segunda-feira, 16 de julho de 2018

Diferente de Getúlio, Lula entrou pra história sem precisar sair da vida.


O texto abaixo é do historiador e professor da Universidade Federal da Bahia, Rodrigo Perez Oliveira.
Que texto, amigos, que texto!

Que Lula há muito tempo deixou de ser homem e se tornou uma instituição é consenso à direita e à esquerda. O que está em jogo, em disputa, é o significado da instituição, o que ela representa.

Lula é o maior corrupto da história do Brasil ou a principal liderança popular que esse país já teve?

A disputa está ai. No atual estado da situação não sobrou muito espaço para meio termo. Ou é uma coisa ou é a outra. Cada um que escolha seu lado.

Na condição de instituição, todo gesto de Lula tem dimensão simbólica, é lido e interpretado por todos, por detratores e admiradores. Lula pega o microfone e o país paralisa em frente à TV. Os admiradores choram. Os jornalistas a serviço da mídia hegemônica silenciam. Ninguém fica indiferente a uma instituição desse tamanho.

Lula sabe perfeitamente que está sendo observado, conhece muito bem o tamanho que tem e explora com extrema habilidade sua capacidade de fabricar símbolos.

Aqui neste ensaio, trato de uma parte muito pequena da biografia de Lula, mas que talvez seja, na perspectiva simbólica, a mais importante. Talvez seja até mais importante que os oito anos de seu governo.

Falo das 34 horas em que Lula esteve no sindicato dos metalúrgicos, sob os olhares do mundo, construindo a narrativa de seu próprio martírio.

Não falo em “resistência”, pois desde a condenação no Tribunal da Quarta Região, em 24 de janeiro, que o destino de Lula já estava selado. Os advogados cumpriram sua função, recorrendo a todas as instâncias e tentando um habeas corpus, mas todos já sabiam que Lula seria preso.

Por isso, seria ingênuo dizer que o que aconteceu em São Bernardo do Campo foi um ato de resistência. Lula é um político experiente demais para resistir em causa perdida.

Alguns companheiros e companheiras, no auge da emoção, tentaram usar a força. Lula fugiu da custódia dos trabalhadores e se entregou à Polícia Federal, pois sabe que contra o braço armado do Estado ninguém pode. Lula sabe que aqueles que ali estavam eram trabalhadores e trabalhadoras, pais e mães de família. Não eram soldados. Não eram guerrilheiros. A resistência não era possível.

Lula sabe que seria impossível sustentar aquela mobilização durante muito tempo e por isso não resistiu. Mas daí a se entregar resignado como boi manso para o abate a distância é grande, muito grande.

Penso mesmo que Lula fez mais que resistir, já que a resistência seria quixotesca, irresponsável. Lula pautou a própria prisão, saiu da posição de simples condenado pela justiça para se tornar o dono da narrativa. Lula foi sujeito do próprio encarceramento, deu um nó nas forças do golpe neoliberal.

Muitos achavam que Lula deveria ter fugido para uma embaixada amiga e de lá partido para o exílio no exterior. Confesso que também pensei assim. Mas Lula é muito mais inteligente que todos nós juntos.


Lula sabe que já viveu muito, sabe que não lhe sobra muito tempo de vida. O que resta agora é a consolidação da biografia, o retorno às origens, seu renascimento como ícone da esquerda brasileira, imagem que ficou um tanto maculada pelos oito anos em que governou o Brasil.

É que no capitalismo não existem governos de esquerda. Governo de esquerda só com revolução e Lula nunca foi revolucionário, nunca prometeu uma revolução.

Todo governo legitimado pelas instituições burguesas será sempre burguês. No máximo, no melhor dos cenários, será um governo de centro sensível às demandas populares. O lulismo foi exatamente isso: uma prática de governo de centro sensível às necessidades dos mais pobres. O lulismo transformou o Brasil pra melhor, com todos os seus limites, com todas as suas contradições.

Mas para encerrar a vida em grande estilo carece de algo mais. Era necessária a canonização política. E só a esquerda canoniza líderes políticos. A direita é dura, cinza, sem poesia.

O golpe neoliberal conseguiu reconciliar Lula com as esquerdas, o que há poucos anos parecia algo impossível de acontecer.

É que pra ser canonizado pelas esquerdas nada melhor que ser perseguido pelo poder judiciário, habitat histórico das elites da terra. Basta lançar no google os sobrenomes da maioria dos nossos juízes, procuradores e desembargadores e veremos os berços de jacarandá que embalaram os primeiros sonhos dos nossos magistrados.

É claro que Lula não planejou a perseguição. É óbvio que ele não queria ser perseguido. Se pudesse escolher, estaria tendo um final de vida mais tranquilo, talvez afastado da política doméstica e atuando nas Nações Unidas. Mas já que a vida deu o limão, por que não espremer, misturar com açúcar, cachaça, mexer bem e mandar pra dentro?

Lula fez exatamente isso: uma caipirinha com os limões azedos que seus adversários togados lhe deram.

Primeiro, ele fez questão de esgotar todos os mecanismos legais. A sentença de Moro, os votos dos desembargadores, os votos dos Ministros da Suprema Corte não são palavras ao vento. São “peças”, para falar em bom juridiquês, que ficarão arquivadas e disponíveis para a consulta, para análise.
Imaginem só, leitor e leitora, os historiadores que no futuro, afastados da histeria e das disputas que hoje turvam nossos sentidos, examinarão a sentença de Sérgio Moro, verão que o juiz não foi capaz de determinar em quais “atos de ofício” Lula teria beneficiado a OS para fazer por merecer o tal Triplex do Guarujá.

É como se Moro estivesse falando: "não sei como fez, mas que fez, ah fez".

E o voto dos desembargadores do TRF 4, atravessados de juízos de valor, quase sem relar no mérito da sentença?

E o voto de Rosa Weber? Por Deus, o que foi aquele voto de Rosa Weber?

“Sei que estou votando errado, mas vou continuar votando errado só porque a maioria votou errado. Uma maioria que só vai votar porque eu vou votar errado também.”

