sexta-feira, 22 de maio de 2020

Algo deve mudar para que tudo (NÃO) continue como está. Giuseppe Tomasi di Lampedusa


Não sei por desesperança ou muita esperança, mas me impressiona como a esquerda, que sempre denunciou a falta da memória de nosso povo, esquece com muita facilidade, o quem é quem?

A quantidade de viúvas do Bolsonaro só cresce, e cada novo “comunista” que surge, segundo os seguidores do fascista alojado em BSB, aplaudimos e os adotamos como paladinos da Justiça e da inclusão social. Não é que seja contra alguém mudar de opinião, não se trata disso. Eu já mudei de opinião também, mas não mudo de princípio e nem a minha ética, combinação que sempre deve nortear nossas ações.

Abraçamos, passamos a seguir nas redes, número de seguidores passou a definir a importância do da pessoa, não a sua linha de pensamento. Não ficaria surpreso se alguns não fossem indicados como candidatos da esquerda, em detrimento dos nossos e de outros das forças próximas. Se quer perguntamos se hoje, ainda acreditam que destruímos o país? Se somos os criadores da corrupção? Se acreditam na distribuição de renda? Nem como maneira de sobrevivência daqueles que nos servem com mão de obra aviltada ou como forma de transformação e melhora da qualidade de vida? Não! Simplesmente abraçamos e ignoramos o quanto fomos chamados de ladrões, assassinos, comedores de criancinha e outros tantos adjetivos.

Alguém parou para pensar que, alguns sim se arrependeram do Boso, como ouve arrependimento em relação ao Collor. Outros, por serem “liberais”, acabaram perdendo seus empregos... Nada contra, se eu fosse liberal ou conservador, algumas das atitudes do governo me incomodariam também, e acabaria por somar às fileiras de viúvas do Bolsonaro.

Alguém acredita que os Mainards, Vilas, Olavos (peguei pesado – como em tribunal - peço para os leitores ignorarem este exemplo), Netos, os globais e outros, votariam em nosso retorno a BSB? São de direita e continuarão sendo com ou sem Bolsonaro. Não defenderão o imposto para os mais ricos e a distribuição de renda (salvo para manter viva a mão de obra). Votarão na Marina, no Ciro no PSDB, no queridinho da Globo ou outro qualquer que esteja alinhado com o sistema. Mas não votarão no candidato/os da esquerda. Neste momento vale parafrasear Churchill, nos aliemos ao demônio, mas daí a colocá-lo dentro da nossa casa....

E as instituições? STF, Câmara, Polícias, Promotorias e outras... Agora vai... agora o STF vai tirá-lo... Vai é substituir por outro mais palatável. STF e STE se fossem justos, não tinha mentirão, Dilma terminaria o mandato e Lula estaria em BSB, mas como priorizamos o pragmatismo eleitoral e abandonamos as ruas e a sociedade civil... O problema agora é como resgatar este trabalho, utilizando a tecnologia que está aí, para o bem comum e não pessoal.

Devemos sim sermos republicanos e trabalhar uma frente contra o fascismo e o neoliberalismo. Mas daí a declarar amor nas redes sociais? Lembrem-se do “i love you” do Boso para o Trump.

Sérgio Mesquita
Secretário de Ciência, Tecnologia e Comunicações de Maricá-RJ
Diretório Municipal do PT-Maricá

terça-feira, 19 de maio de 2020

Como a biossegurança vem possibilitando o neo-feudalismo digital


Mais um texto excelente do Pepe Escobar.
Me preocupa seu quarto parágrafo, que soa como crítica ao isolamento. Não sou cientista e muito menos, fora a minha que é precária, sem qualquer ligação com a Saúde. Mas acredito que sem o isolamento social a coisa poderia ser pior. O problema, iniciado no parágrafo, está no brilho dos olhos daqueles que comandam os Estados (as corporações) em identificar o isolamento como uma ferramenta de manutenção do sistema, substituindo o capitalismo financeiro, pelo capitalismo da segurança, como ferramenta de sobrevivência do sistema a sua enésima crise. O que fecho em gênero, grau e número com a "denuncia" colocada no texto.
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O neo-feudalismo digital já estava em vigor mesmo antes do Covid-19. Pode-se chamar a isso de turbo-neoliberalismo de vigilância. Onde não há nenhuma "liberdade" intrínseca e tudo é alcançado por meio da servidão voluntária.

17 de maio de 2020, 22:08 h
Por Pepe Escobar, para o Strategic Culture
Tradução de Patricia Zimbres, para o 247

O mestre pensador italiano Giorgio Agamben vem atuando na controversa linha de frente da tentativa de identificar o novo paradigma que pode estar surgindo do desastre da atual pandemia.

Ele, recentemente, chamou atenção para um extraordinário livro publicado há sete anos, que já então examinava a questão.

Em Tempetes Microbiennes (Tempestades Microbianas), Patrick Zylberman, professor de História da Saúde em Paris, detalhou o complexo processo pelo qual a segurança sanitária, até então relegada às margens das estratégias políticas, começou a se esgueirar para o centro do palco em inícios do século XXI. A Organização Mundial da Saúde (OMS) já havia criado um precedente em 2005, quando advertiu sobre a possibilidade de a nova gripe suína vir a provocar "50 milhões de mortes" em todo o mundo. No pior cenário projetado para uma pandemia, Zylberman previu que o "terror sanitário" seria usado como um instrumento de governança.

O pior cenário possível está sendo reformulado neste exato momento. A ideia de um confinamento generalizado e obrigatório não é corroborada por nenhuma justificativa médica ou pesquisa epidemiológica no caso de combate a uma pandemia. Mesmo assim, essa medida foi sacramentada como a política hegemônica - trazendo o inevitável corolário de incontáveis multidões mergulhadas no desemprego. Tudo isso tomando como base modelos matemáticos fracassados e delirantes do tipo Imperial College, impostos por poderosos grupos de pressão que vão desde o Fórum Econômico Mundial (FEM) até a Conferência de Segurança de Munique. 

