sábado, 2 de maio de 2020

Como pensar o Pós-Planeta Confinamento Os tempos pedem que ajamos como poetas, não como políticos

O jornalista Pepe Escobar escreve sobre o cenário global depois da pandemia do coronavírus: "Não é a crise do Covid-19 que levará a um outro mundo - mas a reação da sociedade à crise."

Por Pepe Escobar, para o Asia Times
Tradução de Patrícia Zimbres, para o 247

Entre a falta de responsabilização das elites e a total fragmentação da sociedade civil, o Covid-19, como um circuit breaker, está mostrando que o rei - o design sistêmico - está nu. 

Estamos sendo sugados para dentro de uma dança macabra de múltiplos sistemas complexos "colidindo uns com os outros", produzindo uma infinidade de ciclos de realimentação, na sua maioria negativos.

O que já sabemos com certeza, como Shoshana Zuboff demonstrou em detalhes em seu The Age of Surveillance Capitalism (A Era do Capitalismo de Vigilância), é que "o capitalismo industrial seguiu sua própria lógica de choque e terror" para conquistar a natureza. Mas agora o capitalismo de vigilância "está de olho na natureza humana".

Em The Human Planet: How We Created the Anthropocene (O Planeta Humano: Como Criamos o Antropoceno), analisando o crescimento populacional explosivo, o aumento do consumo de energia e o tsunami de informações "movidos a ciclos de realimentação positivos de reinvestimento e lucro", Simon Lewis e Mark Maslin, do University College de Londres, sugerem que nosso atual modo de vida é a "menos provável" entre diversas opções possíveis. "Um colapso ou uma troca para um novo modo de vida é mais provável".
Com a distopia e a paranoia em massa parecendo ser a lei da (perplexa) terra, as análises de Michel Foucault sobre biopolítica nunca foram tão oportunas, agora que estados de todo o mundo assumem o biopoder - o controle sobre a vida e os corpos das pessoas.

David Harvey, mais uma vez, demonstra o quanto Marx foi profético, não apenas em suas análises do capitalismo industrial mas, também no Grundrisse: Fundações da Crítica da Economia Política – onde ele chegou a prever os mecanismos do capitalismo digital.

Marx, escreve Harvey, "fala de como as novas tecnologias e o novo saber se incorporam à máquina: eles deixam de residir no cérebro do trabalhador, e o trabalhador é empurrado para a margem, tornando-se um mero apêndice da máquina, um mero cuidador de máquinas. Toda a inteligência e todo o saber que antes pertenciam aos trabalhadores e conferiam a eles um certo monopólio de poder frente ao capital, agora desaparecem".
  
Assim, Harvey acrescenta, "O capitalista, que antes precisava das habilidades do trabalhador, agora se livra dessa limitação, e a habilidade é incorporada à máquina. O conhecimento produzido pela ciência e pela tecnologia é canalizado para a máquina, e a máquina se torna a 'alma' do dinamismo capitalista.

A vida na 'deflação psíquica' 

Um efeito imediato - de ordem econômica - da colisão de sistemas complexos é a Nova Grande Depressão que se aproxima. Enquanto isso, muito poucos tentam entender em profundidade o Planeta Confinamento e, principalmente, o Pós-Planeta Confinamento. Entretanto, uns poucos conceitos já se destacam. Estado de exceção. Necropolítica. Um novo brutalismo. E, como veremos, um novo paradigma viral.

Vamos, portanto, recapitular o que disseram algumas das melhores e mais brilhantes cabeças da vanguarda do pensamento sobre o Covid-19. Um excelente mapa de viagem é a Sopa de Wuhan, uma coletânea independente publicada em língua espanhola, trazendo ensaios de, entre outros, Giorgio Agamben, Slavoj Zizek, Judith Butler, David Harvey, o sul-coreano Byung-Chul Han e o espanhol Paul Preciado.

Os dois últimos, juntamente com Agamben, foram mencionados em ensaios anteriores desta série sobre os estoicos, Heráclito, Confúcio, Buda e Lao-Tzu, e também sobre filosofia contemporânea, em A Cidade em Tempo de Peste.

Franco Berardi, ícone do movimento estudantil de 1968 e agora professor de filosofia em Bolonha, propõe o conceito de "deflação psíquica" para explicar a dificílima situação por que estamos passando. Estamos vivendo em uma "epidemia psíquica... gerada por um vírus, no momento em que a Terra atingiu um estágio de extrema irritação e o corpo coletivo da sociedade sofre, o que vem acontecendo já há bastante tempo, um estado de tensão intolerável: a doença se manifesta nesse estágio, devastando as esferas sociais e psíquicas, como uma reação de autodefesa do corpo planetário".

Então, como propõe Berardi, um "vírus semiótico na psicosfera bloqueia o funcionamento abstrato da economia ao subtrair dela corpos".  Apenas um vírus seria capaz de paralisar por completo a acumulação do capital: "O capitalismo é axiomático, ele opera com base em uma premissa não-verificada (a necessidade de crescimento ilimitado que torna possível a acumulação de capital).

Toda concatenação lógica e econômica é coerente com esse axioma, e nada pode ser testado fora desse axioma. Não há saída política que permita escapar do capitalismo axiomático, não há possibilidade de destruir o sistema", porque até mesmo a linguagem é refém desse axioma e não admite a possibilidade de nada que seja "eficientemente extra sistêmico".

Então, o que sobra? "A única saída é a morte, como aprendemos com Baudrillard". O falecido grande mestre do simulacro já previa uma paralisação sistêmica nos pós-modernos anos 80.
  
O filósofo croata Srecko Horvat , por outro lado, traz uma hipótese menos conceitual e mais realista sobre o futuro imediato: "O medo da pandemia é mais perigoso que o próprio vírus. As imagens apocalípticas da mídia de massa escondem um nexo profundo entre a extrema-direita e a economia capitalista. Tal como um vírus que precisa de células vivas para se reproduzir, o capitalismo irá se adaptar à biopolítica do século XXI.

Para o químico e filósofo catalão Santiago Lopez Petit, o coronavírus pode ser visto como uma declaração de guerra: "O neoliberalismo, desavergonhadamente, se fantasia de estado de guerra. O capital está apavorado", mesmo que "a incerteza e a insegurança invalidem a necessidade de um tal estado". No entanto, pode haver possibilidades criativas quando a vida obscura e paroxística, incalculável em sua ambivalência, escapa do algoritmo".

Nossa exceção normalizada 

Giorgio Agamben provocou imensa controvérsia na Itália e por toda a Europa quando, em fins de fevereiro, publicou uma coluna sobre a "invenção de uma epidemia". Ele, mais tarde, teve que explicar o que queria dizer. Mas seu principal insight permanece válido: o estado de exceção foi completamente normalizado.
E fica ainda pior. "Um novo despotismo que, em termos dos controles onipresentes e da cessação de toda e qualquer atividade política, será pior que os totalitarismos que conhecemos até agora".

Agamben insiste em suas análises da ciência como sendo a religião de nosso tempo: "A analogia com a religião é tomada literalmente; os teólogos declararam não serem capazes de definir o que Deus é, mas em Seu nome ditaram regras de conduta aos homens e não hesitaram em queimar heréticos. Os virologistas admitem não saber exatamente o que um vírus é, mas em seu nome fingem decidir como os seres humanos irão viver".

O filósofo e historiador camaronense Achille Mbembe, autor de dois livros indispensáveis, Necropolítica e Brutalismo, identificou o paradoxo de nosso tempo: "O abismo entre a crescente globalização dos problemas da existência humana e o recuo dos países para dentro de suas velhas e antiquadas fronteiras".

Mbembe investiga o fim de um certo mundo, "dominado por gigantescos dispositivos de cálculo", um mundo móvel no sentido mais polimórfico, viral e quase cinematográfico", referindo-se à ubiquidade das telas (novamente o Baudrillard da década de 80) e à lexicografia, "que revela não apenas uma mudança de linguagem mas o fim do mundo".

Aqui temos Mbembe dialogando com Berardi – mas Mbembe leva a questão muito mais longe: "Esse fim de mundo, esse triunfo definitivo do gesto e dos órgãos artificiais sobre a palavra, o fato de que a história da palavra chega ao fim frente a nossos olhos, esse para mim é o desenvolvimento histórico por excelência, o que o Covid-19 revela.

