segunda-feira, 20 de maio de 2024

A quem interessa que a Saúde seja luxo?

 Há vastos exemplos de que sistemas públicos são mais eficientes. Mas modelo hiperfinanceirizado dos EUA se espalha pelo mundo, com remédios caríssimos, marketing trapaceiro e seguros abusivos. Resultado: mortes, sofrimento e dívidas.

OUTRASAÚDE
ALÉM DA MERCADORIA por Ladislau Dowbor
Publicado 13/05/2024 às 11:21 - Atualizado 14/05/2024 às 19:47
Créditos: Mike Reddy/Stat
Tradução: Gabriela Leite
https://outraspalavras.net/outrasaude/a-quem-interessa-que-a-saude-seja-luxo/


A indústria de Saúde tornou-se uma área-chave da atividade econômica. Está sendo rapidamente privatizada, com resultados profundamente negativos, exceto para os poucos felizardos no topo da pirâmide de riqueza. O mercado livre e irrestrito pode funcionar melhor para a escolha de sapatos. Mas para a Saúde, é um desastre. Não é uma questão de ideologia, mas de observar exemplos daquilo que funciona melhor.
(Ladislau Dowbor)

Longe de fornecer Saúde Universal, o legado dos aportes das instituições de financiamento ao desenvolvimento em saúde privada com fins lucrativos tem mais chance de resultar em uma crescente concentração de riqueza e poder nas mãos de um pequeno número de homens escandalosamente ricos¹.

As simplificações ideológicas na economia são uma maldição, e são baseadas não apenas na ignorância, mas sobretudo no interesse financeiro. O Paxlovid, um tratamento recente da Pfizer para covid, com 30 pílulas, está sendo vendido por US$ 1.390 – no entanto, pesquisadores de Harvard descobriram que o custo de produção para o tratamento completo é de cerca de US$ 13. Até onde pode ir esse despropósito? A questão-chave aqui é que as decisões são tomadas não com base em quanto se pode melhorar a Saúde, mas quanto dinheiro é possível extrair, ainda que reduza drasticamente o acesso. Para os algoritmos que calculam a otimização de marketing, é óbvio que, nas comunidades abastadas, os clientes não verão muita diferença entre pagar cem ou mil dólares, ao sentirem que sua saúde está ameaçada – eles são muito sensíveis – e pagarão qualquer preço. Os algoritmos refletirão a lógica que incorporaram: maximizar lucros. A ideologia confere o sentimento de justiça: acumular dinheiro é correto e moral neste esporte.

Poderiam justificar com a alegação de que tiveram que gastar muito em pesquisa. Isso é parcialmente verdadeiro, claro, e válido para várias das grandes corporações farmacêuticas. Mas a verdade é que o enorme progresso feito pela humanidade em pesquisa em Saúde é principalmente herdado dos avanços científicos amplos que nos deram o entendimento do DNA, a microscopia eletrônica, bioinformática, IA, nanotecnologia e tantas transformações estruturais nas bases tecnológicas da pesquisa. Quando uma corporação oferece um produto final, pelo qual a população terá que pagar, mas que a maior parte dos insumos de capacidade de pesquisa usados para produzi-lo foi herdada e paga por nossos impostos, isso representa, como Gar Alperovitz e Lew Daly chamaram, “merecimentos injustos”.

O esquema OxyContin nos revela outra dimensão, na qual causar mortes em grande escala é irrelevante, desde que o produto se pague. A crise dos opioides “evoluiu, começando com pílulas sob prescrição médica e terminando com o fentanil sendo produzido ilicitamente, além de outras drogas que juntas já foram responsáveis por 800 mil vidas americanas nos últimos 25 anos, com previsões de mais um milhão de mortes até o final da década”. As famílias Sackler, Purdue e Johnson & Johnson foram levadas à justiça, mas foram penalizadas com apenas algumas multas: “Os reguladores federais e promotores não foram capazes de aproveitar o momento. Mais uma vez, as grandes farmacêuticas escaparam. Os promotores negociaram um acordo no qual a Purdue pagou uma grande multa, mas foi autorizada a continuar vendendo OxyContin praticamente sem restrições. Foi feito apenas um acordo para que seus executivos se declarassem culpados de contravenções e evitassem a prisão… Os EUA ainda não conseguem aprender as lições de uma catástrofe unicamente norte-americana, são incapazes de romper a influência do dinheiro de grandes corporações sobre a medicina, a regulamentação de drogas e a responsabilidade política”2.

Podemos encontrar milhares de exemplos de fraudes, marketing mentiroso e outras ilegalidades. É possível encontrá-los em uma rápida pesquisa na internet, colocando o nome de qualquer grande corporação farmacêutica junto com “acordos”. A lógica é simples: trata-se de uma área diferente de responsabilidade legal, na qual os culpados pagam somas enormes, mas que são como troco de bala em comparação com seus lucros. Assim, seus donos se livram não apenas da prisão, mas também de admitir culpa. A Wikipedia também fornece uma “lista dos maiores acordos farmacêuticos”, cada um na casa dos bilhões de dólares, por violações da Lei de Reivindicações Falsas  [False Claims Act é uma lei estadunidense que pune entidades ou indivíduos que defraudam programas governamentais] e similares. Tudo é feito com exércitos de advogados e especialistas de primeira linha em negócios, finanças e até mesmo em drogas. Não é uma questão de não saberem o que estão fazendo. E eles interrompem seu programa de TV com uma garota simpática dizendo que esse medicamento será maravilhoso para você.  O consumidor paga por esse comercial, cujo custo está incluído no preço dos produtos. Cerca de 27% do preço de um produto da Johnson & Johnson são para custos de marketing, não para pesquisa.

Esses poucos exemplos se referem à Big Pharma, mas uma lógica similar se aplica a tantos outros serviços de saúde privatizados. A questão que levantamos aqui é: a privatização é compatível com a garantia de vidas saudáveis, ou apenas com os lucros provenientes de serviços de saúde? O problema básico é que um sistema de saúde privatizado, com suporte de regulação pública, que é o modelo dos EUA, é um fracasso sistêmico. É incompetente e ineficiente. No Brasil, como nos EUA e outros países, os oligopólios de saúde assumiram as instituições de regulação. Alega-se frequentemente que a “autorregulação” é suficiente. Mas é um desastre.

Os números são muito explícitos na figura acima. Os gastos com Saúde nos EUA, em 2019, foram de US$ 10.921 per capita, e a expectativa de vida de 77,3 anos. Trata-se do sistema basicamente privatizado e não regulamentado que vimos. No Canadá, onde a Saúde é basicamente pública, gratuita e com acesso universal, o custo per capita foi de US$ 5.048, menos da metade, e a expectativa de vida de 81,7 anos. A lógica não é complexa: nos países onde os sistemas são pensados para garantir a saúde da população de fato, as políticas se concentram, entre outros, na saúde preventiva, na água limpa, no controle de emissões, em vacinas, em cidades mais saudáveis. A preocupação central não está em vender o máximo possível de medicamentos e serviços de cura. Trata-se de saúde, não de negócios.

