sábado, 8 de outubro de 2022

31 MILHÕES DE VOTOS NO LIMBO

 

Do Brexit a Bolsonaro – para não esquecermos.

 

Antes de concentrar esforços em uma competição, se esforce na avaliação dos riscos e do “prêmio”. Se certifique se valerá a pena o investimento de energia antes de desperdiçá-la em maior quantidade depois...

Lívia Pinheiro 

Confirmado o segundo turno das eleições, não vejo, como tenho ouvido, que os Institutos de Pesquisa tenham errado, mas... também não sou especialista e estudioso sobre o assunto. No “frigir dos ovos”, margem de erro para lá ou para cá... os números não foram discrepantes. Tínhamos, para variar, aquela força que nos move sempre, a esperança. Mas esperançamos, como nos ensinou Paulo Freire ou esperamos?

Em Maricá, no 4º mandato de governo do PT, sofremos a 2ª derrota consecutiva para o Bolsonaro. E o que vi e ouvi de justificativas durante as eleições, não me convenceu da “não” campanha para o Lula, até a metade processo eleitoral. O PT, por inteiro, minimizou o Lula a partir da visão de quem puxava voto em Maricá era o Prefeito Fabiano Horta, com justiça, bem avaliado pela população. O convencimento foi geral. Por algum motivo, na segunda metade da campanha, Lula e o Freixo, este ainda que timidamente, estiveram presentes nas falas e bandeiras. Ouvia como justificativa, que nas pesquisas, o Lula ganhava em Maricá.

Mas veio a “não surpresa”, a virada que inviabiliza a vitória no primeiro turno, que nos coloca mais incerteza ainda na sanidade de muitos brasileiros. Parece que esquecemos o que aconteceu no mundo e no Brasil, com as eleições do Dória em São Paulo e o Coiso no Brasil, ali mesmo na esquina, em 2018. Os Fakes e a inoperância das Instituições que deveriam garantir a transparência e as Leis.

Neste segundo turno, vejo a repetição do que foi 2018, em relação ao PT. Esquecemos a existências das Cambridge Analytica (devem existir outras empresas minerando dados) e o trabalho executado nos Brexit na Inglaterra, na eleição do Trump nos EUA e do Dória e do Bolsonaro no Brasil.

Falo que esquecemos porque estamos discutindo a transferência dos votos “antipetistas” que não foram para o Boso no 1º turno, da dita 3º Via, que são ínfimos se comparado aos 31 milhões de eleitores que se abstiveram de votar, fora os votos nulos e brancos (na casa dos 5,5 milhões). Continuamos trabalhando com o universo de votantes válidos, como se as abstenções fossem mantidas no mesmo patamar.

A Cambridge trabalhou no universo de 3 milhões de votantes que declaram que iriam se abster de votar no plebiscito do Brexit. Dirigiu suas Fakes para este universo e venceram o plebiscito. Nos EUA, como sabiam que os negros não votariam no Trump, dirigiram suas Fakes com os vacilos da Hilary sobre a questão do racismo. Muitos negros se abstiveram porque foram convencidos que não havia diferença entre Trump e Hilary, farinhas do mesmo saco – Trump vence. No Brasil, para os que haviam esquecidos e foram lembrados, em especial no último debate: as mamadeiras de pirocas e outras besteiras reapareceram, além da novidade de um padre misterioso, e estão aí para nos atormentar.

A sorte está lançada.


Sérgio Mesquita
DM Maricá-PT

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

Que sociedade temos e que sociedade queremos...

Antonio Lopes Cordeiro (Toni)
Estatístico e Pesquisador em Gestão Social

Sinto muito orgulho de ter feito parte daquela turma de trabalhadores e trabalhadoras que desciam a Via Anchieta em São Bernardo do Campo, aos domingos de manhã, junto com o meu pai, rumo ao Estádio da Vila Euclides ou ao Paço Municipal, quando o poder militar tomou o Estádio e o Sindicato dos Metalúrgicos. Sinal de muitas lutas.

Desde aquela época para cá muitas coisas aconteceram. Foi criada a CUT e o Partido dos Trabalhadores. O PT governou o país por pelo menos treze anos, sofremos um golpe que derrubou a Presidenta Dilma e o Temer e o genocida atual deixaram o país em trevas.

A partir desse cenário, é utopia sonhar com uma sociedade igual para todos e todas? É possível isso num país capitalista, de condições desiguais, de pessoas de pensamentos e práticas tão diferentes, apenas com algumas reformas? O que fazer para avançarmos nas lutas? Afinal, que sociedade temos e que sociedade queremos?

Toda vez que tento responder perguntas como essas, me pego fazendo uma crítica profunda ao poder e principalmente de quem chega aos mandatos e governos e como se comportam. Num primeiro momento a lembrança que me vem à cabeça é a de Bakunin, pai do Anarquismo, que sugere que todo poder é corrupto por si só, porém como socialista, lutamos a vida toda por uma nova sociedade justa, fraterna e igual para todos e todas, embora não tenha resposta se cabe bolsonaristas nesse novo mundo.

Fico ainda mais inquieto quando ouço Mário Sergio Cortela dizer: “Que o poder foi feito para servir e que todo poder, que ao invés de servir se serve é um poder que não serve”. Ao ouvir isso, fico convencido de que se a gestão, nos partidos, nas instituições, nos mandatos, na sociedade e principalmente no Estado, como concepção ampla, não tiver a participação dos setores envolvidos, com o principal objetivo de enfrentar o processo de desigualdades políticas, sociais e econômicas e todo tipo de violência, buscando soluções viáveis, com ampla participação, gestarão para si, apenas para resolver seus problemas pessoais ou de seus grupos e nada contribuirão para uma nova sociedade.

A utopia de mudar essa sociedade de desiguais, de injustiças e de extremas violências, acaba se tornando uma missão de vida para quem dela se nutre e vai preenchendo nosso imaginário e nos fazendo mirar no futuro, como a razão das nossas existências.

Se for verdade que viemos ao mundo para uma missão como a de servir, também será verdade que se não a identificamos em tempo, ou viemos ao mundo a passeio ou teremos que voltar numa segunda chance, para quem acredita, para fazer o que deveríamos ter feito e não fizemos quando podíamos ou tínhamos as oportunidades.

Como escreveu Paulo Freire no Livro “Essa Escola Chamada Vida”: “Sonho com uma sociedade reinventando-se de baixo para cima, onde as massas populares tenham, na verdade, o direito de ter voz e não apenas o dever de escutar...uma sociedade, onde a exigência de justiça não signifique nenhuma limitação da liberdade e a plenitude da liberdade não signifique nenhuma restrição do dever de justiça”.

Dizem os sábios que quando desejamos muito que algo aconteça e ela se encontra muito distante de acontecer, precisamos focar nas utopias e mirar no horizonte ao pôr do sol para buscarmos sinais e conversarmos com nosso imaginário na esperança de sonharmos ao dormir, como se estivéssemos em pleno estado do desejo. 

Enquanto isso os poetas sugerem que a cada “não” formemos um verso, para quando o “sim” chegar, a poesia esteja pronta, ou quem sabe ainda uma canção que fale de liberdade, de justiça e de amor pela vida, no sentido de enfrentarmos o momento que vivemos, onde o desamor e uma crise de identidade imperam e nossos sonhos sejam a motivação necessária para continuarmos em luta até que a vitória seja plena.