As consequências políticas são inevitavelmente terríveis: "Parte da política de poder das grandes nações não residiria no sonho de uma organização automatizada do mundo graças à fabricação de um Novo Homem que seria o produto de montagem fisiológica, montagem sintética e eletrônica e montagem biológica? Chamemos a isso de tecno-libertarianismo".
  
Isso não é exclusivo do Ocidente: "A China está no mesmo caminho, vertiginosamente".

Esse novo paradigma de uma pletora de sistemas automatizados e decisões algorítmicas "onde a história e a palavra não existem mais, choca-se frontalmente com a realidade de corpos de carne e osso, micróbios, bactérias e líquidos de todos os tipos, o sangue inclusive".

O Ocidente, afirma Mbembe, há muito optou por "imprimir um curso dionisíaco a sua história, levando consigo o resto do mundo, mesmo que este não entenda. O Ocidente não conhece mais a diferença entre começo e fim. A China está no mesmo caminho. O mundo foi mergulhado em um vasto processo de dilaceramento, onde ninguém é capaz de prever as consequências".


Isso, acrescenta ele, corresponde ao nosso novo paradigma viral.

Sua análise certamente se encaixa com a de Agamben: "Tenho a impressão de que o brutalismo vai se intensificar sob o ímpeto tecno-libertarianista, seja na China ou sob as roupagens da democracia liberal. Da mesma forma que o 11 de setembro abriu caminho para um estado de exceção generalizado e para sua normalização, a luta contra o Covid-19 será usada como pretexto para aproximar ainda mais a política do domínio da segurança".

"Mas desta vez", acrescenta Mbembe, "será uma segurança quase biológica, comportando novas formas de segregação entre os "corpos imunes" e os "corpos virais".  O viralismo se transformará no novo palco para o fracionamento das populações, agora identificadas como espécies distintas".

Parece mesmo um neo-medievalismo, uma reencenação digital do fabuloso afresco O Triunfo da Morte, em Palermo.

Poetas, não políticos

É útil contrastar toda essa ruína sombria com a perspectiva de um geógrafo. Christian Grataloup, um excelente geo-historiador, insiste em um destino comum para a humanidade (aqui ele ecoa Xi Jinping e o conceito chinês de "comunidade de destinos compartilhados": "Há um sentimento de identidade sem precedentes. O mundo não é simplesmente um sistema espacial econômico e demográfico, ele se transforma em um território. Desde as Grandes Descobertas tudo o que era global vinha encolhendo, resolvendo uma série de contradições. Agora, temos que aprender a reconstruí-lo, dar-lhe mais consistência, uma vez que corremos o risco de deixá-lo apodrecer com as tensões internacionais".

Não é a crise do Covid-19 que levará a um outro mundo - mas a reação da sociedade à crise. Não haverá uma noite mágica, com shows dos pop stars da "comunidade internacional", quando a vitória será anunciada ao antigo Planeta Confinamento.
  
O que é realmente importante é o longo e árduo combate político que nos levará ao próximo nível. Os conservadores extremos e os tecno-libertarianistas já tomaram a iniciativa - da recusa à tributação sobre grandes fortunas para socorrer as vítimas da Nova Grande Depressão até a obsessão com a dívida, que impede novos e necessários gastos públicos.
   
Nesse quadro, proponho ir além da biopolítica de Foucault. Gilles Deleuze pode ser o conceituador de uma nova e radical liberdade. Aqui temos uma deliciosa série britânica que pode ser curtida como se fosse um enfoque sério à la Monty Python a Deleuze.

Foucault foi insuperável na descrição de como o significado e os quadros de verdades sociais mudam ao longo do tempo, constituindo em novas realidades condicionadas por poder e conhecimento.

Deleuze, por outro lado, concentrou-se em como as coisas mudam. Movimento. Nada é estável. Nada é eterno. Ele conceituou o fluxo - de forma muito heracliteana.

As novas espécies (até mesmo o novo Ubermensch criado pela Inteligência Artificial) evoluem em relação a seu ambiente. É usando Deleuze que podemos investigar como os espaços entre as coisas criam possibilidades para O Choque do Novo.

Mais que nunca, sabemos agora que tudo é conectado (obrigado, Spinoza). O mundo (digital) é complicado, interconectado e misterioso a ponto de abrir um número infinito de possibilidades.

Já nos anos 1970, Deleuze dizia que o novo mapa - a potencialidade inata da novidade - deveria ser chamado de "o virtual". Quanto mais a matéria viva se complexifica, mais ela transforma esse virtual em ação espontânea e movimentos imprevistos.

Deleuze colocou um dilema que agora nos confronta em termos ainda mais radicais. A escolha entre "o poeta, que fala em nome do poder criativo, capaz de subverter todas as ordens e representações para afirmar a diferença no estado de revolução permanente que caracteriza o eterno retorno; e o político, que se preocupa, acima de tudo, em negar aquilo que 'difere', a fim de conservar ou prolongar a ordem histórica estabelecida, ou de estabelecer uma ordem histórica que já faz surgir no mundo as formas de sua representação".

Os tempos nos chamam a agir como poetas, e não como políticos.

A metodologia talvez possa ser a exposta por Deleuze e Guattari no seu formidável  Mil Platôs – que traz o significativo subtítulo de Capitalismo e Esquizofrenia, onde o movimento é não-linear. Estamos falando de filosofia, psicologia, política, conectadas por ideias que correm em diferentes velocidades, em um incessante movimento contínuo que mistura linhas de articulação, em diferentes estratos, dirigidas a linhas de voo, movimento de desterritorialização.

O conceito de "linhas de voo" é essencial para essa nova paisagem virtual, porque o virtual é formado por linhas de voo entre diferenças, em um processo contínuo de mudança e liberdade.

Todo esse frenesi, contudo, tem que ter raízes - como nas raízes de uma árvore (a do conhecimento). E isso nos leva à metáfora central de Deleuze, o rizoma, que é não apenas uma raiz, mas uma massa de raízes brotando em novas direções.

Deleuze mostrou como o rizoma conecta assembleias de códigos linguísticos, relações de poder, as artes - e, o mais importante, a biologia. O hyperlink é um rizoma, que antes representava um símbolo da deliciosa falta de ordem da Internet, até ser aviltado, quando o Google começou a impor seus algoritmos. Os links, por definição, deveriam sempre nos levar a destinações inesperadas.

Os rizomas são as antíteses dos traços-padrão da "democracia" liberal ocidental – o parlamento e o senado. As trilhas, ao contrário, são rizomas - como na trilha Ho Chi Minh. Não há plano ordenador. Múltiplas entradas e múltiplas possibilidades. Sem começo nem fim. Como Deleuze o descreveu, "O rizoma opera por variação, expansão, conquista, captura, ramificações".

Isso pode servir de projeto para uma nova forma de participação política que se seguiria à queda do design sistêmico. Esse projeto incorpora uma metodologia, uma ideologia, uma epistemologia, sendo também uma metáfora. O rizoma é inerentemente progressivo, enquanto as tradições são estáticas. Como metáfora, o rizoma pode substituir nossa concepção de história como linear e singular, oferecendo diferentes histórias que se movem em diferentes velocidades. A TINA, ou "não há alternativa“ (There Is No Alternative) está morta: há alternativas múltiplas.

E isso nos traz de volta a David Harvey inspirado em Marx. Para embarcar em um novo caminho emancipador, temos que antes nos emancipar a nós mesmos e ver que um novo imaginário é possível, paralelamente a uma nova realidade de sistemas complexos.

Então, vamos relaxar - e desterritorializar. Se aprendermos a fazer isso, o advento do Novo Tecno-Homem vivendo em servidão voluntária e controlado remotamente por um estado de segurança todo-poderoso que tudo vê deixará de ser fatal.
  
Deleuze: um grande escritor é sempre como que um estrangeiro na língua por meio da qual ele se expressa, mesmo que ela seja sua língua materna. Ele não mistura uma outra língua com a sua própria língua. Ele constrói uma língua estrangeira não pré-existente dentro de sua própria língua. "Ele faz a própria língua gritar, gaguejar, murmurar. Um pensamento deveria brotar rizomaticamente - em muitas direções.