Este estudo do Banco Mundial é esclarecedor. No Reino Unido, os números correspondentes são US$ 4.313 de gasto per capita e 80,9 anos de expectativa de vida, apesar de tantos ataques ao NHS [Sistema Nacional de Saúde]. A Dinamarca é outro caso interessante onde há serviço de saúde basicamente público: US$ 6.003 e 82 anos. Na França, US$ 4.492 e 82 anos. Em outro nível, Cuba é um exemplo interessante, com gastos de US$ 1.032 e 79 anos, superior aos 77 anos dos EUA. Para o Brasil, os números são US$ 853, e uma expectativa de vida de 76 anos, graças, em grande medida, ao Sistema Único de Saúde. Os grupos de seguro de saúde brasileiros, alguns deles propriedade de corporações de saúde privadas dos EUA como United Health, ou da indústria de gestão de ativos como BlackRock, são um exemplo impressionante de ineficiência sistêmica. Eles drenam recursos financeiros de cerca de 50 milhões de pessoas. Mas quando você se aposentar, não poderá mais pagar por eles, na idade em que mais precisaria.

Os serviços de saúde privados tornaram-se uma enorme arena financeira. No geral, os serviços de saúde representam quase 20% do PIB nos EUA – é sua maior indústria, com resultados dramaticamente pobres, a menos que você esteja no clube dos ricos com acesso a ilhas de serviços de saúde privados de luxo. “Enquanto isso, um terço dos americanos sem seguro não pode pagar seus medicamentos, e quase metade dos que não têm cobertura solicitou aos médicos opções mais baratas. A presidente da Câmara dos Deputados, Nancy Pelosi (Democrata da Califórnia), apresentou na semana passada o plano de seu partido para permitir que o governo participe da definição dos preços dos medicamentos prescritos. O projeto foi nomeado de ‘Ato para Reduzir Agora os Custos dos Medicamentos’³.” Eles ainda estão lutando.

O que é impressionante é que os EUA oferecem o modelo mais ineficiente e caro, mas é ele que está sendo gradualmente expandido em muitos países. Porque é lucrativo, mesmo que deixe a maior parte da população em situações dramáticas. A razão é que faz parte de um sistema financeiro integrado global. Eu pago a uma faxineira, um dia por semana, para limpar minha casa em São Paulo. Ela tem problemas de saúde, então entrou em um grupo de seguro saúde privado, o Notre Dame. Verifiquei dados sobre essa corporação e encontrei, entre seus investidores, a BlackRock. Assim, parte do que pago a uma pessoa modesta no Brasil é transferida para acionistas internacionais, em frações de segundo, como dinheiro virtual. Esta capilaridade de drenos financeiros com dinheiro virtual funciona em escala mundial. Precisamos de saúde, e em situações desesperadoras pagamos qualquer coisa, e nos endividamos – ou adiamos a busca por cuidados até que as coisas piorem, e fiquem mais caras. É um sistema de gestão globalmente falho.

Há uma óbvia dimensão ética. Tornar o acesso à saúde mais difícil, para ganhar mais dinheiro, é simplesmente imoral. E as empresas ganham mais dinheiro quando atende aos mais ricos. Que haja tanta desgraça em um país abastado como os EUA é algo simplesmente absurdo. O que os gigantes da gestão de ativos sabem sobre serviços de saúde, exceto em relação a quanto dinheiro podem extrair? Mas a dimensão econômica é igualmente absurda. E trata-se de economia básica: com muitos produtores e uma riqueza de escolhas, a concorrência pode estimular melhores produtos e preços. Não é o que acontece no caso do sistema de saúde.

Um amigo médico resumiu de forma clara para mim: ele trabalha em um hospital privado e precisa cumprir cotas de procedimentos, que o hospital cobrará do seguro saúde, que por sua vez dificulta a aprovação de procedimentos, exigindo que se avalie caso a caso. O grupo de seguro de saúde cobrará tanto quanto possível dos clientes. Ele geralmente está ligado a uma grande gestora de ativos, e o retorno para os investidores é central. No triângulo entre o médico, o hospital e os seguros de saúde, os interesses do paciente vêm por último. É caro e ineficiente – e aumenta o PIB. Mas o que precisamos é de mais saúde, serviços melhores e mais baratos. Quando você aumenta custos e preços, você aumenta o PIB, mas da maneira errada.

A ideia básica que estou tentando transmitir aqui é que algumas atividades funcionam claramente melhor em um ambiente de mercado livre, como produzir bicicletas, tomates ou abrir um bar. Mas colocar nossa saúde nas mãos de corporações financeiras em um ambiente de maximização de lucros é um tributo à incompetência. E as mortes e sofrimento resultantes são dramáticos, sem falar no sentimento permanente de insegurança, para nós e para nossas famílias. É apenas uma questão de seguir os exemplos comprovados do que funciona melhor: acesso público universal gratuito. Quanto tempo mais os norte-americanos continuarão cruzando a fronteira para o Canadá?


1 Private health companies prosper while healthcare access stagnates, Peoples Health Dispatch, 2023.

2 ‘I don’t see how it ends’: expert sounds alarm on new wave of US opioids crisis, Chris McGreal, 2024.

3 Big Pharma Invests Millions as Congress Prepares Drug Pricing Bills, Yue Stella Yu, 2019. 

 

A terceira guerra mundial - Nizan Guanaes - 05_25

 Texto muito interessante e bem escrito pelo Nizan Guanes (abaixo). Como ele coloca, “não vou escrever um texto ingênuo”, e realmente não escreve. Porém, segundo ele, o futuro, se concertado, o será no sistema capitalista. O que discordo.

Quando coloca que natureza é receita; preservação é despesa, só concorda quem vive do mundo financeiro, faceta atual do capitalismo. Para quem acredita ser possível uma outra visão, a preservação como a educação e saúde, são investimentos e não despesas. Pois a consequência, seria a diminuição dos custos futuros em saúde, educação e nas obras de reconstrução. O problema dos capitalistas, é que este retorno seria lento e não imediato como hoje. Por exemplo: a Pfizer lançou um remédio para o combate ao COVID, ao custo de 1300 dólares a caixa. Havard, após estudos, informa que o custo de produção da caixa, seria de 13 dólares. A primeira classe do Titanic (citada no texto), além dos botes salva-vidas reservados (Elysiuns, Marte), não teriam problema em pagar os 1300 dólares da caixa. Já os “Jack Dawson”, o personagem do di Caprio...

A solução não está na velocidade das ditaduras em tomarem decisões ou dos Churchill e De Gaulles verdes. Nada sem discussão funciona. O problema de hoje, está justamente no conceito imposto, “tempo é dinheiro”. Não! Tempo, é o que precisamos para pensar e investir no que pode dar alguma sobrevida ao Planeta, de maneira a não termos que nos preocupar com os netos e filhos. Fast Food, não alimenta, adoece. A obesidade cresceu tanto, por conta dos fast food, que inventaram mais uma graduação para cima: obesidade mórbida. Para que os obesos, pudessem continuar se alimentando sem culpa. Segundo Saramago, escritor português, “sem pressa, mas não percamos tempo”.

