quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Uma nova classe de pessoas deve surgir até 2050: a dos inúteis

 

“Uma nova classe de pessoas deve surgir até 2050: a dos inúteis”

Yuval Noah Harari

 

“São pessoas que não serão apenas desempregadas, mas que não serão empregáveis”, diz o historiador.

Por A Soma de Todos Afetos -

 

Especialistas e historiadores como Yuval Noah Harari há muito vêm prevendo que as máquinas tornariam os trabalhadores redundantes. Esse momento já pode estar aqui. Mas o que isso traz de ruim?

 

Em artigo publicado no The Guardian, intitulado O Significado da Vida em um Mundo sem Trabalho, o escritor comenta sobre uma nova classe de pessoas que deve surgir até 2050: a dos inúteis. “São pessoas que não serão apenas desempregadas, mas que não serão empregáveis”, diz o historiador.

 

“A questão mais importante na economia do século 21 pode muito bem ser: o que devemos fazer com todas as pessoas supérfluas, uma vez que temos algoritmos não-conscientes altamente inteligentes que podem fazer quase tudo melhor que os humanos?”

 

“A maioria das crianças que atualmente aprendem na escola provavelmente será irrelevante quando chegar aos 40 anos.”

 

De acordo com Harari, esse grupo poderá acabar sendo alimentado por um sistema de renda básica universal. A grande questão então será como manter esses indivíduos satisfeitos e ocupados. “As pessoas devem se envolver em atividades com algum propósito. Caso contrário, irão enlouquecer. Afinal, o que a classe inútil irá fazer o dia todo?”.

 

O professor sugere que os games de realidade virtual poderão ser uma das soluções e faz um paralelo com costumes antigos, que, segundo ele, teve propósito semelhante:

 

“Na verdade, essa é uma solução muito antiga. Por centenas de anos, bilhões de humanos encontraram significados em jogos de realidade virtual. No passado, chamávamos esses jogos de ‘religiões’”

 

Abaixo leia o artigo

O significado da vida em um mundo sem trabalho
Por: Yuval Noah Harari

A maioria dos empregos que existem hoje pode desaparecer dentro de décadas. À medida que a inteligência artificial supera os seres humanos em tarefas cada vez mais, ela substituirá humanos em mais e mais trabalhos. Muitas novas profissões provavelmente aparecerão: designers do mundo virtual, por exemplo. Mas essas profissões provavelmente exigirão mais criatividade e flexibilidade, e não está claro se os motoristas de táxi ou agentes de seguros desempregados de 40 anos poderão se reinventar como designers do mundo virtual (tente imaginar um mundo virtual criado por um agente de seguros!?). E mesmo que o ex-agente de seguros de alguma forma faça a transição para um designer de mundo virtual, o ritmo do progresso é tal que, dentro de mais uma década, ele pode ter que se reinventar novamente.

O problema crucial não é criar novos empregos. O problema crucial é a criação de novos empregos que os humanos apresentam melhor desempenho do que os algoritmos.

 

Consequentemente, até 2050, uma nova classe de pessoas poderá surgir – a classe desocupada. Pessoas que não estão apenas desempregadas, mas desempregáveis. A mesma tecnologia que torna os seres humanos inúteis também pode tornar viável alimentar e apoiar as massas desempregadas através de algum esquema de renda básica universal. O problema real será, então, manter as massas ocupadas e o conteúdo. As pessoas devem se envolver em atividades propositadas, ou ficam loucas. Então, o que a classe desocupada irá fazer o dia todo?

 

Uma resposta pode ser jogos de computador. Pessoas economicamente redundantes podem gastar quantidades crescentes de tempo dentro dos mundos da realidade virtual 3D, o que lhes proporcionaria muito mais emoção e engajamento emocional do que o “mundo real” externo. Isso, de fato, é uma solução muito antiga. Por milhares de anos, bilhões de pessoas encontraram significado em jogar jogos de realidade virtual. No passado, chamamos essas “religiões” de jogos de realidade virtual.

 

O que é uma religião, se não um grande jogo de realidade virtual desempenhado por milhões de pessoas juntas? Religiões como o Islã e o Cristianismo inventam leis imaginárias, como “não comem carne de porco”, “repita as mesmas preces um número determinado de vezes por dia”, “não faça sexo com alguém do seu próprio gênero” e assim por diante. Essas leis existem apenas na imaginação humana. Nenhuma lei natural exige a repetição de fórmulas mágicas, e nenhuma lei natural proíbe a homossexualidade ou a ingestão de porco. Muçulmanos e cristãos atravessam a vida tentando ganhar pontos em seu jogo de realidade virtual favorito. Se você reza todos os dias, você obtém pontos. Se você esqueceu de orar, você perde pontos. Se, no final da sua vida, você ganhar pontos suficientes, depois de morrer, você vai ao próximo nível do jogo (também conhecido como o paraíso).

 

Como as religiões nos mostram, a realidade virtual não precisa ser encerrada dentro de uma caixa isolada. Em vez disso, ele pode se sobrepor à realidade física. No passado, isso foi feito com a imaginação humana e com livros sagrados, e no século 21 pode ser feito com smartphones.

 

Algum tempo atrás, fui com o meu sobrinho de seis anos, Matan, para caçar Pokémon. Enquanto caminhávamos pela rua, Matan continuava a olhar para o seu telefone inteligente, o que lhe permitia detectar Pokémon à nossa volta. Eu não vi nenhum Pokémon, porque não carregava um smartphone. Então vimos outras duas crianças na rua que estavam caçando o mesmo Pokémon, e quase começamos a lutar com eles. Parecia-me como a situação era semelhante ao conflito entre judeus e muçulmanos sobre a cidade sagrada de Jerusalém. Quando você olha a realidade objetiva de Jerusalém, tudo que você vê são pedras e edifícios. Não há santidade em qualquer lugar. Mas quando você olha através de smartbooks (como a Bíblia e o Alcorão), você vê lugares sagrados e anjos em todos os lugares.

