sábado, 13 de fevereiro de 2021

O CAPITALISMO SE DESLOCA: Novas arquiteturas sociais

 Mudanças tecnológicas redefiniram os termos da disputa. Na era da produção imaterial

a arma dos que querem manter a riqueza concentrada são patentes e

catracas eletrônicas. E o Conhecimento Livre é nova bandeira anticapitalista.

 

OUTRASPALAVRAS - Publicado 19/09/2020 às 10:05 - Atualizado 23/12/2020 às 16:28

Em outra era – e esse é ainda o caso do produtor rural, em particular –, a casa se localizava em cima da própria terra, morar e trabalhar faziam parte do mesmo espaço, e toda a família participava, o menino e a menina com poucos anos já ajudavam. A lógica da era industrial gerou o êxodo para as cidades, que se constituíram em torno das grandes unidades produtoras, a usina, a fábrica, os escritórios. O trabalhador passou a alugar a sua força de trabalho por um determinado número de horas por dia, fazendo o que mandassem. Individualmente, passamos a constituir capacidades produtivas disponíveis para aluguel, pagos por hora, por dia ou por mês segundo as circunstâncias. É o chamado emprego.

O vínculo salarial, que hoje ainda nos parece a forma natural de ganhar a vida, de poder sustentar a nossa família, está mudando, não por ideologias, mas porque a sociedade do conhecimento, densa em tecnologia, está mudando as relações de trabalho. Robert Reich, no seu O futuro do sucesso, considera que o vínculo salarial tradicional terá duração de 150 anos e será substituído por outras formas de relação. Sem entrar no exagero de O fim dos empregos, de Jeremy Rifkin, o fato é que as relações de trabalho se deslocam segundo algumas grandes linhas que estão se tornando claras.

A revolução tecnológica que vivemos – tal como foi a Revolução Industrial – gera uma fratura entre o trabalho sofisticado e criativo dos que organizam e gerem o sistema e o trabalho dos que apenas operam segundo instruções recebidas, cada vez mais substituídos pela automação, pela robótica e pela inteligência artificial. Isso envolve, inclusive, os chamados profissionais, como arquitetos, advogados, economistas e semelhantes, conforme a pesquisa de Richard e Daniel Susskind, The Future of the Professions: How Technology Will Transform the Work of Human Experts [O futuro das profissões: como a tecnologia transformará o trabalho de especialistas humanos]. Por exemplo, o trabalho mais conceitual de advogados de primeira linha se sofistica, mas o amplo emprego de juristas novatos que faziam as pesquisas de jurisprudência e organização de informação nos grandes escritórios de advocacia tende a desaparecer, pois hoje está tudo online e acessível por meio de algoritmos de pesquisa inteligente.

Por exemplo, pelo menos em boa parte, os consultores fiscais já estão sendo desintermediados por softwares de declaração de impostos online, os advogados, por sistemas de ordenamento de documentos, os médicos, por aplicativos de diagnóstico, os professores, pelos Moocs [massive open online courses – cursos online abertos e massivos], os arquitetos, por sistemas CAD online e os jornalistas, por blogueiros.1

O processo agrava outra dinâmica preexistente, que é a do trabalho informal. De tanto acompanharmos as estatísticas de desemprego, esquecemos do que se trata. Se no Brasil, antes da pandemia de covid-19, o desemprego estava estimado em 11,6 milhões de pessoas, quase 11% da população economicamente ativa, igualmente ou mais grave é o imenso desemprego oculto representado pelas pessoas que já não se declaram na força de trabalho por terem desistido de procurar (terem saído da população ativa por desalento) ou por aquelas que cada vez mais sobrevivem no mundo do “bico organizado”, atividades absurdas e de transição, como as dos telecentros e dos terceirizados precários de diversos tipos. De maneira mais ampla, temos de considerar a imensa faixa de informais – 38,4 milhões no Brasil – que apenas “se viram” das mais diversas formas, com renda que representa menos da metade do setor formal. Somando os desempregados e o setor informal da economia, estamos falando em 50 milhões de pessoas. O trabalho informal é da ordem de 30% a 40% na América Latina, chegando a 70% nos países do Norte da África. São pessoas que nunca chegaram a se empregar realmente, com todos os direitos, e cujas esperanças de inserção recuam à medida que avança a nova onda tecnológica. O que caracteriza esta era é uma gigantesca subutilização das capacidades produtivas da população mundial, mal acobertada com a alegação de que não é o sistema que é falho, e sim as pessoas que não dispõem da “empregabilidade” adequada seriam “inempregáveis”2.

Mesmo nos espaços mais sofisticados do emprego criativo, ter a pessoa sentada junto à mesa de trabalho durante oito horas por dia pode não ser a melhor opção para a empresa: muito trabalho desse tipo já está sendo realizado em casa, e o que interessa não é mais o relógio de ponto e a presença física do trabalhador, e sim a rede interativa de pessoas conectadas, seja qual for a sua localização. Em estudo sobre o impacto da era digital sobre o emprego, o Livro Branco Trabalhar 4.0, publicado pelo Ministério Federal de Trabalho e Assuntos Sociais da Alemanha, sugere que “muitos esperam que a economia das plataformas gere um aumento na quantidade de trabalhadores autônomos, sobretudo naqueles de caráter unipersonal, que podem oferecer seus serviços e produtos de maneira simples e econômica”3. André Gorz utiliza o conceito de “autoempreendedor”4:

A grande firma não conservas e não um pequeno núcleo de assalariados estáveis e em período integral. O restante de “seu”pessoal – ou seja, 90% no caso das cem maiores empresas americanas – será formado de uma massa variável de colaboradores externos, substitutos, temporários, autônomos, mas igualmente de profissionais de alto nível. A firma pode se desincumbir, no que diz respeito a esses externos, de uma parte crescente do custo (do valor) de sua força de trabalho23.