No mais, como coloca o texto, é mais um aviso para que mudemos o nosso rumo. Pois pouquíssimo destes quase 8 bi de pessoas no mundo, muito pouco mesmo, terão lugar nos Elysiuns ou em Marte, se for possível.


Sérgio Mesquita
Há braços

A terceira guerra mundial
(por Nizan Guanaes para o Estadão)

Em vários lugares do mundo, já começou a terceira guerra mundial. Não será entre países, mas a guerra entre o homem e a natureza. Uma guerra que evidentemente não podemos ganhar.

Quando pensamos na natureza, pensamos nela de forma poética e telúrica. Mas terremoto é também natureza; tsunami também é natureza; seca, nevasca, chuvas torrenciais, avalanche – é tudo natureza. A natureza está agindo em legítima defesa. Ela não aguenta mais ser invadida, desrespeitada, queimada.

O que é o Rio Grande do Sul? É a morte anunciada de Gabriel García Márquez. Não vou escrever mais um texto ingênuo sobre o assunto. É tudo uma questão contábil: explorar a natureza é receita; preservação é despesa. E ninguém está disposto a pagar, nem o consumidor.

Mas o que tem a ver este texto “bicho grilo” neste jornal tão circunspecto? Tem tudo. Estive ano passado em Davos, sobre uma discussão sobre aquecimento global, e para meu estarrecimento e pânico, de uma mesa de 12 debatedores, 10 eram as grandes seguradoras do mundo. Elas tinham dados mais assustadores que o Greenpeace e sabiam avaliar as perdas catastróficas que aconteceriam a cada décimo de aquecimento global.

O aquecimento global é fato e fato econômico. Napoleão e Hitler perderam a guerra porque foram lutar contra um general chamado Inverno. Estamos entrando numa guerra que não podemos vencer. A devastação do Rio Grande do Sul é um drama humano: centenas de mortes humanas, milhares de mortes empresariais. Uma catástrofe fiscal, desempregadora.

Assisti a uma palestra no Itaú BBA Conference em Nova York de Al Gore, que fez o famoso documentário “Uma Verdade Inconveniente”. Hoje, ele poderia fazer outro documentário chamado “I Told You” (eu te disse).

Todos os leitores deste jornal estão ocupados em gerar e gerir patrimônio em sucessão familiar. Então eu chamo esta comunidade a pensar nos nossos filhos e netos. Seus filhos pequenos vão enfrentar um mundo muito difícil, nossos netos vão enfrentar um desastre.

Está na hora de ouvir quem mais entende de desastres climáticos: as seguradoras mundiais. Agora vamos colocar os pingos nos iis: o planeta não vai acabar, quem vai acabar são os seres humanos.

Você nunca se perguntou como o Titanic afundou? Como eles não viram um iceberg gigantesco? Simples: eles se achavam indestrutíveis. Não dá para negar que temos feitos avanços suficientes para gerar uma economia verde (que pode ser muito lucrativa).

Mas os projetos verdes devem ter processos de aprovação (que são infindáveis) mais céleres, muitos incentivos fiscais. O futuro precisa ter um fast track, o futuro tem que ser lucrativo. Chega de poesia.

Só se fala em inteligência artificial, mas a burrice anda mais rápido que a inteligência. A inteligência tem limites, a burrice não.

Os organismos multilaterais estão de mãos atadas por regras inoperantes. As ditaduras se movem muito mais rápido que a democracia, com suas infindáveis instâncias. E faltam Churchill e De Gaulles verdes.

No Rio Grande do Sul, a natureza não poupou ninguém. Os pobres perderam muito do pouco que tinham e os ricos, muito do muito que têm.

Este é mais um texto que os ricos não lerão porque estão cansados de textos assim e têm uma reunião hoje de manhã. Eles são regidos por um mercado sem alma. E os pobres não vão ler porque muitos não sabem nem ler.

A bomba atômica é um traque de São João. A caminho de Davos, vi, em pleno inverno, mas os mandatários não veem nem avalanches nem falta de neve porque estão no celular.

A natureza está avisando, tchê. Sirva nossa tragédia de aviso a toda a Terra.

Sou capitalista liberal. Gosto de dinheiro, de margem, mas não sou cego nem surdo. Senhores, estamos na primeira classe do Titanic.

segunda-feira, 13 de maio de 2024

Ciência burra, idiotas políticos e selvagens morais

 Uma crônica de Ladislaw Dowbor. Sob ideais elevados, podridão é orgásmica – por isso, Big Techs, poluidoras e genocidas investem no ódio coletivo. Se a deformação social é a regra, reconstruir a democracia exige compreender o quão enredados estamos ao horror…

 OUTRASPALAVRAS / CRISE CIVILIZATÓRIA por Ladislau Dowbor Publicado 10/05/2024 às 20:09

Tradução: Glauco Faria

 As complexas deformações sociais que enfrentamos tornaram-se um sistema fortemente interligado: no nível individual, a agressão ou mesmo o ódio são facilmente estimulados; as plataformas globais de redes sociais maximizam esses sentimentos por meio de IA e algoritmos; as sociedades financeiras contribuem com algoritmos.

 Certa vez, um aluno me perguntou como eu via o ser humano: somos humanos naturalmente bons, deformados pelas instituições, em uma visão um tanto quanto rousseauniana de le bon sauvage, ou um primata desesperadamente pervertido? O fato básico é que conseguimos tornar a vida miserável uns para os outros, e para todos nós, enquanto inventamos um belo discurso sobre “amar uns aos outros”, “fazer aos outros…” etc. A questão básica é se a ideia de que ajudar uns aos outros constrói uma vida decente na Terra é viável. E isso não diz respeito apenas aos indivíduos: as empresas reivindicam ESGs e continuam a destruir nosso futuro, os políticos reivindicam sua dedicação ao bem comum, e lá vamos nós para a COP29 – sim, 28 anos discutindo o que devemos fazer e não fazendo nada a respeito – enquanto a bagunça global se aprofunda.

 Não se trata apenas de privilégios absurdos no topo e de instabilidade econômica para muitos. Uma das principais causas do sofrimento é o sentimento generalizado de insegurança, que penetra todas as nossas vidas, insegurança quanto ao nosso futuro e ao dos nossos filhos. Precisamos disso? Se alguns de nós – os poucos felizes – acreditam que são os capitães gloriosos, a maioria é mais realista. Certa vez, conheci um poderoso ex-ministro africano que cultivava um arrozal: assim é, comentou ele, um dia você é ministro, no dia seguinte você está na “bolanha”, o arrozal lamacento. Certamente podem ser estimulantes os altos e baixos da vida, mas a facilidade com que você pode perder sua casa, ver seus filhos passarem fome e a família se afogar em dívidas – sem falar em assassinatos, tortura, guerras absurdas com violência que varia desde crianças violadas até bombardeamentos de alta tecnologia – empurra-nos para uma batalha permanente uns contra os outros, mesmo sabendo que a única coisa que funciona é a colaboração. Parece que as vantagens individuais de curto prazo, misturadas umas com as outras, assumiram o controle.