O PROTESTANTISMO BRASILEIRO E A FACE DO ANTICRISTO

Nilson da Silva Júnior 

Minha família é protestante há quase 100 anos. Meu avô aderiu à igreja evangélica nos idos de 40 no norte pioneiro do Paraná. Depois disso estivemos envolvidos em vários setores dela culminando em minha decisão de tornar-me teólogo e pastor. Passei a infância frequentando Escolas Dominicais, ouvindo hinos tradicionais. Na adolescência participei de grupos musicais e do quarteto onde conheci minha esposa. Fui missionário no Centro Oeste brasileiro, Pastor em Igrejas do Estado de São Paulo e Pastor numa Universidade Confessional por quase 9 anos. Como muitos, orgulhei-me de protestantes como Martin Luter king, Nelson Mandela, Rubem Alves. Senti a alegria de ser contado como quem pertencia a uma gente culta e lúcida. Mas o tempo passou até que chegasse o Neopentecostalismo através da pregação de um evangelho que enaltecia a prosperidade financeira como sinal visível da bênção de Deus.

A partir disso conheci um lado rude e distorcido da crença que tanto admirei, o fundamentalismo, o exclusivismo, que somados a motivação de ganhar dinheiro geraram um povo arrogante e mau. Mas enquanto os exageros apenas rodeavam os muros do protestantismo tradicional era fácil prosseguir, até que eles se casaram com a política, numa união instável e imprópria de seu deus com o poder partidário na imagem de um messias tosco, rude e violento. Hoje, infelizmente, é o protestantismo histórico brasileiro que se aliou ao secularismo político frequentando palácios, negociando cargos, trocando direitos civis por barras de ouro, atuando como vassalo servil da falsa moral que se arvorou sobre as cores do nosso país. Os novos concílios eclesiásticos são na verdade encontros políticos que por um lado defendem os interesses de uns poucos líderes, por outro criam armadilhas capazes de expulsar de seu meio os que ainda “têm fome e sede de justiça”. As pregações estão recheadas de moral preconceituosa e insana. Os pastores andam armados defendendo a morte e a banição dos contrários. Prega-se o extermínio aos diferentes e o perigo iminente do comunismo que na mentalidade da nova “mensagem evangélica” ameaça igualar os crentes ricos com os pobres, crentes ou não. Os “crentes de bem” são uma mistura de preconceito e maldade, “sepulcros caiados”, lindos por fora, podres por dentro, a nova versão do jovem rico que ouviu de Cristo: “vai, vende tudo que tem e dá aos pobres” e, por isso saiu de perto, abandonou, preferindo a lonjura desse evangelho. 

Chegamos ao Apocalipse. As bestas vivem soltas por onde quer que andemos. Estão nas redes sociais, nos aplicativos de mensagens, no trabalho, nos púlpitos, mas principalmente nos noticiários. O Cristo chora sangue no Monte das Oliveiras junto de uns poucos que em pânico nem conseguem orar enquanto a “igreja” está nos palácio vendendo o cristianismo por trinta moedas de prata. “O povo está morrendo porque lhe falta o conhecimento”, o sentimento humano está em estado terminal e a instituição religiosa é agora mera organização a serviço de defender seus próprios interesses. Estão os protestantes brasileiros contemporâneos em discordância com a Igreja que servem? Não. Permanecem fiéis ao que seus pastores lhes dizem. São dissonantes, na verdade, do evangelho e do Cristo que aparentemente nada mais tem com a Igreja, deixado de lado por uma gente rompida com o favor divino e seus sinais, misericórdia, partilha, bondade, sabedoria. Um povo que desaprendeu amar, vivendo oposto à imagem do Cristo, de costas à vontade de Deus, enamorado pela face do anticristo.

Rev. Nilson da Silva Júnior.

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

ESTADO DE DIREITO NA DEMOCRACIA BRASILEIRA

 “Tornar imperdoável, o que hoje é aceitável”

Délcio Teobaldo

                As vésperas das eleições de 2022, após passarmos por mais de 31 eleições presidenciais, onde em algumas o vice presidente teve mais voto que o presidente eleito (até 1966 as eleições de presidente e vice eram separadas - João Goulart teve mais votos que o Juscelino Kubtischek e Jânio Quadros), e  destas, 23 foram diretas e 8 indiretas, além de uma extraordinária, em 1919[1]. Passamos por dois períodos ditatoriais (Vargas, 1934-1945; Golpe Civil Militar, 1964-1985). Foram nestes períodos que oficialmente, a população brasileira teve seus direitos civis e políticos casados, vivendo em um Estado de Exceção onde, segundo Agamben[2], “o Estado de Exceção apresenta-se como a forma legal daquilo que não pode ter forma legal”.

                No mundo ocidental, o Estado de Direito vem acompanhado da Democracia e suas eleições (diretas ou representativas). Quando há estremecimento no Estado de Direito, normalmente a Democracia e as eleições são ignoradas ou, na prática, podem se transformar em um evento puramente folclórico. Segundo o historiador Hobsbawm[3], em seu livro “Globalização, Democracia e Terrorismo”, no capítulo “As perspectivas da Democracia”, coloca “... A política, por conseguinte, continuará, como continuaremos a viver em um mundo populista, em que os governos têm que levar em conta ‘o povo’, e o povo não pode viver sem os governos, as eleições democráticas também continuarão. Hoje existe um reconhecimento praticamente universal de que elas dão legitimidade e proporcionam aos governos, paralelamente, um modo conveniente de consultar o ‘povo’ sem necessariamente assumir qualquer compromisso muito concreto” Essa conveniência, colocada pelo Hobsbawm, tem se perpetuada, em especial no mundo ocidental, em países como o Brasil, onde hoje o Estado de Direito, confunde-se com o Estado de Exceção ou, o “ilegal” ganha ares de “legal”.

               Desde a década de 70 (1970), com o surgimento do pensamento neoliberal e da globalização, onde o mundo das Leis, as Constituições Nacionais, a participação popular e o multipolar são aos poucos “apagados” da vida cotidiana das populações. Neoliberalismo definitivamente não combina com democracia ou soberania, seja a popular ou de uma nação”. Noam Chomsky[4] no livro “Terrorismo Ocidental, de Hiroshima à guerra de drones”, coloca que: “O mundo deles é monopolar. Não comparam ideias, ideais e ideologias diferentes. Só tem uma ideologia, que pode ser chamada de ‘fundamentalismo de mercado’, oferecido por sistemas parlamentares multipartidários ou monarquias constitucionais”. No livro “Quem manda no Mundo”, na página 72, Chomsky fala sobre a estratégia da desregulamentação bancária e financeira, o que vem a reforçar a ideia de que o neoliberalismo não combina com leis.  Também comenta sobre a estratégia das hoje conhecidas e difundidas “fake news”, quando escreve: “Consequentemente, a propaganda tem que procurar outros a quem culpar, como os trabalhadores do setor público, com seus gordos salários e exorbitantes aposentadorias: tudo fantasia, segundo o modelo do imaginário ‘reaganita’ de mães negras sendo levadas em limosines com motoristas indo buscar seus cheques de programas de assistência social, e outras invenções de mesmo estilo que nem sequer vale a pena mencionar. Todos nós temos que apertar os cintos – quer dizer, quase todos nós”.