Até o tão cuidadoso Banco Mundial desperta:

Ajustar-se à mudança da natureza do trabalho também exige que se repense o contrato social. Precisamos de novas maneiras de investir nas pessoas e de protegê-las, seja qual for a sua situação empregatícia. No entanto, quatro de cada cinco pessoas nos países em desenvolvimento nunca souberam o que é viver com proteção social. Com 2 bilhões de pessoas que já trabalham no setor informal – sem a segurança de um emprego estável, das redes de proteção social e dos benefícios da educação –, os novos moldes de trabalho ampliam um dilema que antecede as recentes inovações5.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) também aponta para a falência do atual contrato social, que não responde nem aos desequilíbrios herdados, nem aos novos desafios: “A adoção de medidas urgentes para fortalecer o contrato social em cada país exige que se aumentem os investimentos nas capacidades das pessoas e das instituições do trabalho, e que se orientem as oportunidades no sentido de um trabalho decente e sustentável”25. Isso, por sua vez, envolve

incluir aquelas pessoas que historicamente permaneceram excluídas em grande escala da justiça social e do trabalho decente, em particular as que trabalham na economia informal. Implica, ademais, tomar medidas inovadoras para enfrentar a diversidade cada vez maior de situações em que se apresenta o trabalho e, em particular, o fenômeno emergente do trabalho digital através da economia de plataformas. Consideramos que a Garantia Universal do Trabalho é uma ferramenta adequada para responder a esses desafios […].26

Nessas tentativas de olhar para o futuro do emprego, há muito tateamento inseguro. Mas o que se constata, de forma geral, é uma mudança profunda nesse eixo fundamental do capitalismo tradicional que é a relação de trabalho. A fragilização das organizações sindicais e dos trabalhadores diante dos mecanismos de exploração é patente. No universo fragmentado e hierarquizado do trabalho, a construção de movimentos de solidariedade torna-se mais difícil. É irônico vermos no Brasil, a partir do golpe, um processo que nos joga para o passado em termos de garantias e segurança, quando se trata justamente de proteger e de expandir direitos, e de retomar a dinâmica do desenvolvimento. As soluções, a meu ver, estão nas novas formas de inserção que a economia do conhecimento permite.

A LÓGICA DO CAPITAL COGNITIVO

Vimos anteriormente uma característica fundamental da economia do conhecimento: trata-se de um fator de produção cujo uso não reduz o estoque. Em outros termos, poderia ser socializado de forma universal sem gerar custos adicionais. Isso muda em profundidade a lógica do capitalismo. Fazendo a relação entre essa característica do capital cognitivo e a lógica do valor, Gorz escreve:

[…] a expressão “economia do conhecimento” significa transtornos importantes para o sistema econômico. Ela indica que o conhecimento se tornou a principal força produtiva, e que, consequentemente, os produtos da atividade social não são mais, principalmente, produtos do trabalho cristalizado, mas sim do conhecimento cristalizado. Indica também que o valor de troca das mercadorias, sejam ou não materiais, não mais é determinado em última análise pela quantidade de trabalho social geral que elas contêm, mas, principalmente, pelo seu conteúdo de conhecimentos, informações, de inteligências gerais. É esta última, e não mais o trabalho social abstrato mensurável segundo um único padrão, que se torna a principal substância social comum a todas as mercadorias. É ela que se torna a principal fonte de valor e de lucro, e assim, segundo vários autores, a principal forma do trabalho e do capital6.

Estamos aqui alterando profundamente a teoria do valor, que se baseava no custo relativamente homogêneo da força de trabalho e na mais-valia. “A heterogeneidade das atividades de trabalho ditas ‘cognitivas’, dos produtos imateriais que elas criam e das capacidades e saberes que elas implicam, torna imensuráveis tanto o valor das forças de trabalho quanto o dos seus produtos. […] A crise da medição do trabalho engendra inevitavelmente a crise da medição do valor.”28 Uma visão semelhante é apresentada por Gar Alperovitz e Lew Daly no excelente Apropriação indébita:

Dividir o bolo da economia – mesmo por uma aproximação grosseira de contribuições e recompensas, como muitas outras situações de barganha tentam fazer – torna-se até mesmo extremamente difícil quando compreendemos, no que tange ao crescimento, a centralidade das contribuições baseadas em conhecimento histórico. Quem ou o que gera o crescimento – em qualquer sentido moralmente relevante é, para dizer o mínimo, uma questão muito mais complicada. Tudo isso, sugeriu Daniel Bell, requer uma nova “teoria do valor-conhecimento” [knowledge theory of value], especialmente à medida que avançamos mais profundamente na esfera da altatecnologia29.

Na medida em que o conhecimento pode ser incorporado indefinidamente em mais atividades sem custos adicionais, característica que embasa a “economia com custo marginal zero”, conforme a definição de Rifkin, o eixo da guerra do capital para se valorizar se desloca no sentido de gerar a escassez do principal fator de produção, o conhecimento. A ampliação e extensão do conjunto de direitos sobre a propriedade intelectual, com cobrança de copyrights, patentes, royalties e outras taxas, encontra aqui a sua lógica principal: é dessa forma que se realiza a apropriação privada dos meios de produção quando estes são imateriais e, por natureza, podem ser de acesso aberto e gratuito. Quando um fator de produção é abundante, não há como uma empresa dele extrair valor de troca, tal como não se cobra a utilização do ar. Em vez de generalizar gratuitamente o acesso ao conhecimento criado, e assim assegurar um valor social muito mais amplo, o capital busca aqui restringir esse acesso, pois a escassez é que gera o valor de troca mais elevado. Enzo Rullani, em “Le Capitalisme cognitif” [O capitalismo cognitivo], explicita isso claramente: “O valor do conhecimento está, pois, inteiramente ligado à capacidade prática de limitar sua livre difusão, ou seja, de limitar, com meios jurídicos (certificados, direitos autorais, licenças, contratos) ou monopolistas, a possibilidade de copiar, de imitar, de ‘reinventar’, de aprender conhecimentos dos outros”7

Os imensos recursos acumulados pelos gigantes farmacêuticos, por exemplo, são essencialmente baseados no travamento do direito de produzir os medicamentos essenciais para a sociedade e cujo custo de produção e lucro correspondente já foram amplamente cobertos8. A partir desse ponto, trata-se, como sustenta Stiglitz, de rentismo, “unearne dincome”. O sobrecusto para a sociedade será, por sua vez, transformado em rendimentos financeiros, conforme vimos. Mas é essencial realçar aqui que esse capitalismo cognitivo contribui menos para propiciar acesso do que para a geração artificial de escassez. Oligopólio em vez de concorrência de mercado, escassez em vez de abundância, rentismo em vez de lucro sobre a produção.