 E quanto mais inseguras as pessoas se sentem, mais elas lutam e mais acirrada é a competição. Chamam isso de liberdade, você está preparando seu próprio sofá e é assim que vai dormir. Esse é um ditado polonês. Mas quantos de nós temos escolha e sobre o que são essas escolhas? Estamos enfrentando um drama comum e é deprimente ver bilionários lutando para chegar ao topo da escala, sem perceber que todo o terreno está afundando. Sim, é apenas uma imagem, mas é a realidade. Eles não só lutam, mas constroem ativamente um sistema empresarial e político para maximizar as suas vantagens, à custa de uma desigualdade explosiva e de um desastre ambiental. Alguns constroem bunkers, outros afirmam que poderíamos ir para outro planeta, depois de termos arruinado este. Uma perigosa mistura de poder e infantilidade.

 Não perceber as nossas dimensões irracionais é simplesmente perigoso. E obviamente pouco inteligente. Não há nada como a história que sugira que poderíamos substituir o conceito de homo sapiens pelo de homo demens. Você já pensou que em nenhum momento da história registrada da humanidade deixamos de matar uns aos outros? Em cada guerra ou massacre que estudamos, somos levados a definir quem eram os mocinhos e quem eram os maus. E se a própria incapacidade de viver em paz e em colaboração, que seria sem dúvida mais proveitosa para todos, fosse o objeto da nossa análise? Gosto muito do texto de Frans de Waal,  Our Inner Ape, no qual fica evidente o quanto nos comportamos, em termos de defesa de nossos territórios ou tribos políticas, de forma muito parecida com nossos parentes mais próximos, os chimpanzés. Guerras tribais, guerras nacionais, guerras mundiais, alguma delas faz algum sentido?  1

 Em outro belo texto, The Righteous Mind, Jonathan Haidt analisa nossas motivações e, em particular, como conseguimos embelezá-las. A Ku-Klux Klan massacrou para proteger as virgens brancas e queimou casas para civilizar os negros, os nazis limparam a raça, as guerras de religiões mataram e torturaram por todo o lado segundo as ordens expressas dos seus respectivos deuses, a Inquisição torturou mulheres, de preferência nuas, para extirpar o demônio que se apoderou de suas almas. No Vietnã, mataram dois milhões; na Argélia, um milhão; na Segunda Guerra Mundial, 60 milhões, o Oriente Médio aumenta a conta todos os dias. Tudo em nome dos ideais mais elevados. O que Haidt deixa claro é como é prazeroso e profundamente satisfatório dar rédea solta ao que há de mais podre dentro de nós, em nome dos ideais mais elevados. É o orgasmo final. O ódio justificado gera gozo irreprimível. É ignorância? Sem dúvida, mas não faltam diplomas: metade dos médicos alemães aderiram ao partido nazista.  2

 Barbara Tuchman não tem muita confiança na lógica do poder ou na inteligência dos grupos que o exercem.

 A ausência de pensamento inteligente no exercício do poder é outro fato universal, que levanta a questão de até que ponto, nos Estados modernos, há algo na vida política e burocrática que reduz o funcionamento do intelecto em favor do “manuseio das alavancas” sem levar em conta as expectativas racionais. Essa parece ser uma perspectiva válida. 3 (pág. 398)

 A filosofia que permeia os escritos de Barbara Tuchman é sem dúvida o resultado dos seus próprios estudos de história, mas o seu ceticismo relativamente ao exercício do poder tem raízes mais antigas. O autor lembra Platão:

 Ele também teve que aceitar que seus semelhantes estavam ancorados na vida dos sentimentos, agitados como marionetes pelos fios dos desejos e medos que os fazem dançar. Quando o desejo não está de acordo com o julgamento da razão, disse ele, há uma doença na alma. E quando a alma se opõe ao conhecimento, ou à opinião, ou à razão, que são as suas leis naturais, isso eu chamo de loucura. 3 (pág. 404)

 Provavelmente o maior interesse do livro de Haidt é que ele nos permite compreender um pouco melhor esse poço obscuro dentro de nós, uma mistura de empatia, ódio e identificações políticas, ao detalhar, com base em pesquisas, a diversidade de motivações. Ele trabalha com uma “matriz moral” de seis motivações: o cuidado, que nos faz evitar causar danos aos outros, querendo diminuir o sofrimento; liberdade, com o seu correspondente repúdio à opressão; justiça, que nos faz buscar tratamento igualitário e evitar trapaças; a lealdade, que nos faz buscar adotar os valores do nosso grupo, considerando como traidores aqueles que não os adotam; a autoridade, que nos faz considerar ético o que os líderes decidem e chamar de subversivos aqueles que se rebelam; santidade, ligada a valores sagrados como tradições ou razões religiosas, o que pelo lado negativo nos faz condenar ao fogo do inferno aqueles que acreditam em outras cosmovisões.  2  (pág. 297)

 Enquanto os três primeiros grupos de motivações, cuidado, liberdade e justiça, nos levam a um mundo colaborativo, os três últimos, lealdade, autoridade e santidade, facilmente nos transformam em monstros. Na verdade, não apenas monstros, como nos mostrou Hannah Arendt, mas monstros burocráticos. Christopher Hitchens nos mostra como Henry Kissinger abriu o caminho com habilidade e paciência e justificou mais massacres no Vietnã, no Chile com Pinochet, na Argentina com Videla, na Grécia e Chipre com Papadopoulos, na Indonésia com Suharto, para mencionar alguns.  4  O fato de ele ser essencialmente um realista nos torna conscientes de quão vergonhoso é o que construímos. Os mais de seis milhões de mortos na República do Congo mal chegam aos nossos manuais de história.  5

 Max Fisher, no seu recente estudo sobre conflitos gerados por algoritmos de redes sociais, The Chaos Machine, torna a questão muito mais transparente.  6 Fisher dedica capítulos a Mianmar, onde o ódio entre comunidades de diferentes religiões levou a massacres de minorias, mas também ao Sri Lanka, apresentando o caso dos Estados Unidos, do Brasil, da Índia, da Alemanha e de outras regiões europeias com a ascensão do fascismo ou movimentos neonazistas. De repente, os fanáticos ideológicos encontram não apenas formas de falar com o mundo, mas os algoritmos das plataformas aumentam de forma desproporcional o alcance os seus discursos. Em dezembro de 2022, o Facebook reportava ter 2,96 bilhões de utilizadores mensais: uma deformação global.

 Estimular as divisões sociais, o ódio e o fanatismo não era uma opção dos criadores do universo da comunicação social. Para a Meta, 98% da receita vem de publicidade, e a publicidade é precificada de acordo com o número de pessoas que atinge, os chamados m-DAUs (monetizable Daily Average Users, unidade de conta utilizada nas negociações de compra do Twitter por Elon Musk). Assim, todo o sistema busca mensagens que maximizem a atenção: para vender mais espaço publicitário, o objetivo é maximizar o compartilhamento, e os algoritmos são instruídos a canalizar, estimular ou abafar as mensagens de bilhões de usuários de acordo com esse critério, com a IA ajudando a encontrar as reorientações necessárias. Dado que as polarizações emocionais, em particular os sentimentos de identidade de grupo e de ódio tribal, são motivadores poderosos, acabam dominando as redes sociais.