 O falecido escritor português, José Saramago (1922 – 2010) trabalha na mesma linha de denúncias contra o sistema e suas mazelas. No livro “As Palavras de Saramago”, organizado pelo Fernando Aguilera encontramos ditos como: “Assistimos ao que chamo de morte do cidadão. O que temos em seu lugar, e cada vez mais, é o cliente. Hoje em dia, ninguém pergunta o que você pensa, mas sim que marca de carro, de roupa ou de gravata você usa e quanto ganha...”; “Na falsa democracia mundial, o cidadão está à deriva, sem a oportunidade de intervir politicamente e mudar o mundo. Atualmente somos seres impotentes diante de instituições democráticas das quais não conseguimos nem chegar perto”; “A democracia não tem existência e nem qualidade em si, depende do nível de participação dos cidadãos”; “A globalização econômica é um eufemismo para acobertar o sistema político que vem sendo imposto pelas grandes multinacionais: o capitalismo autoritário”. Poderíamos ficar páginas e páginas citando outros autores, e todos questionando na mesma linha. Vivemos em uma democracia? Sabemos que são quatro os pilares de sustentação do sistema de produção capitalista, são eles: des-Constituição, a des-Democratização, a Precificação dos bens públicos e o “Ecocídio” planetário. O sistema não sobrevive em um mundo “legal”, onde as leis não só existem, mas existem para serem cumpridas, em um mundo com plena participação do cidadão e, seu ambiente tratado de maneira sustentável e produtiva. Pior... o sistema também não sobrevive em seu mundo ideal, desregulamentado e explorado acima de seus limites. O sistema nunca superou suas inúmeras crises, pois sua superação significaria a sua negação, sua destruição, por isso sempre as contornou. Mas e o Brasil com isso?

 O Brasil historicamente, em todos os seus grandes momentos, passou por golpes ou acordos, como na sua Independência, na República, na recuperação de sua democracia, a Lei da Anistia e vários outros exemplos. Nos atendo as duas últimas décadas e início da terceira, podemos afirmar que vivemos em um Estado de Direito com pleno exercício democrático? Acredito que não...

 Podemos entender o ano de 2005, como o marco inicial de, nestes tempos mais atuais, uma nova reaproximação com o nazismo hitlerista. Neste ano começou a farsa do “Mentirão”, onde verba de empresa privada (VisaNet) foi tratada como se pública fosse pelo STF. Um processo que começa com a acusação de um cidadão que sequer havia sido citado pela investigação da PF, sobre os assinantes dos cheques de pagamentos as empresas publicitárias e outras, que faziam as peças publicitárias dos cartões Visa ligados a bandeiras dos bancos. Pizzolato não fazia parte da diretoria, que tinha quase vinte pessoas habilitadas para assinarem os cheques – era preciso três assinaturas por cheque. Pizzolato só passa assinar, com mais dois diretores, em 2005, um total de 19 cheques. O juiz Barbosa o condenou pelos desvios não reclamados pelas empresas que receberiam os valores (TV Globo, Manchete, Bandeirante, Folha, Estadão, ...), no período de 2002 a 2005.

 Na continuidade do Golpe pensado a partir de além mar (EUA – que o diga o ex-juizeco Moro e seu menino prodígio, ex procurador Dallagnol), o STF inaugurou a prisão sem prova - o que não quer dizer que só existam condenados com provas pela nossa justiça – mas a primeira vez em que juízes confessam em seus votos, estarem condenado réus, sem as devidas provas. Nem para isso o Moro serviu! Dirceu e companhia acabam condenados e presos – hoje, todos inocentados. Mas como o objetivo era a eliminação do político Lula, o Golpe avança em mais uma etapa, e a vítima é a então reeleita presidenta Dilma, que passa por um processo de impeachment criminoso, mas com a complacência do STF. Mas Lula continua vivo e com grandes probabilidades de se eleger em 2018, ainda no primeiro turno. O Golpe avança em mais uma fase, e Lula é posto na cadeia, a partir dos crimes, falsificações e torturas executadas pela dupla Moro e Dallagnol, com o apoio do STF e suas Turmas (ou seriam quadrilhas?). O resultado, todos sabemos, o coiso ruim que se instalou em Brasília.

 Hoje, com Lula e todos os demais inocentados, do Pizzolato a Lula, o mesmo, até o momento, concorrerá as próximas eleições com o Coiso, onde o clima no Brasil é de total desordem, o crime acontece beneplacitamente em todo o território nacional. Onde vários pensadores passaram a se referir a um provável outubro vermelho, devido a bandidagem que tomou conta das instituições democráticas e policialescas.

                É neste clima de total desordem pública, que nos leva a afirmar que no momento o país encontra-se em um Estado de Exceção, por mais que se tente negar. Basta um caminhar pelas ruas para perceber, mas atenção ao caminhar, evite o esbarrar, o pisar no pé de outro/a ou uma simples troca de olhar com um/a transeunte. Pode ser o suficiente para que alguém comece a gritar com você, ou mesmo, puxe uma arma e comece atirar. Este é o Brasil que vivemos! Nosso papel, é tentar chegar bem nas urnas e começar a mudar de fato esta situação. Saramago nos ensinou, não existe democracia sem a participação de todos. Se assim não for, continuaremos a viver em uma grande fake news.

 

Há braços,

 Sérgio Mesquita



[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_elei%C3%A7%C3%B5es_presidenciais_no_Brasil.

[2] Giorgio Agamben (1942-); Filósofo Italiano; https://pt.wikipedia.org/wiki/Giorgio_Agamben

[3] Eric Hobsbawm (1917-2012); Historiador com dupla nacionalidade, nascido no Egito, quando colônia britânica. https://pt.wikipedia.org/wiki/Eric_Hobsbawm

quinta-feira, 23 de junho de 2022

POR FAVOR, DEIXEM QUE SOMENTE PARA A DIREITA O PAPEL DE DESTRUIR A POLÍTICA

 

Todos sabem que a Política vem dos primórdios da Grécia, “POLITIKOS”, eram aqueles que participavam do governo da “Polis” (cidade), colocando o bem comum acima de seus interesses individuais. O “IDIOTA”, ao contrário, era aquele ou aquela que primeiro tratavam do próprio umbigo.

Portanto, a Política existe para organizar nossas vidas para além das questões de governos. A cada decisão tomada a partir do momento que levantamos da cama para começar o dia, até o deitar à noite, estamos fazendo política. Todos fazemos, sem exceções. Não interessa se vive em sociedade (característica básica do “ser” humano) ou se acredita não passar de um indivíduo auto suficiente (que não existe), sempre estará praticando a política.

Como a Burocracia, que existe para proteger o funcionário subordinado a uma chefia, é deturpada ao longo dos anos pelos donos do mundo em seus benefícios, a Política também passa pelo mesmo processo. Os mesmos donos do mundo a criminalizam. Nos fazem acreditar que a política não presta, só atrapalha. Voltando aos gregos “o bem comum acima dos interesses individuais”, a criminalização da política nos leva ao autoritarismo e os demais “ismos”, tão ruins quanto o autoritarismo. Não por acaso vivemos o que estamos vivendo hoje, no Brasil e no mundo.