Lula, ao se negar a fugir, obrigou cada um desses togados a deixar impressos na história os rastros da própria infâmia.

Uma vez decretada a prisão, o que fez Lula?

Deu um tiro no peito? Se entregou em São Paulo? Foi pra Curitiba? Fugiu?

Não!

Lula se aquartelou no sindicado mais simbólico da redemocratização brasileira, o sindicado que representa as expectativas que nos 1980 apontavam para um Brasil mais justo, mais solidário.

No apogeu da crise que significa o colapso do regime político fundado na redemocratização, Lula decidiu encenar o seu martírio onde tudo começou.

Naquele que talvez seja o último grande ato de sua vida pública, Lula voltou às origens.

Protegido pela massa de trabalhadores, Lula não cumpriu o cronograma estipulado por Sérgio Moro. Cercado por uma multidão, o Presidente operário transformou o sindicato dos metalúrgicos numa embaixada trabalhista.

A Polícia Federal, o braço armado do governo golpista, disse que não usaria a força. A Polícia Federal sabia que o povo resistiria, que sem negociação não tiraria Lula do sindicado sem deixar uma trilha de sangue.

Lula negociou e, nos limites dados por sua posição de condenado pela justiça, venceu e humilhou a instituições ocupadas pelo golpe neoliberal.

Lula não estava foragido. O mundo inteiro sabia onde ele estava e mesmo assim o Estado brasileiro não foi capaz de prendê-lo no prazo determinado pela justiça golpista. Durante um pouco mais de 30 horas, Lula foi um exilado dentro do Brasil, como se São Bernardo do Campo fosse um República independente, a "República Popular dos Trabalhadores".

Lula fez de uma missa em homenagem a Dona Marisa Letícia um ato político e aqui temos mais um lance simbólico do Presidente operário: restabeleceu as pontes entre a esquerda brasileira e a Igreja Católica, aliança que tão importante nos anos 1970, quando sob as bênçãos da Teologia da Libertação foi fundado o Partido dos Trabalhadores.

No palanque, junto com o Padre, estavam Lula e as futuras lideranças da esquerda brasileira. Lula dividiu seu epólio em vida, tomou pra si esse ato mórbido ao abençoar Boulos, Manuela e Fernando Haddad.

Lula unificou em vida a esquerda brasileira. Não só unificou, mas pautou, apresentou o programa, cantou o caminho das pedras.

Lula deixou claro que o povo mais pobre precisa comer melhor, precisa consumir, viajar de avião, estudar na universidade. Lula, o operário que durante a vida inteira foi humilhado por não ter diploma de ensino superior, foi o professor de milhões de brasileiros que sonham com um país melhor.

É como se Lula estivesse dizendo: “num país como o Brasil, a obrigação mais urgente da esquerda é transformar o Estado burguês em agente provedor de direitos sociais”.

Lula discursou durante uma hora em rede nacional, se defendeu das acusações. Não foi uma defesa para a justiça, mas sim para o tribunal moral da nação. Não foi um discurso para o presente. Foi um discurso para a história.

Não, meus amigos, acuado pelas forças do atraso, Lula não deu um tiro no próprio peito.
Getúlio é gigante, sem dúvida, mas também era herdeiro das oligarquias. Lula é o único trabalhador que, vindo da base da sociedade, conseguiu governar e transformar o Brasil. Lula já é maior que Getúlio.

Diferente de Getúlio, Lula entrou pra história sem precisar sair da vida.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Uma Justiça que cumpra e um Direito que nos conheça.


Escrevo este texto para os companheiros que, como eu, defendem a Justiça e o Direito definidos pelo Saramago no livro “Terra” de Sebastião Salgado, quando Deus percebe o resultado de sua criação...

“Deus falando a multidão, anunciou: A partir de hoje chamar-me-eis Justiça. E a multidão respondeu-lhe: Justiça, já nós a temos, e não nos atende. Deus responde: Sendo assim, tomarei o nome de Direito. E a multidão tornou a responder-lhe: Direito, já o temos, e não nos conhece. E Deus: Nesse caso ficarei com o nome de Caridade, que é um nome bonito. Disse-lhe a multidão: Não necessitamos caridade, o que queremos é uma Justiça que se cumpra e um Direito que nos respeite”.

Depois do colocado acima será que continuará difícil enxergarmos o óbvio? VIVEMOS EM UM ESTADO DE EXCEÇÃO. E em Estado de Exceção as instituições passam a ser de “faz de conta”, de “mentirinha”, “para inglês ver”. Não existe saída “legal” na ilegalidade. Não vivemos em uma Democracia.

Lula está preso por conta de um Golpe que se iniciou em 2005 e teve sua primeira etapa findada na farsa do “mensalão” e continuou com a outra farsa da Lava Jato. Lula não será solto enquanto o andar de cima não se unificar contra a gente. Enquanto estiverem disputando entre eles o poder, não nos sobrará nada. E caso cheguem a um acordo, nada nos sobrará.

As corporações já decidiram que vão tomar nosso petróleo, nossa água, nossos minérios e as empresas como se colônia fôssemos. E nenhum país de nossa democracias ocidental irá se opor. Pelo contrário, estão a disputar o espólio da viúva, como a Noruega (país nórdico), já garantiu seu quinhão no pré sal e com isso o pagamento da aposentadoria de seus cidadãos.

Por outro lado, nossos vassalos da” justiçinha” ainda não sabem se era a voz do Aécio dizendo que mandaria matar o primo, se a mala “chipada” era para o Temer, ou se o Cunha comprou o impeachment da Dilma. Também não sabem onde está a PORRA do elevador e a cozinha do triplex. Além de uma infinidade de outros exemplos.

E o que fazemos nós?

