domingo, 2 de abril de 2023

PENSAR OU NÂO PENSAR, EIS A QUESTÃO

 

Pausar a pesquisa de IA

 

Enquanto adiamos as coisas, a vida passa.

Sêneca

 

Participo de um grupo no WhatsApp, RenaSCidade, criado no HackTown de 2019 na cidade mineira de Santa Rita do Sapucaí, com a intenção de se discutir a cidade e a influência do Hacktown sobre ela, o que aproveitar ou não. Como o grupo começou cheio de “estrangeiros”, como meu exemplo, morador de Maricá, hoje discute o Brasil e o mundo a partir das tecnologias presentes e, principalmente, as por vir. Coisa de malucos belezas, lembrando o Raul Seixas.

 

Neste último mês de março (2023), o que predominou foi a questão da Inteligência Artificial, em especial nas duas últimas semanas, a partir do manifesto que saiu nas redes pedindo pausa nas pesquisas da IA. Assinado por gente do mundo inteiro e ainda em coleta de assinaturas.

 

Participo do quase consenso do grupo, que entende que, mesmo que aconteça um acordo em se realizar uma pausa, ou mesmo a suspensão, as pesquisas continuarão em “segredo de Estado” ou, principalmente, de Estado. Basta lembrar a questão das armas biológicas, denunciada no imbróglio OTAN x Rússia.

 

Meu sogro costumava dizer que o único animal que não prestava no mundo era o humano. O Planeta não sentiria a nossa falta. O que de certo modo, analisando o curto espaço de alguns milhares de anos da nossa existência, acho que o lado negro na Força meio que vem com alguma vantagem. Ao lado da descoberta da penicilina, dos voos espaciais e de muita coisa boa, deparamos com a fome, poluição, má educação, doenças quase que produzidas e mais. As “Big Farms, FinTecs, BigPharm” e outras corporações buscam mais o lucro financeiro do que mitigar (não escrevo resolver), a fome, a distribuição de renda ou a saúde. Quando tomamos ciência, como um dos muitos exemplos que, na maioria das grandes empresas de comunicação, suas diretorias de Jornalismo, são ocupadas por pessoas ligadas ao marketing, alguma coisa não bate. Este deve ser um dos motivos que levaram aos signatários do documento pedindo uma pausa na questão das IAs. Pois está identificado que, mais do que resolver as questões éticas e humanas, a disputa é pelo mercado, pelo lucro rápido, em especial por conta da velocidade exponencial do avanço tecnológico, como bem colocou Dado Schneider no último HackTown em Santa Rita do Sapucaí.

 

A consequência desta linha de pensamento, que busca o lucro rápido e fácil, que cria as sementes suicidas, nossa alimentação transgênica regada por uns 700 venenos agrícolas diferentes, na produção de doenças para vender remédios, ou remédios de curas parciais (olha o marketing mais uma vez), defende o egoísmo e não a solidariedade como modo de vida. É a mesma que incentiva o desenvolvimento da IA, sem se preocupar com as questões éticas e humanas, como bem chama a atenção o professor do INATEL, Marcos Antônio Alberti.

 

Alberti, como eu e outros do RenaSCidade, não acreditamos em uma pausa consensual ou mesmo imposta. Mas acredito, que o “simples” surgimento deste documento, acendeu a luz amarela e publicizou uma discussão até então ainda tímida. Cabe agora não deixar a mesma morrer e, repetindo aqui o mantra que aquecia a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Comunicações de Maricá, entre os anos de 2017 e 2020: “A Tecnologia como ferramenta de resgate de nossas humanidade”. Basta não abrirmos mãos de nossas humanidades, para melhorar e muito a nossa qualidade de vida, que vai muito além das questões financeiras.

 

Quase encerro lembrando a participação da Valéria Brandini, no HackInverno, evento criado pelo RenaSCidade, “on line”, durante a pandemia com o tema: O Brasil tem Futuro?”. Valéria nos lembra que costumamos discutir e avaliar as situações, mas acabamos não apresentando soluções que permitissem as futuras gerações a seguirem avançando. Ela nos lembra que há 200 anos discutíamos que a máquina a vapor iria tirar nossos empregos. Em tempos recentes seriam os robôs, e hoje a IA que segundo Harari, deve criar no mundo a Classe dos Inúteis até 2050. Seguindo com os exemplos colocados por ela, há 70 anos a tela da televisão iria deseducar nossas crianças, hoje são as telas dos celulares. Sempre acabamos nas soluções paliativas, que não impactam na essência do problema, impedindo assim um avanço significativo, para que a próxima geração continuasse avançando. Antes de ouvir a Valéria, em Maricá, quando na Secretaria de Cultura e depois na de C&T, questionávamos: Qual a herança estamos deixando para nossos filhos? Fazíamos a pergunta quando discutindo projetos e, quando aconselhava aos jovens a repetirem a pergunta sempre que ouvissem “a sentença”, de que eles eram o futuro do país.

 

Fato é que devemos dar um pouco mais de atenção as coisas que nos mantém vivos e como seres pensantes. Precisamos dos olhos nos olhos, do nosso tempo para o ócio criativo, de uma qualidade de vida que nos permita o básico. Somente assim poderemos pensar em um mundo mais justo e solidário. Keynes em 1930 escreveu um artigo, “Possibilidades econômicas para nossos netos”, onde meio que previa, dali há 100 anos, que nossa preocupação seria em como gastar nosso dinheiro em nosso tempo livre, em consequência dos avanços tecnológicos e suas propostas econômicas. Em 2015 a ONU lança a Agenda 2030 e seus 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, com ações para serem feitas na prática pelos diversos governos. Faltam 7 anos para os 100 anos do Keynes e para o prazo da Agenda. O mundo avançou?

 

Obrigado RenaSCidade pela existência.