Como se não bastasse, leio e assisto nas redes a esquerda gritando que: “a política ama a traição e odeia o traidor”.

Quase como aceitando a traição como uma qualidade da política, como se já não bastasse sermos vistos como criminosos. A direita e os donos do mundo agradecem a ajuda na busca do autoritarismo.

Empresa estatal não dá prejuízo. O que dá prejuízo é uma má administração (pessoas) ou o ideário neoliberal (donos do mundo). Burocracia não é ruim, é segurança. Os desvios feitos pelas pessoas é que a ressignificam no ideário na população (manipulação). As instituições da Democracia não são ruins, são as pessoas que lá estão (muitas colocadas pelo voto, outras não) que são ruins. Como a Política não trai, não ama e não odeia, quem trai, ama ou odeia é o IDIOTA que só pensa em seu umbigo (pessoa).

Portanto vamos prestar atenção no que dizemos e/ou reproduzimos, porque muitas das vezes, estamos ajudando o adversário. Insistir no erro é ajudar no trabalho dos donos da mídia corporativa e da manipulação dos nossos dados nas redes sociais contra nós mesmos.

Não normalizemos e nem nos conformemos com o que está posto, nossa energia deve ser para mudar o que está aí em prol de todos e todas.

 

O poder tem destas coisas, vira os políticos como se estes fossem uma peúga[i].

A primeira viragem chama-se pragmatismo, a segunda oportunismo, a terceira conformismo.

A partir daqui o melhor é deixar de contar.

José Saramago

Há braços.

 

Sérgio Mesquita

PT-Maricá



[i] Peúga: meia curta

terça-feira, 7 de junho de 2022

O eurocentrismo faz uma caricatura degradante do resto do mundo

 Por Boaventura de Sousa Santos

(Publicado no site A Terra é Redonda)

Uma das características do pensamento dominante consiste em contrastar os princípios que subscreve com as práticas dos que se lhe opõem. Na época moderna, tudo começou com a expansão colonial do século XV e XVI pela mão dos portugueses e dos espanhóis sob a tutela do Vaticano. Missionários, descobridores, conquistadores anunciavam a “boa nova” de uma religião tida por única e a única verdadeira, cujos princípios garantiam a igual dignidade de todo o ser humano perante a criação divina e o direito de todos a libertarem-se da superstição e a abraçarem a nova civilização, e a aceder a todos os benefícios que dela decorriam.

A suposta qualidade universal dos valores de que eram portadores era tão saliente quanto evidente era o contraste entre eles e as práticas das populações nativas, práticas consideradas selvagens, bárbaras, primitivas, canibais, pecadoras, cuja erradicação justificava a “missão civilizadora”. Uma linha abissal separava de tal modo os princípios e os valores europeus dessas práticas que as populações nativas não podiam ser sequer consideradas plenamente humanas.

Por isso, não tratar as populações segundo esses princípios não só não era contraditório como era a única solução lógica. Se eram sub-humanos, não fazia sentido aplicar-lhes os princípios e valores próprios de seres plenamente humanos. A universalidade dos princípios era afirmada ao ser negada a sua aplicação a seres sub-humanos. Em relação a estes, o importante era evangelizá-los, levá-los a abandonar as práticas selvagens, o que se tornou mais fácil e convincente depois que o Papa Paulo III reconheceu em bula de 1537 que os índios tinham alma.

Este dispositivo colonizador realizava duas operações cruciais: impedia o reconhecimento de princípios e valores diferentes dos europeus; impedia contrastar os princípios e valores europeus com as práticas dos europeus. Tratava-se de uma nova versão de universalidade feita de duas ressalvas que a negavam, mas cuja negação era eficazmente invisibilizada. Basta ler a Brevísima relación de la destrucción de las Indias de Bartolomé de Las Casas, publicada em Sevilha em 1552, para termos uma ideia de como este dispositivo operou, e os crimes, atrocidades, destruições e pilhagens que ele justificou.

Las Casas mostra de modo eloquente as duas verdades ocultadas pelo dispositivo colonial. Por um lado, o contraste chocante entre os princípios proclamados pelos conquistadores europeus e as suas próprias práticas; por outro lado, o retrato falso ou parcial das práticas indígenas e a recusa dos europeus em reconhecer que esses povos tinham princípios e valores que rivalizavam, por vezes com vantagem, com os europeus. Tanto o escândalo da obra de Las Casas ao tempo em que foi publicada como o sucesso que veio a ter no século seguinte mostram em que medida o dispositivo colonial próprio do pensamento dominante europeu, apesar de desmascarado, continuou a vigorar como que animado por uma hipocrisia estrutural que, em vez de o enfraquecer, se transformou em sua fonte de vida. Até hoje.

Do ponto de vista da sua génese, os princípios e valores universais europeus (mais recentemente também ditos ocidentais) são uma contradição nos termos porque, se são europeus, não podem ser considerados universais e, se são universais, não são europeus. Mas esta contradição é provavelmente própria de outros princípios e valores não europeus. E o mesmo pode dizer-se da hipocrisia ou duplicidade estrutural que habita quaisquer conjuntos de princípios e valores formulados em abstrato. O que distingue os princípios europeus é o domínio político, económico e cultural do conjunto de países que desde o século XV-XVI se arrogaram o direito de os reclamar como seus e de os impor aos outros sob o pretexto de serem universais. Esse conjunto variou ao longo dos séculos. Começou por ser ibérico, depois foi europeu, e é euro-norte-americano desde o fim da Primeira Guerra Mundial. Merecem, pois, uma reflexão específica. São muitos os dispositivos que asseguram a duplicidade e a põem ao serviço dos interesses da potência hegemônica.

(1)   Fazer valer universalmente os valores universais é um dever dos povos que os reconhecem como seus. A imposição, mesmo que motivada por interesses próprios, deve ser sempre legitimada por razões benévolas e do interesse das próprias vítimas da imposição. Foi com esta justificação que o direito internacional emergiu, pela pena de Francisco de Vitoria (1483- 1546), para justificar a ocupação colonial de povos que, apesar de humanos, não se sabiam governar (tal como as crianças) e deviam, por isso, ser objeto de proteção e tutela por parte dos colonizadores.

(2)   A hierarquia de valores. Todos os valores são universais, mas uns são mais importantes que outros. Com John Locke (1632-1704), nos alvores do capitalismo, o direito de propriedade individual precede todos os outros. Ainda que Locke limitasse inicialmente o direito natural de propriedade aos frutos do trabalho, esse direito foi-se estendendo até abranger tudo o que fosse necessário para a produção, e esta consiste na criação de valores de troca. Desde então, a hierarquia entre os valores depende das conveniências conjunturais de quem a pode impor. Se nuns casos é prioritária a defesa da soberania dos Estados, noutros é a defesa da autodeterminação dos povos. Por sua vez, a segurança nacional (um conceito recente que veio substituir o conceito de segurança humana) tem vindo a prevalecer sobre os direitos e liberdades da cidadania, tal como a segurança alimentar se tem vindo a impor à soberania alimentar.

(3)   A seletividade e os critérios duplos na invocação dos valores universais. Entre 1975 e 2000, as mídias globais silenciaram as atrozes violações de direitos humanos do povo timorense (acabada de conquistar a independência contra o colonialismo português) por parte da Indonésia, que invadiu o país poucos dias depois da visita de Henri Kissinger a Jacarta. Para os EUA, a Indonésia era na altura um país estrategicamente importante para travar o avanço do comunismo na região, e esse fato justificava o sofrimento imposto aos timorenses.