Os papéis dos sujeitos econômicos mudam. O que nos conecta ao sistema é hoje muito menos a troca entre produtores, de um lado, e consumidores, do outro, numa transação que envolve bens e serviços concretos, e muito mais o fluxo virtual de intangíveis. Passamos a nos conectar através de plataformas e temos de participar das plataformas que os outros usam, pois de outro modo ficamos isolados e sem poder alcançá-los. Preciso comunicar no WhatsApp porque todos se comunicam por esse sistema, preciso escrever no Word da Microsoft e assim por diante. É o chamado monopólio por demanda, temos de utilizar o que os outros usam, e isso permite aos que controlam a plataforma cobrar de maneira desproporcional pela contribuição. A apropriação privada da comunicação entre as pessoas, apoiada nas plataformas planetárias e na informação detalhada sobre os nossos gostos, relações, pensamentos, doenças e tantos outros detalhes, gera uma nova relação entre os sujeitos do processo econômico.

Douglas Heaven resume:

Facebook, Google, Apple e Amazon eludem os impostos de maneiras variadas, esmagam a competição e violam a privacidade, como registram as queixas. Os seus algoritmos inescrutáveis determinam o que vemos e o que sabemos, formatam opiniões, estreitam as visões de mundo e até subvertem a ordem democrática que lhes deu nascença. Em 2018, uma revolta tecnológica [“te-chlash”] está em pleno vigor. Há amplo acordo de que algo deve ser feito relativamente à alta tecnologia. […] Quer se trate da função “clientes que compraram isso também compraram”, da Amazon, ou das bolinhas vermelhas ou laranja que atraem a atenção para “algo novo” nos aplicativos do celular, os produtos da alta tecnologia [big tech] não são apenas bons, mas sutilmente desenha – dos para nos controlar, ou até nos tornar adictos – agarrar-nos pelos olhos e nos segurar. O resultado é a economia da atenção, cuja moeda é data9.

O DESLOCAMENTO DOS MECANISMOS DE MERCADO

O mercado é essencial como mecanismo regulador, mas não é nem de longe suficiente. Como mecanismo de livre concorrência, nele faz sentido a oferta e a procura definirem preços e quantidades. Em termos de estruturação dos processos produtivos, essa lógica supõe que o lucro do produtor resulte de uma resposta adequada às necessidades da sociedade, manifestadas pela demanda. Nesse sentido, o mercado pode ser visto na produção de inúmeros bens de consumo corrente, desde sapatos e automóveis até a pizza que pedimos. Mas a realidade hoje é que esse tipo de bens e serviços, onde a concorrência efetivamente joga um papel, constitui uma fatia cada vez menor das atividades econômicas.

No nível mais amplo, temos o gigantismo corporativo. Quando vemos os já mencionados 147 grupos que controlam 40% do sistema corporativo mundial, ou os 16 gigantes que controlam o essencial das commodities no mundo, ou ainda as 28 instituições financeiras sistematicamente importantes (Sifis – system ically important financial institutions), não há como não nos darmos conta de que se trata de uma estrutura de poder. Estudei essa estrutura em A era do capital improdutivo. Aqui me interessa o fato de que gigantes dessa dimensão, hoje dotados de sistemas de articulação, geram um imenso espaço de preços administrados, onde a tal concorrência “para melhor servir o cliente” permanece apenas em alguns segmentos da economia e no âmbito da pequena e da média empresas. Isso não exclui a guerra entre os grupos, naturalmente, guerra que alimenta gigantes da área jurídica e uma luta feroz pela indicação de ministros e de presidentes de bancos centrais, assim como pelo controle de segmentos da mídia.

Mas o mercado, no sentido original, sobrevive apenas nas brechas, e qualquer concorrente significativo que tente ocupar espaço no andar de cima será simplesmente quebrado, como o navegador Netscape, ou comprado, como o Instagram e o WhatsApp, ou ainda transformado em subcontratado de um grupo maior.

Fazemos face a uma gigantesca pirâmide de poder, em que os chamados executivos se tornaram essencialmente operadores políticos. Os que apontam indignados para políticos corruptos esquecem que se trata, hoje, em grande parte, de meros representantes dos corruptores. É o “Estado-biombo”, que permite que as políticas impostas pelas corporações apareçam como iniciativas impopulares dos governos; útil, mas inócuo para-raios da cólera cidadã. Como diz o comediante estadunidense George Carlin de maneira veemente, os políticos existem apenas para que pensemos que temos escolha34.

Outra mudança muito significativa na grande corporação é a tensão entre os técnicos e gestores de empresas, por um lado, os quais poderiam estar interessados no equilíbrio de longo prazo e na utilidade econômica e social do que fazem, e os interesses de curto prazo dos grandes acionistas, por outro, os chamados investidores institucionais, a esfera financeira em geral. Lynn Stout escreveu um livro importante sobre esse conflito, The Share holder Value Myth[O mito do valor para o acionista], em particular sobre o mito de que as corporações têm como obrigação legal defender os interesses dos acionistas. A autora demonstra que se trata muito mais de uma construção cultural e política do que propriamente de uma obrigação legal. Essa cultura, no entanto, aliada ao gigantismo dos investidores institucionais, os que detêm o grosso das ações, leva a que o interesse do rentismo, daqueles que investem em papéis financeiros, supere amplamente a visão de uma empresa que responda no longo prazo aos interesses da própria empresa, dos trabalhadores, das comunidades e do meio ambiente. O desmonte da Petrobras em função dos interesses dominantes de investidores financeiros internacionais é aqui apenas um exemplo a mais.

Nenhum operador financeiro vai entender o impacto real de “um conglomerado que vende de tudo, desde ração para animais de estimação até motores de avião e serviços financeiros. O que será considerado é a rentabilidade das aplicações. A British Petroleum (BP) defendeu bem os interesses de maior rentabilidade dos acionistas, mas gerou imensos custos externos para a vida marítima no Golfo do México, para a indústria pesqueira local, para o turismo e as cidades litorâneas.