 

Sérgio Mesquita

Servidor Público.

domingo, 26 de março de 2023

Advertência póstuma do filósofo Zygmunt Bauman

 Por: Revista Prosa Verso e Arte 07/19/2017

 Ensaios póstumos do pensador analisam a busca da utopia em um passado idealizado

– por Antonio Pita – El País/Madri

 Você já reparou que os filmes e romances de ficção científica são classificados com uma frequência cada vez maior nas seções de cinema de terror e de literatura gótica, ou seja, em um futuro tenebroso no qual ninguém gostaria de viver? Pode parecer algo irrelevante, mas para Zygmunt Bauman, um dos pensadores mais influentes do século XX, é o reflexo de que começamos a buscar a utopia em um passado idealizado, uma vez que o futuro deixou de ser sinônimo de esperança e progresso para se tornar o lugar sobre o qual projetamos nossas apreensões. O sociólogo e filósofo polonês deixou desenvolvida essa tese da retrotopia (a busca da utopia no passado) em dois escritos, os primeiros traduzidos ao espanhol depois de sua morte, em janeiro, aos 91 anos. São o ensaio Retrotopia (Retrotopia) e o texto Symptoms in Search of an Object and a Name (Sintomas em Busca de um Objeto e de um Nome) parte de uma obra coletiva sobre o estado da democracia, The Big Regression (O Grande Retrocesso), que chega às livrarias espanholas no dia 27 e reúne nomes como Slavoj Žižek, Nancy Fraser e Eva Illouz.

 “O futuro é, em princípio ao menos, moldável, mas o passado é sólido, maciço e inapelavelmente fixo. No entanto, na prática da política da memória futuro e passado intercambiaram suas respectivas atitudes”, aponta. Bauman fala sobre medos como o de perder o emprego, do multiculturalismo, de que nossos filhos herdem uma vida precária, de que nossas habilidades de trabalho se tornem irrelevantes porque os robôs saberão fazer –melhor e mais barato– o nosso trabalho. Em suma, medo porque tudo o que era sólido agora é “líquido”, usando o adjetivo que popularizou Bauman.

 “Existe uma brecha crescente entre o que precisa ser feito e o que pode ser feito, o que realmente importa e o que conta para aqueles que fazem e desfazem, entre o que acontece e o que é desejável”, aponta. Bauman argumenta que voltamos à tribo, ao seio materno, ao mundo cruel descrito por Hobbes para justificar a necessidade do Leviatã (o Estado forte para evitar a guerra de todos contra todos) e a desigualdade mais gritante, na qual “o ‘outro’ é uma ameaça” e “a solidariedade parece uma espécie de armadilha traiçoeira ao ingênuo, ao incrédulo, ao tolo e ao frívolo”. “O objetivo já não é conseguir uma sociedade melhor, pois melhorá-la é uma esperança vã sob todos os efeitos, mas melhorar a própria posição individual dentro dessa sociedade tão essencial e definitivamente incorrigível”, lamenta. A filósofa Marina Garcés, professora da Universidade de Zaragoza, elogia a capacidade de Bauman para “assumir o fim do pensamento utópico e suas consequências”. “Ele não pretende nos enganar com novas e falsas promessas de futuro, mas tenta entender o que está acontecendo depois da era das revoluções e suas várias derrotas”, afirma.

 Pensador de inspiração marxista, Bauman cita algumas vezes o filósofo alemão em Retrotopia, ataca o chamariz da sociedade de consumo de massa e não renuncia à análise científica das contradições do capitalismo, mas também “recorre a outras ferramentas” para oferecer “uma visão em grande-angular”, explica o catedrático de filosofia da Universidade de Barcelona e deputado socialista Manuel Cruz. “A ideia de que a materialização da utopia foi perdida é um zumbido no pensamento do século XX”, mas “na obra de Bauman há um esforço para reconhecer o novo que traz ‘o novo’”. “Os pensadores que agora consideramos que representaram uma revolução foram recebidos com um ‘isso nós já sabíamos’. É preciso tempo para que a sociedade entenda o que tinham de novidade”, comenta.

 Nos dois textos póstumos o filósofo apresenta um desafio e uma –abstrata e pouco desenvolvida– resposta. O desafio é “conceber –pela primeira vez na história humana– uma integração sem separação alguma à qual recorrer”. Até agora, argumenta, o que funcionou é a divisão entre ‘nós’ e ‘eles’, e continuamos empenhados a buscar um ‘eles’, “de preferência no estrangeiro de sempre, inconfundível e irremediavelmente hostil, sempre útil para reforçar identidades, traçar fronteiras e construir muros”. No entanto, essa dicotomia histórica “não se encaixa” com a “emergente ‘situação cosmopolita’”. Qual é, então, a única resposta possível? “A capacidade para dialogar”, conclui Bauman depois de citar de forma elogiosa o papa Francisco.

 Garcés se diz “surpresa” tanto pela chamada ao diálogo (“de quem com quem?”, pergunta) quanto pela invocação da figura do Papa. “Acredito que é um pedido de socorro” de um Bauman que “tenta desenhar um cenário para a palavra compartilhada” porque sabe que “já não há soluções parciais para nenhum dos problemas do nosso tempo”. É a advertência final do pensador polonês: “Devemos nos preparar para um longo período que será marcado por mais perguntas do que respostas e por mais problemas do que soluções. (…) Estamos (mais do que nunca antes na história) em uma situação de verdadeiro dilema: ou damos as mãos ou nos juntamos ao cortejo fúnebre do nosso próprio enterro em uma mesma e colossal vala comum”.

 ANTIDEPRESSIVOS E CEGUEIRA

A partir de seu posto de professor em Leeds (Inglaterra), Bauman teria podido lançar um olhar complacente ao presente, depois de ter vivido a invasão nazista de seu país, a Segunda Guerra Mundial na frente de batalha, o antissemitismo e os expurgos na Polônia comunista. Em vez disso, sua análise em Retrotopia é taxativa: “É praticamente inevitável que respiremos uma atmosfera de desassossego, confusão e ansiedade e a vida seja qualquer coisa menos agradável, reconfortante e gratificante”. Nesse contexto, os cada vez mais consumidos tranquilizantes e antidepressivos proporcionam alívio, mas também “contribuem para cegar os próprios seres humanos em relação à natureza real do seu padecimento em vez de ajudar a erradicar as raízes do problema”.

