quarta-feira, 1 de abril de 2020

BEM-VINDO AO ESTADO SUICIDÁRIO


Vladimir Safatle

"Você é parte de um experimento. Talvez sem perceber, mas você é parte de um experimento. O destino do seu corpo, sua morte são partes de um experimento de tecnologia social, de nova forma de gestão. Nada do que está acontecendo nesse país que se confunde com nossa história é fruto de improviso ou de voluntarismo dos agentes de comando. Até porque, ninguém nunca entendeu processos históricos procurando esclarecer a intencionalidade dos agentes. Saber o que os agentes acham que estão a fazer é realmente o que menos importa. Como já se disse mais de uma vez, normalmente eles o fazem sem saber.

Esse experimento do qual você faz parte, do qual te colocaram à força tem nome. Trata-se da implementação de um “Estado suicidário” como disse uma vez Paul Virilio. Ou seja, o Brasil mostrou definitivamente como é o palco da tentativa de implementação de um Estado suicidário. Um novo estágio nos modelos de gestão imanentes ao neoliberalismo. Agora, é sua face a mais cruel, sua fase terminal.

Engana-se quem acredita que isto é apenas a já tradicional figura do necroestado nacional. Caminhamos para além da temática necropolítica do Estado como gestor da morte e do desaparecimento. Um Estado como o nosso não é apenas o gestor da morte. Ele é o ator contínuo de sua própria catástrofe, ele é o cultivador de sua própria explosão. Para ser mais preciso, ele é a mistura da administração da morte de setores de sua própria população e do flerte contínuo e arriscado com sua própria destruição. O fim da Nova República terminará em um macabro ritual de emergência de uma nova forma de violência estatal e de rituais periódicos de destruição de corpos.

Um Estado dessa natureza só apareceu uma vez na história recente. Ele se materializou de forma exemplar em um telegrama. Um telegrama que tinha número: Telegrama 71. Foi com ele que, em 1945, Adolf Hitler proclamou o destino de uma guerra então perdida. Ele dizia: “Se a guerra está perdida, que a nação pereça”. Com ele, Hitler exigia que o próprio exército alemão destruísse o que restava de infraestrutura na combalida nação que via a guerra perdida. Como se esse fosse o verdadeiro objetivo final: que a nação perecesse pelas suas próprias mãos, pelas mãos do que ela mesma desencadeou. Esta era a maneira nazista de dar resposta a uma raiva secular contra o próprio Estado e contra tudo o que ele até então havia representado. Celebrando sua destruição e a nossa. Há várias formas de destruir o Estado e uma delas, a forma contrarrevolucionária, é acelerando em direção a sua própria catástrofe, mesmo que ela custe nossas vidas. Hannah Arendt falava do fato espantoso de que aqueles que aderiam ao fascismo não vacilavam mesmo quando eles próprios se tornavam vítimas, mesmo quando o monstro começava a devorar seus próprios filhos.

O espanto, no entanto, não deveria estar lá. Como dizia Freud: “mesmo a autodestruição da pessoa não pode ser feita sem satisfação libidinal”. Na verdade, esse é o verdadeiro experimento, um experimento de economia libidinal. O Estado suicidário consegue fazer da revolta contra o Estado injusto, contra as autoridades que nos excluíram, o ritual de liquidação de si em nome da crença na vontade soberana e na preservação de uma liderança que deve encenar seu ritual de onipotência mesmo quando já está claro como o sol sua impotência miserável. Se o fascismo sempre foi uma contrarrevolução preventiva, não esqueçamos que sempre soube transformar a festa da revolução em um ritual inexorável de autoimolação sacrificial. Fazer o desejo de transformação e diferença conjugar a gramática do sacrifício da autodestruição: essa sempre foi a equação libidinal que funda o Estado suicidário.

O fascismo brasileiro e seu nome próprio, Bolsonaro, encontraram enfim uma catástrofe para chamar de sua. Ela veio sob a forma de uma pandemia que exigiria da vontade soberana e sua paranoia social compulsivamente repetida que ela fosse submetida à ação coletiva e à solidariedade genérica tendo em vista a emergência de um corpo social que não deixasse ninguém na estrada em direção ao Hades. Diante da submissão a uma exigência de autopreservação que retira da paranoia seu teatro, seus inimigos, suas perseguições e seus delírios de grandeza a escolha foi, no entanto, pelo flerte contínuo com a morte generalizada. Se ainda precisássemos de uma prova de que estamos a lidar com uma lógica fascista de governo, esta seria a prova definitiva. Não se trata de um Estado autoritário clássico que usa da violência para destruir inimigos. Trata se de um Estado suicidário de tipo fascista que só encontra sua força quando testa sua vontade diante do fim.