Estou resfriado. O vírus é um rizoma.

Lembra-se de quando Trump disse que este era um "vírus estrangeiro"?

Todos os vírus são estrangeiros – por definição.

Mas Trump, é claro, nunca leu o Almoço Nu do Grande Mestre William Burroughs.

Burroughs:  A palavra é um vírus".

sexta-feira, 24 de abril de 2020

NÃO VERÁS PAÍS ALGUM E NEM A ESPERANÇA


Antes de transpor minha revolta com o que venho lendo em consequência da mais nova baixa do governinho fascista de BSB, com STF e tudo - só para lembrar aos esquecidos - uma ressalva:

Lembrei do livro de Ignacio Loyola Brandão, que li próximo de seu lançamento na década de 80, no século passado. Ao pesquisar na rede, descubro vários artigos e filmes falando da atualidade do livro... e eu crente que ia abafar, descubro que tenho que reler praticamente tudo do que já li, para atualizar.

Feita a ressalva, vamos ao que me motivou. Impressiona a quantidade de pessoas postando que “agora vai”; “Bolsonaro vai cair”; “Moro saiu atirando” – para mim a mais absurda. Nada do que foi dito ou comentado a posteriori, é ou foi novidade. Neste ponto, a tecnologia, normalmente usada para o mal, dá um nó nos malvados. A verdade vaza, não tem como segurar. Então nada do que “denunciado”, pelos dois “inimigos”, chega perto de algo como um “furo jornalístico”, não temos novidades.

No primeiro parágrafo deixo claro o porquê, “COM STF E TUDO”. Foi a Justiça que lá em 2005 começou com a farsa do mensalão. Em 2012 o STF inaugura explicitamente a prisão sem provas. De lá para cá um monte de juízes, delegados e promotores, junto com a mesma mídia que hoje questiona o “eleito”, manipulam a “democracia” que ainda resta. Se é que nos resta alguma, tamanho o descaso pela Lei e pela Constituição que os três poderes (EM MINÚSCULOS SIM) têm demonstrado ao longo destes quase 20 anos. E são exatamente nestas instituições que a oposição lança olhares de súplica, de esperança, como o personagem Souza, do livro, tem ao seu final...os bolsões de calor estão matando e estão bem próximos, mas sente-se o cheirinho gostoso da chuva, e o livro acaba.

Não adianta mais panelaço. Panela você pode bater sentado no sofá, pode nem colocar a cara na varanda. Rezar na esperança que o empresariado caia na real, que a justiça se respeite, que os 300 picaretas que ainda estão lá mudem, tenham um estalo de consciência? Não vai acontecer.

Uma desobediência civil seria mais interessante. Imagina grandes massas sentando nos principais cruzamentos das cidades e parando o trânsito todo... nem a polícia conseguiria se mover. O problema hoje, para quem tem um mínimo de decência, é que sequer pode-se propor isso por conta da pandemia. Depois...

Por outro lado, eles estão se aproveitando deste mesmo momento, para arrumar a casa. Para o freio de arrumação como nos transportes públicos. E, independente se, com ou sem fascista, o que vier pelas mãos deles, com STF e tudo, não vai mudar em nada a nossa vida.

Viver de esperança torna as pessoas passivas. Para transformar a esperança em realidade é preciso usar forças, mobilizar-se.


Sérgio Mesquita
PT-Maricá/RJ

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Quem lucra com a pandemia?


O jornalista Pepe Escobar escreve sobre os bastidores do mercado financeiro na pandemia do coronavírus e alerta: "por baixo do pano, em meio a tanta ansiedade, uma raiva contida parece estar ganhando força, podendo, mais adiante, explodir de maneiras imprevisíveis."

Por Pepe Escobar, para o Consortium News
Tradução: Patrícia Zimbres, para o 247

Não é preciso ter lido a obra de Michel Foucault sobre biopolítica para entender que o neoliberalismo – em crise profunda desde pelo menos 2008 – é uma técnica de controle/governo na qual o capitalismo de vigilância encontra-se profundamente arraigado.

Mas agora, com o sistema mundial colapsando a uma velocidade alucinante, o neoliberalismo não faz ideia de como lidar com o estágio seguinte da distopia, eternamente presente em nossa angústia hiper-conectada: o desemprego em massa em escala global.

Henry Kissinger, o oráculo e guardião dos portões oficialmente ungido pelas classes dominantes, está apavorado, como seria de se esperar. Ele afirma que "manter a confiança do público é de importância crucial para a solidariedade social", estando convicto de que o Hegêmona deveria "salvaguardar os princípios da ordem mundial liberal" ou, caso contrário, arriscar atear fogo no mundo.

Isso soa singularmente antiquado. A confiança do público está morta em todo o espectro político. A "ordem" mundial liberal é agora um caos social darwinista.  Basta esperar o incêndio se alastrar.

Os números são de tirar o fôlego. O Banco de Desenvolvimento Asiático, sediado no Japão, em seu relatório econômico anual, talvez não tenha primado pela originalidade, mas observou que o impacto da "pior pandemia em um século" poderá chegar a  4,1 trilhões de dólares, ou 4,8% do PIB global. 

Esse cálculo subestima o problema, uma vez que "distúrbios nas cadeias de fornecimento, interrupção de remessas, possíveis crises sociais e financeiras, bem como os efeitos de longo prazo nos sistemas de saúde e educação não foram incluídos na análise". 

Não podemos sequer imaginar as consequências cataclísmicas do colapso. Sub-setores inteiros da economia global talvez nunca venham a se recompor.  

A Organização Mundial do Trabalho (OIT) prevê, em um cálculo conservador do desemprego global, uma perda de 24,7 milhões de empregos – principalmente nos setores da aviação, turismo e hospedagem.

O setor de aviação, em escala mundial, movimenta a colossal soma de 2,7 trilhões de dólares, ou seja, 3,6 % do PIB global, e emprega 2,7 milhões de pessoas. Quando se soma o setor de cargas aéreas e o turismo,  incluindo desde hotéis  e restaurantes a parques temáticos e museus, o setor é responsável por no mínimo 65,5 milhões de empregos em todo o mundo.

Segundo a OIT, as perdas de renda para os trabalhadores podem ir de 860 bilhões a estarrecedores 3,4 trilhões de dólares. A "pobreza empregada" será o novo normal - especialmente por todo o Sul Global. 

O termo "pobres empregados", na terminologia da OIT, significa pessoas empregadas que vivem em famílias com rendas per capita abaixo da linha da pobreza de 2 dólares por dia. Em 2020, um contingente de até 35 milhões de pessoas irá ingressar nessa categoria. 

Passando para as perspectivas factíveis para o comércio global, é esclarecedor examinar que esse relatório sobre como a economia poderá vir a se recuperar enfoca os notoriamente hiperativos comerciantes e negociantes de Yiwu, no leste da China – o principal centro mundial do comércio de pequenas commodities.

A experiência desses empresários aponta para uma longa e difícil recuperação. Com o resto do mundo em estado de coma, Lu Ting, o principal economista chinês no Nomura, de Hong Kong, ressalta que a China enfrentará um declínio de 30% na demanda externa pelo menos até o próximo outono. 

Neoliberalismo em marcha-ré?

No próximo estágio, a competição estratégica entre os Estados Unidos e China não terá regras nem limites, uma vez que as narrativas que vêm surgindo sobre o novo e multifacetado papel global da China - nas áreas de comércio, tecnologia, ciberespaço e mudanças climáticas – serão assimiladas e terão alcance ainda maior que as Novas Rotas da Seda. O mesmo valerá para as políticas globais de saúde pública. Preparem-se para a aceleração da Guerra Híbrida entre a narrativa do "vírus chinês" e a Rota da Seda da Saúde.

O mais recente relatório publicado pelo Instituto de Estudos Internacionais da China, ajudaria muito o Ocidente — caso a hubris o permitisse — a entender as principais medidas adotadas por Pequim no sentido de colocar a saúde e a segurança da população em primeiro lugar. 