Na atual guerra da Ucrânia, muitos crimes de guerra terão sido cometidos por ambas as partes. Mas o silêncio sobre crimes cometidos por tropas ucranianas contrasta com o incessante noticiário sobre os crimes das tropas russas. Passou despercebida a notícia de 13 de maio no insuspeito Le Monde: tinha acabado de confirmar a autenticidade do vídeo em que soldados ucranianos matam a sangue frio prisioneiros de guerra russos desarmados, um gravíssimo crime de guerra nos termos da Convenção de Genebra. Veremos se será punido como todos os outros que tenham sido cometidos. A mesma seletividade ocorre no caso de outro valor universal, o direito à autodeterminação dos povos. Como temos visto, em alguns casos ele é justamente defendido (o caso da Ucrânia), enquanto noutros ele é injustamente negado (casos da Palestina e da República Árabe Saaraui Democrática).

(4)   O caráter sacrificial da defesa de valores, isto é, a necessidade de os violar para supostamente os defender. Foi em nome da democracia e dos direitos humanos que se invadiu um país soberano, o Iraque, e se cometeram gravíssimos crimes de guerra, hoje documentados graças às revelações da Wikileaks. O mesmo se passou no Afeganistão, Síria, Líbia e, anteriormente, no Congo-Kinshasa, Brasil, Chile, Nicarágua, Guatemala, Honduras, El Salvador, etc. Mas tudo começou muito antes, desde os primórdios do colonialismo. O genocídio dos povos indígenas foi sempre justificado para os salvar de si mesmos. E Afonso de Albuquerque, segundo Governador da Índia, sempre justificou a conquista do comércio das especiarias, até então controlado pelos comerciantes muçulmanos, como uma vitória da cristandade sobre o Islã.

(5)   A importância de manter o monopólio sobre os critérios para decidir sobre situações normais e situações de emergência ou de exceção, sendo certo que nestas últimas é legítimo violar alguns dos princípios e valores universais. Depois dos ataques às Torres Gémeas de Nova Iorque, muitos países foram levados a adoptar, independentemente das condições locais, medidas excepcionais de luta contra o terrorismo, nomeadamente a promulgar novas normas de criminalização do terrorismo (o “direito penal do inimigo”) que violam os princípios constitucionais do primado do direito. Muitos países aproveitaram esta legislação de exceção para eliminar ou neutralizar adversários políticos, agora considerados terroristas. Foi o caso dos militantes indígenas Mapuches do Chile por defenderem a integridade dos seus territórios.

(6)   A interpretação legítima dada aos valores universais é a que é ratificada pela potência hegemónica do momento. As liberdades autorizadas justificam a repressão das liberdades não autorizadas. Sabe-se hoje que o regime da Líbia foi violentamente eliminado porque o General Kadhafi pretendia dar consistência política à União Africana e substituir o dólar nas transações de petróleo. Da mesma forma, muitos países, sobretudo latinoamericanos, centro-americanos e asiáticos, sabem por trágica experiência que eleger democraticamente os seus presidentes não os protege de interferências, golpes e mesmo imposição de ditaduras, se os EUA virem na eleição uma ameaça aos seus interesses econômicos ou geo-estratégicos.

(7)   Quando não é possível silenciar as violações dos valores universais por parte de aliados da potência hegemónica, tais violações devem ser trivializadas ou justificadas por referência a outros valores supostamente superiores. A ocupação colonial e ilegal da Palestina por parte de Israel – uma das mais graves violações do direito internacional dos últimos sessenta e cinco anos – tem beneficiado de muitas justificações diretas ou indiretas por parte da Europa (incapaz de enfrentar de forma mais honesta as suas responsabilidades históricas) e por parte dos EUA (“Israel é o único país democrático da região”). Crimes de Estado, como o recente assassinato da jornalista palestiniana Shireen Abu Akleh, não merecem mais que uma nota de pé de página, mesmo se tais crimes obedecem a um padrão. Segundo o Ministério da Informação da Palestina, 45 jornalistas foram assassinados por forças israelenses desde 2000.

(8)   Expor documentadamente a violação dos valores universais por parte de quem os advoga e, com isso, a hipocrisia e a duplicidade reinantes é considerado um ato inimigo e suscita uma reação implacável que nenhum valor universal pode limitar. Nem sequer o direito à vida. Julian Assange é hoje o símbolo vivo desta duplicidade. Ter exposto os crimes de guerra cometidos no Iraque e ter defendido o anonimato das suas fontes transformou-o num alvo a abater sem dó nem piedade. Com a sua ação, Assange defendeu um dos valores universais, o direito à informação e à liberdade de expressão. Os crimes que denunciou deviam ser de imediato investigados e punidos em tribunais nacionais e internacionais. Em vez disso, é ele quem é punido e será provavelmente eliminado. Em vídeo recente, a sua esposa declara ter informações de que a CIA planeia matá-lo se não for extraditado para os EUA. De todo o modo, nas condições em que se encontra, a sua morte nunca será uma morte natural.

(9)   Os valores universais são um catálogo que pode ser consultado por todos, mas só as potências hegemônicas decidem o que entra nele. Por um lado, são considerados ocidentais valores e princípios que muitas vezes na sua origem não são europeus. A sua apropriação quase nunca decorre de diálogos interculturais horizontais, antes envolve frequentemente distorções e seletividades ideológicas. A filosofia grega, que todos prezamos, só em meados do século XIX foi considerada patrimônio exclusivo e distintivo da Europa. Até então era consensual reconhecer as suas raízes na cultura antiga do norte de África, nomeadamente de Alexandria, e da Pérsia. Também se reconhecia que, sem a cooperação da cultura árabe muçulmana, a filosofia grega não teria chegado ao nosso conhecimento: da Casa da Sabedoria da dinastia dos Abássidas em Bagdad no século IX até à escola de tradutores de Toledo dos séculos XII e XIII. Também o Cristianismo é considerado um património ocidental, apesar de ter nascido no que é hoje o Próximo Oriente.

Por outro lado, desde o século XVI não são admitidos no catálogo dos valores universais contribuições não ocidentais que não se deixem submeter a apropriação (melhor, expropriação). A razão desta situação resulta, como referi, do domínio global, económico, social, político e cultural do mundo europeu desde o século XV-XVI. Num momento em que a China emerge como uma potência capaz de disputar o domínio global ocidental, é oportuno perguntar por quanto tempo o catálogo dos valores universais vai ficar sob domínio ocidental e com que consequências. As transformações não serão necessariamente para melhor, e podem até ser para muito pior, sobretudo para a região cultural que até agora dominou o mundo. É inquietante imaginar que os países ocidentais sejam amanhã quem sofre com a duplicidade e hipocrisia dos valores universais em mãos de novos “donos”.

É possível que a caricatura degradante que o Ocidente fez do Oriente (uma caricatura denunciada por Edward Said em Orientalismo) seja amanhã substituída pela caricatura igualmente degradante que o oriente fará do ocidente (o Ocidentalismo)? Passar-se-á do eurocentrismo ao sino centrismo? Ou poderemos finalmente aspirar a um mundo sem pontos cardeais nem centros hierárquicos onde a diversidade cultural, política e epistémica seja possível, sob a égide de valores emancipatórios que não se deixem violar segundo as conveniências de quem tem mais poder?

quarta-feira, 1 de junho de 2022

A destruição da direita que inventou Bolsonaro.