 

A ideia de encontrar um significado na vida ao jogar jogos de realidade virtual é, evidentemente, comum não apenas às religiões, mas também às ideologias seculares e estilos de vida. O consumo também é um jogo de realidade virtual. Você ganha pontos adquirindo carros novos, comprando marcas caras e tendo férias no exterior, e se você tiver mais pontos do que todos os outros, dizendo a si próprio que ganhou o jogo.

 

Você pode contrariar dizendo que as pessoas realmente gostam de seus carros e férias. Isso certamente é verdade. Mas os religiosos realmente gostam de orar e realizar cerimônias, e meu sobrinho realmente gosta de caçar Pokémon. No final, a ação real sempre ocorre dentro do cérebro humano. Não importa se os neurônios são estimulados observando pixels em uma tela de computador, olhando para fora das janelas de um resort do Caribe ou vendo o céu nos olhos da mente? Em todos os casos, o significado que atribuímos ao que vemos é gerado pelas nossas próprias mentes. Não é realmente “lá fora”. Para o melhor de nosso conhecimento científico, a vida humana não tem significado. O significado da vida é sempre uma história de ficção criada por nós humanos.

 

Em seu ensaio inovador, Deep Play: Notas sobre a Briga de Galos em Bali (1973), o antropólogo Clifford Geertz descreve como na ilha de Bali, as pessoas passaram muito tempo e dinheiro apostando em brigas de galos. As apostas e as lutas envolveram rituais elaborados, e os resultados tiveram um impacto substancial na posição social, econômica e política de jogadores e espectadores.

 

As brigas de galos eram tão importantes para os balineses que, quando o governo indonésio declarou a prática ilegal, as pessoas ignoraram a lei e se arriscavam a prisão e multas pesadas. Para os balineses, as brigas eram “jogo profundo” – um jogo confeccionado que é investido com tanto significado que se torna realidade. Um antropólogo balines poderia, sem dúvida, ter escrito ensaios semelhantes sobre futebol na Argentina, Brasil ou no judaísmo em Israel.

 

De fato, uma seção particularmente interessante da sociedade israelense fornece um laboratório exclusivo de como viver uma vida satisfeita em um mundo pós-trabalho. Em Israel, um percentual significativo de homens judeus ultraortodoxos nunca trabalhou. Eles passam toda a vida estudando escrituras sagradas e realizando rituais de religião. Eles e suas famílias não morrem de fome, em parte porque as esposas muitas vezes trabalham, e em parte porque o governo lhes fornece generosos subsídios. Embora geralmente vivam na pobreza, o apoio do governo significa que eles nunca faltam para as necessidades básicas da vida.

 

Isso é uma renda básica universal em ação. Embora sejam pobres e nunca trabalhem, em pesquisa após pesquisa, esses homens judeus ultraortodoxos relatam níveis mais elevados de satisfação com a vida do que qualquer outra parte da sociedade israelense. Nos levantamentos globais sobre a satisfação da vida, Israel está quase sempre no topo, graças em parte ao contributo destes pensadores profundos e desempregados.

 

Você não precisa ir a Israel para ver o mundo do pós-trabalho. Se você tem em casa um filho adolescente que gosta de jogos de computador, você pode realizar sua própria experiência. Fornecer-lhe um subsídio mínimo de Coca-Cola e pizza e, em seguida, remover todas as demandas de trabalho e toda a supervisão dos pais. O resultado provável é que ele permanecerá em seu quarto por dias, colado na tela. Ele não vai fazer qualquer lição de casa ou tarefas domésticas, vai ignorar a escola, ignorar as refeições e até mesmo ignorar os chuveiros e dormir. No entanto, é improvável que ele sofra de tédio ou uma sensação de sem propósito. Pelo menos não no curto prazo.

 

Portanto, as realidades virtuais provavelmente serão fundamentais para fornecer significado à classe desocupada do mundo pós-trabalho. Talvez essas realidades virtuais sejam geradas dentro dos computadores. Talvez sejam gerados fora dos computadores, sob a forma de novas religiões e ideologias. Talvez seja uma combinação dos dois. As possibilidades são infinitas, e ninguém sabe com certeza que tipos de peças profundas nos envolverão em 2050.

 

Em qualquer caso, o fim do trabalho não significará necessariamente o fim do significado, porque o significado é gerado pela imaginação em vez de pelo trabalho. O trabalho é essencial apenas para o significado de acordo com algumas ideologias e estilos de vida. Os escravos ingleses do século XVIII, os judeus ultraortodoxos atuais e as crianças em todas as culturas e eras encontraram muito interesse e significado na vida, mesmo sem trabalhar. As pessoas em 2050 provavelmente poderão jogar jogos mais profundos e construir mundos virtuais mais complexos do que em qualquer momento anterior da história.

 

E quanto à verdade? E a realidade? Realmente queremos viver em um mundo no qual bilhões de pessoas estão imersas em fantasias, buscando objetivos criativos e obedecendo leis imaginárias? Bem, goste ou não, esse é o mundo em que vivemos há milhares de anos.

 

Yuval Noah Harari é professor na Universidade Hebraica de Jerusalém e é autor de ‘Sapiens: Uma Breve História da Humanidade’ e ‘Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã’

domingo, 12 de fevereiro de 2023

O QUE É SER UMA LIVRARIA? Ambiente de Troca ou de Negócios?

