – os imigrantes podem
ser muito úteis – é uma estrada real para o poder. Se juntarmos as nossas
motivações individuais, o poder corporativo e o oportunismo político, a combinação
é mais do que preocupante. As peças são misturadas.
É este o pessimista em mim
falando? Pois bem, olhando para Trump, Milei, Bolsonaro, Orbán, Netanyahu,
Meloni e tantos outros em ascensão, mesmo na Holanda e na Suécia, temos motivos
para ser pessimistas. Mas a chave para levar a sociedade a um caminho mais
democrático começa precisamente com a compreensão de como os nós estão
amarrados. Acabamos de terminar a COP28, vinte e oito anos sugerindo que temos
um problema. Não é um problema, é uma catástrofe.
Notas
1 Frans
de Waal, Nosso macaco interior . Riverhead Books,
2006.
2 Jonathan Haidt, The Righteous Mind: por que as pessoas boas são divididas
pela política e pela religião . Vintage, 2013.
3 Barbara W. Tuchman, A Marcha da Loucura: de Tróia ao Vietnã ,
Random House, Nova York, 2014, p.470.
4 Christopher Hitchens, O Julgamento de Henry Kissinger,
Twelve, Nova York, 2002.
5 Adam Hochschild, O Fantasma do Rei Leopoldo: uma história de ganância,
terror e heroísmo na África colonial , Houghton Mifflin, Nova
York, 1999.
6 Max Fisher, The Chaos Machine: a história interna de como a mídia
social reconectou nossas mentes e nosso mundo , Back Bay Books,
2023.