É claro que tal Estado se funda nessa mistura tão nossa de capitalismo e escravidão, de publicidade de coworking, de rosto jovem de desenvolvimento sustentável e indiferença assassina com a morte reduzida a efeito colateral do bom funcionamento necessário da economia. Alguns acham que estão a ouvir empresários, donos de restaurantes e publicitários quando porcos travestidos de arautos da racionalidade econômica vêm falar que pior que o medo da pandemia deve ser o medo do desemprego.

Na verdade, eles estão diante de senhores de escravos que aprenderam a falar business english. A lógica é a mesma, só que agora aplicada à toda a população. O engenho não pode parar. Se para tanto alguns escravos morrerem, bem, ninguém vai realmente criar um drama por causa disso, não é mesmo? E o que afinal significa 5.000, 10.000 mortes se estamos falando em “garantir empregos”, ou seja, em garantir que todos continuarão sendo massacrados e espoliados em ações sem sentido e sem fim enquanto trabalham nas condições as mais miseráveis e precárias possíveis?

A história do Brasil é o uso contínuo desta lógica. A novidade é que agora ela é aplicada a toda a população. Até bem pouco tempo, o país dividia seus sujeitos entre “pessoas” e “coisas”, ou seja, entre aqueles que seriam tratados como pessoas, cuja morte provocaria luto, narrativa, comoção e aqueles que seriam tratados como coisas, cuja morte é apenas um número, uma fatalidade da qual não há razão alguma para chorar. Agora, chegamos à consagração final desta lógica. A população é apenas o suprimento descartável para que o processo de acumulação e concentração não pare sob hipótese alguma.

É claro que séculos de necropolítica deram ao Estado brasileiro certas habilidades. Ele sabe que um dos segredos do jogo é fazer desaparecer os corpos. Você retira números de circulação, questiona dados, joga mortos por corona vírus em outra rubrica, abre covas em lugares invisíveis. Bolsonaro e seus amigos vindos dos porões da ditadura militar sabem como operar com essa lógica. Ou seja, a velha arte de gerir o desaparecimento que o Estado brasileiro sabe fazer tão bem. De toda forma, there is no alternative. Esse era o preço a pagar para que a economia não parasse, para que os empregos fossem garantidos. Alguém tinha que pagar pelo sacrifício. A única coisa engraçada é que sempre são os mesmos quem pagam. A verdadeira questão é outra, a saber: Quem nunca paga pelo sacrifício enquanto prega o evangelho espúrio do açoite?

Pois vejam que coisa interessante. Na República Suicidária Brasileira não há chance alguma de fazer o sistema financeiro verter seus lucros obscenos em um fundo comum para o pagamento de salários da população confinada, nem de enfim implementar o imposto constitucional sobre grandes fortunas para ter a disposição parte do dinheiro que a elite vampirizou do trabalho compulsivo dos mais pobres. Não, essas possibilidades não existem. There is no alternative: será necessário repetir mais uma vez?

Essa violência é a matriz do capitalismo brasileiro. Quem pagou a ditadura para criar aparatos de crimes contra a humanidade na qual se torturava, estuprava, assassinava fazia desaparecer cadáveres? Não estavam lá dinheiro de Itaú, Bradesco, Camargo Correa, Andrade Gutierrez, Fiesp, ou seja, todo o sistema financeiro e empresarial que hoje tem lucros garantidas pelos mesmos que veem nossas mortes como um problema menor?

Na época do fascismo histórico, o Estado suicidário mobilizava-se através de uma guerra que não podia parar. Ou seja, a guerra fascista não era uma guerra de conquista. Ela era um fim em si mesmo. Como se fosse um “movimento perpétuo, sem objeto nem alvo” cujos impasses só levam a uma aceleração cada vez maior. A ideia nazista de dominação não está ligada ao fortalecimento do Estado, mas a um movimento em movimento constante. Hannah Arendt falará da: “essência dos movimentos totalitários que só podem permanecer no poder enquanto estiverem em movimento e transmitirem movimento a tudo o que os rodeia”. Uma guerra ilimitada que significa a mobilização total de todo efetivo social, a militarização absoluta em direção a uma guerra que se torna permanente. Guerra, no entanto, cuja direção não pode ser outra que a destruição pura e simples.

Só que o Estado brasileiro nunca precisou de uma guerra porque ele sempre foi a gestão de uma guerra civil não declarada. Seu exército não serviu a outra coisa que se voltar periodicamente contra sua própria população. Esta é a terra da contrarrevolução preventiva, como dizia Florestan Fernandes. A pátria da guerra civil sem fim, dos genocídios sem nome, dos massacres sem documentos, dos processos de acumulação de capital feitos através de bala e medo contra quem se mover. Tudo isso aplaudido por um terço da população, por seus avós, seus pais, por aqueles cujos circuitos de afetos estão presos nesse desejo inconfesso do sacrifício dos outros e de si há gerações. Pobres dos que ainda acreditam que é possível dialogar com quem estaria nesse momento a aplaudir agentes da SS.