 Desde que comecei a ler notícias de fechamentos de livrarias, algumas tradicionais, com a Da Vinci, no Centro da cidade do Rio de Janeiro, e outras pelos bairros, me senti um tanto de “luto”. Parte por conta da Cultura e parte pela afinidade e o prazer de frequentar livrarias. Meu primeiro emprego com Carteira, foi em uma livraria de Niterói, que falarei mais à frente, pois merece um carinho especial.

 Primeiro aos fatos. Ser uma livraria está muito longe de ser um espaço para comercializar livros. Livraria com “L” maiúsculo, não é ser algo como um supermercado de livros e, atualmente, livros e adjacências (papelaria, tecnologia,...). Livraria é aquele espaço, um tanto quanto desorganizado, mas com organização. Um lugar que quando você entra, independente de ser frequentador, você identifica a lógica da arrumação e pode encontrar o livro sem ajuda. E melhor, intuitivamente, você se obriga a passear pelo ambiente, matando a curiosidade até chegar no livro desejado. No meu caso, principalmente quando entro a “passeio”, quase sempre sou “chamado” por um livro: tô aqui! Invariavelmente saio com ele em companhia do que queria levar, quando o caso.

 Fato é que, livrarias como a Saraiva e Cultura, entre outras, são espaços impessoais, frios e, com pouquíssimas exceções, com pessoal que não entende, não gosta e não lê livros, te atendendo. Mas existem resistências.

 No meu caso, na segunda metade da década de setenta (Séc. XX), minha mãe me bota para trabalhar na Livraria Pasárgada, em Niterói. Por três anos consecutivos trabalhei nos meses de Dezembro e Janeiro e no quarto de Dezembro  a Junho do ano seguinte, quando fui estudar na UCP em Petrópolis.

 Livraria de espírito livre, onde sua atmosfera justificava os versos do Bandeira em sua poesia, “Vou-me embora para Pasárgada”: (...) Vou-me embora pra Pasárgada/ Aqui eu não sou feliz / Lá a existência é uma aventura / De tal modo inconsequente / Que Joana a Louca de Espanha / Rainha e falsa demente / Vem a ser contraparente / Da nora que nunca tive (...).

 Anibal Bragança, português de olhos e pele clara, fala mansa, depois que encerrou a Livraria Diálogo, abriu a Passárgada na esquina da então Cel. Moreira César, hoje com justiça, Paulo Gustavo e a rua Lopes Trovão em Icaraí. Uma portinha que abrigava a livraria em seu primeiro piso, e o Clube de Leitura, da qual minha mãe era assídua, no segundo piso. Um sebo que você podia pegar emprestado o livro e depois devolver.

 Foi neste espaço que iniciei a minha formação política. A Pasárgada era um ponto de encontro da esquerda niteroiense, onde em plena ditatura você ao passar pela calçada poderia ser surpreendido com discursos e falas contra a mesma. Foi nesse ambiente que comecei minha vida política e profissional. Na época, o gerente era o Abel, comunista ferrenho, de carteirinha.

 Em meu primeiro dia, ainda tímido, vou atender um professor de filosofia do Fundão. Ao me aproximar, ele de imediato olha para o Aníbal e fala: “o garoto é novo né?” Aníbal me chama e fala: “ele se atende”. Depois de escolher os livros, tenho meu aprendizado que trago até hoje. Todo solícito, enquanto ele pagava a compra, falo que iria embrulhar seus livros. Aníbal ri, e o professor fala: “garoto, livro embrulhado não passa de um embrulho”. Abraça os livros e diz até a próxima. A frase pegou tão fundo em mim, que nunca mais deixei embrulhar os livros que comprava, para presente ou não. E quando alguém pedia par embrulhar mandava o dito e aguardava a resposta. Ainda na Pasárguinha, antes da mudança para a esquina da Tavares Macedo com a Lopes, neste mesmo primeiro dia, deu-se o início de meu aprendizado político. Olho um livro de título “A Rede do Terror” da Clarie Sterling. Comecei a folhear e Aníbal coloca uma das mãos em meu ombro e me fala que era um livro editado pela Embaixada Americana para fazer a nossa cabeça. Com a outra me apresenta “Veias Abertas da América Latina”, do Eduardo Galeano, e termina dizendo que eu aproveitaria melhor o tempo de leitura. Bom, ainda Folheie, movido pela curiosidade, as primeiras páginas do Rede onde encontro que a KGB foi que deu os golpes militares na América Latina. Abracei o Galeano e de lá para cá... deu no que deu, um cara consciente e pobre...rsrsrs

 Diferente das livrarias de hoje, que tem cafés e etc., a Pasárgada da Tavares, na década de 70, tinha um salão de chá, que também servia cerveja e vinho, e outro ambiente que servia para show, teatro e palestras. Assisti o lançamento do disco do Xangai, “Que qui tu tem canário?”, na livraria.

 Não sei nas demais, pois tinham outras livrarias em Niterói de responsabilidades, sem teatro e chá, mas livrarias, como o Antônio e a sua Gutemberg, onde tive o prazer de ser convidado por ele quando a Pasárgada fechou, porém me encontrava em Petrópolis estudando Engenharia, ou tentando pelo menos... Aníbal nos vendia os livros que queríamos pelo preço de custo, o que facilitava muito a nossa vida. Minha biblioteca começou a ser municiada lá. O problema é quando chegava o fim do mês e o acerto de contas, parte de meu salário ficava no Salão de Chá e parte na livraria. Teve um mês onde Aníbal vem me pagar e apresenta um “vale” para que eu assine. Aquele mês havia estourado a banca. Mas, mesmo pobre, tive a rara condição de só estudar naqueles tempos, o trabalho era renda extra.