 Fonte: El País Brasil

 

sexta-feira, 3 de março de 2023

A HUMANIDADE EM QUESTÃO - EDITORIAL DO GLOBO E O FOCO EM SEU UMBIGO, COMO UM IDIOTA

 

Neoliberalismo, monocultura, padronização
O aquecimento global já não é ficção
Movidos pelo lucro, a vaidade e o poder
Homens mortos pelo ego antes de nascer

 

Forfun

Banda de rock alternativo (2001-2015)

 

 

 Nos tempos da Grécia Antiga, Atenas com a sua democracia em processo de desenvolvimento e questionamento, por ser sectária, “politiko”, era aquele morador que participa da vida comum da cidade, que frequentava a Ágora, praça onde o povo discutia a cidade. Em oposição ao “politiko”, tínhamos/temos o “idiota”, que é aquele que só pensa em si, só olha o próprio umbigo.

Ser “idiota”, é o papel que se presta uma das maiores empresas de comunicação do Brasil, que em editorial de seu jornal (03.03), questiona o posicionamento do Governo Federal, em relação ao que fazer com os lucros da Petrobras. Questionamento que, não pode e não deve causar surpresa em ninguém neste Brasil. Pois a mais leve pesquisa nos editoriais e manchetes deste jornal, deixará patente que sua linha de pensamento é a mesma desde os anos cinquenta do século passado. Sempre idiotas.

Em ordem cronológica decrescente, temos alguns exemplos das atuações das empresas ligadas ao grupo, sempre dentro de um mesmo padrão, contrária ao grosso da população e sempre favorável aos poucos ricos locais, ou representantes dos ricos de alhures. Pois senão vejamos:


·        Apoio irrestrito à eleição do Bolsonaro;

·        O Golpe iniciado em 2005 com o “Mensalão” e suas fases posteriores - as condenações de Dirceu e companhia, sem provas - o golpe em Dilma - a farsa das acusações e a prisão do Lula;

·        Eleição do Collor e a farsa do caçador de marajás;

·        O apoio ao desmanche do capítulo da comunicação na Constituição de 1988;

·        Posicionamento contrário ao movimento das Diretas Já;

·        Apoio ao Golpe civil militar de 1964 que assassinou, sequestrou e prendeu àqueles que lutaram pela restauração da democracia;

·        As “fakes news” contra o Governo Vargas, levando-o ao suicídio;

·        Campanha contra o “Petróleo é Nosso” e a criação da PETROBRAS.

 

São, pelo menos, 70 anos de manipulações contra a existência da Petrobras e, enquanto não conseguirem sua privatização, que ela alimente, exclusivamente, as contas de seus acionistas em seus paraísos.

Até antes do golpista Temer assumir a presidência, após o golpe de 2016 contra Dilma, parte do “lucro” da Petrobras era direcionado, investido, nas questões sociais e culturais, entre outras ações. Outra parte, investida em pesquisa na busca de uma melhor ação e produtividade na questão da extração, refino e distribuição do petróleo (pré sal), ainda outra no desenvolvimento de novas formas de energia renováveis e, claro, uma distribuição de seu lucro entre seus funcionários (PL) e acionistas.

Aqui em Maricá, por exemplo, com a construção do COMPERJ (obra paralisada pelas ações criminosas do Moro, Dallagnol e suas trupes, com apoio da mesma mídia), foi uma das cidades beneficiadas por parte deste lucro, direcionado como contrapartidas. Um dos exemplos foram as ações de urbanismo no bairro de Itaipuaçu, outro exemplo foi a possibilidade de reflorestamento das matas ciliares dos rios que cortam o Município, com alguns milhares de mudas nativas, que seriam plantadas pela Petrobras ao logo das margens destes rios, sem quaisquer custos para os proprietários das terras cortadas por estes rios. O emissário e a rede de coleta de esgoto, que também faziam parte das contrapartidas. Tudo paralisado por conta dos crimes da Lava Jato. E para aqueles municípios impactados diretamente pela extração do petróleo, os “royalties”. Ações consideradas nefastas para aqueles que só se preocupam com seus umbigos, os idiotas.

Pior do que se posicionarem despreocupadamente com a fome, desemprego e a desestruturação da infraestrutura do Brasil, é ainda “ameaçar” o governo com a queda da popularidade de seu presidente, Lula. Queda esta que sabemos poder ser manipulada, pois os mesmos, possuem uma larga experiencia na manipulação da informação, consequência da total desregulamentação das mídias e redes sociais. Preferem o vale tudo, pois se beneficiam politicamente e, especialmente, financeiramente, o cerne da questão.

O que realmente estão querendo passar ao Governo, com este tipo de editorial? Um aviso explícito, de que podem contribuir com mais um golpe contra a soberania e o povo brasileiro?


Há braços,
Sérgio Mesquita

 

Transformar em imperdoável o que hoje é aceitável.