[…]sob pressão do governo estadunidense na sequência do derrame de petróleo da Deepwater Horizon, a BP anunciou que suspenderia o pagamento regular dos dividendos. Isso suscitou uma onda de protestos dos pensionistas britânicos que dependiam dos dividendos da BP para as suas aposentadorias. A BP rapidamente concordou em retomar o pagamento de dividendos depois de anunciar planos de vender cerca de 30 bilhões de dólares em ativos, inclusive muitos de seus campos de petróleo36. […]

Ou seja, manter os dividendos, ainda que descapitalizando a empresa. A busca descontrolada de maximização dos lucros para alimentar os investidores institucionais levou a sub investimento tecnológico, multiplicação dos riscos, prejuízos para o conjunto dos atores interessados, inclusive para o capital de base da empresa. O interesse sistêmico e de longo prazo foi deixado de lado. Os exemplos desse tipo constituem uma lista infindável, desde fraude com medicamentos (GSK) ou com implantes (Johnson & Johnson) até o entupimento dos nossos alimentos com agrotóxicos e antibióticos (Bayer e inúmeras outras empresas), fraude nas taxas de juros (todos os grandes bancos, sem exceção), passando por apoio técnico e jurídico para evasão fiscal e lavagem de dinheiro (praticamente todos os grandes intermediários financeiros), fraude nos dados de emissão de poluentes (VW e muitas outras), venda de leite para crianças contaminado (Lactalis) e assim por diante. O leitor pode colocar o nome de qualquer empresa grande da sua preferência, por exemplo “GSK”, em um buscador da internet acompanhado da palavra “settlements”, ou seja, “acordos judiciais”, para ver a ficha corrida dos crimes cometidos por ela. Como comenta a The Economist, para as grandes empresas, “ficou cada vez mais difícil ficar dentro da lei”.

O divórcio entre os interesses do consumidor, da sociedade e do meio ambiente, por um lado, e os interesses financeiros de curto prazo, por outro, aprofunda-se. O que chamamos de mercado não é mais mercado, e sim uma estrutura política, financeira e jurídica (quando não militar) que desorganiza a economia. Em termos econômicos, Lynn Stout usa uma imagem forte: “Quando os interesses de investidores de curto e longo prazo divergem, o pensamento do acionista em termos de valor coloca os mesmos riscos que a pesca com dinamite. Alguns indivíduos poderão conseguir resultados imensos e imediatos. Mas, no conjunto e com o tempo, os investidores e a economia perdem”. E isso apesar dos imensos avanços tecnológicos que os pesquisadores e organizadores dos processos efetivamente produtivos estão assegurando. Não se trata de falta de meios técnicos ou financeiros, e sim da orientação política do seu uso.

Até aqui vimos as transformações na base produtiva da sociedade, com a evolução para a economia do conhecimento, intangível na designação de uns, imaterial na de outros, mas essencialmente ancorada em sinais magnéticos. Na era da conectividade planetária por meio da internet, dos smartphones e de outros instrumentos de estocagem, gestão e transmissão de conhecimento, a própria lógica do capitalismo se desloca. A base técnica transformada gera, por sua vez, um conjunto de relações sociais de produção que atingem tanto o mundo do trabalho – com uma nova hierarquização, outros vínculos profissionais e formas de exploração – como o mundo corporativo, com as gigantescas plataformas nas quais estamos todos condenados a navegar. Em particular, a própria desmaterialização do dinheiro e sua volatilidade no espaço virtual deslocaram e ampliaram profundamente as formas de extração da mais-valia. A base organizacional do capitalismo muda em profundidade. Mas mudam igualmente as formas de poder e as ideologias de dominação, as chamadas superestruturas do sistema.

1 Richard Susskin de Daniel Susskind,The Future of the Professions: How Technology Will Transform the Work of Human Experts,Oxford:OxfordUniversityPress,2015,p.121.

2 SobreasubutilizaçãodaforçadetrabalhonoBrasil,verIBGE,CoordenaçãodePopulaçãoeIn- dicadores Sociais, Síntese de indicadores sociais: uma análise das condições de vida da população brasileira, Rio de Janeiro: IBGE, 2019, pp.32ss., disponívelem:<https://biblioteca.ibge.gov. br/visualizacao

3 Friedrich-Ebert-Stiftung, “Digitalização e o futuro do trabalho: resumo do estudo ‘Trabalhar 4.0’, elaborado pelo Ministério Federal de Trabalho e Assuntos Sociais da Alemanha”, Análise, São Paulo: 2017, n. 37, p. 9, disponível em: <http://library.fes.de/pdf-files/bueros/brasilien/13785.pdf>, acesso em: 12 abr. 2020.

4 AndréGorz,O imaterial,op. cit.,p.24.

5 World Bank Group, World Development Report 2019: the Changing Nature of Work, Washington: World Bank, 2019, p. viii, disponível em: <http://documents.worldbank.org/curated/ en/816281518818814423/pdf/2019-WDR-Report.pdf>,acesso em:14abr.2020. Comisión Mundial sobre el Futuro del Trabajo, Trabajar para un futuro más prometedor, Ginebra: OIT, 2019, p. 14, disponível em: <https://www.ilo.org/wcmsp5/groups/public/—dgreports/–-cabinet/documents/publication/wcms_662442.pdf>, acesso em: 14 abr. 2020.

6 Ibidem, pp. 29-30.

7 Gar Alperovitz e Lew Daly, Apropriação indébita: como os ricos estão tomando a nossa herança comum, trad.RenataLuciaBottini, SãoPaulo: Editora Senac, 2010, p.64 .AlperovitzeDaly se referem ao clássico de Daniel Bell, originalmente publicado em 1973, O advento da sociedade pós-industrial.

8 EnzoRullani,“Le Capitalisme cognitive: dudé jà vu?”, Multitudes, v.2,n.2,2000, pp.87-94, apud André Gorz, O imaterial, op. cit., p. 36.

9 Ver, a respeito, Marcia Angell, A verdade sobre os laboratórios farmacêuticos: como somos enganados e o que podemos fazer a respeito, trad.Waldéa Barcellos,RiodeJaneiro:Record,2007.

10 Douglas Heaven, “How Google and Facebook Hooked us – and How to Break the Habit”, New Scientist, 7 fev. 2018, disponível em: <https://www.newscientist.com/article/mg23731640-500-how- google-and-facebook-hooked-us-and-how-to-break-the-habit/>,acessoem:14abr.2020.

sábado, 2 de janeiro de 2021

NÃO SEJAMOS APENAS UM TIJOLO NO MURO[1]

Se dará resultados? Não sabemos.
O que sabemos é que o método clássico não
está dando os resultados!
José Mujica
 

Ontem, 30.01, fui brindado com dois presentes. O primeiro, ainda cedo, foi ter recebido nas redes a matéria de José Mujica[2], aquele velhinho simpático que foi guerrilheiro Tupamaro, e há pouco tempo, presidente e senador do Uruguai. Homem que deveria servir de exemplo para muitos de nós. Logo mais a noite, o segundo presente, um show do Roger Waters e suas músicas engajadas na luta por um mundo melhor. Por conta disso, o título deste texto foi inspirado nos dois, pois estamos transformando o mundo, ou somos apenas mais um tijolo no muro?