Agora que a economia chinesa começa a lentamente reagir, hordas de administradores de fundos de toda a Ásia estão acompanhando de perto os dados, examinando desde viagens de metrô até o consumo de macarrão, a fim de traçar uma previsão quanto ao tipo de economia que poderá surgir após o confinamento. 

Por todo o Ocidente, ao contrário, o clima de mau-agouro e desalento suscitou um impagável editorial do The Financial Times. Tal como James Brown, no épico pop Blues Brother, da década de 80, a City de Londres parece ter entendido a mensagem ou, pelo menos, estar dando a impressão de falar sério. Neoliberalismo em marcha à ré. Novo contrato social. Mercados de trabalho "seguros". Redistribuição.

Os cínicos não se deixarão enganar. O estado criogênico da economia global aponta para uma feroz Grande Depressão 2.0 e para um tsunami de desemprego. Massas de plebeus munidos de ancinhos e de AR-15s agora aparecem como uma possibilidade real. Talvez seja melhor começar a jogar umas migalhas para o banquete dos mendigos. 

Esse quadro talvez se aplique às latitudes europeias. Mas a história americana é um caso à parte.

Durante décadas nos levaram a crer que o sistema econômico montado depois da Segunda Guerra Mundial dava aos Estados Unidos um poder estrutural sem rival. Agora, tudo o que restou foram fragilidade estrutural, desigualdades grotescas, Himalaias de dívidas impagáveis e uma crise de rolagem. 

Ninguém mais se deixa enganar pelo Fed e seus poderes mágicos de flexibilização quantitativa, nem pela salada de acrônimos - TALF, ESF, SPV – incorporada no Tesouro do Fed/EUA, com sua obsessão exclusiva por grandes bancos, corporações e pela Deusa do Mercado, em detrimento do americano médio.

Poucos meses atrás, uma discussão séria começou a evoluir acerca da possibilidade de o  mercado de derivativos de 2,5 quatrilhões de dólares vir a implodir e quebrar a economia global, devido a uma subida vertiginosa do preço do petróleo, caso o Estreito de Hormuz - por qualquer razão que fosse - viesse a ser fechado. 

Agora fala-se da Grande Depressão 2.0: a quebra da totalidade do sistema resultante da paralisação da economia global. Essas questões são absolutamente legítimas: seria possível afirmar que o cataclismo político e social gerado pela crise econômica global seria uma catástrofe maior que o próprio Covid-19?  E seria verdade que essa crise criaria a oportunidade de pôr fim ao neoliberalismo e dar lugar a um sistema mais equitativo, ou coisa ainda pior? 

A BlackRock 'Transparente' 

A Wall Street, é claro, vive em um universo alternativo. Em poucas palavras, a Wall Street transformou o Fed em um fundo hedge. O Fed, antes do fim de 2020, vai ser proprietário de pelo menos dois terços de todos os título do Tesouro dos Estados Unidos atualmente no mercado. 

O Tesouro dos Estados Unidos vai comprar todos os títulos e debêntures disponíveis, enquanto o Fed será o banqueiro que financiará todo o esquema. 

Então, essencialmente, essa será uma fusão Fed/Tesouro. Um mastodonte distribuindo dinheiro de helicóptero aos montes. 

E a campeã é a BlackRock — a maior administradora de dinheiro de todo o planeta, com tentáculos por toda a parte, gerenciando mais de 170 fundos de pensão, bancos, fundações, companhias de seguros e, na verdade, grande parte do dinheiro aplicado em ativos privados e fundos hedge. A BlackRock — com a promessa de ser totalmente "transparente" — irá comprar esses títulos e administrar esses arriscadíssimos veículos de titularização em nome do Tesouro.

A BlackRock, fundada em 1988 por Larry Fink, talvez não seja tão grande como a Vanguard, mas é a principal investidora da Goldman Sachs, juntamente com a Vanguard e a State Street, e conta com ativos no valor de 6,5 trilhões, mais que a Goldman Sachs, a JP Morgan o Banco da Alemanha juntos. 

Agora, a BlackRock é o novo sistema operacional do Fed e do Tesouro. Ela é o maior banco-sombra de todo o mundo e - não, não é chinesa. 

Comparado com esse jogo pesado, mini-escândalos como o que envolveu Kelly Loffler, Senadora pelo estado da Geórgia, são ninharias. Consta que Loffler teria lucrado com informações privilegiadas sobre o Covid-19 fornecidas pelo Centro de Controle de Doenças (CDC) e ganho uma fortuna na Bolsa. Loffler é casada com Jeffrey Sprecher – que, por acaso, é presidente da Bolsa de Valores de Nova York por indicação da Goldman Sachs. 

Enquanto a mídia empresarial corre atrás dessa história como galinhas sem cabeça, os planos pós-Covid-19, no jargão do Pentágono, "avançam" na surdina. 

O preço? Um mísero cheque de 1.200 dólares por pessoa por um mês. Todos sabem que, com base na renda salarial média, uma família americana típica precisaria de 12.000 dólares para sobreviver por dois meses. O Secretário do Tesouro Steven Mnuchin, em um ato de suprema afronta, dá a eles meros 10% dessa soma. Assim, os contribuintes americanos acabarão com um tsunami de dívidas, enquanto atores de Wall Street abocanharão o grosso da pilhagem, como parte de uma transferência de renda para cima nunca antes vista, acompanhada por falências em massa de pequenas e médias empresas. 

A carta aos acionistas da Fink praticamente entrega o jogo: "Creio que estamos às beiras de uma reformulação fundamental das finanças". 

E, no momento exato, ele previu que "em um futuro próximo - e mais cedo do que muitos esperam - haverá uma realocação significativa do capital". 

Ele, então, se referia às mudanças climáticas. Agora ele se refere ao Covid-19.

Implantem Nosso Nanochip, ou Então... 

É bem possível que o jogo planejado pelas elites para tirar partido da crise contenha esses quatro elementos: um sistema de crédito social, vacinação obrigatória, moeda digital e uma Renda Básica Universal. Isso é o que costumava se chamar, segundo o manual de operações da CIA, exaustivamente testado por décadas de experiência, uma "teoria da conspiração". Bem, mas é exatamente isso que pode de fato acontecer. 

Um sistema de crédito social é algo que a China já havia criado em 2014. Até o fim de 2020, cada cidadão ou cidadã chinês terá recebido sua cota de crédito – que, na verdade, é um "perfil dinâmico" elaborado com o uso extensivo de IA e da Internet das Coisas (IoT), que inclui uma onipresente tecnologia de reconhecimento facial. O que, é claro, implica vigilância 24/7, complementada com pássaros-robô móveis ao estilo Blade Runner. 

Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha, Canadá, Rússia e Índia talvez não estejam muito atrás. A Alemanha, por exemplo, está aperfeiçoando seu sistema de classificação de crédito universal, o SCHUFA. A França tem um aplicativo de Identidade muito similar ao modelo chinês, verificado por reconhecimento facial.

A vacinação obrigatória é o sonho de Bill Gates, que vem trabalhando conjuntamente com a OMS, o Fórum Econômico Mundial com a Big Pharma. Ele quer que "bilhões de doses" sejam aplicadas obrigatoriamente por todo o Sul Global. E isso pode ser um disfarce para qualquer um que receba um implante digital. 

Nas suas próprias palavras de Bill Gates (34:15): "O objetivo final que teremos que alcançar são certificados de que a pessoa se recuperou, de que ela foi vacinada... Porque não queremos gente se movimentando pelo mundo, porque há países onde a doença não está sob controle, infelizmente. Não queremos bloquear completamente a capacidade das pessoas de viajar para esses países, voltar e circular livremente".  

Vem então a frase final, que foi apagada da versão oficial do vídeo TED. Quem notou isso foi Rosemary Frei, que tem um mestrado em biologia molecular e é uma jornalista independente do Canadá. Gates diz: "Então, ao final, teremos essa prova de imunidade digital que irá facilitar a reabertura global". 

É de importância crucial estarmos atentos a essa "prova de imunidade digital", que é algo que poderia ser usado pelo estado com objetivos nefastos.  

As  três principais concorrentes a fabricantes da vacina contra o coronavírus são a Moderna, uma firma norte-americana de biotecnologia,  e também a CureVac e a BioNTech, ambas alemãs.