Entra em cena o Dr. Richard Hatchett, membro do Conselho de Segurança Nacional durante o primeiro governo Bush Jr. que, já em 2001, recomendava o confinamento obrigatório de toda a população. Hatchett agora dirige a Coalizão para Inovações na Prontidão para Epidemias (CEPI, em inglês), uma poderosíssima entidade responsável pela coordenação dos investimentos globais em vacinas, e muito próxima à Grande Farma. A CEPI, por acaso, é a cria cerebral da conjunção FEM-Fundação Bill e Melinda Gates.

É de importância crucial saber que Hatchett vê a luta contra o Covid-19 como uma "guerra". A terminologia - adotada por todos, do Presidente Trump ao Presidente Macron - entrega o jogo. Ela remete a - o que mais? - a guerra global contra o terror, tal como solenemente anunciada em setembro de 2001 pelo próprio Donald “Desconhecidos Conhecidos" Rumsfeld.

Rumsfeld, o que é da máxima importância, foi presidente da gigante da biotecnologia, a Gilead. Depois do 11 de setembro, no Pentágono, ele fez todo o possível para borrar a distinção entre civis e militares no caso da guerra global ao terror. Foi então que o "confinamento generalizado obrigatório" foi conceituado, tendo Hatchett como um dos principais autores.

Esse conceito, embora criado pela Grande Farma militarizada, não tinha, naquela época, nada a ver com saúde pública. O importante era a militarização da sociedade americana, a ser adotada em resposta ao bioterror - naquela época automaticamente atribuído a uma al-Qaeda esquálida e pobre em tecnologia.

A versão atual desse projeto - estamos em "guerra" e todos os civis devem ficar em casa - toma a forma daquilo que Alexander Dugin definiu como uma ditadura médico-militar.

Hatchett sem dúvida alguma faz parte desse grupo, juntamente com o ubíquo Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas (NIAID, em inglês), muito próximo à OMS, ao FEM, à Fundação Bill e Melinda Gates e a Robert Redfield, diretor da divisão  dos Estados Unidos do Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC).

Entre outros aplicativos a serem incorporados ao projeto está a vigilância digital total, vendida como monitoramento da saúde. Já implementada na atual narrativa, uma demonização implacável acusa a China de ser "culpada" por tudo que se relacione à Covid-19, tática essa herdada de um outro e muito bem testado jogo de guerra, o esquema Red Dawn.

Mostre-me sua fragilidade 

Agamben conseguiu chegar à quadratura do círculo: não é que os cidadãos de todo o Ocidente tenha o direito à segurança sanitária. Agora eles são judicialmente forçados (itálicos meus) a serem saudáveis. Isso, em poucas palavras, é o que biossegurança significa. 

Não é de admirar, portanto, que a biossegurança seja um paradigma de governança ultra eficiente. Ela foi enfiada goela abaixo nos cidadãos, sem o mínimo debate político. E seu enforçamento, escreve Agamben, mata "qualquer atividade política e qualquer relação social como exemplo máximo de participação cívica". 

Já estamos passando pela experiência do distanciamento social como modelo político - com uma matriz digital que toma o lugar da interação humana que, por definição, de agora em diante será vista como fundamentalmente suspeita e politicamente "contagiosa".  

Agamben se horroriza com esse "conceito de destino da sociedade humana, que em muitos aspectos parece ter tirado de religiões decadentes a ideia apocalíptica de fim do mundo". A economia já havia substituído a política - como em tudo o que é sujeito aos ditames do capitalismo financeiro. Agora, a economia está sendo absorvida pelo "novo paradigma da biossegurança, ao qual todos os demais imperativos têm que ser sacrificados".

Como lutar contra isso? Armas conceituais existem, tais como os cursos sobre biopolítica dados por Michel Foucault no College de France entre 1972 e 1984. Eles agora podem ser consultados por meio de uma plataforma descentralizada criada por um coletivo que se descreve com o delicioso nome de "o lagostim" , que "avança de lado", um conceito que faz justiça ao grande mestre rizomático Gilles Deleuze.

O conceito de Antifrágil, de Nassim Taleb, é também bastante útil. Como ele explica, o "Antifrágil é o antídoto contra os Cisnes Negros". Bem, o Covid-19 foi uma espécie de Cisne Negro: afinal, as elites decisórias sabiam que algo dessa natureza fatalmente aconteceria – embora os políticos de baixo escalão, principalmente os ocidentais, tenham sido pegos totalmente de surpresa.

O Antifrágil postula que, devido ao medo (muito em evidência no atual momento) ou a uma "sede de ordem" (natural em qualquer poder político), "alguns sistemas humanos, ao perturbar a lógica invisível ou não tão visível das coisas, tendem a se expor a danos causados pelos Cisnes Negros, e quase nunca extraem qualquer benefício. Consegue-se uma pseudo ordem quando se busca a ordem; só se consegue alguma medida de ordem e controle quando se aceita o aleatório".

A conclusão é que "no mundo do cisne negro, a otimização não é possível. O melhor que se pode alcançar é uma redução da fragilidade e uma maior robustez". 

Não há, até o momento, razões para crer que uma "redução da fragilidade" no sistema mundial dos dias de hoje vá levar necessariamente a uma "maior robustez". O sistema nunca se mostrou tão frágil. O que temos é uma abundância de indicações de que o colapso do sistema vem sendo remodelado, em uma velocidade vertiginosa, como um neo-feudalismo digital.