Tirando uns poucos mais preocupados com seus umbigos e as eleições de 18 e 20, podemos sim agir no sentido de resgatarmos a Justiça e o Direito, aquela que se cumpra e aquele que nos sirva. Não precisamos pegar em armas, mas podemos paralisar o país. Não com as greves gerais que não acontecem, mas paralisando umas poucas vias de acesso nas cidades. Aquelas que irão causar enormes engarrafamentos, e não precisamos de caminhões e tratores, pois são comandados pelos de cima. Uma ou duas vezes por semana até um monte de merdas se mudarem para Miami de vez, vira-latas que são. Desobediência civil até tirar os estrumes do Alvorada.

Não deve ser difícil, paralisa-se aqui, quando os dos cassetetes chegarem...paralisa-se ali, até que nem eles e nem ninguém cheguem em seus destinos. Fica a ideia.

Lula não será liberto até que só sobre do país o que não lhes interessa.

Sérgio Mesquita
Sec. Formação do PT-Maricá/RJ

terça-feira, 12 de junho de 2018

O BRASIL QUE NÃO SE EXPLICA...22, COISA DE LOUCO


Transtornos Delirantes Persistentes - CID10 F22

Todos os dias recebo referências feitas aos “coxinhas” golpistas nas redes sociais. E, em igual proporção, postagens questionando suas sanidades por causa das mesmas postagens. Coisas como: “Greve a favor da ditadura”... Como? As greves são proibidas nas ditaduras. “Durante a ditadura não se roubavam celulares”. E eles existiam? Campanha para que não se abastecesse o carro porque a gasolina aumentou para R$2,80 e filas para abastecer, agradecidos, com a gasolina a custar mais de R$ 5,00. E a pior de todas, defendem as privatizações, mas se esquecem que serão privados de tudo. Esses são alguns dos exemplos, entre outros, com que a classe média nos brinda.

Porém, se pensarmos melhor e nos inspirarmos na letra da música, “22”, do artista mineiro radicado em Maricá, Délcio Teobaldo, podemos entender um pouco desse país e dessa gente. Um pouco da loucura do sistema capitalista e de nosso “viralatismo”. Bem como entender melhor a afirmação colocada pelo escritor português José Saramago, que nos diz que democracia e capitalismo são convivem num mesmo espaço de tempo.

Em uma situação de “normalidade”, ditos como “quem não chora não mama”, “teme quem deve” e outros, fariam sentido. Mas na atual situação por que passamos, viver num estado exceção, toda e qualquer lógica se perde, ou melhor se encaixa no absurdo do sistema e certeza e incertezas se confundem ou se misturam, como nos coloca o fragmento da letra da música “22”, abaixo:

Nessa terra de incertezas, “em se plantando tudo dá”: café, fumo e ouro, barraco no morro, vergonha na cara.
Nessa terra de incertezas, acreditando, tudo há: escola sem muros, Pivetim com futuro, Caipora na mata.

Ou seja, o incerto é quando existem condições de crescimento para aquela parcela empobrecida pelo sistema. Porém, mesmo em meio as (in)certezas, o sistema consegue sangrar a população:

Se eu planto, tu plantas, nós plantamos, vós plantais, eles comem mais...

E nos momentos de certeza, o sistema mostra sua cara, a verdadeira cara:

Nessa terra de certezas, nada como é, será: Só não teme quem deve; só chora quem mama; quem tudo quer tudo ganha.
Nessa terra de certezas, quem duvida chega lá: “Tupi or not Tupi”; “Viva a palhoça-ça”; “Ó-Blésq-Blom”.

E, como nos momentos de (in)certeza, o sistema continua ganhando.

Se eu toco, tu tocas, nós tocamos, vós tocais, eles dançam mais...

Ao final da música, somos brindados com um trecho da carta de “achamento” do Brasil, onde o futurólogo Pero Vaz Caminha dá a pista para que quase 500 anos depois, Nelson Rodrigues definisse o brasileiro, a classe média, como “vira-lata”.

Neste dia, enquanto ali andaram, dançaram e bailaram sempre com os nossos, ao som dum tamboril dos nossos, em maneira que são muito mais nossos amigos que nós seus...”

No sistema capitalista que vivemos, onde nosso papel é servir, temos o brilhantismo do Darcy Ribeiro, quando nos diz que no máximo, seremos o gerente do Engenho. Por isso, hoje, temos presos sem provas e criminosos governando o país e fazendo (in)justiças.

Há braços

Sérgio Mesquita
Secretário de Formação do PT-Maricá

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Resposta a Matéria do O Globo de 20.05.18


Lendo nas redes sociais a matéria do O Globo (não compro o jornaleco e nem assisto sua versão televisiva), publicada neste domingo, 20.05, arrisco-me em algumas considerações, após um rápido histórico das escolhas políticas dos “marinhos” da vida.

Quem são seus editorialistas para opinarem na administração econômica dos entes federados? Desde a década de 50, século passado, que só divulgam o que for de interesses de suas corporações ou, daquelas que respondem lá de fora. Ninguém acredita mais em vocês, bastam mostrarem o balanço de suas publicações ou a atual audiência na televisão. Inventam e ignoram fatos em benefício de interesses próprios - basta uma pequena análise sobre a questão do “triplex do Lula”. Mas vamos ao texto.

Seus 2 primeiros parágrafos deixam clara a intenção do texto: as eleições de 18 (se acontecerem) e as de 2020, municipais, como deixa claro o texto, ao darem continuidade as críticas à administração do PT em seu terceiro mandato em Maricá. A narrativa da má administração mesmo após Quaquá ter saído com mais de 80% de aprovação e o Fabiano manter e aumentar este índice. Só interessa a construção de uma narrativa que vá ao encontro de seus interesses.

Ainda em seu segundo parágrafo, a confirmação dos interesses políticos. Até há pouco tempo, a Petrobras devia ser privatizada por ser deficitária e ineficiente, mas para combater a única cidade administrada pelo PT no RJ, a empresa vai de bem a melhor, com promessas de aumento de sua produção e dividendos. Haja paciência.