O dinheiro digital poderia então se tornar um produto do blockchain, um serviço de exploração de bitcoin. Não apenas os Estados Unidos, mas também a China e a Rússia estão interessadas em uma criptomoeda nacional. Uma moeda global - controlada pelos bancos centrais, é claro, talvez venha a ser adotada em breve, na forma de uma cesta de moedas com circulação virtual. Infinitas combinações do coquetel tóxico de IoT, tecnologia de blockchain e sistema de crédito social talvez já assomem no horizonte. 

A Espanha já  anunciou  que está adotando a Renda Básica Universal, e pretende que ela seja permanente. Esses pagamentos, para as elites, são uma forma de seguro contra insurreições populares, principalmente se milhões de empregos forem perdidos para sempre.

A principal hipótese de trabalho, então, é que o Covid-19 poderia ser usado para introduzir um novo sistema financeiro digital e uma vacina obrigatória com um nanochip de "identidade digital", no qual a dissidência não seria tolerada: o que Slavoj Zizek chama de "sonho erótico" da totalidade dos governos totalitários. 

Mas, por baixo do pano, em meio a tanta ansiedade, uma raiva contida parece estar ganhando força, podendo, mais adiante, explodir de maneiras imprevisíveis. Por mais que o sistema esteja mudando a uma velocidade estonteante, não há a menor garantia de que o 0,1% esteja seguro. 

sábado, 11 de abril de 2020

O futuro pós-coronavírus já está em disputa


(...) É esse conteúdo explosivo que faz com que as grandes corporações que dominam o planeta apoiem negacionistas do clima como Donald Trump e Jair Bolsonaro. Com esses déspotas eleitos disseminando mentiras e distraindo o mundo com falsos problemas, elas ganham tempo. Já sabem que não dá mais para seguir, mas farão o impossível para ganhar o máximo enquanto for possível. Guardadas as proporções, é como a indústria do cigarro: negou os malefícios por décadas, contra todas as pesquisas científicas, e ganhou dinheiro produzindo câncer enquanto deu. Ainda hoje, contabiliza cifras bilionárias.(...)

Eliane Brum

Como impedir que o capitalismo, que já nos roubou o presente, nos roube também o amanhã?
Nós, os que hoje estamos vivos, nunca enfrentamos uma ameaça como o novo coronavírus. Se tantos repetem que o mundo nunca mais será o mesmo, qual é então o mundo que queremos?
Ninguém se iluda. Enquanto a pandemia é enfrentada, essa resposta já está sendo disputada. É ela que vai determinar o futuro próximo. Lutar pela vida ameaçada pelo vírus é o imperativo da emergência. É preciso, porém, fazer algo ainda mais difícil: lutar pelo futuro pós-vírus. Se não o fizermos, a retomada da “normalidade” será a volta da brutalidade cotidiana que só é “normal” para poucos, uma normalidade arrancada da vida dos muitos que diariamente têm seus corpos esgotados. O rompimento do “normal”, provocado pelo vírus, pode ser a
oportunidade para desenhar uma sociedade baseada em outros princípios, capaz de barrar a catástrofe climática e promover justiça social. O pior que pode nos acontecer depois da pandemia será justamente voltar à “normalidade”.

As grandes corporações já começam a se mover para garantir o controle do que virá. Na semana passada, as companhias de petróleo foram recebidas por Donald Trump na Casa Branca. Não foram discutir como salvar os mais pobres dos efeitos da pandemia. No Reino Unido, as companhias de aviação fazem lobby por subsídio governamental e, claro, desregulamentação. Tampouco elas foram se reunir para tomar chá e discutir investimentos na área social.

Diante do novo coronavírus, até baluartes da imprensa liberal, como The Economist e Financial Times, ambos nascidos no berço do capitalismo, têm anunciado que é preciso dar um passo atrás. Maior intervenção do Estado e políticas como renda mínima e taxação de fortunas, antes consideradas “exóticas” por esses segmentos, têm sido elencadas na abordagem do novo contrato social no mundo pós-pandemia. Conceder um pouco para garantir que nada mude no essencial é um truque antigo.

Com o vírus, descobrimos que aqueles que afirmavam ser impossível parar de produzir, reduzir o número de voos, aumentar os investimentos dos governos e mudar radicalmente os hábitos apenas mentiam. O mundo mudou em menos de três meses em nome da vida. É também em nome da vida que precisamos manter as boas práticas que surgiram deste período e pressionar como nunca antes por outro tipo de sociedade, tecida com outros fios.

A tarefa é inadiável. Se não fizermos isso, o mundo pós-coronavírus será ainda mais brutal e o colapso climático se aprofundará. Para o extermínio da natureza não há nem jamais haverá vacina. Nosso futuro depende de enterrar o sistema capitalista que exauriu o planeta e nos trouxe até o tempo das pandemias. E para isso também não serve o comunismo que explorou, destruiu vidas, corroeu a natureza e oprimiu os corpos. Precisamos encontrar outros caminhos. E rápido. Muitos dizem que é ingênuo. Outros dizem que é impossível. O que é ingênuo é sentar na cadeira de pregos que se tornou o presente e esperar os efeitos da brutal superexploração da natureza (terminar de) deformar a face do planeta. Impossível é seguirmos vivendo como temos vivido.

O isolamento físico tem que ser usado para produzir pensamento social e para atuar coletivamente, em rede. Este artigo, dividido em duas partes, é uma colaboração para o debate do futuro que precisa ser travado no presente. Agora.

1) No Brasil, todos os caminhos levam ao neoliberalismo

O presente, no Brasil, é uma armadilha. Temos um antipresidente – e a antipresidência é um conceito criado pelo bolsonarismo – que faz oposição ao seu próprio governo. A técnica ficou clara desde o início do mandato, mas ganhou contornos dramáticos na pandemia, quando Jair Bolsonaro abriu guerra contra seu próprio ministro da Saúde. A negação da realidade, como método de manutenção do poder, tem vários efeitos sobre a população. Um deles é ocupar o noticiário e sequestrar o debate.

Em vez de debater a ameaça mais urgente, estamos travando o falso debate lançado contra os brasileiros por Bolsonaro: isolamento ou não isolamento, ou saúde versus economia. É o que acontece quando se elege um homem que, no passado, planejou explodir bombas nos quartéis para pressionar por aumento salarial. As bombas de Bolsonaro hoje são de desinformação, visam ao caos e também podem matar.

O problema é ainda maior porque a negação da realidade também produz realidade. Neste caso, não só a de colocar a população em risco, mas também a de fazer acreditar que há oposição real. Essa ilusão que cresce no Brasil, até por desespero, pode comprometer o futuro de forma irreversível.

Se Jair Bolsonaro (sem partido) renunciar, o que parece bastante improvável no momento, ou se for impedido, o que também ainda parece distante, quem assume é o vice. Hamilton Mourão é um general quatro estrelas da reserva que até a eleição era considerado golpista, devido a várias declarações públicas. Ainda na campanha, chegou a dizer, em entrevista à GloboNews, que em “caso de anarquia” um presidente pode dar um “autogolpe” com “o emprego das forças armadas”. Comparado a Bolsonaro, até um pitbull torna-se “moderado”. É o que vem acontecendo com Mourão, como escrevi mais de um ano atrás.

O terceiro na hierarquia é Rodrigo Maia (DEM). Além de indiciado pela Polícia Federal por corrupção, o presidente da Câmara dos Deputados é totalmente identificado com o neoliberalismo que nos trouxe até a situação atual e com as forças mais conservadoras do país, com exceção (por enquanto) dos evangélicos de resultados. O que tornou Maia um exemplo de moderação e competência para o que chamam de “mercado” foi realizar a reforma previdenciária que, se era necessária, claramente o modelo aprovado não foi nem o melhor nem o mais justo para os trabalhadores, que tiveram suas vidas ainda mais precarizadas. Maia, a quem até o advento do bolsonanorismo parte dos brasileiros preferia ver pelas costas (ou na cadeia), tornou-se uma espécie de oráculo do bom senso, o que mostra o nível do abismo em se encontra o Brasil.