Perdidos em uma quarentena biopolítica

Byung-Chul Han, o filósofo sul-coreano que leciona em Berlim, tentou formular a questão. O problema é que ele é demasiadamente refém de uma visão idealizada do liberalismo ocidental.

Byung-Chul Han está certo quando observa que a Ásia lutou contra o Covid-19 com rigor e disciplina inconcebíveis para o Ocidente - algo que acompanhei de perto. Mas ele então evoca o sistema de crédito social chinês para desferir um ataque contra a sociedade de disciplina digital chinesa.  Não há dúvida de que o sistema cria as condições para a vigilância biopolítica. Mas é tudo uma questão de nuances.  

O sistema de crédito social é como a fórmula "socialismo com características chinesas": um híbrido que só funciona em relação às complexas especificidades da China.

O labirinto de câmeras de reconhecimento facial; a ausência de restrições sobre os dados trocados entre os provedores de internet e o poder central; o código QR que diz se você é "vermelho" ou "verde" em termos de infecção; todos esses instrumentos foram aplicados com sucesso na China em benefício da saúde pública.

Byung-Chul Han é forçado a admitir que isso não acontece apenas na China. A Coreia do Sul - uma democracia ao estilo ocidental - vem pensando na possibilidade de exigir que as pessoas em quarentena usem uma pulseira digital. Ao falarmos dos diferentes modelos asiáticos empregados na luta contra o Covid-19, a nuance é a norma.

O espírito coletivista e a disciplina que vigoram em toda a Ásia - em especial nas sociedades de influência confucionista - funcionam independentemente do sistema político. Pelo menos, Byung-Chul Han admite que "todas essas particularidades asiáticas são vantagens sistêmicas para a contenção da epidemia". 

Não se trata de ver a sociedade disciplinar asiática como modelo para o Ocidente. Nós já vivemos em um Panóptico digital global (onde está Foucault quando precisamos tanto dele?) A vigilância - e a censura - das redes sociais empregadas pelos gigantes do Vale do Silício já foi internalizada. Todos os dados dos cidadãos são traficados e instantaneamente marquetizados visando a lucros privados. Então, sim: o neo-feudalismo digital já estava em vigor mesmo antes do Covid-19.

Pode-se chamar a isso de turbo-neoliberalismo de vigilância. Onde não há nenhuma "liberdade" intrínseca e tudo é alcançado por meio da servidão voluntária.

A vigilância biopolítica é apenas mais uma camada, a última fronteira, porque agora, como Foucault nos ensinou, esse paradigma controla nossos próprios corpos. Há muito o "liberalismo" foi reduzido a um bicho morto na beira da estrada. A questão não é a China servir ou não de modelo ao Ocidente. A questão é que talvez tenhamos sido jogados em uma interminável quarentena biopolítica sem nem ao menos perceber.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Pós-Covid-19: que visão de mundo e que valores desenvolver?

Leonardo Boff

Causa séria preocupação o ataque sistêmico que a natureza mediante um pequeníssimo e invisível vírus está movendo contra a humanidade, levando milhares à morte. Entretanto, fundamental é também a nossa reação frente à pandemia. Que lição ela nos passa? Que visão de mundo e que espécie de valores ela nos leva a desenvolver? Seguramente devemos aprender tudo o que devíamos ter aprendido e não aprendemos. Devíamos ter aprendido que somos parte dela e não os seus “senhores e donos” (Descartes). Vigora uma conexão umbilical entre ser humano e natureza. Viemos do mesmo pó cósmico como todos os demais seres e somos o elo consciente da corrente da vida.

A erosão da imagem do “pequeno deus na terra”

O mito dos modernos de que nós somos “o pequeno deus” na Terra e que podemos dispor dela ao nosso bel-prazer pois ela é inerte e sem propósito foi desfeito. Um dos pais do método científico moderno Francis Bacon dizia que devemos tratar a natureza como os esbirros da inquisição tratam suas vítimas, torturando-as até que elas entreguem todos os seus segredos.

Pela tecnociência levamos este método até o extremo alcançando o coração da matéria e da vida. Isso se implementou com um furor inaudito ao ponto de termos destruído a sustentabilidade da natureza e assim do planeta e da vida. Desta forma, rompemos o pacto natural que existe com a Terra viva: ela nos dá tudo o que precisamos para viver e em contrapartida nós devíamos cuidá-la, preservar seus bens e serviços e dar-lhe descanso para repor tudo o que lhe tiramos para a nossa vida e progresso. Nada disso fizemos.

Por não termos observado o preceito bíblico de “guardar e cuidar do Jardim do Éden (da Terra: Gn 2,15) e ameaçado as bases ecológicas que sustentam toda vida, ela nos contra-atacou com uma arma poderosa, o coronavírus 19. Para enfrentá-lo retornamos ao método da Idade Média que superou suas pandemias mediante o isolamento social rigoroso. Para fazer o povo, amedrontado, sair à rua, na prefeitura de Munique (Marienpltatz) se construiu um engenhoso relógio com dançarinos e cucos para todos acorrerem para apreciá-lo o que é feito até os dias atuais.

A pandemia que é mais que uma crise, mas uma exigência de mudança de visão de mundo e de incorporação de novos valores nos coloca esta questão: queremos verdadeiramente evitar que a natureza nos envie vírus ainda mais letais que até podem dizimar a espécie humana? Esta seria uma entre as dez que desaparecem definitivamente a cada dia. Queremos correr esse risco?

A inconsciência generalizada do fator ecológico

Já em 1962 a bióloga e escritora norte-americana Rachel Carson, autora de “Primavera Silenciosa”(Silient Spring) advertiu:” É pouco provável que as gerações futuras tolerem nossa falta de preocupação prudente pela integridade do mundo natural que sustenta toda a vida…A questão consiste em saber se alguma civilização pode levar adiante uma guerra sem tréguas contra a vida, sem se destruir a si mesma e sem perder o direito de ser chamada de civilização”.