 Tentam se livrar do genocida, com a ajuda da imprensa, para dizer que aqui a direita está viva, apesar de ter morrido no Chile, no Peru e na Colômbia. Por Moisés Mendes - 30 de maio de 2022

O tucano gaúcho que tentou aplicar o golpe em João Doria é orientado agora a voar em direção ao ninho precário que está sendo preparado para Simone Tebet. Eduardo Leite, o predador, não consegue parar.

Está em fermentação a ideia de que logo Simone será considerada inviável como nome da terceira via, e Leite ressurgirá como alternativa do PSDB, ocupando o lugar que ficou vago com a renúncia de João Doria.

Leite talvez seja o produto mais bem acabado da índole e da degradação da direita que ajudou a inventar Bolsonaro e tenta, no desespero, se reinventar.

O gaúcho é o candidato do ex-senador José Aníbal, citado como saída para o PSDB em entrevista ao Globo. Aécio Neves, o preposto de Leite desde a origem do golpe contra Doria, ganha um reforço de peso.

Em defesa da ideia de que Simone deve ser arredada para um lado, José Aníbal disse essa frase definidora de Leite:

“Ele não é polarizante; iria trabalhar com todos os brasileiros e não está com A, B ou C”.

Não estar com A, B ou C é um defeito que vira virtude. A questão não é estar ou não estar, mas de infidelidade mesmo.

Leite está e não está desde 2018, quando não estava com Bolsonaro, depois passou a estar fervorosamente. Elegeu-se e não estava mais.

No ano passado, estava com a ala que se preparou, muito antes das prévias, para dar o golpe em Doria, se o governador paulista fosse o vitorioso.

Leite e Aécio fizeram com as prévias do partido o que Bolsonaro tenta fazer com a eleição. Desqualificaram o sistema de escolha do candidato, para que pudessem golpear o colega.

O golpe falhou, Leite tentou se bandear para o PSD, não deu certo, retornou ao PSDB, fomentou a ideia do golpe de novo, desistiu da trama e passou a tentar raptar a candidatura de Ranolfo Vieira Júnior, seu vice-governador, ao governo gaúcho.

Leite não seria candidato a deputado federal ou a senador e se dedicaria a um golpe estadual contra o vice que ele mesmo indicara como pretendente à sua sucessão. Mesmo que tenha dito há muito tempo que jamais concorreria à reeleição.

Mas o golpe no ex-vice-governador ainda não é o desfecho dos seus voos circulares. Com Simone Tebet parada em 2% nas pesquisas, o moço é citado de novo por chefes do partido como nome que pode derrubar a candidatura da senadora do MDB.

E assim caminha a direita. Doria, Sergio Moro, Luiz Henrique Mandetta, Luciano Huck, Simone Tebet, Leite, Tasso Jereissati são sobras alquebradas de um espólio que só mobiliza dúvidas e traições.

Todos estiveram envolvidos no projeto de criação de Bolsonaro, desde antes do golpe de 2016 e da caçada e da prisão de Lula. Todos foram ou estão sendo pulverizados como opções da direita.

Tentam se livrar do genocida, com a ajuda da Globo, da Folha e do Estadão, para dizer que aqui a direita está viva, apesar de ter morrido no Chile, no Peru e agora na Colômbia.

Não há mais tons de cinza no que antes apresentavam como a direita liberal. A direita dessa turma está ameaçada na Bolívia e na Argentina, onde aos poucos vai sendo engolida pelas forças do fascismo.

E nem vamos falar, por falta de espaço e de paciência, de Ciro Gomes e de Luciano Bivar.

Se confirmado, o golpe em Simone Tebet seria o auge da canibalização. O PSDB, caindo aos pedaços, aguarda movimentos do MDB para que a candidatura da senadora seja considerada inviável e os tucanos fiquem com as sobras.

Leite, apresentado como o tucano que ainda pode voar, em meio a aves já sem condições de pouso e decolagem, seria o lego que o PSDB vai colocar de pé, mesmo que fique meio de lado.

 

A direita, e não só a dita terceira via, tenta fazer um candidato inteiro com pedaços dos que vão tombando. A velha direita é um desmanche.

A CEREJA DO BOLO

  A CEREJA DO BOLO

 Da Doutora (médica) Marcia Tigani:

"A cereja do bolo" dos neofascistas que foram eleitos por 58 milhões de idiotas, é acabar com o SUS. Isso eles estão deixando para o "Gran finale", caso ganhem essas eleições, mas já articulam a apoteótica ação genocida, sucateando a saúde pública, acabando com hospitais escolas, diminuindo o repasse de verbas ao SUS.

Como e por que querem isso? O neoliberalismo que é a bíblia econômica desse DESGOVERNO quer lucro, Estado mínimo, nada de responsabilizar se por saúde e educação que dizem " onerar" os cofres públicos e, não lhes interessa um povo que pensa e um povo saudável. Quanto menos educado o povo e mais doente, tanto melhor para os que ainda detém o poder nesse país.

Sou médica, formada há quase 40 anos( completarei no fim deste ano esse  tempo ).Nesse período todo só vi crescerem os lobbies dos planos de saúde através de representantes destes ,  eleitos para o Congresso .Como também vi ruírem várias medicinas de  grupo pois a lógica desses planos é o "medical Care", controlar o médico para que este não exerça corretamente sua profissão .Nessas medicinas de grupo o médico ganha menos se pedir exames , se "der prejuízo" para a empresa em detrimento da vida humana . Vivem de explorar de um lado os médicos que não pensam e de outro os usuários que pagam altos valores mensais. Quando diante de exames sofisticados, muitos" planos" costumam recusar o pedido médico, alegando exame desnecessário, pois valem se de um médico que veste a camisa não da medicina, mas da empresa e de seus interesses: médico auditor. Ao recusar determinado exame ou procedimento cirúrgico alegando serem desnecessários (por serem caros) para onde vai o paciente? Ou morre ou vai para o SUS.

O SUS é o que de mais humano e inteligente sistema público de saúde já foi criado no mundo, inclusive copiado na ideia em alguns poucos países. O SUS acolhe a todos, pois seu lema é a " UNIVERSALIDADE DA DEMANDA”, ou seja, todos podem usar o sistema SUS, independentemente de serem ricos, pobres ou remediados.

As vacinas que todos nós tomamos para não morrermos de sarampo, difteria, gripe, pneumonia, Covid etc., são " gratuitamente" fornecidas pelo SUS. O usuário pensa que é gratuito, mas na verdade pagamos impostos que são (ou deveriam) ser aplicados no fortalecimento e manutenção do SUS

A ideia do Sr Guedes, é matar os pobres e forçar os remediados a ter um plano de saúde " baratinho" favorecendo os donos de Medicina de Grupo. Ora, em medicina o " baratinho" pode sair muito caro. Uma prótese de úmero, de má qualidade, feito por uma cooperativa de saúde, provocou num conhecido meu, uma nova necessidade de cirurgia e dessa vez quem o salvou foi o SUS, que usou a prótese devida.