E então temos os novos candidatos a estadistas, na figura dos governadores de São Paulo e do Rio de Janeiro. João Doria (PSDB) e Wilson Witzel (PSC). Doria, o gerente privatizador, e Witzel, defensor da violência policial nas favelas. Até ontem, ambos eram unha e carne com Bolsonaro. Ou vogal e consoante, no caso de Doria, que se elegeu como “Bolsodoria”. Para conter a pandemia, eles apenas seguem em seus estados as orientações sanitárias internacionais, mas, como fazer o óbvio é fazer o oposto do que Bolsonaro prega, despontam como defensores do povo contra o bolsovírus. Têm os olhos grudados na eleição presidencial de 2022.

Bolsonaro presta um grande serviço aos ex-melhores amigos. Em São Paulo, especialmente, ele livra Doria de explicar o pouco investimento na rede de saúde pública pelo seu partido, que comanda o Estado há mais de 25 anos. Na ponta, é essa falta de investimento no Sistema Único de Saúde (SUS) que vai resultar em mortes por coronavírus.

Em todo o país, o falso debate eclipsa o verdadeiro debate. A pandemia tornou explícita a importância do estatuto público da saúde. E revelou toda a monstruosidade da PEC-95, a do teto dos gastos públicos do governo de Michel Temer (MDB), típica política neoliberal de Estado mínimo, que tirou bilhões da saúde. Grande parte desta conta está sendo paga agora. Com vidas.

No atestado de óbito, as vítimas terão “morte por coronavírus”. Mas, em parte dos casos, o que as terá matado é a precarização da saúde pública, o aumento da desigualdade e da miséria nos últimos anos, a falta de investimento em saneamento e moradia digna. E, finalmente, o fato de que há uma parte da população que segue exposta ao vírus porque não lhes é permitido parar de trabalhar.

A imagem da armadilha em que o Brasil está enfiado é a do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Ao afrontar o chefe e tomar medidas óbvias na pandemia, Mandetta se tornou o novo herói nacional. Todos os erros, como demorar a providenciar testes, máscaras e outros equipamentos de proteção, são perdoados. Principal opositor de seu ministro, Bolsonaro também presta um grande serviço a ele. E a seu próprio governo, já que, qualquer que seja o resultado, pode ser atribuído ou distanciado do governo. Essa é a esperteza de abarcar a situação e a oposição.

Vejamos quem é o novo herói nacional, hoje adulado e apoiado por todos os campos ideológicos. Mandetta, conhecido defensor dos ruralistas, na saúde se manifestou frontalmente contra o programa Mais Médicos e militou contra o aborto. Também já lamentou a fragmentação das famílias causadas pela Lei do Divórcio. Dilma Rousseff demarcou muito menos terras indígenas que seus antecessores, uma das razões porque recebe severas críticas de indígenas e ativistas do meio ambiente. Ainda assim, Mandetta achou que a presidenta exagerava. “A presidente está dirigindo a sua raiva contra os produtores rurais, colocando todo o seu querer mal ao Brasil no agronegócio", discursou no plenário, em 2016. No ano seguinte, foi um crítico feroz da Carne Fraca, operação da Polícia Federal que investigou as irregularidades nos frigoríficos.

O novo herói brasileiro aponta onde está o Brasil. Cada um conclua. A oposição real, como já se tornou explícito, é fraca. E não consegue mostrar qual é a sua grande diferença, muito menos convencer a população de que é diferente. Enroscada com Lula e com o PT, ou brigando com Lula e com o PT, a esquerda deixou de disputar o país. Acha que disputa, é claro, mas ninguém liga. O desempenho mais sólido é o do Psol, mas o partido ecoa apenas num número pequeno de brasileiros.

Isso não significa dizer que a esquerda seria uma solução, na medida em que parte significativa da esquerda brasileira segue cimentada no século 20, totalmente alienada das grandes questões atuais, como a crise climática e a destruição da vida natural no planeta. Quem fez oposição de fato, no Brasil pré-pandemia dos últimos anos, foram grupos identitários: mulheres, jovens, negros e indígenas. A oposição é política, mas não tem partidos políticos como protagonistas. E ainda é preciso ter partidos políticos para fazer a disputa do futuro.

Assim, no período pós-pandemia, ou mesmo durante a pandemia, já que não se sabe se ela acaba, todos os caminhos levam à direita neoliberal. Este é o buraco diante do Brasil. É também o buraco em muitos países – grande parte deles atolados na crise das democracias ocidentais, alguns às voltas com os déspotas eleitos.

O Brasil tem, portanto, dois gigantescos desafios. O primeiro é impedir que o vírus mate milhares de brasileiros. Não há dúvida de que serão os mais pobres que morrerão mais. Os que não têm casas compatíveis com o isolamento; os que têm sido obrigados pelos patrões a trabalhar; os que foram demitidos; os que vivem de bicos, na informalidade, e já não conseguem trabalhar. Os que não vão conseguir se alimentar com os 600 reais que o governo está oferecendo. Os que não têm esgoto, não têm água e logo não terão também comida. Os que ficarem doentes e não encontrarem vagas na rede pública de saúde, sabotada nos últimos anos em nome da privatização e do lobby dos planos privados de saúde.

O auxílio emergencial de 600 reais para os informais é mais uma prova do buraco paradoxalmente grande – e ao mesmo tempo claustrofóbico – em que o país está enfiado. Diante dos 200 reais inicialmente propostos pelo ministro da Economia Paulo Guedes, de repente 600 reais passaram a soar com notas de decência. O valor, porém, é totalmente indecente. Ninguém vive no Brasil com dignidade mínima com 600 reais. Para a outra metade dos trabalhadores, a que têm carteira assinada, o governo permitiu cortes de jornada e de salários.

Para quem se enrosca com o significado de neoliberal, é isso. Vale a pena pesquisar para encontrar definições mais sofisticadas e completas. Em um parágrafo, o que pode ser dito é que os neoliberais acreditam que o Estado deve interferir o mínimo possível e que o Mercado se autorregula. Para isso, é fundamental enfraquecer as representações de trabalhadores e a palavra para tudo é “flexibilização”. Privatizar, desregulamentar, flexibilizar – estes são os verbos favoritos do neoliberalismo. Perceba então que toda vez que “flexibilizaram” algo no Brasil, foram os trabalhadores urbanos e rurais, os indígenas, a natureza e outras espécies que se ferraram. Ao trabalhador precarizado e com cada vez menos direitos deram o nome bonito e moderno de “empreendedor”. Livre e autônomo para morrer trabalhando. E, se não conseguiu “empreender”, as razões para o fracasso também lhe pertencem. Veja agora você, que é “empreendedor”, em que situação está. E veja se é isso que você quer continuar a ser.

No estágio neoliberal do capitalismo todas as relações são, ao mesmo tempo, reduzidas ao consumo – e submetidas ao consumo. O que define cada “indivíduo” é sua capacidade de consumir. Suas escolhas se reduzem a escolher entre produtos, marcas, preços, cores, formatos; sua liberdade é a de consumir o que sua renda permitir e a de desejar se exaurir mais para ter mais dinheiro para consumir. Toda a vida é mediada por mercadorias e, acima de qualquer outra identidade, você é consumidor.

É neste sistema que o planeta, supostamente à disposição dos consumidores, foi consumido; que espécies inteiras foram destruídas e outras subjugadas para terem seus corpos consumidos em produção industrial. É assim que você nasce para, consumindo seu corpo e seu tempo, se consumir. E é assim que os humanos se tornaram, a partir da revolução industrial, que iniciou um processo cada vez mais veloz de emissão de CO2 pela queima de combustíveis fósseis (carvão, petróleo etc), uma força de destruição do planeta.

Pressionadas pelo colapso da natureza que provocaram e pela evidência de que haverá mais pandemias, as grandes corporações que controlam o mundo e aqueles que se beneficiam delas tentam agora reinventar o sistema de destruição, como já fizeram no passado, para continuar no controle. Têm muita chance de conseguir.