Parece uma profecia da situação que estamos vivendo a nível planetário. Temos a impressão de que a maioria da humanidade e mesmo os líderes políticos não demonstram uma consciência suficiente dos perigos que estamos correndo com o aquecimento global, com a demasiada proximidade de nossas cidades e principalmente do agronegócio massivo da natureza virgem e das florestas sendo desmatadas. Desta forma destruímos os habitats dos milhões de vírus e bactérias que acabam se transferindo para os seres humanos.

É imperioso que abandonemos o velho paradigma da vontade de poder e de dominação sobre tudo (o punho cerrado) na direção de um paradigma do cuidado de tudo o que existe e vive (a mão estendida) e da corresponsabilidade coletiva. Escreveu Eric Hobsbawn na última frase de seu livro A era dos extremos (1995):

“Uma coisa é clara. Se a humanidade quer ter um futuro reconhecível, não pode ser pelo prolongamento do passado ou do presente. Se tentarmos construir o terceiro milênio nesta base, vamos fracassar. O preço do fracasso, ou seja, a alternativa para a mudança da sociedade é a escuridão” (p.506).

Isto significa que não podemos voltar simplesmente à situação anterior ao coronavírus. Nem pensar numa volta ao passado pré-iluminismo como quer o atual governo brasileiro e outros de extrema-direita.

O pós-pandemia: o novo ou a radicalização do antes?

Não são poucos os analistas que prognosticam que o pós-pandemia poderá significar uma radicalização extrema da situação anterior, uma volta ao sistema do capital e ao neoliberalismo, procurando dominar o mundo com o uso da vigilância digital (big data) sobre cada pessoa do planeta, coisa aliás que já está em curso na China e nos USA. Aí entraríamos na era das trevas, com o risco, aventado por Raquel Carson da nossa autodestruição. Daí a exigência de uma radical conversão ecológica, cuja centralidade deverá ser ocupada pela Terra, pela vida e pela civilização humana: uma biocivilização. Caso quisermos sobreviver.

Sigmund Freud respondendo a uma carta de Albert Einstein de 1932 que perguntava se era possível superar a violência e a guerra, deixava aberta a questão. Respondeu ponderando que não podia afirmar qual instinto iria prevalecer: se o instinto de morte (thánatos) ou se o instinto de vida (éros). Eles estão sempre se tensionando sem termos a certeza de quem no final triunfará. Termina resignado: “Esfaimados pensamos no moinho que tão lentamente mói que poderemos morrer de fome antes de receber a farinha”.

Há uma opinião nada otimista de um dos maiores intelectuais norte-americanos e crítico severo do sistema imperialista, Noham Chomsky. Diz ele:” «O coronavírus é algo sério o suficiente, mas vale lembrar que há algo muito mais terrível se aproximando, estamos correndo para o desastre, algo muito pior que qualquer coisa que já aconteceu na história da humanidade e Trump e seus lacaios estão à frente disso, na corrida para o abismo. Há duas ameaças imensas que estamos encarando. Uma é a crescente ameaça de guerra nuclear, exacerbada pela tensão dos regimes militares e a outra, é claro, pelo aquecimento global. Ambas podem ser resolvidas, mas não há muito tempo e o coronavírus é terrível e pode ter péssimas consequências, mas será superado, enquanto as outras não serão. Se nós não resolvermos isso, estaremos condenados”.

Chomsky tem asseverado que o presidente Trump é suficientemente insano para deflagar uma guerra nuclear, sem se importar com o que pode acontecer para toda a humanidade.

Não obstante esta visão dramática do prestigiado linguista e pensador, nossa esperança é que se a humanidade for posta sob grave risco de realmente se autodestruir, o instinto de vida irá prevalecer. Mas à condição de termos construído uma forma diferente de habitar a Casa Comum sobre outras bases que não sejam nem do passado nem do presente.

Reinventar a humanidade e remodelar a Terra

O coronavírus nos obrigará a nos reinventar como humanidade e remodelar de forma sustentável e includente a única Casa Comum que temos. Se prevalecer o que dominava antes, ainda exacerbado ao extremo, aí sim poderemos nos preparar para o pior. Entretanto, cabe recordar que o sistema-vida passou por várias grandes dizimações (estamos dentro da sexta) mas sempre sobreviveu.

Ela pareceria – me permito uma metáfora singular – uma “praga” que ninguém até hoje conseguiu exterminar. Porque é uma “praga” bendita, ligada ao mistério do cosmo-gênese e daquela Energia de Fundo, misteriosa e amorosa que preside a todos os processos cósmicos e também os nossos.

De todos os modos, o coronavírus nos mostrou de que não somos “pequenos deuses” que pretendem poder tudo; somos frágeis e limitados; que a acumulação de bens materiais não salva a vida; que a globalização financeira sozinha, nos moldes competitivos do capitalismo, impede de criar, como propõem os chineses “uma comunidade de destino comum para toda a humanidade”; que temos que criar um centro global e plural para gestionar os problemas globais; que a cooperação e a solidariedade de todos com todos e não o individualismo, constituem os valores centrais de uma geosociedade; que se deve reconhecer e respeitar os limites do sistema-Terra que não tolera um projeto de crescimento ilimitado; que devemos cuidar da natureza, como cuidamos de nós mesmos, pois somos parte dela e é ela que nos fornece todos os bens e serviços necessários para a vida; que devemos buscar uma economia circular que realiza os famosos três erres (R): reduzir, reutilizar e reciclar tudo que entrou no processo produtivo; que a economia seja de subsistência digna e universal e não da acumulação de alguns à custa de todos os outros e da natureza; que este tipo de economia da subsistência diminui as necessidades para dar lugar à sobriedade e assim reduzir enormemente as desigualdades sociais; que a nova ordem econômica não se regeria pelo lucro mas por uma racionalidade econômica com sentido social e ecológico; que seria altamente racional e humanitário criar uma renda universal mínima; que a assistência à saúde é um direito humano universal (One World-One Health); que não podemos dispensar, antes favorecer, a ciência e a técnica feitas com consciência e destinadas a servir à vida e não ao mercado; que é importante garantir um Estado regulador do mercado, impulsionador do desenvolvimento necessário e apetrechado para atender demandas coletivas, seja sanitárias seja de calamidades naturais; que devemos incentivar o capital humano-espiritual, sempre ilimitado, fundado no amor, na solidariedade, na busca da justa medida, na fraternidade, na compaixão, no encantamento do mundo e na busca incansável da paz.