 Lendo as matérias sobre o fechamento da Cultura, onde um ex-funcionário conta um de seus “causos”, ocorrido em Brasília, mais saudades tenho das livrarias de verdade, e da Pasárgada. Ele conta que um senhor, mal-vestido, o chama e humildemente entrega um papel, com escrita infantil e informa que não sabia ler, mas estava comprando aquele livro para filha, que usaria na escola. O vendedor se afasta e ao voltar não encontra o senhor. Procura e acaba sendo informado que o segurança da loja o havia retirado, pois estava incomodando os fregueses por estar mal-vestido. Como bom cidadão que também gosta de livraria, procurou o senhor na rua e no shopping, mesmo que só para devolver o papel com o nome do livro. Sabia que ele chegaria em casa humilhado e sem a compra pois ficou sem o papel. Este tipo de ambiente, não serve como um espaço para difusão da Cultura. Não é o ambiente de Livraria.

 Aníbal Bragança, depois foi Secretário de Cultura de Niterói, se formou em História pela UFF e foi Editor Chefe, se não me engano, da Editora da UFF. Infelizmente faleceu recentemente e, não pude me despedir como ele merecia, daí estas linhas. Um agradecimento ao amigo que me acolheu e me incentivou politicamente, sem nunca me dizer, o caminho é este. Pelo contrário, as bifurcações são essas a escolha deve ser sua. Obrigado a Pasárgada e demais Livrarias que resistem.

 Há Braços


 Sérgio Mesquita
Assessor na Secretaria de Educação de Maricá

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Para Devorar o Capitalismo Canibal

 Em livro recém-lançado, Nancy Fraser descreve um sistema que se volta contra as próprias estruturas que o amparavam – família e Estado, por exemplo. Mas ela lembra: é tolo comemorar a crise; só novas relações evitarão colapso civilizatório. Por Nancy Fraser em entrevista a Indigo Olivier para The New Republic. | Tradução: Maurício Ayer. Publicado em Outras Palavras.

Pouco depois dos Estados Unidos atingirem a marca de 1 milhão de mortes por covid-19, a secretária de imprensa de Joe Biden, Karine Jean-Pierre, fez uma observação: “Economicamente, estamos mais fortes do que jamais estivemos na história”. Do ponto de vista dos negócios, ela não estava errada. Nos últimos dois anos, os bilionários mais do que dobraram sua riqueza. E a economia cresceu mais rápido do que em décadas. 

Ao mesmo tempo, as taxas de mortalidade aumentaram entre os trabalhadores negros de renda desproporcionalmente baixa, à medida que as conversas sobre “quão essencial é o trabalho” que eles realizam arrefeciam. A maioria dos estadunidenses atualmente acredita que nossa democracia está em “crise” e um número crescente de pessoas não consegue arcar com necessidades básicas como comida e aluguel, pois os salários não acompanham a inflação. Em seu novo livro, Cannibal Capitalism: How Our System Is Devouring Democracy, Care, and the Planet – and What We Can Do About It (Capitalismo Canibal: como nosso sistema está devorando a democracia, o cuidado e o planeta – e o que podemos fazer quanto a isso, em tradução livre), a pensadora feminista e marxista Nancy Fraser argumenta que o apetite insaciável do capital por lucro atingiu o auge em 2020, quando décadas de crises política, social e ambiental convergiram.

Conversei recentemente com Fraser sobre essas crises e as condições que nos conduziram até elas. Durante essa entrevista, aqui editada para maior clareza e brevidade, falamos sobre o trabalho das mulheres, a perda da fé nas instituições, por que o capitalismo deve ser entendido como uma ordem social e o que pode vir nos próximos tempos.

Indigo Olivier – Seu livro se chama Capitalismo canibal. De onde vem esse termo?

Nancy Fraser – O canibalismo é uma metáfora, com uma história um tanto problemática. Uma longa história racista, na verdade. O termo é usado pelos colonialistas europeus para pessoas que eles subjugaram e conquistaram. É um termo abusivo, quase. Estou tentando dar a volta por cima e dizer que, na verdade, quem se dedica a acumular capital é que é o verdadeiro canibal.

No sistema sobre o qual você escreve, o que está sendo canibalizado? 

O capitalismo não é apenas um sistema econômico, no qual os proprietários exploram os trabalhadores nas fábricas, tudo restrito à economia. Também diz respeito à relação entre o que pensamos como o âmbito da economia e todo um conjunto de outras instituições e arenas sociais que, nessa sociedade, são entendidas como externas à economia, mas que são os suportes necessários para a economia. Então são as famílias que alimentam, cultivam, socializam e, em geral, reproduzem as pessoas para a economia.

Os sistemas políticos são outro suporte necessário: a infraestrutura, os bens públicos, os sistemas jurídicos, as forças repressivas. Você não tem acumulação de capital sem tudo isso em segundo plano, sustentando-a e permitindo que ela aconteça.

No entanto, os próprios processos econômicos que dependem dessas condições de fundo também são programados para destruí-las. Eles são estruturados para canibalizá-los, para ajudarem a si mesmos em uma orgia compulsiva: pegar o que quiser sem nenhuma responsabilidade de reabastecer ou reparar o que pegaram, o que destruíram.

Você escreveu particularmente sobre como estamos enfrentando uma crise de “reprodução social” – que as interações que “produzem e sustentam os seres humanos e os laços sociais” ocorrem sob uma tensão insustentável. Onde vemos essa crise acontecendo?

Em alguns casos, falamos de pessoas que não conseguem gerar, por meio de trabalho remunerado, renda suficiente para sustentar uma família nas condições atuais e que acabam buscando trabalho informal, correndo de um emprego para outro, vivendo de vários pequenos trabalhos, e não têm condições de efetivamente realizar o trabalho de cuidado nas horas que precisariam estar alocadas para isso, sobretudo quando têm filhos para cuidar, familiares doentes ou deficientes, ou pais idosos. Ou mesmo para cultivar suas amizades e redes de sociabilidade.