Sempre que esta discussão começa, “ensinar a pescar ou dar o peixe”, lembro do Betinho e sua frase “quem tem fome tem pressa”. Na época, ficava radicalmente do lado do ensinar a pescar. Depois com o tempo, passei a entender que, com fome, ninguém tem como se concentrar e aprender alguma coisa, a clássica frase “saco vazio não fica em pé”. Devemos sim, aplacar a fome, retirar as pessoas da extrema pobreza. Mas o que Mujica discute, é a necessidade do ensinar a pensar, a entender o porquê de sair do estado de pobreza extrema. E não qual atitude tomar primeiro. Ele entende que a urgência está presente, “quem tem fome tem pressa”, mas em paralelo, como tenho repetido, vem o momento do “sem pressa, mas sem pausa”, como colocou o falecido escritor português, José Saramago. Vem o momento do ensinar a pescar, do ensinar que o público é de todos e por todos deve ser cuidado, que você não só tem deveres, mas também tem direitos, como o de participar publicamente das instâncias de decisão dos governos.

Dar o peixe e não ensinar a pescar, nos lembra Giuseppe de Lampedusa, “tudo deve mudar, para que tudo fique como está”. Deixar como está, é como sermos apenas um tijolo em um muro de milhões de tijolos. Não impactaremos e nem mudaremos a vida de ninguém.

Um terceiro presente, não citada anteriormente, na realidade deveria ser o primeiro, foi a conversa minha com o Prefeito Fabiano Horta (Maricá-RJ), recentemente, em seu gabinete. Ele disse como gostaria que fosse este segundo mandato. Cita alguns feitos, como o Passaporte para o Futuro, a Moeda Social e a Renda Básica, os Vermelhinhos com a Tarifa Zero, a manutenção dos empregos da população no processo da pandemia, e outras ações. Ele tem a certeza que é o momento do empoderamento da população. O momento do saber o porquê de cada atitude tomada pelo governo, e o papel de importância que a população deve ter na participação e nas decisões do governo. O momento de, sem pausa, aprender a pescar.

Mujica quando critica as esquerdas em seu artigo, o faz principalmente por conta da falta de complementação dos projetos. Não basta tirar da extrema pobreza, do poder viajar de avião e fazer os saudosos churrascos com os amigos e amigas. Não devemos ser um agrupamento de indivíduos, o capitalismo faz isso com excelência. Devemos sim, ser cidadãos conscientes de nossos deveres e direitos.

Umas das ferramentas que pode despertar o sentimento de sermos seres que dependemos da vida em sociedade, é a solidariedade. Não aquela assistencialista, mas a Solidariedade na economia, nos saberes, na produção e distribuição de bens e serviços, que sejam essenciais para uma melhor qualidade de vida, que atenda a todos e não a pequenos grupos “escolhidos”. Ouçamos o velhinho que se manteve íntegro ao longo de sua vida.

Que venha o Orçamento Participativo, que se dê voz aos Conselhos Municipais, que sejam realizadas mais Audiências Públicas e, neste momento pandêmico, que também venha a Vacina.

Há braços.

Sérgio Mesquita

Diretório Municipal do PT-Maricá 



[1] Inspirado na música “Another Brick In The Wall”, do Pink Floyd;

[2] https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2020/08/12/esquerda-tende-a-cair-no-infantilismo-diz-mujica.htm?cmpid=copiaecola

domingo, 6 de dezembro de 2020

INOVAR A INOVAÇÃO NO GOVERNO

 

O maior perigo em tempos de turbulência,

não é a turbulência em si, mas agir com a lógica do passado.

Peter Druker[1]

 

Início este texto com um rápido resumo de como o Capitalismo se mantém vivo ao longo de séculos.

 

Vivemos há mais de 400 anos sob o domínio do poder do capital. Neste interim, aconteceram “n” crises por conta de suas incoerências. Foram “n” crises não resolvidas, todas contornadas por novas facetas do mesmo. Primeiro capitalismo mercantil, depois o industrial, e o atual, financeiro, que ainda não se recuperou da crise de 2006 (2008 foi quando a classe média americana foi atingida). Ao longo de suas facetas e séculos, sempre se pautou a partir da escassez, para que poucos acumulassem capital.

 

Nos dias de hoje, segundo o Prof. Dr. David Sánches Rubio, da universidade de Sevilha, o mundo vem passando por quatro processos de desconstrução, iniciados antes mesmo do surgimento da COVID-19. Um processo de “Desmocratização”, onde os processos democráticos e a própria política são criminalizadas, transferindo-se para os tribunais as pendengas, sejam comerciais ou de garantias dos Direitos Sociais; um processo de “Desconstitucionalização”, onde as Constituições, as Leis e as instituições também passam pelo processo de diminuição de seus alcances e motivos de suas existências onde, o que passa a prevalecer é o direito comercial e/ou empresarial em detrimento dos direitos sociais; um processo de “Mercantilização” da vida, onde todo e qualquer bem público ou natural passa a ser precificado e privado; e o processo da “Destruição da Natureza”, a favor dos negócios e do lucro, colocado como “ecocídio”. Estes processos aceleraram muito a desigualdade no mundo e o cerceamento à liberdade. Aumentaram o “fosso” que já existia entre os mais ricos e os mais pobres, além da destruição do nosso ambiente. E mais uma vez o sistema se exime de buscar uma solução para todos e tenta se reinventar, seguindo o pensamento do príncipe Falconeri, persobagem de Giusuppe de Tomasi em seu livro Il Gatopardo (O Leopardo), “tudo deve mudar, para que tudo fique como está”.

 

Recentemente começou a ser entendida, e negada pelos defensores mais radicais do sistema, que a própria COVID-19 poderia ser uma consequência do modus operandi do capitalismo.  A ponto de alguns de seus operadores, hoje pensarem até em voltar a fazer alguma concessão ao exemplo do bom e velho “Estado de Bem Estar”. Tentam inclusive se apropriar da Agenda 2030 da ONU, colocando-se como adeptos da mesma.

 

O que isso tem a ver com inovar a inovação? Começo lembrando a citação do Peter Druker colocada acima. A lógica deve ser outra.

 

Segundo o relatório Oxfam de 2019[2], 2.153 bilionários detém a mesma riqueza que 60% da população da Terra, algo próximo a mais de 4 bilhões e 600 milhões de pessoas. E continuamos a pensar em Tríplice Hélice, e achar que inovação é aquilo que chega sem muita discussão, mas com muita perspectiva de retorno financeiro, ao mercado e a sociedade. Pergunto: qual mercado e qual sociedade?