Quem quiser entender melhor a ideia genocida deste DESgoverno no tocante ao SUS, vai lá no YouTube e baixe com legendas o documentário do cineasta norte-americano, Michael Moore, chamado SICKO (uma junção das palavras SICK em inglês ou doente com Company). Vocês verão lá o que vai acontecer com a saúde pública no Brasil e que já aconteceu há muito nos EUA, se não eliminarmos o fascismo do poder nas próximas eleições."

 

Marcia Tigani

FALO COM ANTÔNIO GRAMSCI

 Falo com Antônio Gramsci, filósofo, político e comunista italiano, (1891/1937)

Por Marino Boeira

- Você criou algumas expressões hoje consagradas nas discussões políticas. Por exemplo “hegemonia cultural”. Qual é o seu significado?

- “O poder das classes dominantes sobre o proletariado e todas as classes dominadas dentro do modo de produção capitalista não reside simplesmente no controle dos aparelhos repressivos do Estado. Este poder é garantido fundamentalmente pela “hegemonia cultural” que as classes dominantes logram exercer sobre as dominadas, através do controle do sistema educacional, das instituições religiosas e dos meios de comunicação. Usando deste controle, as classes dominantes "educam" os dominados para que estes vivam em submissão às primeiras como algo natural e conveniente, inibindo assim sua potencialidade revolucionária”.

- E “intelectual orgânico”, o que significa?

“O intelectual orgânico está conectado com o grupo social que representa, operando tanto na sociedade civil quanto na sociedade política ou estado, defendendo os interesses de uma parte da sociedade”.

- O que é Estado para você?

- “O Estado é a organização económico-política da classe burguesa. O Estado é a classe burguesa na sua concreta força atual. Todo Estado é uma ditadura”

- Como devemos ver os meios de comunicação na sociedade atual?

- “Os jornais são aparelhos ideológicos cuja função é transformar uma verdade de classe num senso comum, assimilado pelas demais classes como verdade coletiva - isto é, exerce o papel cultural de propagador de ideologia. Ela embute uma ética, mas também a ética não é inocente: ela é uma ética de classe.

E as crises em que vivem o mundo capitalista?

- “A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece.”

Algumas perguntas. O que você pensa dos indiferentes politicamente?

“Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão e partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.”

A importância de Karl Marx?

- “Marx significa e entrada da inteligência na história da humanidade, significa o reino da consciência”

- E a natureza do homem?

- “A natureza do homem é a sua história”.

As pessoas esquecem o passado e repetem os mesmos erros?

- “Na desvalorização do passado está implícita uma justificativa da nulidade do presente”.

- Qual é o nosso grande desafio, hoje?

 

- “O desafio da modernidade é viver sem ilusões, sem se tornar desiludido”.

quarta-feira, 16 de março de 2022

PARA UMA AUTOCRÍTICA DA EUROPA

  Boaventura de Sousa Santos - sociólogo português em 10-3-2022

Porque não soube tratar das causas da crise da Ucrânia, a Europa está condenada a tratar das suas consequências. A poeira da tragédia está longe de ter poisado, mas mesmo assim somos forçados a concluir que os líderes europeus não estavam nem estão à altura da situação que vivemos. Ficarão na história como as lideranças mais medíocres que a Europa teve desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Esmeram-se agora na ajuda humanitária, e o mérito do esforço não pode ser questionado. Mas fazem-no para salvar a face ante o escândalo maior deste tempo. Governam povos que nos últimos setenta anos mais se manifestaram contra a guerra em qualquer parte do mundo. E não foram capazes de os defender da guerra que, pelo menos desde 2014, germinava dentro de casa. As democracias europeias acabam de provar que governam sem o povo.

Esta guerra estava a ser preparada há muito tempo tanto pela Rússia como pelos EUA. No caso da Rússia, é notória a acumulação de imensas reservas de ouro nos últimos anos e a prioridade dada à parceria estratégica com a China, nomeadamente no plano financeiro, com vista à fusão bancária e à criação de uma nova moeda internacional, e no plano de trocas comerciais onde são enormes as possibilidades de expansão com a nova Rota da Seda, conhecida como Belt and Road Iniciative, por toda a Eurásia.

Nas relações com os parceiros europeus, a Rússia revelou-se um parceiro credível, ao mesmo tempo que foi tornando claras as suas preocupações de segurança. Preocupações legítimas, se por um momento pensarmos que no mundo das superpotências não há bons nem maus, há interesses estratégicos que devem ser acomodados. Foi assim na crise dos mísseis de 1962 com a linha vermelha posta pelos EUA a não querer mísseis de médio alcance instalados a 70 km da sua fronteira. Não se pense que foi apenas a União Soviética a ceder. Os EUA também desistiram dos mísseis de médio alcance que tinham na Turquia. Cedência recíproca, acomodação, acordo duradouro. Porque não foi possível o mesmo no caso da Ucrânia? Vejamos a preparação do lado dos EUA.

Os EUA buscam consolidar zonas de influência a todo o custo, que garantam facilidades comerciais para as suas empresas e o acesso às matérias-primas. A política do regime change não visa criar democracias, apenas governos fiéis aos interesses dos EUA. Não foram Estados democráticos que emergiram das sangrentas intervenções no Vietname, Afeganistão, Iraque, Síria, Líbia. Não foi para promover a democracia que incentivaram golpes que depuseram presidentes democraticamente eleitos nas Honduras (2009), no Paraguai (2012), no Brasil (2016), na Bolívia (2019), para não falar do golpe de 2014 na Ucrânia. No caso da Europa, a estratégia dos EUA tem dois pilares: provocar a Rússia e neutralizar a Europa.

A Rand Corporation, conhecida organização de estudos estratégicos, publicou em 2019 um relatório elaborado a pedido do Pentágono, intitulado Extending Russia. Nele se analisa como provocar países de modo a que a provocação possa ser explorada pelos EUA. No que respeita à Rússia, lê-se: “Analisamos uma série de medidas não violentas capazes de explorar as reais vulnerabilidades e ansiedades da Rússia como meio de pressionar o Exército e a economia da Rússia e o estatuto político do regime no país e no estrangeiro. Os passos que analisamos não teriam a defesa ou a dissuasão como objectivo principal, embora pudessem contribuir para ambas. Pelo contrário, tais passos são pensados como elementos de uma campanha concebida para desestabilizar o adversário, forçando a Rússia a competir em campos ou regiões onde os Estados Unidos têm vantagem competitiva, levando a Rússia a expandir-se militar ou economicamente, ou levando o regime a perder prestígio e influência nacional e/ou internacionalmente.”

É preciso saber mais para perceber o que se está a passar na Ucrânia? A Rússia provocada a expandir-se para depois ser criticada por fazê-lo. A expansão da NATO para leste, contra o que tinha sido acordado com Gorbatchov em 1990, foi a peça-chave inicial da provocação. A violação dos acordos de Minsk foi outra peça. Note-se que a Rússia começou por não apoiar a reivindicação da independência de Donetsk e Lugansk depois do golpe de 2014. Preferiu uma forte autonomia dentro da Ucrânia, como está estabelecido nos acordos de Minsk. Estes acordos foram rasgados pela Ucrânia com o apoio dos EUA, não pela Rússia.