No terceiro e quarto parágrafos, volta a narrativa com a citação das más administrações anteriores, dando como certa a sua repetição pela administração de Maricá, citada explicitamente a partir dos próximos parágrafos. De novo os interesses pessoais/políticos. Essas administrações só passaram a ser ruins recentemente, nos atuais tempos de golpe. Antes eram exemplos em suas páginas e vídeos. Curioso é que só nos estados administrados pelo PT e pelo Pc do B, não houve atraso de pagamentos e fechamentos de escolas e hospitais. No Rio, só Maricá construiu novas escolas, creches (até então inexistentes), um novo hospital e paga seus funcionários dentro do mês. Tarifa zero em sua empresa de transporte, uma moeda social estudada no mundo, cessão de posse de terras e muito mais. Mas administra mal, segundo o jornal.

No quinto e sexto parágrafos, fica explícito o forçar narrativo contra a cidade. Cita os erros (antes acertos) do Rio e coloca como certo suas repetições pela administração local. Dá exemplos que são sim verdadeiros, Maricá vai realizar concurso público para professores, médicos e outras profissões. Até porque experimenta um processo de crescimento artificial de sua população por conta das administrações políticas de seu entorno e Estado, bem como a exploração da insegurança pela mídia. A população cresce e o MP vai cobrar a real necessidade de vagas nas escolas e atendimento médico. Mas, para o jornal...é administrar mal.

Em nenhum momento o jornal informa os projetos que permitirão a subsistência da cidade no pós royalties. Temos um porto que não inicia suas obras por questões colocadas como ambientais (e são). Mas não se discute, por exemplo, que a política também impede a sua realização (a má política), quando não é de interesses dos demais portos, a operação portuária em Maricá, que possui o maior calado da América do Sul para operação dos grandes navios. Não cita a criação do Parque Tecnológico e do Industrial, que iniciarão atendendo as questões do petróleo, mas com diretiva de manter a cidade no pós-roylties. O aeroporto que passará atender o campo de Lula, a custo mais baixo para as operadoras das plataformas e depois ao PqT e PqI, e a interligação de todo o município por fibra ótica, em execução.

A questão da água e saneamento citados “en passant”, não informa que está em negociação com a CEDAE a construção de uma barragem em Tanguá, com dinheiro de Maricá, para atender o município e seu entorno. O governo também negocia assumir a coleta do esgoto no município e seu tratamento, com a construção de duas estações (ETEs) e sua “eliminação” via emissário submarino. Mas administra mal seus recursos, segundo o jornal.

E para finalizar em grande estilo, de novo por possíveis interesses corporativos, encerra trazendo a baila, uma nova rediscussão sobre a distribuição dos royalties, a partir das “más administrações” antes apoiadas e hoje colocadas como premiadas pela distribuição dos royalties.

Há braços,

Sérgio Mesquita
Sec. de Ciência, Tecnologia e Comunicações de Maricá
Executiva do PT-Maricá

terça-feira, 8 de maio de 2018

Em Defesa do Manifesto Comunista!


Para que um Manifesto tenha êxito, ele tem de falar aos nossos corações tal qual um poema, enquanto infecta a mente com imagens e idéias que são fascinantemente novas. Ele precisa abrir nossos olhos para as verdadeiras causas das desconcertantes, perturbadoras e empolgantes mudanças que ocorrem ao nosso redor, expondo as possibilidades que a nossa realidade atual pode vir a dar a luz. Ele deve nos fazer sentir desesperadamente deslocados por não termos podido reconhecer, por nós mesmos, tais verdades, e ele tem ainda que levantar o véu da inquietante constatação de que estivemos agindo como cúmplices insignificantes, ao reproduzir um passado sem saídas. Por fim, ele precisa ter o poder de uma sinfonia de Beethoven, instando a nos tornar agentes de um futuro que acabe com o desnecessário sofrimento em massa e, assim, inspire a humanidade a realizar seu potencial de liberdade autêntica.

Nenhum manifesto teve mais êxito em fazer tudo isso do que aquele publicado em fevereiro de 1848, no número 46 da rua Liverpool, em Londres. Encomendado por revolucionários ingleses, O Manifesto Comunista (ou o Manifesto do Partido Comunista, como fora inicialmente publicado) é da autoria de dois jovens alemães – Karl Marx, um filósofo de vinte e nove anos com um gosto pelo hedonismo epicurista e pela racionalidade hegeliana, e Friedrich Engels, um herdeiro de vinte e oito anos de uma fábrica em Manchester.

Como obra de literatura política, o Manifesto permanece insuperável. Suas linhas mais infames, incluindo a de abertura (Um espectro ronda a Europa – o espectro do comunismo), têm uma qualidade shakespeariana. Assim como Hamlet confrontado pelo fantasma de seu pai assassinado, o leitor é compelido a se perguntar: “Devo me conformar à ordem vigente, sofrendo as pedradas e flechadas com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja? da Fortuna concedida a mim pelas forças irresistíveis da História? Ou devo me unir a essas forças, me insurgindo contra o status quo e, em luta, inaugurar um admirável mundo novo?

Para os leitores de primeira hora de Marx e Engels, esse não era um dilema acadêmico, debatido nos salões da Europa. O Manifesto deles era um chamado à ação; atender à invocação desse espectro significava, com frequência, sofrer perseguição ou, em alguns casos, encarceramento prolongado. Hoje, um dilema semelhante confronta os jovens: conformar-se a uma ordem estabelecida que está desmoronando, e que é incapaz de reproduzir a si mesma, ou  antagonizá-la, a um custo pessoal considerável, em busca de novas formas de trabalhar, se divertir e conviver? Ainda  que os partidos comunistas tenham desaparecido quase por completo da cena política, o espírito do comunismo que move o Manifesto se mostra difícil de silenciar.

Enxergar para além do horizonte é a ambição de qualquer manifesto, mas lograr como lograram Marx e Engels em descrever com precisão uma era que chegaria um século e meio mais tarde, bem como analisar as contradições e escolhas que enfrentamos hoje, é realmente espantoso. No final da década de 1840, o capitalismo estava naufragando, isolado, fragmentado e tímido. E, no entanto, Marx e Engels deram uma boa olhada nele e anteviram nosso capitalismo globalizado, financeirizado, blindado, e todo cantarolante. Foi essa a criatura que surgiu depois de 1991, no exato momento em que o establishment proclamava a morte do marxismo e o fim da história.