Pois alternativas existem, mas se elas forem implementadas serão outros afetos que circularão, fortalecendo aqueles que recusam tal lógica fascista, permitindo enfim que eles imaginem outro corpo social e político. Tais alternativas passam pela consolidação da solidariedade genérica que nos faz nos sentir em um sistema de mútua dependência e apoio, no qual minha vida depende da vida daqueles que sequer fazem parte do “meu grupo”, que estão no “meu lugar”, que tem as “minhas propriedades”. Esta solidariedade que se constrói nos momentos mais dramáticos lembra aos sujeitos que eles participam de um destino comum e devem se sustentar coletivamente. Algo muito diferente do: “se eu me infectar, é problema meu”. Mentira atroz, pois será, na verdade, problema do sistema coletivo de saúde, que não poderá atender outros porque precisa cuidar da irresponsabilidade de um dos membros da sociedade. Mas se a solidariedade aparece como afeto central, é a farsa neoliberal que cai, esta mesma farsa que deve repetir, como dizia Thatcher: “não há essa coisa de sociedade, há apenas indivíduos e famílias”. Só que o contágio, Margareth, o contágio é o fenômeno mais democrático e igualitário que conhecemos. Ele nos lembra, ao contrário, que não há essa coisa de indivíduo e família, há a sociedade que luta coletivamente contra a morte de todos e sente coletivamente quando um dos seus se julga viver por conta própria.

Como disse anteriormente, alternativas existem. Elas passam por suspender o pagamento da dívida pública, por taxar enfim os ricos e fornecer aos mais pobres a possibilidade de cuidar de si e dos seus, sem se preocupar em voltar vivo de um ambiente de trabalho que será foco de disseminação, que será a roleta russa da morte. Se alguém soubesse realmente fazer conta nas hostes do fascismo, ele lembraria o que acontece com um dos únicos países do mundo que recusa seguir as recomendações de combate à pandemia: ele será objeto de um cordão sanitário global, de um isolamento como foco não controlado de proliferação de uma doença da qual os outros países não querem nunca mais partilhar. Ser objeto de um cordão sanitário global deve ser realmente algo muito bom para a economia nacional.

Enquanto isto nós lutamos com todas as forças para encontrar algo que nos faça acreditar que a situação não é assim tão ruim, que tudo se trata de derrapadas e destemperos de um insano. Não, não há insanos nessa história. Esse governo é a realização necessária de nossa história de sangue, de silêncio, de esquecimento. História de corpos invisíveis e de capital sem limite. Não há insanos. Ao contrário, a lógica é muito clara e implacável. Isso só ocorre porque quando é necessário radicalizar sempre tem alguém nesse país a dizer que essa não é ainda a hora. Diante da implementação de um Estado suicidário só nos restaria uma greve geral por tempo indeterminado, uma recusa absoluta em trabalhar até que esse governo caia. Só nos restaria queimar os estabelecimentos dos “empresários” que cantam a indiferença de nossas mortes. Só nos restaria fazer a economia parar de vez utilizando todas as formas de contra violência popular. Só nos restaria parar de sorrir, porque agora sorrir é consentir. Mas sequer um reles pedido de impeachment é assumido por quem diz fazer oposição. No que seria difícil não lembrar dessas palavras do evangelho: “Se o sal não salga, de que serve então?”. Deve servir só para nos fazer esquecer do gesto violento de recusa que deveria estar lá quando tentam nos empurrar nossa própria carne servida a frio.”
___

Vladimir Safatle, professor livre-docente do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo, professor convidado das universidades de Paris VII, Paris VIII, Toulouse, Louvain e Stellenboch. É um dos coordenadores do Laboratório de Pesquisas em Teoria social, Filosofia e psicanálise (Latesfip/USP)

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Como a esquerda brasileira morreu

       VLADIMIR SAFATLE

 Este é um artigo que gostaria de não ter escrito e não tenho prazer algum em fazer enunciações como a que dá corpo ao título. No entanto, talvez não haja nada mais adequado a falar a respeito da situação política brasileira atual, depois de um ano de Governo Jair Bolsonaro e a consolidação de seu apoio entre algo em torno um terço dos eleitores. Aqueles que acreditavam em alguma forma de colapso do Governo e de sua base precisam rever suas análises. O que vimos foi, na verdade, outro tipo de fenômeno, a saber, a inoperância completa do que um dia foi chamado de “a esquerda brasileira” enquanto força opositora. Não que se trate de afirmar que ela está diante do seu fim puro e simples. Melhor seria dizer que um longo ciclo que se confunde com sua própria história termina agora. O pior que pode acontecer nesses casos é “não tomar ciência de seu próprio fim” repetindo assim uma situação que lembra certo sonho descrito uma vez por Freud na qual um pai morto continua a agir como se estivesse vivo. A angústia do sonho vinha do fato do pai estar morto e nada querer saber disto. Se a esquerda brasileira não quiser ver sua morte definitiva como destino, seria importante se perguntar sobre qual é esse ciclo que termina, o que ele representou, quais seus limites.