Isso é, em parte, uma questão de crise de tempo. Um fator importante é que vivemos em um tipo de capitalismo – uma forma historicamente específica de capitalismo –, essa coisa chamada neoliberalismo, capitalismo financeirizado, capitalismo globalizado. O regime atual, ao contrário das formas anteriores, tem se mostrado extremamente ávido pelo trabalho assalariado das mulheres, inclusive das mulheres com filhos pequenos. Elas são massivamente recrutadas ou até, pode-se dizer, empurradas para integrar a força de trabalho. Em alguns casos, felizmente, de modo voluntário. Em outros, elas esperneiam e berram, tentam resistir. Essas dinâmicas que aumentaram massivamente a participação feminina na força de trabalho em todo o mundo coincidem exatamente com outras pressões sobre os Estados em todos os níveis – nacional, estadual, local – para retirar investimentos na infraestrutura de assistência pública. Agora se atingiu realmente uma tempestade perfeita. Estão devorando o tempo e a energia daquelas que são as principais responsáveis ​​pelo trabalho de cuidado, as mulheres, no preciso momento em que se removem ou diminuem os apoios públicos na forma de serviços de bem-estar social.

A isso, adiciona-se o endividamento. Hipotecas, cartões de crédito estourados, empréstimos para carros e assim por diante. Mais e mais da renda que poderia ser dedicada à construção de uma espécie de infraestrutura de atendimento está sendo desviada para os bancos e a indústria de crédito. Essa é outra forma de canibalização. Nossas energias – nossas capacidades precisamente para o trabalho de cuidado que é essencial para a continuidade da sociedade civilizada – estão sendo canibalizadas.

Parte da reprodução social é a produção de significado compartilhado dentro de grupos, comunidades e sociedades. Como você vê a ausência de significado compartilhado no cenário político dos EUA?

Não quero criar uma imagem determinista, mas todo sistema social depende do que Antonio Gramsci chama de “hegemonia”: algum tipo de senso comum compartilhado. Não é perfeitamente compartilhado. Há muita dissidência, mas a dissidência permanece marginal. Não se acumula. Muitas coisas podem ser tratadas como coisas que são moralmente estabelecidas, de modo que não precisam ser discutidas a cada vez. As coisas discutíveis são debatidas no contexto de um semi-acordo. Essa é a situação normal. Toda ordem social, especialmente quando baseada em dominação, injustiça e opressão, funciona mais ou menos por causa desse senso comum compartilhado.

Quando você tem uma crise social real do tipo que temos agora, na maioria das vezes é apenas uma questão de tempo até que o bom senso comece a se desmantelar e se romper. Esse enquadramento compartilhado, essa reserva compartilhada de acordos subjacentes sobre a qual pode-se processar o dissenso, isso tende a se desfazer. As pessoas começam a procurar soluções fora da caixa. Elas perdem a fé nas elites estabelecidas, nos partidos políticos, nas narrativas e nos enquadramentos. Começam a procurar outra coisa. Desertam. Isso é uma crise de hegemonia, que é sempre uma coisa ambígua, porque, por um lado, abre-se a possibilidade de alternativas potencialmente emancipatórias – e é por isso que estamos vendo hoje tantos desenvolvimentos interessantes e promissores na esquerda, como a ascensão da revista Jacobin e todo um ecossistema de mídia. O crescimento dos [socialistas democráticos nos EUA], o apoio que [Bernie] Sanders obteve em suas duas campanhas presidenciais. A gente não esperaria isso se o controle hegemônico estivesse mais ou menos intacto.

Esse é o lado potencialmente positivo. Mas também existe “MAGA” [lema de Donald Trump: “Make America great again”, “Devolva aos EUA sua grandeza” (em tradução livre)], trumpismo, movimentos antivacina, toda essa meleca de xenofobia. Parte dessa polarização se deve ao surgimento de narrativas concorrentes, que lutam entre si pelo que será a nova hegemonia. O que substituirá o senso comum neoliberal de que tudo o que precisamos são mercados mais livres e uma menor interferência do Estado? São tentativas de construir alternativas, e o resultado é uma cena selvagem. A esfera pública, o discurso público – se tornam selvagens, e isso acontece sempre que há uma crise de hegemonia.

Por quanto tempo você acha que essa situação pode continuar? Os socialistas há muito afirmam que o capitalismo está “cavando sua própria cova”, mas, como você aponta no livro, todas as vezes que vivemos o que parecia ser uma crise terminal, o capitalismo foi capaz de se reinventar.

A mudança climática parece possivelmente interpor um desafio, porque parece representar um limite objetivo. Se deixarmos a temperatura planetária subir mais alguns graus, tudo muda. A vida torna-se literalmente impossível para um número cada vez maior de populações. É muito difícil tratar isso com sutileza.

Por outro lado, as pessoas que vivem esse tipo de crise generalizada realmente não têm como saber. Não podemos saber ao certo se o resultado será a destruição da vida como a conhecemos, uma nova forma de capitalismo, seja ela melhor ou pior, uma nova forma de pós-capitalismo. E não sabemos que tipo de truque os partidários do capital têm na manga à sua disposição.

Poderíamos ter uma abordagem quase agnóstica. Poderíamos dizer que precisamos reduzir as emissões de gases de efeito estufa em X por cento até o ano X. Poderíamos dizer que temos de fazê-lo de maneira a não jogar injustamente todo o peso e os custos nas costas de algumas populações apenas, para tornar as coisas mais fáceis para outras.