No Brasil, Bolsonaro fez o serviço de esticar tanto os limites, que tornou todas as forças conservadoras ao seu redor aceitáveis. Não sei o quanto ele percebe que este é o seu principal papel. O fato é que o executa brilhantemente. Cada vez que se comporta como um maníaco, faz figuras que até ontem causariam arrepios despontarem como estadistas. Antes dele, um Mourão na presidência era inimaginável depois de mais de 20 anos de ditadura militar. Antes dele, Rodrigo Maia era só mais um representante tradicionalíssimo de um Congresso marcado por corrupção e fisiologia. Antes dele, Doria e Witzel, cada um no seu estilo, jamais receberiam aplausos de parte da esquerda ou afagos de Lula. Antes dele, Mandetta era um político preocupado em apoiar projetos corporativos de setores da saúde e fazer lobby para ruralistas. Graças a Bolsonaro e à incompetência da oposição real, todos eles nos lideram.

É assim que vai ser, então?

O Brasil tem dois enfrentamentos urgentes para fazer: a disputa do presente, que é o novo coronavírus, e a disputa do futuro, que se dá também agora, no presente.

Enfrentar uma pandemia num país em que desigualdade e pobreza extrema aumentaram nos últimos anos pelas políticas neoliberais é um imenso desafio. Mas talvez seja ainda maior o desafio de imaginar um futuro que não seja a volta de uma normalidade que só era normal para os privilegiados de sempre. Na armadilha que se tornou o país, todos os caminhos levam ao mesmo lugar. Os personagens que disputam o presente e o futuro dentro da estrutura do Estado são no fundo todos iguais – ou pelo menos muito parecidos.

Como aprender com o coronavírus a criar um futuro que não seja mais aniquilação?

Parece quase impossível quando todas as saídas estão barradas pelas tropas neoliberais. Elas já se organizam para chicotear a população após a pandemia, com o imperativo de produzir para poder superar a recessão e retomar o dogma do crescimento. Já tivemos indícios de que o coronavírus será usado para impor perdas de direitos e de liberdades. A China, com seu comunismo capitalista (sim, isso é possível), ampliou ainda mais sua vigilância despótica sobre a população. É apenas um sinal do que está por vir.

Em breve, pode apostar, os governos vão pedir o sacrifício de todos, que nunca é o de todos, mas o dos de sempre. Prestem atenção ao significado que será dado à palavra “retomada” – e pensem no que será retomado. A pandemia é nova. Os métodos dos que trouxeram o planeta até este estado de coisas, não.

Parece impossível disputar o futuro nessas condições. Mas tudo o que temos é encontrar um caminho para minar a criatura chamada capitalismo, que no nosso tempo se expressa pelo neoliberalismo, e impedir que se regenere. Mais do que nunca, hoje lutamos pela vida.

2) Temos que barrar os senhores do mundo antes de eles conseguirem dar o golpe (mais uma vez)

Há tempos os pensadores ocidentais não se empenhavam tanto em interpretar um momento. Faz todo o sentido. Nada é – ou foi – maior do que essa pandemia como ameaça global capaz de mudar tudo em um segundo. Inclusive o olhar dos humanos sobre si mesmos, ao descobrir a espécie, esta que sempre se considerou dona do planeta, ameaçada por um ser microscópico. Já existe pelo menos um livro com coletânea de artigos de filósofos sobre o coronavírus e seus efeitos. Há uma diferença, porém. Há os pensadores que compreenderam a crise climática e há os que seguem às voltas com dilemas do século 20, como grande parte da esquerda mundial, e que não foram afetados pelas angústias da época atual.

Entre os pensadores conectados com a emergência do clima, o francês Bruno Latour é o autor de uma das melhores contribuições para pensar o momento já como ação. O texto foi traduzido pela filósofa brasileira Déborah Danowski, outra pensadora relevante sobre o contexto atual. Em sua análise, Latour assim define a lição posta pelo novo coronavírus: “A primeira lição do coronavírus é também a mais espantosa. De fato, ficou provado que é possível, em questão de semanas, suspender, em todo o mundo e ao mesmo tempo, um sistema econômico que até agora nos diziam ser impossível desacelerar ou redirecionar. A todos os argumentos apresentados pelos ecologistas sobre a necessidade de alterarmos nosso modo de vida, sempre se opunha o argumento da força irreversível do ‘trem do progresso’, que nada era capaz de tirar dos trilhos, ‘em virtude’, dizia-se, da ‘globalização’”.

E aponta o risco: “Qualquer motorista sabe que, para ter alguma chance de se salvar fazendo uma rápida manobra no volante, sem sair da estrada, é melhor primeiro desacelerar... Infelizmente, não são só os ecologistas que veem nessa pausa súbita no sistema de produção globalizado uma grande oportunidade de fazer avançar seu programa de aterrissagem. Os adeptos da globalização, aqueles que, em meados do século 20, inventaram a ideia de escapar das restrições planetárias, também veem nela uma excelente oportunidade de se desvencilhar ainda mais radicalmente do que resta de obstáculos à sua fuga para fora do mundo. Para eles, essa é uma oportunidade boa demais de se livrar do resto do Estado social, da rede de segurança dos mais pobres, do que ainda resta de regulamentação contra a poluição e, mais cinicamente ainda, de se livrar de toda essa gente em excesso que atulha o planeta. (...) Os adeptos da globalização são perigosos porque eles sabem que perderam, sabem que a negação das mudanças climáticas não poderá continuar indefinidamente, que não há mais nenhuma chance de conciliar seu ‘desenvolvimento’ com os vários ‘envelopes’ do planeta com os quais a economia terá que se haver mais cedo ou mais tarde. Isto é o que os torna dispostos a tentar de tudo para se aproveitar mais uma (última?) vez das condições excepcionais, para poder durar um pouco mais e proteger a si próprios e aos seus filhos”.

Antes que alguém levante a balela do desenvolvimento “sustentável” como a panaceia capaz de colocar o capitalismo de novo nos trilhos, vale escutar outro pensador, este indígena. Autor de Ideias para adiar o fim do mundo (Companhia das Letras), Ailton Krenak provocou ódio e ranger de dentes tempos atrás, ao afirmar que “sustentabilidade era vaidade pessoal”. Toda corporação, incluindo as mais destrutivas, tem hoje um gerente de sustentabilidade. Faz parte da capacidade de cooptação e adaptação do capitalismo. Sempre uma cretinice a mais.

Em março, já com a pandemia atravessando o globo, Krenak assim explicou na abertura da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, ao falar sobre perspectivas anticoloniais: “Nós vivemos precariamente uma relação de consumir o que a mãe natureza nos proporciona. E nós sempre fizemos um uso do que a nossa mãe nos proporciona da maneira mais folgada possível. Até que um dia nós nos constituímos numa constelação tão imensa de gente que consome tudo, que a nossa mãe natureza falou: peraí, vocês estão a fim de acabar geral com tudo que pode existir, aqui, como equilíbrio e como possibilidade daquilo que é fluxo da vida? Vocês vão esquadrinhar a produção da vida e decidir quantos pedaços de vida cada um pode obter? E, nessa desigualdade escandalosa, vocês vão sair por aí administrando a água, o oxigênio, a comida, o solo? E então [a natureza] começou a botar limites à nossa ambição.
Uma maneira que os humanos fizeram para administrar isso foi criando a ideia, por exemplo, de que existe um meio ambiente e que esse universo é uma coisa que você pode gerenciar. E dentro desse meio ambiente alguns fluxos vitais podem ser medidos, avaliados e habilitados, alguns deles inclusive com selos de sustentabilidade.

Se você tirar água do aquífero Guarani, por exemplo, uma água de muito boa qualidade, e se você engarrafar direitinho, você é uma empresa sustentável. Mas quem disse que tirar água do aquífero Guarani é sustentável? Você pratica uma violência na origem e recebe um selo sustentável no caminho. E assim com a madeira. Isso é uma sacanagem, não tem esse papo de água sustentável e não tem esse papo de madeira sustentável”.
Diz então a verdade terrível, que é também o ponto de partida de qualquer proposta para o futuro que formos capazes de esboçar: “Nós somos uma civilização insustentável, nós somos insustentáveis. Como é que então vamos produzir alguma coisa em equilíbrio?”.

Este é o desafio.