 Em outras palavras, a deformação é incorporada e construída de forma inteligente pelo próprio critério de maximização, guiado por sua vez pelo interesse geral de maximizar o retorno financeiro. Em termos gerais, é inconsciente, quase animalesco e, portanto, facilmente manipulado por líderes oportunistas ou algoritmos em busca de lucro. Provavelmente ambos.  6 (pág. 243)

 Mesmo que Trump, Bolsonaro e outros líderes tenham utilizado companhias como a Cambridge Analytica e outras empresas de divulgação direcionadas por algoritmos, a realidade é que, no quadro da política de maximização da atenção das próprias plataformas, as pessoas foram levadas à polarização e a reações fanáticas à medida que viram seus preconceitos tão reproduzidos e compartilhados. As plataformas geraram, de fato, um sistema de seleção negativa. Uma pesquisa com 300 milhões de comentários descobriu como tratar pessoas e fatos em termos morais e emotivos exacerbados traz à tona os instintos de ódio e violência no público – que é, afinal, exatamente o que as plataformas sociais fazem, em uma escala de bilhões, a cada minuto de todos os dias… Sociedades inteiras estimuladas ao conflito, à polarização e à fuga da realidade – para algo como o trumpismo.  6  (pág. 211)

 Projetar a IA certamente mostra o quão inteligentes podemos ser, mas os resultados, ao revelarem o que nos estimula de forma mais poderosa, também mostram os idiotas políticos e os selvagens morais que podemos ser. Os algoritmos simplesmente navegaram com base em nossos motivos mais poderosos. E as plataformas programadas para maximizar a atenção e os lucros simplesmente seguiram em frente. Quem investiu nas plataformas, hoje os gigantes (Amazon, Apple, Alphabet, Microsoft, Meta, Nvidia) olha apenas para os dividendos resultantes. A indústria de gestão de ativos (BlackRock, State Street, Vanguard e similares) baseia-se em algoritmos que direcionam os fluxos de dinheiro para a maximização de dividendos. E os políticos tendem a navegar nas ondas mais poderosas.

 Onde vou, preocupado com minha pensão, colocar meu dinheiro? Pois bem, o lucro líquido da Microsoft no último ano fiscal foi de 34,1%, pago por todos nós. Eu brinco com o sistema. Sim, é um sistema.

 Assim, Frans de Waal, que passou a vida investigando os chimpanzés e como seu comportamento poderia ser “humano”, mais recentemente inverteu a perspectiva e ficou surpreso com o quão simiescos os humanos podem ser. Não se tratava de bons ou maus, mas de pessoas. As muitas investigações sobre o papel dos algoritmos nas redes sociais levaram Max Fisher a concluir que investir no animal que existe em nós é de fato um bom negócio, porque estas são as motivações mais poderosas, e esta compreensão define as prioridades de grande parte do mundo corporativo. Barbara Tuchman, analisando as decisões políticas de quatro presidentes americanos, todos eles pessoalmente convencidos de que a guerra no Vietnã não poderia ser vencida, nos mostra quão sistêmica se tornou toda a deformação política. Jonathan Haidt faz o seu trabalho como psicólogo social, exibindo um conjunto de motivações, tanto negativas como positivas, mas não é otimista. E muitos políticos modernos, em tantos países, compreenderam que a utilização dos meios de comunicação social, das notícias falsas e, acima de tudo, do discurso de ódio – os imigrantes podem ser muito úteis – é uma estrada real para o poder. Se juntarmos as nossas motivações individuais, o poder corporativo e o oportunismo político, a combinação é mais do que preocupante. As peças são misturadas.

 É este o pessimista em mim falando? Pois bem, olhando para Trump, Milei, Bolsonaro, Orbán, Netanyahu, Meloni e tantos outros em ascensão, mesmo na Holanda e na Suécia, temos motivos para ser pessimistas. Mas a chave para levar a sociedade a um caminho mais democrático começa precisamente com a compreensão de como os nós estão amarrados. Acabamos de terminar a COP28, vinte e oito anos sugerindo que temos um problema. Não é um problema, é uma catástrofe.


Notas

1  Frans de Waal,  Nosso macaco interior . Riverhead Books, 2006.
2  Jonathan Haidt,  The Righteous Mind: por que as pessoas boas são divididas pela política e pela religião . Vintage, 2013.
3  Barbara W. Tuchman,  A Marcha da Loucura: de Tróia ao Vietnã , Random House, Nova York, 2014, p.470.
4  Christopher Hitchens, O Julgamento de Henry Kissinger, Twelve, Nova York, 2002.
5  Adam Hochschild,  O Fantasma do Rei Leopoldo: uma história de ganância, terror e heroísmo na África colonial , Houghton Mifflin, Nova York, 1999.
6  Max Fisher,  The Chaos Machine: a história interna de como a mídia social reconectou nossas mentes e nosso mundo , Back Bay Books, 2023.

segunda-feira, 6 de maio de 2024

Harvey debate Socialismo e Liberdade

 “Quando a direita captura um conceito essencial, um projeto emancipador precisa ressignificá-lo. Não a partir do individualismo, mas da justiça social e do resgate do tempo que o capital sequestra. Pois só uma vida digna pode ser livre.”

OUTRASPALAVRAS

por David Harvey

Publicado 03/05/2024 às 19:36 - Atualizado 03/05/2024 às 19:46

Este é um capítulo de Crônicas anticapitalistas, livro de David Harvey publicado pela Editora Boitempo.

A direita sequestrou o conceito de liberdade; apropriou-se dele, como se este fosse seu, e passou a utilizá-lo como arma na luta de classes contra os socialistas, que supostamente representariam a “ausência de liberdade”. Esse fenômeno é bastante visível nos Estados Unidos, mas está longe de ser exclusivo do país. Estive há pouco tempo no Peru participando de uma série de conferências e foi levantado o tema da liberdade. Os estudantes estavam muito interessados na questão: “O socialismo exige abrir mão da liberdade individual?”. Eles traziam o discurso de que era preciso evitar a todo custo a submissão, imposta pelo socialismo/comunismo, do indivíduo ao controle estatal. Respondi que a liberdade individual não só faz parte como deve ter centralidade em qualquer projeto socialista emancipatório. Insisti que concretizar as liberdades individuais é um objetivo central dos projetos emancipatórios socialistas. Mas argumentei que para alcançar isso é preciso construir coletivamente uma sociedade na qual cada um de nós tenha oportunidades e possibilidades de vida adequadas para realizar plenamente as nossas potencialidades

Marx tinha algumas coisas interessantes a dizer sobre essa questão. Uma delas é que “o reino da liberdade só começa onde cessa o trabalho determinado pela necessidade e pela adequação a finalidades externas” [1]. Liberdade não significa nada se você não tem o que comer. Liberdade é uma palavra oca se lhe é negado o acesso a saúde, moradia, transporte e educação decentes. A função do socialismo é fornecer essas necessidades básicas, satisfazer essas necessidades humanas básicas para que as pessoas fiquem livres para fazerem exatamente o que quiserem. O ponto de chegada de uma transição socialista, e o ponto de chegada da construção de uma sociedade comunista, é um mundo em que as capacidades e poderes individuais estão inteiramente libertos de vontades, necessidades e outras amarras políticas e sociais. Em vez de entregar à direita o monopólio da noção de liberdade individual, precisamos reivindicar a ideia de liberdade para o socialismo.