E podemos dizer, para todo mundo que desejar isso, vamos trabalhar juntos. Agora, vamos ver se isso pode ser feito. E se, quando o fizermos – se isso chegar a acontecer –, a ordem social que emergir ainda merecerá ser chamada de capitalista ou já será uma outra coisa. Quando algo deixa de ser capitalista? Quando você tributa os lucros em 95%? Ainda é capitalismo quando você introduz formas muito mais robustas e pesadas de planejamento social, mas mantendo alguns direitos de propriedade privada? Isso ainda é capitalismo?

 

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

Nem tudo é Política, mas a Política está em tudo: Frei Betto

 

Ainda impressionado com a beleza da entrevista de Frei Betto ao sítio Educação e Território (educacaoeterritorio.org.br), “Olhar o mundo pela ótica do oprimido é fundamental na Educação Política”, leio, no dia de hoje, 23.01.23, o diálogo entre o Ivan Callas e a Cris Lindner, e deparo com o Ivan comentando: “espero viver para ver a Pedagogia Cibernética ser aplicada com IA” (Inteligência Artificial). Onde a Cris pertinentemente coloca: “Não vai ser pela pedagogia meu caro, mas vai ser de outras formas até que se reescreva a pedagogia...”, citado no grupo do WhatsApp do RenaSCidade. Grupo criado no HackTown de Santa Rita do Sapucaí, e composto pelo mais variado grupo de pensadores, que discutem da Dança a Inteligência Artificial.

Influenciado pela entrevista do Frei Betto e lembrando a palestra dada por mim na Capacitação dos Educadores do Projeto de Alfabetização de Adulto: “Sim eu Posso”, fruto da parceria da Prefeitura de Maricá, MST e do Governo Cubano, sobre Economia Política Científica, a “coceira” bateu e tive que escrever.

Primeiro, como exposto, em concordância com a Cris, temos que reescrever, não por conta da IA, mas também por conta dela. Paulo Freire reescreveu várias Pedagogias (do oprimido, da pergunta, da esperança, da indignação, e várias outras obras). Em um curso sobre “Paulo Freire e as Fakes News”, ouvi que, na realidade, ele escreveu um único livro sobre a Pedagogia, os demais foram atualizações. Exatamente o que acredito estar propondo a Cris. Precisamos de constantes “re-atualizações”, pois não devemos ignorar o que já sabemos. Os africanos, com seus alguns milhares de anos de sapiência a mais do que nós, nos apresentam a ave Sankofa, que olha para trás e anda para frente.

Neste ponto começo o texto, a partir de seu título... rs

O sistema capitalista nos vende que podemos ser “apolíticos” e vivermos aquém da política. Uma grande mentira. Pelo simples fato de sermos humanos, que ao acordarmos, saímos da cama e, até voltarmos a ela para dormir, fazemos política. Gunnar Myrdal (1898-1987), Prêmio Nobel em 1974, nos ensina que “uma Ciência Social desinteressada constitui (...) um puro contrassenso. Tal Ciência nunca existiu e jamais existirá”. Quando a Economia surge como Ciência, final do Séc. XVII, início do XVIII, surge como Economia Política Científica, pois levava em consideração as relações mercantis e suas relações com o mundo do trabalho. Não se considerava “pura” e buscava intervenção na política e no social.

Quando o mundo (sistema) começa a negar a política e o social, a coisa desanda e hoje, gostando ou não, estamos a discutir se teremos existência no Planeta ou não. Se vamos (eles) ou não morar nos “Elysiuns”, que já existem no Planeta. Como coloca Nancy Fraser, em seu livro “A Sociabilidade Canibal”: “vem a ser um sistema que está programado para devorar as bases naturais, sociais e políticas de sua própria existência”, trocando em miúdos, da existência humana.

A Econômica Política Científica passa a ser tratada como “Economia Pura” com o avanço do capitalismo, com grande destaque na década dos anos 70, Séc. XX, com Reagan e Thatcher implantando o primeiro laboratório neoliberal durante a Ditadura chilena. De lá para cá foi oficializado o que a ex-Ministra Zélia Cardoso perpetuou posteriormente: “o povo é um detalhe”. E quando o povo deixa de ser partícipe da equação...morre famélico, deseducado, desempregado e outros “des”.

A exemplo do que fizeram com a Economia, também fizeram, até pouco tempo, com a Ciência, que apesar de ser feita por humanos, dizem ser ela pura, infalível, apolítica e outras besteiras. Como se possível fosse, uma vez que somos nós que a realizamos. Esta visão hoje é combatida, em especial pelas Universidades Públicas e Sociedades Científicas. Para o sistema, quando dá “merda” a culpa é da tecnologia, da ética etc., nunca da Ciência.

Este mesmo pensamento vem sendo aplicado ferozmente no mundo da Educação, que passa a ser entendido como mais um mercado a dar lucro para uns poucos. Daí a excelência da entrevista do Frei Betto, se contrapondo a esta quase realidade, a Educação como pura mercadoria.

Fato é que, governos, mesmo no campo da esquerda, reproduzem as máximas do sistema, como o empreendedorismo pessoal, o se transformar em um “Unicórnio” (conseguir seu primeiro milhão). A visão é sempre no singular, individualista e egoísta. Nunca solidária e cooperativa. Em contraposição, lembro bem de um dos HackInverno do RenaSCidade (“O Brasil tem Jeito”), da fala do Prof. Dr. (e vários outros títulos), Lawrence Koo. Separando o público do privado (impressão que me ficou), ele colocou que no Brasil existiam três grandes “Startups”, que haviam dado certo, e pensavam o conjunto da obra. A Petrobrás, a Embratel e a EMBRAPA, que foram importantíssimas para o desenvolvimento econômico e social do país. Metido que sou, incluiria a FIOCRUZ neste rol.