Assim que novo coronavírus der uma brecha, os profetas do neoliberalismo começarão a sua pregação: “É preciso produzir e crescer!”. Não há dogma maior na economia do que o do crescimento. Milhares de economistas perderão seu emprego no ramo da astrologia econômica caso o dogma do crescimento seja desmascarado. Crescer é o imperativo de todo país. Quem não lembra do “fazer o bolo da economia crescer para então repartir o bolo” que o ministro da ditadura e astrólogo econômico maior do Brasil, Delfim Netto, repetia no regime de exceção? Mais tarde, com a expansão do neoliberalismo, nem isso. Bastava que os mais pobres soubessem que, se o país crescesse, alguma coisinha poderia eventualmente sobrar pra eles.

O dogma do crescimento é construído sobre uma mentira: a possibilidade de explorar infinitamente os recursos de um planeta com recursos finitos. Bastam dois neurônios para entender que não é possível. E aí vem o outro dogma, o da sustentabilidade, como se fosse possível tornar sustentável o que, em sua estrutura, é insustentável.

O que o dogma do crescimento faz é proteger os privilégios dos muito ricos: o problema deixa de ser a distribuição igualitária das riquezas existentes e passa a ser o crescimento insuficiente, que não permite garantir o suficiente para todos. O imperativo de crescer é repetido à exaustão para encobrir a injustiça estrutural: a desigualdade na distribuição de riquezas. Carregando seu corpo exaurido, mesmo o pobre passa a acreditar que sua miséria é provocada por falta de crescimento. Sem reparar que nos momentos em que o tal bolo cresceu, as fatias se tornaram maiores para os que já eram donos do bolo e sobrou para ele, quando muito, a farofa da cobertura.

No Brasil, o 1% mais rico concentra quase um terço da renda (28,3%), o que dá ao país o título de vice-campeão mundial em desigualdade, segundo o último Relatório de Desenvolvimento Humano da Organização das Nações Unidas (ONU). O Brasil só perde para o Catar – e apenas por 0,7%. Cinco bilionários brasileiros concentram a mesma riqueza que a metade mais pobre do país, segundo estudo da organização não-governamental britânica Oxfam, publicado em 2018. Cinco pessoas concentram a mesma renda que 100 milhões de brasileiros. Este é o problema. Não é por falta de exploração da natureza que o país é tremendamente desigual. Ao contrário. O esgotamento dos suportes de vida do planeta é um dos principais geradores de pobreza e de desigualdade.

O dogma do crescimento, que faz as engrenagens do capitalismo girar, foi determinante para produzir a emergência climática. O que a emergência climática torna explícito é que já não será possível “crescer”. É necessário mudar radicalmente o modo de vida porque, como diz a jovem Greta Thunberg, “nossa casa está em chamas”. Diante do superaquecimento global e da perda de ecossistemas vitais, realmente imperativo é distribuir as riquezas existentes.

É esse conteúdo explosivo que faz com que as grandes corporações que dominam o planeta apoiem negacionistas do clima como Donald Trump e Jair Bolsonaro. Com esses déspotas eleitos disseminando mentiras e distraindo o mundo com falsos problemas, elas ganham tempo. Já sabem que não dá mais para seguir, mas farão o impossível para ganhar o máximo enquanto for possível. Guardadas as proporções, é como a indústria do cigarro: negou os malefícios por décadas, contra todas as pesquisas científicas, e ganhou dinheiro produzindo câncer enquanto deu. Ainda hoje, contabiliza cifras bilionárias.

O desafio que nossa geração tem pela frente é imenso. E será duro. Muito duro. Como a crise climática se desenrola num outro tempo, o encontro com a realidade era sempre adiado pela maioria, apesar dos gritos dos cientistas e dos jovens. Os negacionistas foram eleitos porque grande parte da população mundial quer continuar negando o inegável junto com eles. Então o vírus escancara a realidade. Dele não dá para fugir, já que fugir é morrer.

O que temos hoje é uma janela de realidade, o momento em que todos, absolutamente todos, são obrigados a se encontrar com a verdade. É por isso que Bolsonaro se tornou ainda mais pirotécnico. Para manter o poder ele precisa falsificar a realidade. Vinha conseguindo, e o vírus arrancou de uma vez essa possibilidade. Diz então que “o vírus não é tudo isso que dizem”. Porque, apavorado, sabe que o vírus é muito mais. Diante da verdade da morte, nenhuma mentira vinga.

Bruno Latour assim anuncia o impasse da janela aberta pelo coronavírus: “Se a oportunidade serve para eles, serve para nós também. Se tudo para, tudo pode ser recolocado em questão, infletido, selecionado, triado, interrompido de vez ou, pelo contrário, acelerado. Agora é que é a hora de fazer o balanço de fim de ano. À exigência do bom senso: ‘Retomemos a produção o mais rápido possível’, temos de responder com um grito: ‘De jeito nenhum!’. A última coisa a fazer seria voltar a fazer tudo o que fizemos antes”.

Para que possamos seguir esse debate, reproduzo aqui as perguntas que ele lança para cada um e para o coletivo:

“Aproveitemos a suspensão forçada da maior parte das atividades para fazer um inventário daquelas que gostaríamos que não fossem retomadas e daquelas que, pelo contrário, gostaríamos que fossem ampliadas. Responda às seguintes perguntas, primeiro individualmente e depois coletivamente:

1) Quais as atividades agora suspensas que você gostaria que não fossem retomadas?

2) Descreva por que essa atividade lhe parece prejudicial / supérflua / perigosa / sem sentido e de que forma o seu desaparecimento / suspensão / substituição tornaria outras atividades que você prefere mais fáceis / pertinentes. (Faça um parágrafo separado para cada uma das respostas listadas na pergunta 1).

3) Que medidas você sugere para facilitar a transição para outras atividades daqueles trabalhadores /empregados / agentes / empresários que não poderão mais continuar nas atividades que você está suprimindo?

4) Quais as atividades agora suspensas que você gostaria que fossem ampliadas / retomadas ou mesmo criadas a partir do zero?

5) Descreva por que essa atividade lhe parece positiva e como ela torna outras atividades que você prefere mais fáceis / harmoniosas / pertinentes e ajuda a combater aquelas que você considera desfavoráveis. (Faça um parágrafo separado para cada uma das respostas listadas na pergunta 4).

6) Que medidas você sugere para ajudar os trabalhadores / empregados /agentes / empresários a adquirir as capacidades / meios / receitas / instrumentos para retomar / desenvolver / criar esta atividade?

Acrescento à lista uma pergunta minha. Não há nada que as grandes corporações que controlam o planeta, assim como os políticos neoliberais que os representam nas várias instâncias do Estado, temam mais do que a desobediência civil. No Brasil, as esmolas que concedem para que os mais pobres sobrevivam à pandemia têm por objetivo estancar a possibilidade do “caos social” ou de uma “convulsão social”. Ou seja: o povo nas ruas e já sem nada a perder.

Desde o final de 2018, o movimento que mais balançou a “normalidade” que os senhores do mundo tanto prezam foi a desobediência civil dos adolescentes, que se recusaram a ir para a escola a cada sexta-feira. No ato da greve escolar, eles denunciavam que os adultos roubaram o seu futuro ao não fazer o necessário para conter o colapso climático. Sem futuro, para que estudar? Como são crianças e adolescentes, esta era a desobediência civil disponível. E como funcionou.

Assim, a minha pergunta é: qual poderia ser a melhor ação de desobediência civil neste momento?

No Brasil de Bolsonaro, sabemos que nossa principal desobediência civil é sobreviver. Mas, para além de nos mantermos vivos, como podemos desobedecer aos produtores de morte para criarmos um futuro onde possamos existir com todos os outros?

Encerro com Ailton Krenak, porque acho que as melhores ideias virão dos pensadores indígenas, daqueles que sabem como viver sem esgotar o planeta e sem produzir iniquidades. Ele diz: “O próprio enunciado de alguma coisa que virá depois anima nosso sentido de viver. É a ideia de adiar o fim do mundo. Nós adiamos o fim de cada mundo, a cada dia, exatamente criando um desejo de verdade de nos encontrarmos amanhã, no final do dia, no ano que vem. Esses mundos encapsulados uns nos outros que nos desafiam a pensar um possível encontro das nossas existências – é um desafio maravilhoso”.

Vamos?

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora de Brasil, Construtor de Ruínas: um olhar sobre o país, de Lula a Bolsonaro (Arquipélago). Site: elianebrum.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter, Instagram e Facebook: @brumelianebrum