Mas Marx também observa que a liberdade é uma faca de dois gumes. Ele tem uma forma curiosa de olhar para isso do ponto de vista dos trabalhadores. Os trabalhadores em uma sociedade capitalista, diz Marx, são livres num duplo sentido. Eles têm a liberdade de oferecer sua força de trabalho para quem bem entenderem no mercado de trabalho. Podem oferecê-la em quaisquer condições contratuais que conseguirem negociar livremente. Ao mesmo tempo, eles estão “livres” de todo e qualquer controle ou acesso aos meios de produção. Precisam, portanto, entregar sua força de trabalho ao capitalista para conseguir seu sustento [2].

Eis a sua liberdade de dois gumes. Para Marx, essa é a contradição central da liberdade sob o capitalismo. No capítulo d’O capital sobre a jornada de trabalho [3], ele oferece a seguinte formulação: o capitalista é livre para dizer ao trabalhador: “quero empregá-lo com o menor salário possível pelo maior número de horas possível fazendo exatamente o trabalho que eu especificar. É isso que exijo para contratá-lo”. E o capitalista tem liberdade de fazer isso numa sociedade de mercado porque, como sabemos, a sociedade de mercado tem a ver com oferta, demanda e negociação. Por outro lado, o trabalhador também tem a liberdade de dizer: “Você não tem direito de me fazer trabalhar catorze horas por dia. Você não tem o direito de fazer o que quiser com a minha força de trabalho, particularmente se isso encurtar a minha vida e colocar em risco a minha saúde e bem-estar. Só estou disposto a fazer uma jornada de trabalho justa por um salário justo”.

Dada a natureza da sociedade de mercado, tanto o capitalista quanto o trabalhador estão corretos em termos do que cada um está exigindo. “Ambos”, diz Marx, estão “igualmente apoiados na lei da troca de mercadorias. Entre direitos iguais, quem decide é a força”[4]. Ou seja, é a luta de classes entre capital e trabalho que define a questão. O resultado repousa na relação de poder entre capital e trabalho, que pode sempre se tornar coercitiva e violenta. É a luta entre capital e trabalho que efetivamente determina a extensão da jornada de trabalho, o salário e as condições de trabalho. O capitalista é livre para maximizar a taxa de exploração dos trabalhadores sob a lei da troca de mercadorias; e o trabalhador é livre para resistir. A colisão entre as duas liberdades está embutida no dia a dia do capitalismo.

Essa ideia de liberdade como uma faca de dois gumes é muito importante de ser analisada em detalhes. Uma das melhores elaborações sobre o tema é de um historiador econômico chamado Karl Polanyi. Veja, Polanyi não era marxista. Não subscrevia à visão marxista das coisas, mas com certeza leu Marx e evidentemente refletiu bastante sobre essa questão de direitos e a questão da liberdade sob o capitalismo. Em A grande transformação, Polanyi diz que existem boas formas de liberdade e más formas de liberdade. Entre as más formas de liberdade que elenca estavam as liberdades de explorar sem limites os seus semelhantes; a liberdade de obter ganhos excessivos sem prestar um serviço proporcional à comunidade; a liberdade de impedir que invenções tecnológicas sejam usadas para benefício público; a liberdade de lucrar com calamidades públicas ou calamidades naturalmente induzidas, algumas das quais são secretamente projetadas para tanto (uma ideia que Naomi Klein discute em A doutrina do choque [5]). No entanto, continua Polanyi, a economia de mercado sob a qual essas liberdades se alastraram também produziu liberdades que prezamos muito: liberdade de consciência, liberdade de expressão, liberdade de reunião, liberdade de associação, liberdade de escolher o próprio emprego. Por mais que valorizemos essas liberdades por si mesmas – e penso que muitos de nós ainda o fazemos, mesmo os marxistas (eu incluso) –, elas são, em grande medida, subprodutos da mesma economia que também é responsável pelas liberdades malignas.

A resposta de Polanyi a essa dualidade pode soar muito estranha dada a atual hegemonia do pensamento neoliberal e a forma pela qual a liberdade nos é apresentada pelo poder político existente. Ele escreve: “O fim da economia de mercado” – isto é, a superação da economia de mercado – “pode se tornar o início de uma era de liberdade sem precedentes” [6]. Ora, essa é uma afirmação um tanto chocante – dizer que a liberdade real começa a partir do momento que deixarmos a economia de mercado para trás. Ele continua:

A liberdade jurídica e real pode se tornar mais ampla e mais geral do que em qualquer tempo; a regulação e o controle podem atingir a liberdade, mas para todos e não apenas para alguns. Liberdade não como complemento do privilégio, contaminada em sua fonte, mas como um direito consagrado, que se estende muito além dos estreitos limites da esfera política e atinge a organização íntima da própria sociedade. Assim, as antigas liberdades e direitos civis serão acrescentados ao fundo da nova liberdade gerada pelo lazer e pela segurança que a sociedade oferece a todos. Uma tal sociedade pode-se permitir ser ao mesmo tempo justa e livre. [7]

Agora, essa ideia de uma sociedade baseada em justiça e liberdade me parece ter sido pauta política do movimento estudantil dos anos 1960, e da assim chamada Geração 68. Havia uma demanda generalizada por justiça e liberdade: liberdade da coerção estatal, liberdade da coerção imposta pelo capital corporativo, liberdade das coerções do mercado, mas também temperadas pela demanda por justiça social. Foi nesse contexto que escrevi o meu primeiro livro radical, Justiça social e a cidade [8]. A resposta política que o capitalismo deu a isso na década de 1970 foi interessante. Tratou-se, como vimos no capítulo 2, de “ceder” e incorporar certas pautas de liberdade individual como forma de escamotear as demandas de justiça social. Ceder no quesito liberdades foi um movimento circunscrito. Significou, basicamente, a liberdade de escolha no mercado. Ou seja, o livre-mercado e a liberdade em relação à regulação estatal foram as respostas dadas à questão da liberdade. Quanto à justiça social, o próprio mercado cuidaria disso com seus mecanismos de concorrência, supostamente tão organizados que garantiriam a cada um o que lhe seria justo e devido. O efeito, no entanto, foi fomentar muitas das liberdades malignas (por exemplo, a exploração dos outros) em nome das liberdades virtuosas.