 

Aprendi o significado do mundo VUCA[3], que em uma das suas características, a Complexidade por exemplo, é baseada no enxergar o todo, o contexto e o ambiente em que se dá o problema. Se é para abrir o campo de visão, não devemos ignorar o ambiente e o que vai mudar na vida das pessoas como um todo – o que vai impactar, e não somente para aquele quantitativo que dizem ser necessário para manter o sistema - aqueles 20% da população mundial.

 

Transformemos a Hélice Tríplice em Quíntupla: Academia, Empresa, Governo, Sociedade e Ambiente. Com certeza iremos impactar na vida de mais do que os tradicionais 20% da população. Pois se assim não for, as chances de uma nova faceta do capitalismo bater à porta, serão mais fortes: o capitalismo da vigilância, que vem sendo gestado, o novo ovo da serpente. Esse poderá vir a ser o nosso Novo Normal, pós pandemia. Que aproveitemos os ensinamentos da pandemia para revolucionar as nossas relações, sejam pessoais ou de trocas, escambo.

 

É com esse entendimento que esta Secretaria enxerga a Tecnologia e todos os seus processos, como uma das ferramentas de resgate de nossas humanidades. A Tecnologia a favor do humano e do planeta, e não a favor do acúmulo para uns pouquíssimos privilegiados.

 

A mesma tecnologia que mata, também salva; a tecnologia que permite os fakes News, também permite a horizontalização da informação e sua disseminação. Enquanto um chinês e uma russa colocaram suas almas em leilão na Internet, o sub comandante Marcos impediu o massacre do povo de Chiapas, no México, pelo exército, também usando a Internet. Hoje, ainda, quem aperta o botão do salvar ou matar, é o humano. Somos nós que usamos a Tecnologia para o bem ou para o mal.

 

A Inteligência Artificial já está entre nós, em franco desenvolvimento. O que devemos nos perguntar é qual modelo de humanidade iremos terceirizar para as máquinas? O modelo atual de exclusão e desrespeito pela vida humana e do planeta, ou um modelo, que leve em consideração o bem estar de todos e a recuperação do planeta? Pois, pelo “andar da carruagem”, quem irá passar a apertar o botão, pode não ser mais o humano.

 

Que as inovações sejam auto disruptivas, e que o governo de Maricá também seja disruptivo e busque novas formas de se relacionar com seu território e sua população. Sejamos disruptivos na forma e conteúdo, principalmente neste momento em que estamos rediscutindo nosso Plano Diretor, onde a empresa contratada nos alerta em seu Diagnóstico Técnico no Caderno 1, página 10:

 

(...)

Tal exigência incide especialmente na perspectiva de implantação dos inúmeros projetos que

compõem hoje a agenda municipal que, se por um lado, tem por objetivo diversificar e criar

oportunidades para o incremento de sua economia, de outro lado, pode surtir efeitos

indesejados, socioambientais e sobre o território, se não foram tomadas as devidas

precauções.

 

Isto significa que o patamar positivo alcançado ainda está sujeito a instabilidades e, até que se

firme, com risco de comprometer suas conquistas. Maricá se encontra em um estágio de

‘turning point’ - no momento de decisão ou da ‘virada’ -, de fazer escolhas quanto à

sustentabilidade de seu desenvolvimento, de qualificação de suas infraestruturas e de controle

sobre os impactos territoriais e urbanos de suas iniciativas. (...)

 

Estamos entrando em nosso quarto mandato, como aconteceu também com o PT e o governo nacional. A experiência nos mostra/ou que o fazer a coisa com eficiência melhora a vida da população como um todo.  Mas o fazer certo a coisa (eficiência) não é o mesmo que fazer a coisa certa (eficácia). Uma sem a outra não solidifica os fazeres nem os dá sustentabilidade, seja política, financeira ou de empoderamento, principalmente. Precisamos ser disruptivos neste ponto também. E as inovações tecnológicas estão aí para nos ajudar a ter eficiência e eficácia. Não só melhorando a vida do povo, mas o empoderando para que seja partícipe nas políticas públicas, mas que justificando as pás da Sociedade e do Ambiente na Hélice Quíntupla.

 

Há braços.

 

“Transformar em imperdoável o que hoje é aceitável”[4]

 

Sérgio Mesquita

 Secretário de Ciência, Tecnologia e Comunicações-Maricá/RJ



[1] Peter Druker (1909-2005); considerado o pai da administração/gestão moderna; maior estudioso dos efeitos da Globalização na economia e, em particular nas Organizações; https://pt.wikipedia.org/wiki/Peter_Drucker

[3] VUCA; O termo VUCA é um acrônimo das palavras inglesas Volatility, Uncertainty, Complexity e Ambiguity (volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade)

.

[4] Délcio Teobaldo; jornalista, roteirista, produtor de cinema e teatro, escritor, etino-músico e Coordenador de Projetos as Secretaria de Ciência, Tecnologia e Comunicações de Maricá-RJ 

sábado, 31 de outubro de 2020

POR UMA MARICÁ AINDA MELHOR

 O país passa por problemas, talvez nunca antes experimentados em sua história. Terra Plana, uma nova revolta da vacina, o fim de uma instituição como o Itamarati, sempre respeitada ao longo de sua existência, hoje motivo de piada no mundo, as tentativas de privatização do SUS, da Petrobras e uma Justiça que também saiu do armário; ela tem lado e faz questão de deixar isso as claras. E para não cansar com outros exemplos, uma pandemia que tirou o mundo inteiro dos trilhos. É neste caos que estaremos passando por mais uma eleição, que não direi democrática, pois o dinheiro e o poder Judiciário, resolveram executar e legislar e, como colocado acima, tem seu lado e seus candidatos. É neste caos que Maricá escolherá, no quinze de novembro, o seu futuro Prefeito e a nova composição de sua Câmara de Vereadores.

Estamos completando doze anos à frente da Prefeitura de Maricá, enquanto Partido Político – PT. Doze anos de dificuldades, como nos quatro primeiros anos até acertar a casa, mas também de muitos acertos e avanços. Hoje, com certeza, aqueles que moram há menos de dez anos na cidade, não tem ideia do tamanho da transformação por que passou o Município e sua população. Ouviu falar, mas não presenciou, o que de forma alguma desqualifica a sua opinião e seus sentimentos, então pedimos um pouco de calma. Sabemos que há muito o que fazer ainda. Então... que façamos juntos!