Délcio Teobaldo

 

Gruvi Quântico

Forfun

 

Um mergulho no céu estrelado
Banho frio mantém relaxado
Olha só o relevo, que montanha linda!
Limonada gelada no almoço
Mil beijos com amor no pescoço
Quando se manifesta a beleza dessa vida

Embriagada no egoísmo que lhe embaça a visão
A humanidade enxerga a vida como competição
O concreto toma conta do que era verde
Desequilíbrio, miséria, fome e sede
Essa lógica corrói os seres humanos
Fode o planeta e seus recursos naturais
Ignora o fato da existência de outros planos
E nos afasta de avanços espirituais

Luz, preencha todo o meu ser
E mostre o que podemos ver
Além do que é material, se encontra a alegria
Flui, em tudo uma força maior
Que cria e muda pra melhor
Que só quer ver você dançar
Em sintonia

Criançada na rua brincando
Seu quadril segue um mantra dançando
O barulho da chuva que te lava a alma
Um sorriso, um brinde, um abraço
Gratidão, peito aberto no espaço
Quando a mãe natureza te devolve à calma

Neoliberalismo, monocultura, padronização
O aquecimento global já não é ficção
Movidos pelo lucro, a vaidade e o poder
Homens mortos pelo ego antes de nascer
Na nova era chega à Terra a nova concepção
Respiro fundo, fecho os olhos, de pé permaneço
Abro ao cosmos as janelas do meu coração
Entrego, confio, aceito e agradeço

Luz, preencha todo o meu ser
E mostre o que podemos ver
Além do que é material, se encontra a alegria
Fé! Ô Jah, eu vou seguir com Fé!
Fluindo na força maior
Que cria e muda pra melhor
Em sintonia

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Uma nova classe de pessoas deve surgir até 2050: a dos inúteis

 

“Uma nova classe de pessoas deve surgir até 2050: a dos inúteis”

Yuval Noah Harari

 

“São pessoas que não serão apenas desempregadas, mas que não serão empregáveis”, diz o historiador.

Por A Soma de Todos Afetos -

 

Especialistas e historiadores como Yuval Noah Harari há muito vêm prevendo que as máquinas tornariam os trabalhadores redundantes. Esse momento já pode estar aqui. Mas o que isso traz de ruim?

 

Em artigo publicado no The Guardian, intitulado O Significado da Vida em um Mundo sem Trabalho, o escritor comenta sobre uma nova classe de pessoas que deve surgir até 2050: a dos inúteis. “São pessoas que não serão apenas desempregadas, mas que não serão empregáveis”, diz o historiador.

 

“A questão mais importante na economia do século 21 pode muito bem ser: o que devemos fazer com todas as pessoas supérfluas, uma vez que temos algoritmos não-conscientes altamente inteligentes que podem fazer quase tudo melhor que os humanos?”

 

“A maioria das crianças que atualmente aprendem na escola provavelmente será irrelevante quando chegar aos 40 anos.”

 

De acordo com Harari, esse grupo poderá acabar sendo alimentado por um sistema de renda básica universal. A grande questão então será como manter esses indivíduos satisfeitos e ocupados. “As pessoas devem se envolver em atividades com algum propósito. Caso contrário, irão enlouquecer. Afinal, o que a classe inútil irá fazer o dia todo?”.

 

O professor sugere que os games de realidade virtual poderão ser uma das soluções e faz um paralelo com costumes antigos, que, segundo ele, teve propósito semelhante:

 

“Na verdade, essa é uma solução muito antiga. Por centenas de anos, bilhões de humanos encontraram significados em jogos de realidade virtual. No passado, chamávamos esses jogos de ‘religiões’”

 

Abaixo leia o artigo

O significado da vida em um mundo sem trabalho
Por: Yuval Noah Harari

A maioria dos empregos que existem hoje pode desaparecer dentro de décadas. À medida que a inteligência artificial supera os seres humanos em tarefas cada vez mais, ela substituirá humanos em mais e mais trabalhos. Muitas novas profissões provavelmente aparecerão: designers do mundo virtual, por exemplo. Mas essas profissões provavelmente exigirão mais criatividade e flexibilidade, e não está claro se os motoristas de táxi ou agentes de seguros desempregados de 40 anos poderão se reinventar como designers do mundo virtual (tente imaginar um mundo virtual criado por um agente de seguros!?). E mesmo que o ex-agente de seguros de alguma forma faça a transição para um designer de mundo virtual, o ritmo do progresso é tal que, dentro de mais uma década, ele pode ter que se reinventar novamente.

O problema crucial não é criar novos empregos. O problema crucial é a criação de novos empregos que os humanos apresentam melhor desempenho do que os algoritmos.

 

Consequentemente, até 2050, uma nova classe de pessoas poderá surgir – a classe desocupada. Pessoas que não estão apenas desempregadas, mas desempregáveis. A mesma tecnologia que torna os seres humanos inúteis também pode tornar viável alimentar e apoiar as massas desempregadas através de algum esquema de renda básica universal. O problema real será, então, manter as massas ocupadas e o conteúdo. As pessoas devem se envolver em atividades propositadas, ou ficam loucas. Então, o que a classe desocupada irá fazer o dia todo?

 

Uma resposta pode ser jogos de computador. Pessoas economicamente redundantes podem gastar quantidades crescentes de tempo dentro dos mundos da realidade virtual 3D, o que lhes proporcionaria muito mais emoção e engajamento emocional do que o “mundo real” externo. Isso, de fato, é uma solução muito antiga. Por milhares de anos, bilhões de pessoas encontraram significado em jogar jogos de realidade virtual. No passado, chamamos essas “religiões” de jogos de realidade virtual.

 

O que é uma religião, se não um grande jogo de realidade virtual desempenhado por milhões de pessoas juntas? Religiões como o Islã e o Cristianismo inventam leis imaginárias, como “não comem carne de porco”, “repita as mesmas preces um número determinado de vezes por dia”, “não faça sexo com alguém do seu próprio gênero” e assim por diante. Essas leis existem apenas na imaginação humana. Nenhuma lei natural exige a repetição de fórmulas mágicas, e nenhuma lei natural proíbe a homossexualidade ou a ingestão de porco. Muçulmanos e cristãos atravessam a vida tentando ganhar pontos em seu jogo de realidade virtual favorito. Se você reza todos os dias, você obtém pontos. Se você esqueceu de orar, você perde pontos. Se, no final da sua vida, você ganhar pontos suficientes, depois de morrer, você vai ao próximo nível do jogo (também conhecido como o paraíso).

 

Como as religiões nos mostram, a realidade virtual não precisa ser encerrada dentro de uma caixa isolada. Em vez disso, ele pode se sobrepor à realidade física. No passado, isso foi feito com a imaginação humana e com livros sagrados, e no século 21 pode ser feito com smartphones.