Estas são algumas lições, entre outras, que o coronavírus nos permite tirar. Citando a Carta da Terra, um dos documentos oficiais (UNESCO) mais inspiradores para a transformação do nosso modo de ser no planeta Terra, ”são necessárias mudanças fundamentais nos nossos valores, instituições e modos de vida…Nossos desafios ambientais, econômicos, políticos, sociais e espirituais estão interligados e juntos podemos forjar soluções includentes” (Preâmbulo c).

Que visão de mundo e que valores incorporar?

Saber e tomar conhecimento dos dados da realidade não é ainda fazer. O que nos move a agir? Que visão de mundo e que valores devemos incorporar? Orienta-nos um importante texto da parte conclusiva da Carta da Terra, de cuja redação também participei.

“Como nunca antes na história, o destino comum nos conclama a buscar um novo começo. Isto requer uma mudança na mente e no coração; demanda um novo sentido de interdependência global e de responsabilidade universal. Devemos desenvolver e aplicar com imaginação a visão de um modo de vida sustentável aos níveis local, nacional, regional e global” (O caminho adiante).

Observemos: não se trata de apenas melhorar o caminho andado. Esse nos levará às crises cíclicas que já conhecemos e eventualmente ao desastre. Mas se trata de “buscar um novo começo”. Vale dizer, somos desafiados a remontar a “Terra, nosso lar, que está viva com uma comunidade de vida única” (CT, Preâmbulo a). Enganoso seria cobrir as feridas da Terra com band-aid, pensando assim curá-la. Temos que revitalizá-la e refaze-la para ser a Casa Comum.

“Isto requer uma mudança de mente”. A mudança de mente significa um novo olhar sobre a Terra assim como a nova cosmologia e biologia a apresentam. Ela é um momento do processo evolucionário que já possui 13,7 bilhões e anos e a Terra, 4,3 bilhões de anos. Depois do big bang, todos os elementos físico-químicos se forjaram ao longo de uns três bilhões de anos no coração das grandes estrelas vermelhas. Ao explodirem, jogarem para todas as direções estes elementos que formaram as galáxias, as estrelas como o Sol, os planetas e a Terra.

Ela é viva com uma vida que irrompeu há 3,8 bilhões de anos, um superorganismo sistêmico que se auto-organiza e continuamente se autocria. Num momento avançado de sua complexidade, cerca de 8-10 milhões de anos atrás, uma porção dela começou a sentir, pensar, amar e venerar. Surgiu o ser humano, homem e mulher. Ele é Terra consciente e inteligente, por isso se chama homo, feito de húmus.

Esta visão muda a nossa concepção da Terra. A ONU em 22 de abril de 2009 oficialmente a reconheceu como Mãe Terra, pois tudo gera e nos dá. Por isso a Carta da Terra afirma: “Respeitar a Terra e a vida em toda a sua diversidade e cuidar da comunidade de vida com compreensão, compaixão e amor” (CT 1 e 2). Terra como solo podemos comprar e vender, cavar e fazer tantas coisas. Mãe, no entanto, nós não compramos nem vendemos; nós a amamos e veneramos. Tais atitudes devem ser transferidas para a Terra, nossa Mãe. Essa é a nova mente que importa incorporar.

“Requer uma mudança no coração”. O coração é a dimensão do sentimento profundo, da sensibilidade, do amor, da compaixão e dos valores que orientam nossa vida. Especialmente no coração reside o cuidado que é uma forma amigável e afetuosa de se relacionar com a natureza e os seus seres. Temos a ver com a razão sensível ou cordial, com o cérebro límbico, que emergiu há 220 milhões de anos quando irromperam na evolução os mamíferos. Todos eles, como o ser humano, têm sentimentos, amor e cuidado para com sua cria. Esse é o pathos, a capacidade de afetar e ser afetado, a dimensão mais profunda do ser humano.

A razão (o logos), a mente da qual nos referimos anteriormente, surgiu há apenas 8-10 milhões de anos com o cérebro neocortical e na forma avançada como homo sapiens (o homem atual) há cerca de cem mil anos. Ele, na modernidade, foi desenvolvido de forma exponencial, dominando nossas sociedades e criando a tecnociência, os grandes instrumentos de dominação e de transformação da face da Terra, inclusive criando uma máquina de morte com armas nucleares e outras que podem pôr fim à vida humana e da natureza.

O excesso da razão, o racionalismo, criou uma espécie de lobotomia: o ser humano tem dificuldade de sentir o outro e o seu sofrimento. Precisamos completar a inteligência racional, necessária para dar conta das necessidades de sobrevivência da nossa vida, mas há que completá-la com a inteligência emocional e sensível para sermos mais completos e assumirmos com paixão a defesa da Terra e da vida.