Polanyi identificou com clareza essa guinada. A passagem ao futuro vislumbrado está bloqueada por um obstáculo moral que ele denomina “utopismo liberal”. Penso que ainda enfrentamos os problemas postos por essa utopia do livre-mercado. É uma ideologia muito presente na mídia e nos discursos políticos. O utopismo liberal do Partido Democrata, por exemplo, é uma das coisas que impede a realização de uma verdadeira liberdade. “O planejamento e o controle”, escreveu Polanyi, “vêm sendo atacados como negação da liberdade. A empresa livre e a propriedade privada são consideradas elementos essenciais à liberdade.” [9] Essa era a visão que os principais ideólogos do neoliberalismo promoviam. É isso que Milton Friedman e Friedrich Hayek vivam martelando: que a liberdade do indivíduo perante a dominação estatal só pode ser assegurada numa sociedade baseada nos direitos à propriedade privada e à liberdade individual em mercados livres e abertos.

O planejamento e o controle são, portanto, atacados como sendo negações da liberdade; e postula-se a propriedade privada como essencial à liberdade. Nas palavras de Polanyi: “Não é digna de ser chamada ‘livre’ qualquer sociedade construída sobre outros fundamentos. A liberdade que a regulação cria é denunciada como não liberdade; a justiça, a liberdade e o bem-estar que ela oferece são descritos como camuflagem da escravidão”. [10] Para mim, essa é uma das questões-chave do nosso tempo. Seremos capazes de ir além das liberdades limitadas do mercado, das suas determinações e da regulação das nossas vidas pelas leis da oferta e da demanda (aquilo que Marx denominou as leis do movimento do capital), ou simplesmente aceitaremos, como disse Margaret Thatcher, que não há alternativa? Tornamo-nos livres do controle estatal, mas escravos do mercado. A isso não há alternativa. Para além disso, não há liberdade. É o que prega a direita, e é o que muitas pessoas passaram a acreditar.

Eis o paradoxo da nossa atual situação: que em nome da liberdade acabamos no fundo adotando uma ideologia liberal utópica que efetivamente funciona como uma barreira à realização de uma liberdade real. Penso que não faz sentido falar em um mundo livre quando alguém que quer uma educação precisa desembolsar uma enorme quantia de dinheiro para obtê-la, a ponto de contrair dívidas estudantis que acabam por colonizar boa parte do seu futuro. Isso é servidão por dívida, é peonagem. E é algo que precisa ser evitado e circunscrito. A educação precisa ser gratuita; ninguém deveria pagar para se educar. O mesmo vale para saúde e moradia, bem como os elementos básicos para garantir uma nutrição saudável.

Observando de uma perspectiva histórica, passamos de um mundo, nos anos 1960, em que se oferecia moradia social, para um mundo em que isso não existe mais. Na Inglaterra, por exemplo, uma grande parcela da provisão habitacional na década de 1960 se encontrava no setor público; era moradia social. Na minha infância, essas moradias populares constituíam um fornecimento básico de uma necessidade, a um custo relativamente baixo. Depois veio Margaret Thatcher e privatizou tudo, com um discurso de que as pessoas seriam muito mais livres se pudessem ser donos dos seus imóveis de modo a participar de uma “democracia de proprietários”. E assim, em vez de 60% da moradia se concentrar no setor público, de repente passamos a uma situação em que apenas cerca de 20% (ou até menos que isso) da habitação é pública. A moradia vira uma mercadoria que, por sua vez, torna-se parte de uma atividade especulativa. À medida que se converte em veículo de especulação, o preço do imóvel sobe e o resultado é uma elevação no custo da moradia sem que haja um aumento efetivo na provisão habitacional direta.

Fui criado naquilo que se poderia denominar uma comunidade respeitável de classe trabalhadora em que as pessoas tinham casa própria. A maior parte das pessoas da classe trabalhadora não tinha casa própria, mas havia um segmento que tinha, e a comunidade em que cresci pertencia a esse segmento. A casa era vista como valor de uso; isto é, era um lugar em que morávamos e fazíamos coisas – nunca falávamos sobre seu valor de troca. Recentemente vi alguns dados que mostravam que, até a década de 1960, o valor das moradias de classe trabalhadora não apresentou nenhuma mudança ao longo de cem anos ou mais.

A partir dessa década, no entanto, a moradia começou a ser vista como valor de troca, em vez de valor de uso. As pessoas começaram a indagar sobre o valor monetário desses imóveis e a indagar se (e como) seria possível alavancar ele. Ou seja, de repente, começaram a aparecer considerações sobre valor de troca – o que foi totalmente ao encontro da política thatcheriana de privatizar a moradia social por completo com a promessa de que assim todos poderiam participar do mercado imobiliário e passar a se beneficiar da escalada dos valores de troca.

Uma das consequências disso é que quem estava nos estratos mais baixos da população, do ponto de vista de renda, passou a enfrentar uma dificuldade crescente de encontrar um lugar para morar. Em vez de viver em localizações muito centrais, onde havia fácil acesso a oportunidades de emprego, eles foram sendo expulsos dos centros das cidades e das melhores regiões e passaram a ter que se deslocar cada vez mais entre casa e trabalho. Mas quando chegamos à década de 1990, a casa já se converteu novamente em instrumento de ganhos especulativos. Sob pressões especulativas, os valores dos imóveis cresceram de maneiras muitas vezes vertiginosas (embora também erráticas). O resultado geral é que muitas das pessoas nos estratos mais baixos de renda não conseguem encontrar onde morar. O resultado é uma crise habitacional, e a produção de uma escassez de moradia a preços acessíveis.

Cresci na Inglaterra. Lembro que, na minha juventude, havia pessoas em situação de rua, mas muito poucas. Hoje, entretanto, em grandes cidades como Londres, você encontra cada vez mais moradores de rua. Em Nova York, temos cerca de 60 mil pessoas em situação de rua. Uma enorme quantidade de crianças não tem lar – não no sentido de que você as vê nas ruas, mas de que elas ficam pingando de casa em casa, dormindo no sofá de parentes ou amigos; o chamado “couch surfing”. Não se criam comunidades solidárias assim.

Hoje vemos muita atividade de construção civil acontecendo em cidades ao redor do mundo. Porém, é tudo especulativo. A verdade é que estamos construindo cidades para que as pessoas especulem, e não cidades para que as pessoas vivam. Quando criamos cidades visando investimento em vez de moradia, o resultado é o tipo de situação que vemos em Nova York, onde há uma enorme crise de falta de moradia a preços acessíveis em meio a uma explosão de construção de imóveis para o mercado de alta renda. Você precisa de ao menos 1 milhão de dólares para entrar nesse mercado. A esmagadora maioria da população está mal servida em termos de valores de uso de moradia; tem pouquíssimo acesso a valores de uso adequados. Ao mesmo tempo, estamos construindo enormes apartamentos de luxo para os ultrarricos. Michael Bloomberg, o ex-prefeito de Nova York, tinha a ambição de que todo bilionário do mundo viesse investir na cidade e tivesse seu apartamento de luxo em um lugar como Park Avenue. Foi de fato o que aconteceu: há xeiques árabes e bilionários indianos, russos ou chineses que não moram em Nova York; eles só vêm para cá uma ou duas vezes ao ano e pronto. Isso não é base para sustentar condições dignas de vida e moradia para a massa da população.