 

Algum tempo atrás, fui com o meu sobrinho de seis anos, Matan, para caçar Pokémon. Enquanto caminhávamos pela rua, Matan continuava a olhar para o seu telefone inteligente, o que lhe permitia detectar Pokémon à nossa volta. Eu não vi nenhum Pokémon, porque não carregava um smartphone. Então vimos outras duas crianças na rua que estavam caçando o mesmo Pokémon, e quase começamos a lutar com eles. Parecia-me como a situação era semelhante ao conflito entre judeus e muçulmanos sobre a cidade sagrada de Jerusalém. Quando você olha a realidade objetiva de Jerusalém, tudo que você vê são pedras e edifícios. Não há santidade em qualquer lugar. Mas quando você olha através de smartbooks (como a Bíblia e o Alcorão), você vê lugares sagrados e anjos em todos os lugares.

 

A ideia de encontrar um significado na vida ao jogar jogos de realidade virtual é, evidentemente, comum não apenas às religiões, mas também às ideologias seculares e estilos de vida. O consumo também é um jogo de realidade virtual. Você ganha pontos adquirindo carros novos, comprando marcas caras e tendo férias no exterior, e se você tiver mais pontos do que todos os outros, dizendo a si próprio que ganhou o jogo.

 

Você pode contrariar dizendo que as pessoas realmente gostam de seus carros e férias. Isso certamente é verdade. Mas os religiosos realmente gostam de orar e realizar cerimônias, e meu sobrinho realmente gosta de caçar Pokémon. No final, a ação real sempre ocorre dentro do cérebro humano. Não importa se os neurônios são estimulados observando pixels em uma tela de computador, olhando para fora das janelas de um resort do Caribe ou vendo o céu nos olhos da mente? Em todos os casos, o significado que atribuímos ao que vemos é gerado pelas nossas próprias mentes. Não é realmente “lá fora”. Para o melhor de nosso conhecimento científico, a vida humana não tem significado. O significado da vida é sempre uma história de ficção criada por nós humanos.

 

Em seu ensaio inovador, Deep Play: Notas sobre a Briga de Galos em Bali (1973), o antropólogo Clifford Geertz descreve como na ilha de Bali, as pessoas passaram muito tempo e dinheiro apostando em brigas de galos. As apostas e as lutas envolveram rituais elaborados, e os resultados tiveram um impacto substancial na posição social, econômica e política de jogadores e espectadores.

 

As brigas de galos eram tão importantes para os balineses que, quando o governo indonésio declarou a prática ilegal, as pessoas ignoraram a lei e se arriscavam a prisão e multas pesadas. Para os balineses, as brigas eram “jogo profundo” – um jogo confeccionado que é investido com tanto significado que se torna realidade. Um antropólogo balines poderia, sem dúvida, ter escrito ensaios semelhantes sobre futebol na Argentina, Brasil ou no judaísmo em Israel.

 

De fato, uma seção particularmente interessante da sociedade israelense fornece um laboratório exclusivo de como viver uma vida satisfeita em um mundo pós-trabalho. Em Israel, um percentual significativo de homens judeus ultraortodoxos nunca trabalhou. Eles passam toda a vida estudando escrituras sagradas e realizando rituais de religião. Eles e suas famílias não morrem de fome, em parte porque as esposas muitas vezes trabalham, e em parte porque o governo lhes fornece generosos subsídios. Embora geralmente vivam na pobreza, o apoio do governo significa que eles nunca faltam para as necessidades básicas da vida.

 

Isso é uma renda básica universal em ação. Embora sejam pobres e nunca trabalhem, em pesquisa após pesquisa, esses homens judeus ultraortodoxos relatam níveis mais elevados de satisfação com a vida do que qualquer outra parte da sociedade israelense. Nos levantamentos globais sobre a satisfação da vida, Israel está quase sempre no topo, graças em parte ao contributo destes pensadores profundos e desempregados.

 

Você não precisa ir a Israel para ver o mundo do pós-trabalho. Se você tem em casa um filho adolescente que gosta de jogos de computador, você pode realizar sua própria experiência. Fornecer-lhe um subsídio mínimo de Coca-Cola e pizza e, em seguida, remover todas as demandas de trabalho e toda a supervisão dos pais. O resultado provável é que ele permanecerá em seu quarto por dias, colado na tela. Ele não vai fazer qualquer lição de casa ou tarefas domésticas, vai ignorar a escola, ignorar as refeições e até mesmo ignorar os chuveiros e dormir. No entanto, é improvável que ele sofra de tédio ou uma sensação de sem propósito. Pelo menos não no curto prazo.

 

Portanto, as realidades virtuais provavelmente serão fundamentais para fornecer significado à classe desocupada do mundo pós-trabalho. Talvez essas realidades virtuais sejam geradas dentro dos computadores. Talvez sejam gerados fora dos computadores, sob a forma de novas religiões e ideologias. Talvez seja uma combinação dos dois. As possibilidades são infinitas, e ninguém sabe com certeza que tipos de peças profundas nos envolverão em 2050.

 

Em qualquer caso, o fim do trabalho não significará necessariamente o fim do significado, porque o significado é gerado pela imaginação em vez de pelo trabalho. O trabalho é essencial apenas para o significado de acordo com algumas ideologias e estilos de vida. Os escravos ingleses do século XVIII, os judeus ultraortodoxos atuais e as crianças em todas as culturas e eras encontraram muito interesse e significado na vida, mesmo sem trabalhar. As pessoas em 2050 provavelmente poderão jogar jogos mais profundos e construir mundos virtuais mais complexos do que em qualquer momento anterior da história.

 

E quanto à verdade? E a realidade? Realmente queremos viver em um mundo no qual bilhões de pessoas estão imersas em fantasias, buscando objetivos criativos e obedecendo leis imaginárias? Bem, goste ou não, esse é o mundo em que vivemos há milhares de anos.