Valem-nos as palavras do Papa Francisco em sua encíclica de ecologia integral “Sobre o cuidado da Casa Comum”: “Devemos alimentar uma paixão pelo cuidado do mundo. Não é possível empenhar-se em coisas grandes apenas com doutrinas, sem uma mística que nos anima, sem uma moção interior que impele, motiva, encoraja e dá sentido à ação pessoal e comunitária”(n.216) E acrescenta: ”Implica ainda a consciência amorosa de não estarmos separados das outras criaturas, mas de formarmos com os outros seres do universo uma esplêndida comunhão universal”(n.220).

Portanto, é o coração que nos leva a ouvir simultaneamente o grito da Terra e o grito do pobre e nos leva a socorrê-los, mudando a forma como nos relacionamos com eles, como produzimos e como consumimos, com esse ideal formulado pelo primeiro ministro chinês XI Jinping: “criar uma sociedade moderadamente abastecida” ou como nós dizemos: uma sociedade com um consumo sóbrio e solidário.

Segue ainda o texto da Carta da Terra: “Requer-se um novo sentido de interdependência global”. A relação de todos com todos e por isso a interdependência global representa uma constante cosmológica. Tudo no universo é relação. Nada e ninguém estão fora da relação. O cosmos é constituído pelo conjunto das redes de relação mais do que do número inumerável dos corpos celestes. É também um axioma da física quântica segundo o qual todos os seres são inter-retro-relacionados. Nós mesmos, seres humanos, somos um rizoma (bulbo com raízes) de relações voltado para todas as relações. Isso implica entender que todos os problemas ecológicos, econômicos, políticos e espirituais têm a ver uns com os outros. Tocando em um tocamos na rede toda das relações. A ação que fizermos afeta toda a rede de ações.

Esta compreensão holística supera a atomização dos saberes e fragmentação das atividades humanas. Só salvaremos a vida se nos alinharmos à esta lógica universal que é lógica da natureza com sua esplêndida diversidade. Todos os seres se entreajudam, até os mais débeis, pois também estes possuem um valor em si mesmo e comunicam alguma mensagem do universo.

Segue o texto da Carta Terra:” requer-se uma responsabilidade universal”. Responsabilidade significa dar-se conta das consequências de nossas ações, se são benéficas ou maléficas para o conjunto dos seres. Hans Jonas escreveu um livro clássico sobre o “Princípio Responsabilidade”. Ele inclui o princípio de prevenção e o de precaução. Na prevenção podemos calcular os efeitos quando interviermos na natureza. O princípio de precaução não nos permite medir as consequências e por isso não devemos arriscar com certas ações e intervenções porque podem produzir efeitos altamente danosos para a vida.

A responsabilidade deve ser universal, de todos. Não é assim que um grupo ou uma empresa assumam sua responsabilidade socioecológica, protegem o ar e garante a pureza das águas, enquanto outras não cuidam destes efeitos danosos e os consideram simplesmente como exterioridades (coisas que não entram na contabilidade dos negócios). Ou todos assumem uma atitude responsável, por isso universal, e assim praticamos comportamentos ecologicamente benéficos ou então seguiremos acumulando problemas para a vida e o futuro de nossa existência.

Mais ainda diz a Carta da Terra: “desenvolver e aplicar com invenção a visão (de um modo sustentável de vida). Nada de grande neste mundo sem fez sem a invenção do imaginário que projeta novos mundos e novos modos de ser. É aqui o lugar das utopias viáveis. Toda utopia alarga o horizonte e nos torna inventivos. O próprio ser humano emerge como um ser utópico, pois é um projeto infinito e um ser habitado pelo desejo, cuja natureza, segundo os antigos e Freud, é ilimitado. A utopia nos leva de horizonte a horizonte, fazendo-nos sempre caminhar na feliz expressão de Eduardo Galeano.

Para superar o modo costumeiro de habitar a Casa Comum, sem sequer tê-la descoberto (isso ocorreu somente a partir das viagens espaciais), explorando seus ecossistemas, descuidando das florestas, das águas, do ar puro e da fertilidade dos solos e de relações justas e fraternas nas sociedades, precisamos da invenção que nasce de uma utopia ou de um sonho. Toda utopia é, por natureza, irrealizável. Mas existem as utopias viáveis, aquelas que podemos juntos trazer para a realidade. Assim que precisamos sonhar com o planeta como “A Terra da Boa Esperança” (Ignace Sachs) antes de pôr as mãos no seu fazimento. Essa utopia é realizável pela humanidade, quando despertar de seu sono de um mundo de mão a mão e abri-se ao grande sonho possível de outro mundo possível e necessário.

Mais ainda afirma a Carta da Terra: “uma visão de um modo sustentável de vida. Estamos acostumados à expressão que está em todos os documentos oficiais e na boca da ecologia dominante “desenvolvimento sustentável”. Todas as análises sérias têm mostrado que o nosso modo de produzir, distribuir e consumir é insustentável. Vale dizer não consegue manter o equilíbrio entre o que tiramos da natureza e que lhe deixamos para sempre poder se reproduzir e coevoluir. Nossa voracidade tornou o planeta insustentável, pois se os países ricos quisessem universalizar seu bem-estar à toda a humanidade, precisaríamos, pelo menos, de três Terras iguais a esta, o que é absolutamente impossível.

O atual desenvolvimento que significa crescimento econômico medido pelo Produto Interno Bruto (PIB) revela espantosas desigualdades a ponto de a grande ONG Oxfam no seu informe de 2019 nos revelar que 1% da humanidade possui a metade da riqueza do mundo e que 20% controla 95% desta riqueza (do 1%) enquanto os restantes 80% têm que contentar-se com apenas 5% da riqueza. Tais dados revelam a completa insustentabilidade do mundo em que vivemos.