É certo que há muito se vem exagerando sobre o fracasso preditivo do Manifesto Comunista. Lembro-me de como até mesmo os economistas de esquerda, no início dos anos 1970, contestaram a previsão central do Manifesto, segundo a qual o Capital “se imiscuiria  em toda parte, se instalaria em toda parte, criaria relações em toda parte”. Baseando-se na triste realidade daqueles que eram então chamados de países do terceiro mundo, eles argumentavam que o capital havia “perdido o gás” muito antes de se expandir para além de suas “metrópoles” na Europa, América e Japão.

Empiricamente, eles estavam certos: empresas multinacionais europeias, estadunidenses e japonesas operando nas “periferias” da África, Ásia e América Latina estavam se limitando ao papel de extratores coloniais de recursos e fracassando em difundir o capitalismo por lá. Ao invés de imbuir nesses países o desenvolvimento capitalista (impelindo  “todas as nações, mesmo as mais bárbaras para a torrente da civilização”), eles argumentavam que o capital estrangeiro estava reproduzindo o desenvolvimento do subdesenvolvimento no terceiro mundo. Era como se o Manifesto tivesse depositado confiança demais na capacidade do capital de se espalhar em cada canto e recanto. A maioria dos economistas, incluindo os simpatizantes de Marx, duvidavam da previsão contida no Manifesto de que “a exploração do mercado mundial” tornaria “cosmopolita a produção e o consumo de todos os países”.

Como se viu, o Manifesto estava certo, ainda que tardiamente. Ainda seriam necessários o colapso da União Soviética e a inserção de dois bilhões de trabalhadores chineses e indianos no mercado de trabalho capitalista para que fosse feita justiça à sua previsão. De fato, para que o capital se globalizasse plenamente, os regimes que juraram lealdade ao Manifesto tiveram primeiro de ser estilhaçados. Já nos deu a História ironia mais deliciosa?

Qualquer um que leia o Manifesto hoje ficará surpreso ao descobrir o retrato de um mundo muito parecido com o nosso, cambaleando temerosamente nos limites da inovação tecnológica. No tempo do Manifesto, era a locomotiva a vapor que representava o maior desafio aos ritmos e rotinas da vida feudal. O campesinato foi arrastado para dentro das engrenagens e polias desse maquinário e uma nova classe de senhores, os donos das fábricas e os comerciantes, usurpou da aristocracia rural o controle sobre a sociedade. Agora, é a inteligência artificial e a automação que emergem como ameaças disruptivas, prometendo dissolver “todas as relações imutáveis e esclerosadas”. “Revolucionar permanentemente… os instrumentos de produção”, proclama o Manifesto, transforma “o conjunto das relações sociais”, trazendo “O revolucionamento permanente da produção, o abalo contínuo de todas as categorias sociais, a insegurança e a agitação sempiternas”.

Para Marx e Engels, no entanto, essa ruptura deve ser celebrada. Ela age como um catalisador do último empurrãozinho de que precisa a humanidade para acabar de vez com nossos preconceitos remanescentes, que sustentam o grande fosso entre aqueles que possuem as máquinas e aqueles que as projetam, operam e com elas trabalham. “Tudo o que era estável e sólido desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado”, escrevem eles no manifesto sobre o efeito da tecnologia, “e os homens são obrigados a encarar com olhos desiludidos, seu lugar no mundo e suas relações recíprocas”. Ao pulverizar impiedosamente nossas ideias pré-concebidas e falsas certezas, as transformações tecnológicas estão nos forçando, aos gritos e pontapés, a encarar o quão patéticas são nossas relações uns com os outros.

Hoje, vemos esse acerto de contas em milhões de palavras, impressas e online, usadas para debater os descontentamentos da globalização. Enquanto celebram a forma com que a globalização deslocou bilhões de pessoas da pobreza extrema à pobreza relativa, veneráveis ​​jornais ocidentais, personalidades de Hollywood, empresários do Vale do Silício, bispos e até investidores multibilionários, todos lamentam algumas de suas ramificações menos desejáveis: desigualdade insuportável, ganância descarada, mudanças climáticas e sequestro de nossas democracias parlamentares por banqueiros e pelos ultra-ricos.

Nada disso deveria surpreender um leitor do Manifesto. “Cada vez mais,”, argumenta, “a sociedade divide-se em dois grandes blocos inimigos, em duas grandes classes que se enfrentam diretamente”. Conforme a produção é mecanizada, e a margem de lucro dos donos das máquinas torna-se a força motriz da nossa civilização, a sociedade divide-se entre acionistas que não trabalham e trabalhadores assalariados que nada possuem. Quanto à classe média, ela é o dinossauro na sala, marcada para a extinção.

Ao mesmo tempo, os ultra-ricos sentem-se culpados e se estressam ​​enquanto assistem a vida de todos os demais afundar na precariedade da insegura escravidão assalariada. Marx e Engels previram que essa minoria supremamente poderosa acabaria por se mostrar “incapaz de dominar” sociedades tão polarizadas, pois não teriam condições de assegurar aos seus escravos uma existência segura. Entrincheirada em seus condomínios fechados, ela se vê consumida pela ansiedade e incapaz de desfrutar de suas riquezas. Parte dessa minoria, inteligente o suficiente para perceber seu verdadeiro interesse próprio de longo prazo, reconhece o estado de bem-estar social como a melhor apólice de seguro disponível. Mas, infelizmente, nos explica o Manifesto, enquanto classe social, será da sua natureza economizar no prêmio de seguro, e ela trabalhará incansavelmente para evitar ter de pagar os impostos necessários.