 

Yuval Noah Harari é professor na Universidade Hebraica de Jerusalém e é autor de ‘Sapiens: Uma Breve História da Humanidade’ e ‘Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã’

domingo, 12 de fevereiro de 2023

O QUE É SER UMA LIVRARIA? Ambiente de Troca ou de Negócios?

 Desde que comecei a ler notícias de fechamentos de livrarias, algumas tradicionais, com a Da Vinci, no Centro da cidade do Rio de Janeiro, e outras pelos bairros, me senti um tanto de “luto”. Parte por conta da Cultura e parte pela afinidade e o prazer de frequentar livrarias. Meu primeiro emprego com Carteira, foi em uma livraria de Niterói, que falarei mais à frente, pois merece um carinho especial.

 Primeiro aos fatos. Ser uma livraria está muito longe de ser um espaço para comercializar livros. Livraria com “L” maiúsculo, não é ser algo como um supermercado de livros e, atualmente, livros e adjacências (papelaria, tecnologia,...). Livraria é aquele espaço, um tanto quanto desorganizado, mas com organização. Um lugar que quando você entra, independente de ser frequentador, você identifica a lógica da arrumação e pode encontrar o livro sem ajuda. E melhor, intuitivamente, você se obriga a passear pelo ambiente, matando a curiosidade até chegar no livro desejado. No meu caso, principalmente quando entro a “passeio”, quase sempre sou “chamado” por um livro: tô aqui! Invariavelmente saio com ele em companhia do que queria levar, quando o caso.

 Fato é que, livrarias como a Saraiva e Cultura, entre outras, são espaços impessoais, frios e, com pouquíssimas exceções, com pessoal que não entende, não gosta e não lê livros, te atendendo. Mas existem resistências.

 No meu caso, na segunda metade da década de setenta (Séc. XX), minha mãe me bota para trabalhar na Livraria Pasárgada, em Niterói. Por três anos consecutivos trabalhei nos meses de Dezembro e Janeiro e no quarto de Dezembro  a Junho do ano seguinte, quando fui estudar na UCP em Petrópolis.

 Livraria de espírito livre, onde sua atmosfera justificava os versos do Bandeira em sua poesia, “Vou-me embora para Pasárgada”: (...) Vou-me embora pra Pasárgada/ Aqui eu não sou feliz / Lá a existência é uma aventura / De tal modo inconsequente / Que Joana a Louca de Espanha / Rainha e falsa demente / Vem a ser contraparente / Da nora que nunca tive (...).

 Anibal Bragança, português de olhos e pele clara, fala mansa, depois que encerrou a Livraria Diálogo, abriu a Passárgada na esquina da então Cel. Moreira César, hoje com justiça, Paulo Gustavo e a rua Lopes Trovão em Icaraí. Uma portinha que abrigava a livraria em seu primeiro piso, e o Clube de Leitura, da qual minha mãe era assídua, no segundo piso. Um sebo que você podia pegar emprestado o livro e depois devolver.

 Foi neste espaço que iniciei a minha formação política. A Pasárgada era um ponto de encontro da esquerda niteroiense, onde em plena ditatura você ao passar pela calçada poderia ser surpreendido com discursos e falas contra a mesma. Foi nesse ambiente que comecei minha vida política e profissional. Na época, o gerente era o Abel, comunista ferrenho, de carteirinha.

 Em meu primeiro dia, ainda tímido, vou atender um professor de filosofia do Fundão. Ao me aproximar, ele de imediato olha para o Aníbal e fala: “o garoto é novo né?” Aníbal me chama e fala: “ele se atende”. Depois de escolher os livros, tenho meu aprendizado que trago até hoje. Todo solícito, enquanto ele pagava a compra, falo que iria embrulhar seus livros. Aníbal ri, e o professor fala: “garoto, livro embrulhado não passa de um embrulho”. Abraça os livros e diz até a próxima. A frase pegou tão fundo em mim, que nunca mais deixei embrulhar os livros que comprava, para presente ou não. E quando alguém pedia par embrulhar mandava o dito e aguardava a resposta. Ainda na Pasárguinha, antes da mudança para a esquina da Tavares Macedo com a Lopes, neste mesmo primeiro dia, deu-se o início de meu aprendizado político. Olho um livro de título “A Rede do Terror” da Clarie Sterling. Comecei a folhear e Aníbal coloca uma das mãos em meu ombro e me fala que era um livro editado pela Embaixada Americana para fazer a nossa cabeça. Com a outra me apresenta “Veias Abertas da América Latina”, do Eduardo Galeano, e termina dizendo que eu aproveitaria melhor o tempo de leitura. Bom, ainda Folheie, movido pela curiosidade, as primeiras páginas do Rede onde encontro que a KGB foi que deu os golpes militares na América Latina. Abracei o Galeano e de lá para cá... deu no que deu, um cara consciente e pobre...rsrsrs

 Diferente das livrarias de hoje, que tem cafés e etc., a Pasárgada da Tavares, na década de 70, tinha um salão de chá, que também servia cerveja e vinho, e outro ambiente que servia para show, teatro e palestras. Assisti o lançamento do disco do Xangai, “Que qui tu tem canário?”, na livraria.

 Não sei nas demais, pois tinham outras livrarias em Niterói de responsabilidades, sem teatro e chá, mas livrarias, como o Antônio e a sua Gutemberg, onde tive o prazer de ser convidado por ele quando a Pasárgada fechou, porém me encontrava em Petrópolis estudando Engenharia, ou tentando pelo menos... Aníbal nos vendia os livros que queríamos pelo preço de custo, o que facilitava muito a nossa vida. Minha biblioteca começou a ser municiada lá. O problema é quando chegava o fim do mês e o acerto de contas, parte de meu salário ficava no Salão de Chá e parte na livraria. Teve um mês onde Aníbal vem me pagar e apresenta um “vale” para que eu assine. Aquele mês havia estourado a banca. Mas, mesmo pobre, tive a rara condição de só estudar naqueles tempos, o trabalho era renda extra.