A Carta da Terra não se rege pela economia, mas pela vida. Daí o grande desafio consiste em criar um modo sustentável de vida e todos os âmbitos, pessoal, familiar, social, nacional e internacional. Para isso se impõem a necessidade de “um novo começo” e não apenas de melhorias, mantendo o sistema desigual.

Por fim, este modo sustentável de vida deve realizar-se no nível local, nacional, regional e global. Evidentemente se trata de um projeto global que deverá ser realizado com prazos, na medida em que cresce a consciência ecológica e nos dermos conta de nossa responsabilidade pelo futuro comum Terra e humanidade. Hoje o ponto mais avançado na busca da sustentabilidade se realiza no nível local e regional. Fala-se então do bioregionalismo como a forma realmente viável de concretizar a sustentabilidade. Tomando-se a região como referência, não segundo as divisões arbitrárias ainda persistentes, mas aquelas que a própria natureza fez com os rios, as montanhas, as florestas e outras que configuram um ecossistema regional. Dentro deste quadro pode realizar-se uma autêntica sustentabilidade, incluindo os bens naturais, a cultura e tradições locais, as personalidades que marcaram aquela história, com o favorecimento de pequenas empresas e uma agricultura orgânica, com a participação maior possível, num espírito democrático. Desta forma se propiciará um “bem viver e conviver” (o ideal ecológico andino) suficiente, decente e sustentável com a diminuição das desigualdades.

Esta visão formulada pela Carta da Terra é grandiosa e factível. O que mais precisamos é de boa-vontade, a única virtude que para Kant não possui nenhum defeito e limitação, pois se tiver, deixará de ser boa. Essa boa-vontade impulsionaria as comunidades e, no limite, a inteira humanidade a realmente realizar “um novo começo”.

Virtudes para um outro mundo possível

Esse modo sustentável de vida se traduz por práticas virtuosas que tornam real o modo sustentável de viver. São muitas as virtudes para um outro mundo possível. Serei breve, pois sobre isso publiquei três volumes com esse mesmo título “Virtudes para um outro mundo possível” (Vozes 2005-2006). Enumero 10 sem detalhar-lhes o conteúdo, o que nos levaria longe.

A primeira é o cuidado essencial. Chamo de essencial pois segundo uma tradição filosófica que nos vem dos romanos, atravessou os séculos e ganhou sua forma maior entre vários autores especialmente no núcleo central de Ser e Tempo de Heidegger. Aí se vê o cuidado como da essência do ser humano. Ele é a pré-condição para o conjunto de fatores que permitem a emergência da vida. Sem o cuidado a vida jamais irromperia e subsistiria. Alguns cosmólogos como Brian Swimme e Stephan Hawking viram no cuidado como a dinâmica mesma do universo. Se as quatro energias fundamentais não tivessem o sutil cuidado de atuarem sinergicamente, não teríamos o mundo que temos. Todo ser vivo depende do cuidado. Se nós não tivéssemos o infinito cuidado de nossas mães, não saberíamos como deixar o berço e buscar o nosso alimento, dado que somos seres biologicamente carentes, sem nenhum órgão especializado. Precisamos do cuidado de outros. Tudo o que amamos também cuidamos, tudo o que cuidamos também amamos. Face à natureza significa uma relação amigável, não agressiva e respeitosa de seus limites.

A segunda virtude é o sentimento de pertença à natureza, à Terra e ao universo. Somos partes de um grande Todo que nos desborda por todos os lados; somos a parte consciente e inteligente da natureza, somos aquela porção da Terra que sente, pensa, ama e venera. Esse sentimento de pertença nos enche de respeito, de encantamento e de acolhimento.

A terceira virtude é a solidariedade e a cooperação. Somos seres sociais que não apenas vivem mas convivem com outros. Sabemos pela bioantropologia que foi a solidariedade e a cooperação de nossos ancestrais antropoides que ao buscar o alimento e traze-lo para o consumo coletivo, lhes permitiu deixar para trás a animalidade e inaugurar o mundo humano. Hoje, no caso do coronavírus, o que nos está salvando é a solidariedade e a cooperação de todos com todos. Esta solidariedade deve começar pelos últimos e invisíveis sem o que, ela deixa de ser inclusiva de todos.

A quarta virtude é a responsabilidade coletiva. Já temos exposto o seu sentido acima. É o momento da consciência em que cada um e uma inteira sociedade se dão conta dos efeitos bons ou ruins de suas decisões e atos. Seria absolutamente irresponsável o desmatamento desenfreado da Amazônia pois desequilibraria o regime de chuvas de vastas regiões e eliminaria a biodiversidade indispensável para o futuro da vida. Nem precisamos nos referir a uma guerra nuclear cuja letalidade eliminaria toda a vida especialmente a humana.

A quinta virtude é a hospitalidade como dever e como direito. O primeiro a apresentar a hospitalidade como dever e como direito foi Immanuel Kant no seu famoso texto “Em vista da paz perpétua” (1795). Entendia que a Terra é de todos, pois, Deus não deu título de propriedade de algum pedaço dela a ninguém. Ela pertence a todos os habitantes que podem andar por todas as partes. Ao encontrarem alguém o dever de todos é oferecer a hospitalidade, como sinal de pertença comum à Terra e todos têm o direito de serem acolhidos, sem qualquer distinção. Para ele, junto com o respeito dos direitos humanos constituiriam as pilastras para uma república mundial (Weltrepublik). Esse tema é atualíssimo dado o número de refugiados e as muitas discriminações por vários títulos. Talvez seja uma das virtudes mais urgentes no processo de planetização embora uma das menos vividas.