Quanto à Europa, o princípio é consolidar a condição de parceiro menor que não se aventure a perturbar a política das zonas de influência. A Europa tem de ser um parceiro viável, mas não pode esperar reciprocidade. É por isso que a UE, para surpresa ignorante dos seus líderes, foi excluída do AUKUS, o tratado de segurança para a região do Índico e do Pacífico.

A estratégia do parceiro menor exige que se aprofunde a dependência europeia, não só no plano militar (já garantido pela NATO) mas também no plano económico, nomeadamente no plano energético. A política externa (e a democracia) dos EUA é dominada por três oligarquias (não há apenas oligarcas na Rússia e na Ucrânia): o complexo militar-industrial; o complexo do gás, petróleo e mineração; e o complexo bancário-imobiliário. Estes complexos têm lucros fabulosos graças às chamadas rendas de monopólio, situações privilegiadas de mercado que lhes permitam inflacionar os preços. Os seus objectivos são manter o mundo em guerra e criar maior dependência dos fornecimentos norte-americanos, sobretudo de armas. A dependência energética da Europa em relação à Rússia era algo inaceitável. Do ponto de vista da Europa, não se tratava de dependência, tratava-se de racionalidade económica e de diversidade de parceiros. Com a invasão da Ucrânia e as sanções, tudo se consumou como previsto, e a imediata valorização das cotações das acções dos três complexos tinham o champanhe à sua espera. Uma Europa medíocre, ignorante e sem visão estratégica cai desamparada nas mãos destes complexos, que agora lhe vão falar dos preços a cobrar.

A Europa empobrece e desestabiliza-se por não ter tido líderes à altura do momento. Ainda por cima, apressa-se a armar nazis. Nem se recorda de que, em Dezembro de 2021, a Assembleia Geral da ONU aprovou, por proposta russa, uma resolução contra a “glorificação do nazismo, neonazismo”. Dois países votaram contra, EUA e Ucrânia. As negociações de paz em curso são um equívoco. Não faz sentido serem entre a Rússia e a Ucrânia. Deviam ser entre a Rússia e EUA/ NA-TO/União Europeia. A crise dos mísseis de 1962 foi resolvida entre a URSS e os EUA. Alguém se lembrou de chamar Fidel Castro para as negociações? É cruel ilusão pensar que haverá paz duradoura na Europa sem cedências do lado ocidental. A Ucrânia, cuja independência todos queremos, não deve entrar para a NATO. A NATO foi até agora necessária à Finlândia, à Suécia, à Suíça ou à Áustria, para se sentirem seguras e se desenvolverem? De facto, a NATO devia ter sido desmantelada logo que acabou o Pacto de Varsóvia. Só assim a EU poderia ter criado uma política e uma força militar de defesa que respondesse aos seus interesses, e não aos interesses dos EUA.

Que ameaça havia para a segurança da Europa que justificasse as intervenções da NATO na Sérvia, em 1999, no Afeganistão, em 2001, no Iraque, em 2004, na Líbia, em 2011? Depois de tudo isto, será possível continuar a considerar a NATO uma organização defensiva?

TEMPO DE TIRANIAS

 Frei Betto

       A história da humanidade é marcada por tiranias. E por ousados homens e mulheres que lideraram a resistência a elas, de Judite, que decapitou o general assírio Holofernes, como descreve a Bíblia, a Rosa Parks, pioneira no desafio ao racismo estadunidense; de Jesus a Nelson Mandela, de Spartacus a Fidel Castro.

       O capitalismo sempre conviveu muito bem com tiranias. Inclusive tratou de implantá-las em vários países, através de golpes de Estado e assassinatos de políticos progressistas, como Salvador Allende no Chile. A própria estrutura do sistema é tirânica: o poder político é virtualmente democrático, mediante eleições periódicas, mas o poder econômico, que tudo comanda, persiste concentrado em mãos de poucos que, por sua vez, monitoram o poder político. 

       É pura falácia celebrar, como democrático, um país cujas leis defendem e protegem a concentração da riqueza em mãos de uma elite, enquanto a maioria da população carece de bens essenciais à vida digna, e a pobreza e a miséria se alastram a olhos vistos.

        No livro “O regime dos príncipes”, do século 13, Tomás de Aquino escreveu: “Se o que espolia um homem ou o escraviza ou mata é merecedor da pena máxima, que é a pena de morte no juízo dos homens, e a condenação eterna de Deus, que maior motivo se há de considerar para o tirano merecer os piores castigos, posto que ele, a todos e em toda parte, atenta contra a liberdade de todos e mata quando tem vontade! Inflados de soberba, afastados das mãos de Deus por seus pecados e iludidos por seus aduladores, raras vezes se arrependem, e ainda mais raramente pensam em reparar os danos” (Livro 1, cap. 11). 

       O frade dominicano advertiu: “O domínio dos tiranos não pode ser duradouro, porque é odioso para o povo. Não pode manter-se muito tempo (...) E, chegado o tempo (...) para levantar-se contra o tirano (...) o povo apoiará o insurgente e não ficará sem vitória o que luta com apoio do povo” (Livro 1, cap. 10).

       No século 15, o teólogo franciscano Jean Petit, ao defender o Duque de Borgonha, João Sem Medo – que assassinara o tirano Duque de Orléans – se apoiou em Santo Tomás para provar a licitude do tiranicídio. O Concílio de Constanza (1414-1418) se negou a condenar o direito ao tiranicídio. Para Tomás de Aquino, a essência da tirania é o exercício do poder em proveito de quem governa e em detrimento dos direitos do povo.

       Séculos depois, o papa Paulo VI, na encíclica “Populorum progressio” (1967), admitiu o emprego da violência contra uma tirania prolongada e evidente, que atenta gravemente contra os direitos fundamentais da pessoa, e provoca graves danos ao bem comum (n. 37).

       Tomás de Aquino, na “Suma teológica” (questão 42), reconhece a licitude da revolução, mas não admite o princípio de que os fins justificam os meios. Ações terroristas carecem de base ética. Se a vitória da revolução trouxer ao povo mais sofrimento que a tirania, então a revolução é ilícita. Qualquer mudança que signifique a substituição de uma tirania por outra deve ser descartada.

       O princípio da não violência se impõe. Mas não de modo absoluto. Aqueles que defendem os direitos ao povo devem insistir na luta por meios pacíficos e democráticos. No entanto, quando os tiranos e seus cúmplices suprimem todas as vias democráticas e reprimem duramente seus opositores, não resta alternativa ética senão o povo se defender, pelas armas, da opressão que sofre. O primeiro tiro é sempre disparado pelos inimigos do povo. Contudo hoje, frente a governos como o do Brasil, a luta armada não se justifica, e só interessa a dois setores: fabricantes e traficantes de armas e defensores da volta à ditadura militar.

       Com a atual fragilização da democracia, fortalecida pelo crescente desinteresse das novas gerações pela política e o descrédito dos partidos, governos tirânicos apoiados por neonazistas e milicianos ou paramilitares voltam a ocupar o proscênio em vários países.

       É hora de os setores progressistas e de esquerda reaprenderem a se firmar como alternativas confiáveis e, assim, conquistar corações e mentes – voltar ao trabalho de base, adotar a metodologia de educação popular, aprimorar-se no uso das redes digitais e formular projetos de governo que contribuam para organizar e mobilizar a esperança.

Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do poder” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org