Não foi isso que aconteceu? Os ultra-ricos são uma panelinha insegura, permanentemente insatisfeita, que entra e sai constantemente de clínicas de desintoxicação, e que busca incansavelmente o consolo de paranormais, psiquiatras e gurus do empreendedorismo. Enquanto isso, todos os demais batalham para colocar comida na mesa, pagar as mensalidades, fazer malabarismos com seus cartões de crédito ou lutar contra a depressão. Agimos como se nossas vidas fossem sem preocupações, alegando gostar do que fazemos e fazer o que gostamos, quando na realidade, choramos baixinho antes de dormir.

Os filantropos, políticos do establishment e os acadêmicos da área econômica, todos respondem da mesma maneira a essa difícil situação: emitindo ácidas condenações dos sintomas (desigualdade de renda) enquanto ignoram suas causas (a exploração resultante dos desiguais direitos de propriedade sobre máquinas, terras, recursos). Alguém se admira que estejamos num impasse, chafurdando em um desespero que só serve aos populistas que procuram cortejar os piores instintos das massas?

Com o rápido surgimento de tecnologia avançada, nos aproximamos do momento no qual teremos de decidir como nos relacionar uns com os outros de maneira racional e civilizada. Não podemos mais nos esconder por trás da inevitabilidade do trabalho e das normas sociais opressivas de que ele necessita. O Manifesto dá ao seu leitor do século 21º  uma oportunidade de ver através dessa bagunça e reconhecer o que precisa ser feito para que a maioria possa escapar do descontentamento rumo a novos arranjos sociais nos quais “o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos”. Mesmo que ele não contenha um roteiro de como chegar lá, o Manifesto continua sendo uma fonte de esperança que não deve ser descartada.

Se o Manifesto mantém o mesmo poder de nos estimular, entusiasmar e envergonhar que ele possuía em 1848, é porque a luta entre as classes sociais é tão antiga quanto o próprio tempo. Marx e Engels resumiram isso em 15 palavras audaciosas: “A história de toda sociedade até nossos dias é a história da luta de classes”.

Das aristocracias feudais aos impérios industrializados, o motor da história sempre foi o conflito entre constantes tecnologias revolucionárias e convenções de classes vigentes. A cada disrupção na tecnologia da sociedade, o conflito entre nós muda de forma. Velhas classes se extinguem e, por fim, apenas duas permanecem de pé: a classe que tudo possui e a classe que não possui nada – a burguesia e o proletariado.

Esta é a difícil  situação em que nos encontramos hoje. Embora devamos ao capitalismo por ter reduzido todas as distinções de classes ao abismo entre proprietários e não-proprietários, Marx e Engels querem nos fazer perceber que o capitalismo não é suficientemente desenvolvido para sobreviver às tecnologias que ele gera. É nosso dever romper com a antiga noção de meios de produção privados e forçar uma metamorfose, que deve incluir a propriedade social do maquinário, da terra e dos recursos. Atualmente, quando novas tecnologias são introduzidas em sociedades vinculadas pelo primitivo contrato de trabalho, o que se segue é miséria por atacado. Nas palavras inesquecíveis do Manifesto: “a sociedade burguesa moderna que gerou, como por encanto, meios de produção e de troca tão poderosos assemelha-se ao feiticeiro que já não consegue dominar as potências demoníacas que evocara”.

O feiticeiro sempre pensará que os seus aplicativos, motores de busca, robôs e sementes geneticamente modificadas trarão riqueza e felicidade à todos. Mas, uma vez soltas em sociedades rachadas entre trabalhadores assalariados e proprietários, essas maravilhas tecnológicas empurrarão os salários e os preços a níveis que geram lucros baixos para a maioria das empresas. São somente as gigantes da tecnologia, a grande indústria farmacêutica e as poucas empresas que detêm um poder político e econômico excepcionalmente grande sobre nós que realmente se beneficiam disso. Se continuarmos a assinar contratos de trabalho entre empregador e empregado, os direitos de propriedade privada irão governar e irão conduzir o capital para fins desumanos. Somente com a abolição da propriedade privada dos instrumentos de produção em massa e através da sua substituição por um novo tipo de propriedade comum que trabalhe em sincronia com as novas tecnologias, diminuiremos a desigualdade e encontraremos a felicidade coletiva.

De acordo com a teoria da história em 15 palavras de Marx e Engels, o atual impasse entre trabalhador e proprietário foi sempre garantido. “Igualmente inelutáveis”, declara o Manifesto, são a “queda (da burguesia) e a vitória do proletariado”. Até agora, a história não realizou essa previsão, mas os críticos se esquecem que o Manifesto, como qualquer instrumento de propaganda digno desse nome, apresenta a esperança na forma de certeza. Assim como o Lorde Nelson motivou suas tropas antes da Batalha de Trafalgar anunciando que a Inglaterra “esperava” que eles cumprissem o seu dever (mesmo que ele tivesse sérias dúvidas de que o fariam), o Manifesto concede ao proletariado a expectativa de que cumprirá o seu dever para consigo mesmo, inspirando os proletários a se unirem e se libertarem uns aos outros das amarras da escravidão assalariada.Eles o  farão? Na forma atual, parece improvável.

Por outro lado, tivemos que esperar que a globalização aparecesse na década de 1990, antes que a avaliação do Manifesto sobre o potencial do capital pudesse ser plenamente justificada. Não seria possível que o novo proletariado mundial, cada vez mais precário, precisasse de mais tempo para poder desempenhar o papel histórico que o Manifesto antecipou? Enquanto o júri delibera, Marx e Engels nos dizem que, se temermos a retórica da revolução, ou tentarmos nos distrair do nosso dever uns para com os outros, nos encontraremos presos em uma espiral vertiginosa na qual o capital satura e descolore o espírito humano. A única coisa de que podemos ter certeza, segundo o Manifesto, é que, a menos que o capital seja socializado, estamos nos encaminhando rumo a acontecimentos distópicos.