A sexta virtude é a convivência de todos com todos. A convivência é um dado primário, pois todos viemos da convivência que nossos pais tiveram. Nós somos seres de relação que é o mesmo que dizer, não vivemos simplesmente, mas de forma diuturna convivemos. Participamos da vida dos outros, de suas alegrias e angústias. Especialmente custa a muitos a conviver com os diferentes, seja de etnia, de religião, de partido político. O importante é estar aberto à troca. O diferente sempre nos traz algo novo que nos enriquece ou desafia. O que jamais podemos fazer é transformar a diferença numa desigualdade. Podemos ser humanos de muitas formas diferentes, na forma brasileira, italiana, japonesa, yanomami. Mas cada forma é humana e possui a sua dignidade.     Hoje pelos meios de comunicação cibernéticos abrimos janelas para todos os povos e culturas. Saber conviver com essa diferença abre novos horizontes e entramos numa espécie de comunhão com todos. Esta convivência implica também a natureza, conviver com com as paisagens, com as florestas, com os pássaros e animais. Não apenas olhar para o céu estrelado, mas entrar em comunhão com as estrelas, pois delas viemos e formamos um grande Todo. Por fim, formamos uma comunidade de destino comum junto com a totalidade da criação.

A sétima virtude é o respeito incondicional. Cada ser, por menos que seja, possui valor em si mesmo, independentemente do uso humano. Quem desenvolveu o tema em profundidade foi Albert Schweitzer, grande médico suíço que foi ao Gabão na África para atender a hansenianos. Para ele o respeito é a base mais importante da ética, pois comporta acolhida, solidariedade e amor. Devemos começar com o respeito a nós mesmos, ao manter atitudes e modos dignos que suscitam o respeito dos outros. Importa respeitar todos os seres da criação, pois valem por eles mesmos; existem ou vivem e merecem existir ou viver. Mais que tudo, vale o respeito diante de cada pessoa humana, pois é portadora de dignidade, de sacralidade e de direitos inalienáveis, pouco importa sua procedência. Respeito supremo devemos ao Sagrado e a Deus, o mistério íntimo de todas as coisas. Só diante dele podemos cair de joelhos e reverenciar, pois só a Ele cabe esta atitude.

A oitava virtude é justiça social e igualdade fundamental de todos. A justiça é mais que dar a cada um o que é seu ; entre os humanos, a justiça é o amor o respeito mínimo que devemos devotar aos outros. A justiça social é garantir os mínimos a todas as pessoas, não criar privilégios e respeitar seus direitos em pé de igualdade, pois todos somos humanos e merecemos ser tratados humanamente. Desigualdade social significa injustiça social e, teologicamente, uma ofensa ao Criador e a seus filhos e filhas. Talvez ela seja a maior perversidade hoje existente que deixa milhões na miséria e condenados a morrer antes do tempo. Neste tempo de coronavírus se mostrou a violência da desigualdade social e da injustiça. Enquanto uns podem viver sua quarentena em casas ou apartamentos adequados, a grande maioria pobre é exposta à contaminação e, não raro, à morte.

A nova virtude é a busca incansável da paz. A paz é um dos bens mais ansiados, pois vivemos, por causa do tipo de sociedade que construímos, em permanente concorrência, apelos ao consumo e à exaltação da produtividade. A paz não existe em si, pois, ela é consequência de valores que devem ser vividos anteriormente e que têm como resultado a paz. Uma das mais pertinentes compreensões da paz nos vem da Carta da Terra, na qual se diz: “a paz é a plenitude que resulta de relações corretas consigo mesmo, com outras pessoas, com outras culturas, com outras vidas, com a Terra e com o Todo maior do qual somos parte”(n.16 f). Como se depreende, a paz é consequência de relações adequadas e é o fruto da justiça social. Sem estas relações e a justiça só conheceremos tréguas, mas nunca uma paz permanente.

A décima virtude é o cultivo do sentido espiritual da vida. O ser humano possui uma exterioridade corporal com a qual nos relacionamos com o mundo e as pessoas; temos uma interioridade psíquica onde se aninham, na estrutura de desejo, nossas paixões, os grandes sonhos e nossos anjos e demônios que devemos controlar estes últimos e cultivar amorosamente os primeiros. Só assim gozaremos de um equilíbrio necessário para a vida.

Mas possuímos também a profundidade, aquela dimensão onde habitam as grandes interrogações da vida: quem somos, de onde viemos, para onde vamos, o que podemos esperar depois desta vida terrena? Qual é a Energia Suprema que sustenta o firmamento e conserva nossa Casa Comum ao redor do Sol e a mantém sempre viva para nos permitir viver? É a dimensão espiritual do ser humano feita de valores intangíveis como o amor incondicional, a confiança na vida, a coragem de enfrentar as agruras inevitáveis. Damo-nos conta de que o mundo está repleto de sentidos, que as coisas são mais que coisas, pois são mensagens e possuem um outro lado invisível. Intuímos que há uma Presença misteriosa que perpassa todas as coisas. As tradições religiosas e espirituais chamaram a esta Presença de mil nomes, sem, contudo, poder decifrá-la totalmente. É o mistério do mundo que remete ao Mistério Abissal que faz ser tudo aquilo que é. Cultivar este espaço nos humaniza, nos torna mais humildes e nos enraíza numa realidade transcendente, adequada ao nosso desejo infinito.

Conclusão:  ser simplesmente humanos

A conclusão que tiramos destas longas reflexões a propósito do coronavírus 19 é: devemos ser simplesmente humanos, vulneráveis, humildes, ligados uns aos outros, parte da natureza e a porção consciente e espiritual da Terra com a missão de cuidar da herança sagrada que recebemos, a Mãe Terra, para nós e para as futuras gerações.

Inspiradoras são as últimas frases da Carta da Terra: “Que o nosso tempo seja lembrado pelo despertar de uma nova reverência face à vida, pelo compromisso firme de alcançar a sustentabilidade mediante a intensificação da luta pela justiça e pela paz, na alegre celebração da vida”