Estamos construindo cidades, construindo imóveis, de uma forma que proporciona uma enorme liberdade para as classes altas, ao mesmo tempo que produz uma falta de liberdade para o resto da população. Penso que era algo dessa ordem que Marx tinha em mente quando fez o referido comentário segundo o qual o reino da necessidade tem de ser superado para que o reino da liberdade seja alcançado. O que temos hoje em Nova York é liberdade de investimento, liberdade para as classes mais altas escolherem onde querem morar, enquanto a esmagadora maioria da população fica quase sem escolha alguma. É assim que as liberdades de mercado limitam as possibilidades e, desse ponto de vista, penso que a perspectiva socialista seria seguir a sugestão de Polanyi, isto é: coletivizar a questão do acesso à liberdade, do acesso à moradia. Fazer com que ela deixe de ser algo balizado pelo mercado ao recolocá-la na esfera pública. Nossa bandeira seria: moradia como um bem público.

Esta é uma das ideias básicas do socialismo no sistema contemporâneo: colocar as coisas no domínio público. Encoraja-me um pouco o fato de que, na Inglaterra, o Partido Trabalhista britânico – um dos poucos partidos tradicionais que ainda parece se pautar por alguma urgência democrática vigorosa [Este comentário foi feito em janeiro de 2019, quando Jeremy Corbyn ainda era líder do Partido Trabalhista britânico, e posteriormente revisto no início de 2020, ainda nos primeiros meses do mandato de seu sucessor, Keir Starmer. (N. E.)] – propôs que muitas áreas da vida pública fossem reavidas do mercado, recuperadas para o domínio público – por exemplo, os transportes. Se você chegar para qualquer um na Inglaterra e disser que a gestão privada dos trens e ferrovias está produzindo um sistema de transportes mais eficiente, certamente vão rir da sua cara. As pessoas conhecem muito bem as consequências da privatização. Ela tem sido um desastre, uma zona, uma descoordenação. O mesmo vale para o transporte público nas cidades. Também temos a privatização do abastecimento hídrico, que supostamente seria algo maravilhoso, mas no fundo o que vemos, claro, é que a água passa a ser cobrada. É uma necessidade básica; não deveria ser prestada pelo mercado. Você precisa pagar pelo seu consumo de água e o serviço sequer é bom.

Portanto o Partido Trabalhista insistiu que há uma série de áreas que representam necessidades básicas para a população e não devem ser providenciadas pelo mercado. Prometeu acabar com o endividamento estudantil, acabar com essa coisa de acesso à educação via privatização, e se comprometeu a trabalhar no sentido de atender necessidades básicas por meio do domínio público. Há um anseio, penso eu, por retirar necessidades básicas do domínio do mercado, bolar formas alternativas de providenciá-las. Dá para fazer isso com educação, saúde, moradia e inclusive insumos alimentares básicos. De fato, há experiências de alguns países latino-americanos que buscaram subsidiar uma alimentação básica a populações de baixa renda. Não vejo motivo algum para não termos uma configuração básica de fornecimento alimentar para a maior parte das pessoas do mundo hoje.

Isso é o que significa dizer que o reino da liberdade só é possível quando realmente atendemos a todas as necessidades básicas que precisaremos para que todos possam levar uma vida decente e adequada. É em função dessa ideia de liberdade que uma sociedade socialista se pautaria. Mas precisamos de uma forma e um esforço coletivos para fazer isso. Infelizmente, o Partido Trabalhista britânico perdeu as eleições de lavada [As eleições gerais britânicas de dezembro de 2019 deram uma vitória acachapante para o Partido Conservador, liderado por Boris Johnson. Foi o quarto revés consecutivo do Partido Trabalhista nas eleições gerais – e sua pior derrota desde 1935. (N. E.)]. Mas estou convicto de que a derrota não se deve ao seu programa progressista (que angariou muito apoio público), e sim ao fracasso do partido em assumir uma postura decisiva em relação ao Brexit e à sua incapacidade de lidar com os ataques coordenados dos meios de comunicação de massa.

Por fim, um último ponto. Costuma-se dizer que para alcançar o socialismo temos de renunciar à nossa individualidade e abrir mão de algo. Bem, até certo ponto talvez algo disso seja verdade; no entanto há, como insistiu Polanyi, uma liberdade mais ampla a ser alcançada quando ultrapassarmos as realidades cruéis das liberdades individualizadas do mercado. Na minha leitura, Marx está nos dizendo que a tarefa é maximizar o reino da liberdade individual, mas que isso só pode acontecer quando resolvermos o reino da necessidade. A tarefa de uma sociedade socialista não é regular tudo o que acontece em uma sociedade; de modo algum. A tarefa de uma sociedade socialista é garantir que todas as necessidades básicas sejam atendidas – fornecidas livremente – para que então as pessoas possam fazer exatamente o que quiserem, quando quiserem.

Não é só que os indivíduos precisam poder acessar os recursos para tanto; eles também precisam ter tempo para isso. A liberdade – o tempo livre, o verdadeiro tempo livre – é algo absolutamente crucial para a ideia de uma sociedade socialista. Tempo genuinamente livre para que todos possam fazer o que quiserem: eis a medida daquilo a que o socialismo aspira. Se você perguntar a qualquer um agora: “Quanto tempo livre você tem?”, a resposta típica é: “Praticamente nenhum. Meu tempo está todo tomado por isso, aquilo e tudo o mais”. Se a verdadeira liberdade é um mundo em que temos tempo livre para fazer o que quisermos, então o projeto emancipatório socialista propõe que esse seja um eixo central da sua missão política. Isso é algo para o qual todos nós podemos e devemos nos empenhar.


Notas:

[1] Karl Marx, O capital: crítica da economia política, Livro III: O processo global da produção capitalista (trad. Rubens Enderle, Boitempo, 2017), p. 882.

[2] “Para transformar dinheiro em capital, o possuidor de dinheiro tem, portanto, de encontrar no mercado de mercadorias o trabalhador livre, e livre em dois sentidos: de ser uma pessoa livre, que dispõe de sua força de trabalho como sua mercadoria, e de, por outro lado, ser alguém que não tem outra mercadoria para vender, livre e solto, carecendo absolutamente de todas as coisas necessárias à realização de sua força de trabalho.” Idem, O capital: crítica da economia política, Livro I: O processo de produção do capital (trad. Rubens Enderle, São Paulo, Boitempo, 2013), p. 244.

[3] Ibidem, p. 305-73.

[4] Ibidem, p. 309.

[5] Naomi Klein, A doutrina do choque: a ascensão do capitalismo de desastre (trad. Vânia Cury, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2008).

[6] Karl Polanyi, A grande transformação: origens da nossa época (trad. Fanny Wrobel, Rio de Janeiro, Campus, 2000), p. 297.

[7] Ibidem.

[8] David Harvey, Justiça social e a cidade (trad. Armando Corrêa da Silva, São Paulo, Hucitec, 1980).

[9] Karl Polanyi, A grande transformação, cit., p. 297.

[10] Ibidem.