 Lendo as matérias sobre o fechamento da Cultura, onde um ex-funcionário conta um de seus “causos”, ocorrido em Brasília, mais saudades tenho das livrarias de verdade, e da Pasárgada. Ele conta que um senhor, mal-vestido, o chama e humildemente entrega um papel, com escrita infantil e informa que não sabia ler, mas estava comprando aquele livro para filha, que usaria na escola. O vendedor se afasta e ao voltar não encontra o senhor. Procura e acaba sendo informado que o segurança da loja o havia retirado, pois estava incomodando os fregueses por estar mal-vestido. Como bom cidadão que também gosta de livraria, procurou o senhor na rua e no shopping, mesmo que só para devolver o papel com o nome do livro. Sabia que ele chegaria em casa humilhado e sem a compra pois ficou sem o papel. Este tipo de ambiente, não serve como um espaço para difusão da Cultura. Não é o ambiente de Livraria.

 Aníbal Bragança, depois foi Secretário de Cultura de Niterói, se formou em História pela UFF e foi Editor Chefe, se não me engano, da Editora da UFF. Infelizmente faleceu recentemente e, não pude me despedir como ele merecia, daí estas linhas. Um agradecimento ao amigo que me acolheu e me incentivou politicamente, sem nunca me dizer, o caminho é este. Pelo contrário, as bifurcações são essas a escolha deve ser sua. Obrigado a Pasárgada e demais Livrarias que resistem.

 Há Braços


 Sérgio Mesquita
Assessor na Secretaria de Educação de Maricá

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Para Devorar o Capitalismo Canibal

 Em livro recém-lançado, Nancy Fraser descreve um sistema que se volta contra as próprias estruturas que o amparavam – família e Estado, por exemplo. Mas ela lembra: é tolo comemorar a crise; só novas relações evitarão colapso civilizatório. Por Nancy Fraser em entrevista a Indigo Olivier para The New Republic. | Tradução: Maurício Ayer. Publicado em Outras Palavras.

Pouco depois dos Estados Unidos atingirem a marca de 1 milhão de mortes por covid-19, a secretária de imprensa de Joe Biden, Karine Jean-Pierre, fez uma observação: “Economicamente, estamos mais fortes do que jamais estivemos na história”. Do ponto de vista dos negócios, ela não estava errada. Nos últimos dois anos, os bilionários mais do que dobraram sua riqueza. E a economia cresceu mais rápido do que em décadas. 

Ao mesmo tempo, as taxas de mortalidade aumentaram entre os trabalhadores negros de renda desproporcionalmente baixa, à medida que as conversas sobre “quão essencial é o trabalho” que eles realizam arrefeciam. A maioria dos estadunidenses atualmente acredita que nossa democracia está em “crise” e um número crescente de pessoas não consegue arcar com necessidades básicas como comida e aluguel, pois os salários não acompanham a inflação. Em seu novo livro, Cannibal Capitalism: How Our System Is Devouring Democracy, Care, and the Planet – and What We Can Do About It (Capitalismo Canibal: como nosso sistema está devorando a democracia, o cuidado e o planeta – e o que podemos fazer quanto a isso, em tradução livre), a pensadora feminista e marxista Nancy Fraser argumenta que o apetite insaciável do capital por lucro atingiu o auge em 2020, quando décadas de crises política, social e ambiental convergiram.

Conversei recentemente com Fraser sobre essas crises e as condições que nos conduziram até elas. Durante essa entrevista, aqui editada para maior clareza e brevidade, falamos sobre o trabalho das mulheres, a perda da fé nas instituições, por que o capitalismo deve ser entendido como uma ordem social e o que pode vir nos próximos tempos.

Indigo Olivier – Seu livro se chama Capitalismo canibal. De onde vem esse termo?

Nancy Fraser – O canibalismo é uma metáfora, com uma história um tanto problemática. Uma longa história racista, na verdade. O termo é usado pelos colonialistas europeus para pessoas que eles subjugaram e conquistaram. É um termo abusivo, quase. Estou tentando dar a volta por cima e dizer que, na verdade, quem se dedica a acumular capital é que é o verdadeiro canibal.

No sistema sobre o qual você escreve, o que está sendo canibalizado? 

O capitalismo não é apenas um sistema econômico, no qual os proprietários exploram os trabalhadores nas fábricas, tudo restrito à economia. Também diz respeito à relação entre o que pensamos como o âmbito da economia e todo um conjunto de outras instituições e arenas sociais que, nessa sociedade, são entendidas como externas à economia, mas que são os suportes necessários para a economia. Então são as famílias que alimentam, cultivam, socializam e, em geral, reproduzem as pessoas para a economia.

Os sistemas políticos são outro suporte necessário: a infraestrutura, os bens públicos, os sistemas jurídicos, as forças repressivas. Você não tem acumulação de capital sem tudo isso em segundo plano, sustentando-a e permitindo que ela aconteça.

No entanto, os próprios processos econômicos que dependem dessas condições de fundo também são programados para destruí-las. Eles são estruturados para canibalizá-los, para ajudarem a si mesmos em uma orgia compulsiva: pegar o que quiser sem nenhuma responsabilidade de reabastecer ou reparar o que pegaram, o que destruíram.

Você escreveu particularmente sobre como estamos enfrentando uma crise de “reprodução social” – que as interações que “produzem e sustentam os seres humanos e os laços sociais” ocorrem sob uma tensão insustentável. Onde vemos essa crise acontecendo?

Em alguns casos, falamos de pessoas que não conseguem gerar, por meio de trabalho remunerado, renda suficiente para sustentar uma família nas condições atuais e que acabam buscando trabalho informal, correndo de um emprego para outro, vivendo de vários pequenos trabalhos, e não têm condições de efetivamente realizar o trabalho de cuidado nas horas que precisariam estar alocadas para isso, sobretudo quando têm filhos para cuidar, familiares doentes ou deficientes, ou pais idosos. Ou mesmo para cultivar suas amizades e redes de sociabilidade.