Sobre o tema da distopia, o leitor cético se animará: o que do Manifesto sugeriria cumplicidade na legitimação de regimes autoritários e fortalecimento do espírito dos guardas dos gulags? Em vez de responder defensivamente, apontando que ninguém culpa Adam Smith pelos excessos de Wall Street, ou o Novo Testamento pela Inquisição Espanhola, podemos especular como os autores do Manifesto poderiam ter respondido a essa acusação. Acredito que, com o benefício da retrospectiva, Marx e Engels confessariam um erro importante em sua análise: reflexividade insuficiente. Isto é para dizer que eles falharam em dar pensamento suficiente, e mantiveram um silêncio criterioso, sobre o impacto que sua própria análise teria sobre o mundo que eles estavam analisando.

O Manifesto contou uma história poderosa em linguagem intransigente, destinada a tirar os leitores da apatia. O que Marx e Engels não previram foi que textos poderosos e prescritivos têm a tendência de obter discípulos, crentes — até mesmo um sacerdócio — e que esses fiéis podem usar o poder conferido a eles pelo Manifesto em proveito próprio. Com isso, eles podem abusar de outros camaradas, construir sua própria base de poder, ganhar posições de influência, acampar com estudantes impressionáveis, assumir o controle do Politburo e prender qualquer um que resista a eles.

Da mesma forma, Marx e Engels não conseguiram estimar o impacto de suas escritas sobre o próprio capitalismo. Na medida em que o Manifesto ajudasse a desenhar a União Soviética, seus satélites do leste europeu, a Cuba de Castro, a Iugoslávia de Tito e vários governos social-democratas no Ocidente, esses acontecimentos não causariam uma reação em cadeia que frustraria as previsões e análises do Manifesto? Depois da revolução russa e depois da Segunda Guerra Mundial, o medo do comunismo forçou regimes capitalistas a adotarem sistemas de aposentadoria e pensões, serviços nacionais de saúde e até mesmo a ideia de fazer os ricos pagarem aos estudantes pobres e pequeno-burgueses para frequentar universidades liberais. Enquanto isso, hostilidade raivosa à União Soviética provocou paranoia e, assim, criou um clima de medo que se mostrou particularmente fértil para figuras como Joseph Stalin e Pol Pot.

Acredito que Marx e Engels teriam lamentado não antecipar o impacto do Manifesto nos partidos comunistas que ele previa. Eles estariam chutando a si mesmos que ignoravam o tipo de dialética que gostavam de analisar: como os estados operários se tornariam cada vez mais totalitários em sua resposta à agressão capitalista do Estado e como, em sua reação ao medo do comunismo, esses estados capitalistas cresceriam cada vez mais civilizado.

Abençoados, é claro, são os autores cujos erros resultam do poder de suas palavras. Ainda mais abençoados são aqueles cujos erros são autocorrigidos. Em nossos dias atuais, os estados operários inspirados pelo Manifesto quase desapareceram, e os partidos comunistas debandaram ou desorganizaram-se. Libertado da competição com regimes inspirados pelo Manifesto, o capitalismo globalizado está se comportando como se estivesse determinado a criar um mundo mais bem explicado pelo Manifesto.

O que torna o Manifesto verdadeiramente inspirador hoje é sua recomendação para nós no aqui e agora, em um mundo onde nossas vidas estão sendo constantemente moldadas pelo que Marx descreveu em seus Manuscritos Econômicos e Filosóficos anteriores como “uma energia universal que quebra todos os limites e todos os vínculos e se posiciona como a única política, a única universalidade, o único limite e o único vínculo ”. De motoristas e ministros de finanças da Uber a executivos do setor bancário e aos miseráveis e pobres, todos nós podemos ser desculpados por nos sentirmos sobrecarregados por essa “energia”.

O alcance do capitalismo é tão difundido que às vezes parece impossível imaginar um mundo sem ele. É apenas um pequeno passo de sentimentos de impotência para ser vítima da afirmação de que não há alternativa. Mas, surpreendentemente (afirma o Manifesto), é precisamente quando estamos prestes a sucumbir a essa ideia que abundam as alternativas.

O que não precisamos neste momento são sermões sobre a injustiça de tudo, denúncias de desigualdade crescente ou vigílias para a nossa desaparecida soberania democrática. Nem deveríamos aguentar atos desesperados de escapismo regressivo: o grito de retornar a algum estado pré-moderno, pré-tecnológico, onde podemos nos apegar ao seio do nacionalismo. O que o Manifesto promove em momentos de dúvida e submissão é uma avaliação clara e objetiva do capitalismo e seus males, vistos através da luz fria e dura da racionalidade.

O Manifesto argumenta que o problema com o capitalismo não é que ele produz muita tecnologia, ou que é injusto. O problema do capitalismo é que é irracional. O sucesso do Capital em espalhar seu alcance via acumulação por acumulação está fazendo com que trabalhadores humanos trabalhem como máquinas por uma ninharia, enquanto os robôs são programados para produzir coisas que os trabalhadores não podem mais pagar e os robôs não precisam.

O capital falha em fazer uso racional das máquinas brilhantes que ele engendra, condenando gerações inteiras à privação, a um ambiente decrépito, ao subemprego e ao lazer real zero da busca do emprego e da sobrevivência em geral. Até mesmo os capitalistas são transformados em autômatos angustiados. Vivem em permanente temor de que, a menos que mercantilizem seus semelhantes, deixarão de ser capitalistas — se unindo às fileiras desoladas do proletariado-precariado em expansão.

Se o capitalismo parece injusto, é porque escraviza a todos, ricos e pobres, desperdiçando recursos humanos e naturais. A mesma “linha de produção” que produz uma riqueza incalculável produz profunda infelicidade e descontentamento em escala industrial. Então, a nossa primeira tarefa — de acordo com o Manifesto — é reconhecer a tendência dessa “energia” que tudo conquista se enfraquecer.

Quando perguntado por jornalistas que ou qual é a maior ameaça ao capitalismo hoje, eu desafio suas expectativas respondendo: o capital! É claro que essa é uma ideia que venho plagiando há décadas no Manifesto. Dado que não é possível nem desejável anular a “energia” do capitalismo, o truque é ajudar a acelerar o desenvolvimento do capital (para que ele queime como um meteoro correndo pela atmosfera) enquanto, por outro lado, resistir (através do racional, ação coletiva) a tendência do dito-cujo para tratorar nosso espírito humano. Em resumo, a recomendação do Manifesto é que levemos o capital a seus limites enquanto limitamos suas consequências e nos preparamos para sua socialização.