Costumo dizer que governamos estes anos na linha colocada pelo Betinho, em sua Campanha contra a Fome, onde dizia: “quem tem fome tem pressa”. E nós tínhamos pressa em retirar o Município de sua letargia, suas mesmices, deixar de ser um município dormitório. Agora é a hora de começar um outro tipo de mudança, talvez na linha colocada pelo Raul Castro, presidente de Cuba, que disse: “sem pressa, mas sem pausa”. Tratamos muito bem em atender as necessidades individuais, melhoramos a Educação, Saúde, Trabalho, e o que pensarem, teremos uma resposta. Seja na linha do executado, seja na linha do em execução, teremos o que falar e discutir. Então o que nos falta? O mais óbvio... a Participação Popular.

Sem pressa, mas sem pausa. Neste segundo mandato do Fabiano – lembrando a Química, na CNTP, esta eleição para Prefeito tem favorito, mas não esqueçam de “colocarem” os votos nas urnas. Este novo mandato, deve ser prioritariamente, o mandato que impulsionará os Conselhos Municipais, as Audiências Públicas, o Orçamento Participativo, que considero ser uma dívida para com a população. Ouvir a voz da população em cada canto deste município, deverá ser a prioridade do governo. Abrir as instâncias de decisões para a participação popular.

Sabemos que levará algum tempo de preparação, mas também sabemos ser possível esta preparação, sem pressa e sem pausa. Discutir internamente e externamente o alcance desta participação e o como se dará, deve ser o foco principal do governo. E como conheço o MEU candidato a Prefeito há quase uma trinca de décadas, sei que ele não só pensa igual, como também deseja esta Participação.

Por isso voto sem qualquer problema de consciência no 13, no número do Fabiano Horta, o número do PT. Como também voto no garoto Hadesh, de vinte e quatro anos, que acredita ser este mundo de todos, e não só daqueles “escolhidos pela meritocracia”. Por conta disso, tem na Participação Popular a sua prioridade. Hadesh, número 13.500, junto com Fabiano, 13, será meio caminho andado. A outra metade, dependerá dos demais escolhidos e do quanto a população vai desejar sua participação cívica, para além do voto. O quanto esta população desejará ser ouvida.

Até o 15 de novembro.

Há braços.

“Transformar em imperdoável o que hoje é aceitável”

Prof. Dr. Otávio Ferraz

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Calígula e Mad Max num planeta devastado por juízes

Fábio de Oliveira Ribeiro

GGN 14.09.20

 

Esta semana ocorreu um dos mais graves incidentes processuais desde a promulgação da Constituição Cidadã. O escritório de Cristiano Zanin, o advogado de Lula, foi invadido a mando de Marcelo Bretas.

Antes de entrar no assunto farei algumas observações sobre dois filmes. Elas serão utilizadas para ilustrar o que está ocorrendo no Brasil e no mundo.

Em Calígula (1979), filme descrito como sendo uma paródia das produções épicas da Cinecittà, o imperador é convocado a decidir em última instância uma disputa jurídica qualquer. Os argumentos das partes são entregues a ele. Calígula segura a pretensão de uma parte com a mão direita e a da outra com a mão esquerda. Como se fosse uma balança ele compara o peso dos argumentos proferindo sua decisão sem nem mesmo se dar ao trabalho de ler com atenção os documentos e as razões que foram apresentadas.

No filme Mad Max – Além da Cúpula do Trovão (1985), a justiça é distribuída de maneira extremamente brutal. Quem arruma briga em Bartertown, o povoado governado por Titia Entity (personagem interpretada por Tina Turner), tem que combater seu inimigo até a morte no Thunderdome: dois homens entram na arena e apenas um sai dela. Caso a disputa não seja resolvida através do combate singular ou uma nova infração ocorra (Max se recusa a matar o adversário retardado quebrando o contrato que fez com Titia Entity) outra forma de distribuir justiça é utilizada: o réu é obrigado a girar uma imensa roleta. A sorte decide se o infrator será ou não punido e qual a punição ele receberá.

Num dos filmes o juiz decide o conflito desprezando o conteúdo das provas. No outro, a justiça equivale ao predomínio do mais forte ou depende totalmente da sorte. Os dois filmes são representações de uma racionalidade jurídica totalmente distinta daquela que orienta o Estado de Direito. Entre nós, a autotutela é uma exceção e as disputas jurídicas devem ser resolvidas dentro dos limites legais por um juiz imparcial. As partes têm o direito de sustentar seus argumentos e o juiz decide o caso apreciando as provas que foram apresentadas pelos advogados. As prerrogativas outorgadas por Lei aos advogados equilibram as relações processuais entre eles e as autoridades do Sistema de Justiça.

Leia também:  Lava Jato faz operação "estranhíssima" e "pirotécnica" contra advogados de Lula Esta semana ocorreu um dos mais graves incidentes processuais desde a promulgação da Constituição Cidadã. O escritório de Cristiano Zanin, o advogado de Lula, foi invadido a mando de Marcelo Bretas. A reação da comunidade jurídica foi imediata, pois o abuso cometido pelo juiz carioca é evidente.

Nas últimas semanas André Mendonça, Damares Alves e Ives Gandra começaram a ser seriamente cogitados para a vaga no STF que surgirá em razão da aposentadoria do Ministro Celso de Mello. Portanto, devemos supor que Bretas agiu contra Cristiano Zanin para voltar a ficar em evidência na imprensa. Ao atacar o advogado do ex-presidente petista ele reafirmou sua devoção ao presidente Jair Bolsonaro voltando à disputa pela vaga no STF? Só o tempo pode responder essa pergunta.

Uma coisa é certa: ao lançar os dados contra Zanin o juiz da Lava Jato carioca parece ter se inspirado mais em Mad Max – Além da Cúpula do Trovão (1985) do que em Calígula (1979). Marcelo Bretas transformou sua Vara Federal no Thunderdome tupiniquim. Ele acredita realmente que sairá ileso do combate mortal contra o advogado de Lula? O desafio que ele fez já foi aceito. Zanin já afirmou que se defenderá empregando a LEI Nº 13.869, DE 5 DE SETEMBRO DE 2019.

O caso envolvendo Bretas e Zanin não é diferente do processo absolutamente nulo através do qual Sérgio Moro condenou Lula. Ambos se parecem muito com o procedimento que opõe o governo dos EUA à Julian Assange na Justiça da Inglaterra. Nos três casos, a Lei foi esvaziada e transformada num instrumento para destruir o adversário político. Negar o acesso à Justiça no momento mesmo em que ela deveria ser distribuída é uma característica do Lawfare.