Hoje, vemos governos discutindo a inovação, incubadoras e “startups” sem a preocupação com o Público, ou sem muito foco no Público. Caberia aos governos incentivarem “startups” e empresas a serem incubadas, a partir de projetos que impactassem no conjunto de suas populações, da administração pública, e não em projetos que só visem o primeiro milhão. Que devem sim ser incentivados, mas não priorizados. Basta-nos pensar politicamente e, muitos de nossos problemas atuais poderão ser, no mínimo, mitigados.

Há braços inovadores.

Sérgio Mesquita

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

Educação Política :Olhar o mundo pela ótica do oprimido é fundamental na educação política

 

Frei Betto

Educação e Território: Entrevista por Ingrid Matuok

https://educacaoeterritorio.org.br/reportagens/frei-betto-olhar-o-mundo-pela-otica-do-oprimido-e-fundamental-na-educacao-politica/

A concepção de uma formação integral compreende o sujeito como alguém capaz de aprender ao longo de toda a vida, com várias pessoas e em todos os espaços, sobre os conhecimentos produzidos pela humanidade, sobre si, o outro e as relações que se estabelecem, e sobre as várias realidades e modos de viver que coexistem no mundo. Nessa perspectiva, a educação política não pode ficar de fora.  

Para Frei Betto, escritor vencedor de dois prêmios Jabuti, assessor de movimentos populares e autor de “Por uma Educação Crítica e Participativa” (Editora Rocco), essa formação é essencial porque “a política não é tudo, mas está em tudo”.

O ativista explica que, do momento em que nascemos até nossa morte, somos atravessados pela política do país, que constitui a base das possibilidades da qualidade de vida que a maioria da população pode viver.

À minoria detentora de riqueza, está reservado também o poder de influenciar a política que atinge a todos, mas que parte do interesse e do benefício a esses poucos. O papel da educação política é, portanto, ensinar a população a olhar para as causas dos problemas sociais, mais do que para seus efeitos ou como resolvê-los, a fim de contribuir para desmontar essa lógica posta e promover a equidade na sociedade.

“Criar uma sociedade com consciência crítica, politicamente participativa, verdadeiramente democrática, exige trabalho de educação política, ou seja, exige método Paulo Freire de educação popular”, disse Frei Betto em entrevista ao Educação e Território. Confira:

Educação e Território: Recentemente, em um artigo para a Folha de São Paulo, o senhor argumentou que ao lado do combate à fome, da proteção socioambiental e da redução da desigualdade social, é preciso incluir a educação política, cidadã e participativa. Por que essas dimensões são interdependentes? De que maneira uma educação política pode contribuir para o sucesso dos demais direitos?

Frei Betto: Os últimos quatro anos e agora estes atos golpistas, terroristas, em Brasília, comprovam que há uma deseducação política que vem ocorrendo há séculos, promovida pela elite brasileira, durante 24 horas ao dia, junto aos grandes veículos de comunicação, o entretenimento.

Todo esse processo se trata de adequação das pessoas ao sistema capitalista, à sociedade consumista. Criar uma sociedade com consciência crítica, politicamente participativa, verdadeiramente democrática, exige trabalho de educação política, ou seja, exige método Paulo Freire de educação popular.

É fundamental que o governo consiga se valer da enorme capilaridade que ele tem junto a todo o conjunto da população brasileira para promover essa formação.

São cerca de 400 mil agentes comunitários de Saúde, por exemplo. Imagina se essas pessoas fossem capacitadas para além de realizar o atendimento protocolar e assistencial, e fossem preparadas para elucidar as causas da doença, o que tem a ver com a pobreza, por que existe pobreza e miséria, ou seja, o pensamento dialético, que é o pensamento libertador, vai às causas, enquanto o analógico, que é o capitalista, só fala dos efeitos. Fala da fome e do que vamos fazer para resolver isso, não do que causou.

Durante a pandemia, o Jornal Nacional fez um quadro que mostrava empresas doando cestas básicas, mas não levantava a causa: Por que é preciso distribuir cestas básicas? Por que há tamanha desigualdade social?

Esse é o trabalho de educação política que a máquina do governo pode fazer desde a escola, porque é o Ministério da Educação (MEC) que indica os livros didáticos, até os agentes do IBGE que vão levantar qual é o número da população brasileira e como ela vive.

E&T: Para além da garantia de direitos, uma educação política, cidadã e participativa também é fundamental para fortalecer a democracia, como preconizava Anísio Teixeira. Como esse processo acontece e qual sua relevância para o Brasil de hoje?

FB: Ele acontece na medida em que a escola se inspira no método Paulo Freire. A escola tem a obrigação de comemorar as efemérides brasileiras, como o Dia do Indígena, Dia do Negro, Dia da Mulher. Imagina isso dentro de uma dimensão do feminicídio, do racismo, da questão da demarcação das terras indígenas, a preservação ambiental e por aí vai.

Acabo de publicar um livro chamado “O Estranho Dia de Zacarias” em que trabalho a questão de que no Brasil não houve descobrimento, houve invasão, em uma linguagem que a criança entenda. Precisa inverter toda essa ótica elitista que é adaptada, porque como dizia o velho Marx, a ideologia de uma sociedade tende a ser a ideologia da classe que domina essa sociedade e evidentemente que somos dominados por uma elite capitalista que quer naturalizar a desigualdade social e sempre perenizar a acumulação privada da riqueza. É contra isso que temos que remar.