Precisamos de mais robôs, melhores painéis solares, comunicação instantânea e sofisticadas redes de transporte verde sofisticadas. Mas igualmente, precisamos nos organizar politicamente para defender os fracos, capacitar muitos e preparar o terreno para reverter os absurdos do capitalismo. Em termos práticos, isso significa tratar a ideia de que não há alternativa com o desprezo que merece, rejeitando todos os apelos por um “retorno” a uma existência menos modernizada. Não havia nada ético sobre a vida sob as formas anteriores do capitalismo. Programas de TV que investem maciçamente em nostalgia calculada, como Downton Abbey, devem nos deixar felizes de viver quando o fazemos. Ao mesmo tempo, eles também podem nos encorajar a soar o acelerador da mudança.

O Manifesto é um daqueles textos emotivos que falam a cada um de nós de forma diferente em diferentes momentos, refletindo nossas próprias circunstâncias. Alguns anos atrás, eu me considerava um marxista libertário errático e era muito menosprezado por não-marxistas e marxistas. Logo depois, me encontrei investido em uma posição política de certa proeminência, durante um período de intenso conflito entre o então governo grego e alguns dos agentes mais poderosos do capitalismo. Reler o Manifesto com o propósito de escrever esta introdução foi um pouco como convidar os fantasmas de Marx e Engels a gritarem, uma mistura de censura e apoio, bem no meu ouvido.

Adults in the Room (N. de T. — próximo livro de Varoufakis que será publicado, em alguns meses, pela Autonomia Literária), minhas memórias do tempo em que eu servi como ministro das Finanças da Grécia em 2015, conta a história de como a Primavera Grega foi esmagada por uma combinação de força bruta (por parte dos credores da Grécia) e uma frente dividida dentro do meu próprio governo — da forma mais honesta e precisa que eu poderia fazer. Visto da perspectiva do Manifesto, no entanto, os verdadeiros agentes históricos estavam confinados a meras aparições ou ao papel de vítimas quase passivas. “Onde está o proletariado em sua história?” Eu quase posso ouvir Marx e Engels gritando para mim agora. “Eles não deveriam ser os que enfrentam o capitalismo mais poderoso, com você os apoiando dos bastidores?”

Felizmente, reler o Manifesto também ofereceu algum consolo, endossando minha visão dele como um texto liberal — até mesmo libertário. Onde o Manifesto critica as virtudes liberais burguesas, o faz por causa de sua dedicação e até amor por elas. Liberdade, felicidade, autonomia, individualidade, espiritualidade, desenvolvimento autoguiado são ideais que Marx e Engels valorizam acima de tudo. Se eles estão zangados com a burguesia, é porque a burguesia procura negar à maioria qualquer oportunidade de ser livre. Dada a aderência de Marx e Engels à ideia fantástica de Hegel de que ninguém é livre enquanto uma pessoa estiver acorrentada, sua briga com a burguesia é que ela sacrifica a liberdade e a individualidade de todos no altar de acumulação do capitalismo.

Embora Marx e Engels não fossem anarquistas, eles detestavam o Estado e seu potencial de ser manipulado por uma classe para reprimir a outra. Na melhor das hipóteses, eles viam isso como um mal necessário par viver num bom e pós-capitalista porvir, coordenando uma sociedade sem classes. Se esta leitura do Manifesto faz sentido, a única maneira de ser comunista é ser libertário. Atender ao apelo do Manifesto para “Unir-vos!” é, de fato, incoerente com se tornar um stalinista com síndrome de dono da bola — ou em tentar refazer o mundo à imagem de regimes comunistas agora extintos.

Quando tudo é dito e feito, então, qual é a pedra de toque do Manifesto? E por que alguém, especialmente o jovem de hoje, deveria se preocupar com história, política e afins?

Marx e Engels basearam seu Manifesto em uma resposta tocantemente simples: a autêntica felicidade humana e a liberdade genuína que deve acompanhá-la. Para eles, estas são as únicas coisas que realmente importam. Seu Manifesto não se baseia em invocações germânicas estritas do dever, ou apela para responsabilidades históricas para nos inspirar a agir. Não moraliza nem aponta seu dedo. Marx e Engels tentaram superar as fixações da filosofia moral alemã, e também das causas do lucro capitalista, com um apelo racional, embora apaixonado, aos próprios fundamentos de nossa natureza humana compartilhada.

A chave para a análise deles é o abismo sempre crescente entre aqueles que produzem e aqueles que possuem os instrumentos de produção. O nexo problemático do capital e do trabalho assalariado nos impede de desfrutar do nosso trabalho e dos nossos artefatos, e transforma patrões e trabalhadores, ricos e pobres, em peões trêmulos que estão sendo feitos marchar, rumo a uma existência sem sentido, por forças além de nosso controle.

Mas por que precisamos de política para lidar com isso? A política não é estupidificante, especialmente a política socialista, aquela que Oscar Wilde uma vez afirmou que “rouba demasiados entardeceres”? A resposta de Marx e Engels é: porque não podemos acabar com essa idiotice individualmente; porque nenhum mercado pode emergir sem que se produza um antídoto para essa estupidez. A ação política coletiva e democrática é nossa única chance da liberdade e do prazer. E para isso, as longas noites parecem um pequeno preço a pagar.

A humanidade pode conseguir arranjos sociais que permitam “o livre desenvolvimento de cada um” como a “condição para o livre desenvolvimento de todos”. Mas, novamente, podemos acabar na “ruína comum” da guerra nuclear, do desastre ambiental ou do descontentamento agonizante. No nosso momento atual, não há garantias. Podemos nos voltar para o Manifesto em busca de inspiração, sabedoria e energia, mas, ao final, o que prevalece depende de nós.

 Yanis Varoufakis é economista.