No caso de Julian Assange, ao que parece, a Justiça inglesa está inclinada a utilizar o método de Calígula (1979). De um lado nós temos o poder político, econômico e militar dos norte-americanos e as necessidades diplomáticas da Inglaterra do outro os direitos outorgados ao jornalista odiado pelos militares dos EUA e da Inglaterra em virtude de ter revelado crimes de guerra cometidos durante a invasão do Iraque. As “evidências” mais pesadas favorecem a extradição ou Assange? Até a presente data o juiz do caso tem sinalizado que fará prevalecer os interesses de longo prazo da Inglaterra, país que se distanciou da União Europeia e pretende se aproximar dos EUA.

A justiça será feita se Assange e a liberdade de imprensa forem sacrificados para garantir a melhora do desempenho da economia inglesa? É evidente que não, pois no mundo moderno ninguém deve ser julgado e condenado à revelia da Lei porque os interesses de terceiros podem ser prejudicados pela solução dada ao caso.

Kaj Birket-Smith afirma que práticas culturais semelhantes podem ter sido difundidas através do contato entre os povos ou surgido de maneira independente em civilizações distintas e distantes. O que ele disse em relação à cultura também se aplica aos conceitos jurídicos e práticas processuais. Em virtude do sucesso da Internet, podemos dizer com segurança que na atualidade o Lawfare é um fenômeno global.

Ao redor do mundo Sistemas de Justiça que levaram séculos para superar o barbarismo estão sendo transformados em simulacros. O que os juízes distribuem em casos como aqueles que foram aqui mencionados (Bretas x Zanin; Moro x Lula; EUA e Tribunal Inglês x Assange) é mais parecido com a justiça dos filmes Mad Max – Além da Cúpula do Trovão (1985) e Calígula (1979) do que com a Justiça que eles devem distribuir na forma das legislações nacionais e da Lei Internacional.

Portanto, a reação ao Lawfare também deve ser global. O contato entre as vítimas do fenômeno já está ocorrendo e é essencial. Todavia, algo mais pode e deve ser feito: o Lawfare precisa começar a ser debatido nas Nações Unidas. Estados que sonegam a distribuição de Justiça usando Lawfare devem sofrer consequências diplomáticas.


quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Abandonando algumas redes...

 Bom dia a todxs.

Ontem, enquanto com paciência para a mecânica do compartilhamento, repassei mensagem recebida sobre a estreia do documentário “O Dilema das Redes” na NetFlix. Reafirmo aqui a excelência do documentário. Muitos com certeza já leram ou ouviram falar sobre a manipulação que sofremos por conta do “vício” em estar conectado. Mas mesmo para os que acreditam ou desconfiam, vale muito a pena. Para aqueles crédulos (cachorros – entenderam o porque ao lerem o texto que segue ao final) com certeza sairão abalados em suas crenças.

Como já vinha matutando sobre o assunto, abandonar as redes sociais. Manterei o mínimo necessário por conta de trabalho, cursos e etc. Tomei a decisão de abandonar o Face e filiais (talvez não o Skype – apesar do pouco ou quase nenhum uso – decidindo). São mais de 3300 “amigos” que perderei...na realidade não conseguimos monitorar 150... Priorizarei o Telegram e manterei alguns grupos do whatsapp e os contatos individuais.

Meu prazo é no final de setembro...

Texto retirado do livro “Dez argumentos para você deletar AGORA suas Redes Sociais” de Jaron Lanier.

Introdução (com gatos)

Vamos começar com gatos.

Os gatos estão por toda parte na internet. Estão nos memes mais difundidos e nos vídeos mais fofinhos.

Por que mais os gatos do que os cachorros?

Os cachorros não foram até os humanos antigos implorando para viver conosco; nós os domesticamos. Eles foram criados para serem obedientes. Aceitam ser treinados, são previsíveis e trabalham para nós. Isso não é nenhum demérito para os cachorros. É ótimo que sejam leais e confiáveis.

Os gatos são diferentes. Eles apareceram e, em parte, domesticaram a si próprios. Não são previsíveis. Os vídeos populares de cachorros costumam mostrar treinamentos, ao passo que a maioria dos vídeos absurdamente populares de gatos são aqueles que expõem comportamentos estranhos e surpreendentes.

Embora inteligentes, os gatos não são uma boa escolha para quem quer um animal que aceite o treinamento de maneira confiável. Basta assistir a um vídeo de circo de gatos na internet: o mais comovente é que fica claro que os animais estão decidindo se colocam em prática o truque que aprenderam, não fazem nada ou saem andando em direção à plateia.

Os gatos fizeram o que parecia impossível: se integraram ao mundo moderno, de alta tecnologia, sem se entregarem. Eles ainda estão no controle. Você não precisa se preocupar que algum meme furtivo produzido por algoritmos, pago por um oligarca sinistro e oculto, passe a dominar seu gato. Ninguém domina seu bichano; nem você, nem ninguém.

Ah, como gostaríamos de ter essa segurança não apenas em relação a nossos gatos, mas a nós mesmos! Os gatos na internet representam nossas esperanças e sonhos para o futuro das pessoas na grande rede.

Ao mesmo tempo, ainda que a gente adore os cachorros, não queremos ser como eles, pelo menos no que se refere à relação de poder com as pessoas. Tememos, porém, que o Facebook e redes afins estejam nos transformando em cachorros. Quando do nada fazemos alguma coisa desagradável na internet, podemos considerar isso uma resposta a um “apito de cachorro”,

daquele tipo que só pode ser ouvido por eles. Temos medo de ficar sob algum tipo de controle obscuro.

Este livro é sobre como ser um gato, à luz das seguintes perguntas: como permanecer independente em um mundo onde você está sob vigilância contínua e é constantemente estimulado por algoritmos operados por algumas das corporações mais ricas da história, cuja única forma de ganhar dinheiro é manipulando o seu comportamento? Como ser um gato, apesar disso tudo?

O título não mente: este livro apresenta dez argumentos para você deletar todas as suas contas nas redes sociais. Espero que ajude. E mesmo que você concorde com todo o meu raciocínio, pode ser que ainda queira manter algumas contas. Enquanto gato, você está no seu direito.

Ao apresentar os dez argumentos, discutirei algumas maneiras pelas quais você pode pensar sobre sua situação para decidir o que é melhor para a sua vida. Mas só você é capaz de saber.

Há Braços

Transformar em imperdoável o que hoje é aceitável