Deveria ser uma atividade transversal em todos os ministérios cuidar dessa educação política. Vamos ter em breve o 31 de março, que [o ex-presidente] Jair Bolsonaro comemorava isso como reforço da democracia, como um simples movimento político que veio salvar o Brasil do comunismo. Temos que revelar a verdadeira face do 31 de março: um golpe que torturou, assassinou, fez desaparecer e obrigou a exilar milhões de brasileiros. Olhar o mundo pela ótica do oprimido é fundamental na educação política.

Há um setor prioritário para realizar esse trabalho, que é com as classes populares, porque elas são mais sensíveis, vivem na pele as consequências da opressão. É mais difícil trabalhar com a elite e a classe média que cobiça passar a ser milionária, sem se dar conta de que está sempre tentando subir uma rampa ensaboada, porque o processo capitalista é de seletividade, é muito dinheiro nas mãos de poucos. Mas essa ilusão faz com que muita gente ainda abrace o capitalismo como não só o melhor sistema, mas como sinônimo de democracia, o que é uma aberração.

E&T: É importante definir o que é educação política, uma vez que alguns setores da sociedade se apropriaram do conceito e dizem tratar-se de “doutrinação” e defendem uma escola sem partido. Assim, o que caracteriza um bom trabalho de educação política, cidadã e participativa?

FB: Não existe neutralidade política, não existe nenhuma escola politicamente neutra, e nenhuma pessoa neutra. A pessoa pode se julgar neutra, mas ela não é, porque em todas as nossas escolhas legitimamos ou questionamos o sistema em que vivemos.

A política não é tudo, mas está em tudo, desde a qualidade do café da manhã que tomamos, à possibilidade ou não de tirar férias, ter ou não uma aposentadoria razoável, segura, tudo isso depende da política.

Nós, brasileiros, somos todos “ministeriados” do momento em que nascemos até morrermos. O Ministério da Justiça tem uma cópia do nosso atestado de nascimento e nosso atestado de óbito também estará lá. Passamos no Ministério da Saúde com as vacinas na infância, passamos pelo Ministério da Educação com a escolarização, passamos pelo Ministério do Trabalho com a Carteira de Trabalho, passamos pelo Ministério da Previdência com a aposentadoria. Isso significa que a qualidade do nosso existir depende da política do nosso país.

A escola primeiro deve se assumir como um núcleo político, não partidário – a escola não pode ser partidária. Durante o período eleitoral, por exemplo, a escola pública deveria chamar para um debate todos os candidatos de todos os partidos. Se algum deles se recusar a comparecer, que seja dito na assembleia escolar que o candidato de tal partido foi convidado, mas não deu satisfações ou não vai poderá vir, para que ninguém acuse a escola de partidarismo.

Isso enriquece muito, porque faz um debate que vai significar uma grande aula de democracia, de diversidade de opiniões, e isso é muito importante na educação dos alunos.

Creio que a escola tem que assumir seu caráter político, não pode fugir disso, e que precisamos varrer todo esse ranço elitista, versão do opressor, dos nossos materiais didáticos e da cultura brasileira.

E&T: Por que é papel das escolas promover essa educação política?

FB: Mais importante do que instruir é formar cidadãos e pessoas felizes. A escola tem esse papel junto com a família de formar pessoas felizes e com consciência de cidadania.

A escola pode muito. Ela pode, por exemplo, fazer um enlace com o assentamento ou acampamento de Sem Terra mais próximo, de tal maneira que os alunos conheçam a questão fundiária no Brasil, o desamparo dos Sem Terra, por que há latifúndio no país, por que há gente padecendo em beira de estrada. Pode articular-se à favela mais próxima e estudar por que existe a favela, por que vivem em situação tão precária, por que falta saneamento básico. A escola não pode ficar de costas para o contexto social em que se insere, pelo contrário, ela tem que estar de portas e corações abertos.

Quando estive à frente do programa Fome Zero, criei um projeto que chamava Escolas Irmãs, em que conectávamos uma escola de Brasília, de classe média, com uma escola indígena na Amazônia. Os alunos trocavam cartas e nas férias os alunos de lá vinham aqui e os daqui iam lá.

O fato de uma família de classe média de Brasília hospedar durante dez dias um grupo de jovens indígenas e aquela nação indígena receber um grupo de jovens de classe média de Brasília… imagina a cabeça das pessoas o que muda. Era uma experiência muito rica que foi paralisada, infelizmente, porque não se deu suficiente apoio e importância.

No Fome Zero eu também visitava muitas escolas e perguntava como é a merenda. Em geral, era precária, mas o pior é que em muitas escolas há lanchonetes que vendem produtos com muita gordura saturada e açúcar, então não há trabalho de educação nutricional.

Uma criança que planta uma alface na horta da escola, no dia em que ela colhe, a autoestima dela bate lá no teto e acabou o preconceito à verdura. Ela passa a saborear, se sente orgulhosa daquilo. Isso é pedagogia e é possível, mas é preciso ter criatividade e ousadia.

E&T: Para os professores e gestores que medo de perseguição  famílias e da comunidade, ou que não sabem por onde começar, alguma orientação?

FB: Eles devem se manter unidos. É muito importante os professores e professoras valorizarem seus sindicatos e torná-los combativos, porque a união faz a força. É muito difícil uma pessoa sozinha enfrentar a resistência de famílias muito conservadoras e até neofascistas, então precisa se unir, formar grupos, sobretudo buscar aliados entre os pais dos alunos.

Além disso, toda escola deveria ter um projeto estratégico pedagógico. Assim, quando os responsáveis forem matricular a criança na escola, a direção deixa claro que aqui formamos a cidadania, explicamos as causas da pobreza, traduzimos em miúdos por que há desigualdade social. Aqui se fala de fome, de guerra e imperialismo. Se quiserem outra escola, que não promova a cidadania, mas o consumo, eles têm o direito de procurar outra unidade.