Isso é, em parte, uma questão de crise de tempo. Um fator importante é que vivemos em um tipo de capitalismo – uma forma historicamente específica de capitalismo –, essa coisa chamada neoliberalismo, capitalismo financeirizado, capitalismo globalizado. O regime atual, ao contrário das formas anteriores, tem se mostrado extremamente ávido pelo trabalho assalariado das mulheres, inclusive das mulheres com filhos pequenos. Elas são massivamente recrutadas ou até, pode-se dizer, empurradas para integrar a força de trabalho. Em alguns casos, felizmente, de modo voluntário. Em outros, elas esperneiam e berram, tentam resistir. Essas dinâmicas que aumentaram massivamente a participação feminina na força de trabalho em todo o mundo coincidem exatamente com outras pressões sobre os Estados em todos os níveis – nacional, estadual, local – para retirar investimentos na infraestrutura de assistência pública. Agora se atingiu realmente uma tempestade perfeita. Estão devorando o tempo e a energia daquelas que são as principais responsáveis ​​pelo trabalho de cuidado, as mulheres, no preciso momento em que se removem ou diminuem os apoios públicos na forma de serviços de bem-estar social.

A isso, adiciona-se o endividamento. Hipotecas, cartões de crédito estourados, empréstimos para carros e assim por diante. Mais e mais da renda que poderia ser dedicada à construção de uma espécie de infraestrutura de atendimento está sendo desviada para os bancos e a indústria de crédito. Essa é outra forma de canibalização. Nossas energias – nossas capacidades precisamente para o trabalho de cuidado que é essencial para a continuidade da sociedade civilizada – estão sendo canibalizadas.

Parte da reprodução social é a produção de significado compartilhado dentro de grupos, comunidades e sociedades. Como você vê a ausência de significado compartilhado no cenário político dos EUA?

Não quero criar uma imagem determinista, mas todo sistema social depende do que Antonio Gramsci chama de “hegemonia”: algum tipo de senso comum compartilhado. Não é perfeitamente compartilhado. Há muita dissidência, mas a dissidência permanece marginal. Não se acumula. Muitas coisas podem ser tratadas como coisas que são moralmente estabelecidas, de modo que não precisam ser discutidas a cada vez. As coisas discutíveis são debatidas no contexto de um semi-acordo. Essa é a situação normal. Toda ordem social, especialmente quando baseada em dominação, injustiça e opressão, funciona mais ou menos por causa desse senso comum compartilhado.

Quando você tem uma crise social real do tipo que temos agora, na maioria das vezes é apenas uma questão de tempo até que o bom senso comece a se desmantelar e se romper. Esse enquadramento compartilhado, essa reserva compartilhada de acordos subjacentes sobre a qual pode-se processar o dissenso, isso tende a se desfazer. As pessoas começam a procurar soluções fora da caixa. Elas perdem a fé nas elites estabelecidas, nos partidos políticos, nas narrativas e nos enquadramentos. Começam a procurar outra coisa. Desertam. Isso é uma crise de hegemonia, que é sempre uma coisa ambígua, porque, por um lado, abre-se a possibilidade de alternativas potencialmente emancipatórias – e é por isso que estamos vendo hoje tantos desenvolvimentos interessantes e promissores na esquerda, como a ascensão da revista Jacobin e todo um ecossistema de mídia. O crescimento dos [socialistas democráticos nos EUA], o apoio que [Bernie] Sanders obteve em suas duas campanhas presidenciais. A gente não esperaria isso se o controle hegemônico estivesse mais ou menos intacto.

Esse é o lado potencialmente positivo. Mas também existe “MAGA” [lema de Donald Trump: “Make America great again”, “Devolva aos EUA sua grandeza” (em tradução livre)], trumpismo, movimentos antivacina, toda essa meleca de xenofobia. Parte dessa polarização se deve ao surgimento de narrativas concorrentes, que lutam entre si pelo que será a nova hegemonia. O que substituirá o senso comum neoliberal de que tudo o que precisamos são mercados mais livres e uma menor interferência do Estado? São tentativas de construir alternativas, e o resultado é uma cena selvagem. A esfera pública, o discurso público – se tornam selvagens, e isso acontece sempre que há uma crise de hegemonia.

Por quanto tempo você acha que essa situação pode continuar? Os socialistas há muito afirmam que o capitalismo está “cavando sua própria cova”, mas, como você aponta no livro, todas as vezes que vivemos o que parecia ser uma crise terminal, o capitalismo foi capaz de se reinventar.

A mudança climática parece possivelmente interpor um desafio, porque parece representar um limite objetivo. Se deixarmos a temperatura planetária subir mais alguns graus, tudo muda. A vida torna-se literalmente impossível para um número cada vez maior de populações. É muito difícil tratar isso com sutileza.

Por outro lado, as pessoas que vivem esse tipo de crise generalizada realmente não têm como saber. Não podemos saber ao certo se o resultado será a destruição da vida como a conhecemos, uma nova forma de capitalismo, seja ela melhor ou pior, uma nova forma de pós-capitalismo. E não sabemos que tipo de truque os partidários do capital têm na manga à sua disposição.

Poderíamos ter uma abordagem quase agnóstica. Poderíamos dizer que precisamos reduzir as emissões de gases de efeito estufa em X por cento até o ano X. Poderíamos dizer que temos de fazê-lo de maneira a não jogar injustamente todo o peso e os custos nas costas de algumas populações apenas, para tornar as coisas mais fáceis para outras.

E podemos dizer, para todo mundo que desejar isso, vamos trabalhar juntos. Agora, vamos ver se isso pode ser feito. E se, quando o fizermos – se isso chegar a acontecer –, a ordem social que emergir ainda merecerá ser chamada de capitalista ou já será uma outra coisa. Quando algo deixa de ser capitalista? Quando você tributa os lucros em 95%? Ainda é capitalismo quando você introduz formas muito mais robustas e pesadas de planejamento social, mas mantendo alguns direitos de propriedade privada? Isso ainda é capitalismo?