Signos não faltaram para tal diagnóstico terminal. Contrariamente ao discurso de que o Governo Bolsonaro estaria paralisado, vimos ao contrário a aprovação de medidas até pouco tempo impensáveis, como a reforma previdenciária, isso sem nenhuma resistência digna deste nome. Ou seja, a maior derrota da história da classe trabalhadora brasileira foi feita sem que anotassem sequer o número da placa do carro responsável pelo atropelamento. Uma reforma da mesma natureza, mas menos brutal, está a tentar ser imposta na França. O resultado é uma sequência de greves e manifestações de vão já para o seu terceiro mês. Na verdade, o que vimos no Brasil foi o contrário, a saber, governos estaduais pretensamente de esquerda a aplicarem reformas estruturalmente semelhantes. Como se fosse o caso de dizer que, no final, governo e oposição comungam da mesma cartilha, sendo distinta apenas a forma e a intensidade de sua implementação. Fato que já havíamos visto com o segundo Governo Dilma e sua guinada neoliberal capitaneada por Joaquim Levy.

Isso é apenas um sintoma de que a esquerda brasileira não é mais capaz de impor outro horizonte econômico-político. Durante todo o ano de 2019, diante de um Governo cujas políticas visam a retomada, em chave autoritária, dos processos de concentração de renda, de acumulação primitiva e de extrativismo colonial, não foram poucos aqueles que esperaram da esquerda brasileira (todos os partidos e instituições inclusas) a expressão de outro tipo de política. A esquerda governa estados, municípios grandes e pequenos, mas de nenhum deles saiu um conjunto de políticas que fosse capaz de indicar a viabilidade de rupturas estruturais com o modelo neoliberal que nos é imposto agora. Houve época que a esquerda, mesmo governando apenas municípios, conseguia obrigar o país a discutir pautas sobre políticas sociais inovadoras, partilha de poder e modificação de processos produtivos. Não há sequer sobra disto agora.

Talvez seja o caso de insistir neste ponto porque, como dizia Maquiavel, o povo prefere um governo ruim a governo nenhum. Não são as qualidades do Governo Bolsonaro que dão a ele certa adesão popular. É o vazio, é o fato de não haver nenhuma outra alternativa realmente crível neste momento. E a razão disso é simples: a esquerda brasileira morreu, ela tocou seu limite e demonstrou não ser capaz de ultrapassá-lo. Isso vale tanto para partidos, sindicatos quanto para a classe intelectual (na qual me incluo). Nossas ações até agora não se demonstraram à altura dos desafios efetivos. O melhor a fazer seria começar a se perguntar pela razão de tal situação.

Coloquemos uma hipótese de trabalho: a esquerda brasileira conhece apenas um horizonte de atuação, este que atualmente chamaríamos de “populismo de esquerda”. Foi ele que se esgotou sem que a esquerda nacional tenha se demonstrado capaz de passar para outra fase ou mesmo de imaginar o que poderia ser “outra fase”. Entende-se por populismo de esquerda um modelo de construção de hegemonia baseado na emergência política do povo contra as oligarquias tradicionais detentoras do poder. Este povo é, na verdade, produzido através da convergência de múltiplas demandas sociais distintas e normalmente reprimidas. Demandas contra a espoliação de setores sociais, contra a opressão racial, contra os legados do colonialismo: todas elas devem convergir em uma figura que seja capaz de representar e vocalizar esta emergência de um novo sujeito político.

No entanto, o caráter nacionalista do populismo permite também a inclusão de setores descontentes da oligarquia, grupos da burguesia nacional dispostos a ter um papel “mais ativo” nas dinâmicas de globalização. Assim, o “povo”, neste caso, nasce como uma monstruosa entidade meio burguesia, meio proletariado. Uma mistura de JBS Friboi com MST.

Este é o modelo que a esquerda nacional tentou implementar em sua primeira tentativa de governar o Brasil: a que termina com o golpe militar contra o Governo João Goulart. Na ocasião, um dos personagens mais lúcidos de então, Carlos Marighella, faz um diagnóstico preciso: a esquerda havia apostado na conciliação com setores da burguesia nacional e com setores “nacionalistas” das forças armadas dentro de governos populistas de esquerda. Ela colocou toda sua capacidade de mobilização a reboque de uma política que parecia impor mudanças seguras e graduais. Ao final, tudo o que ela conseguiu foi estar despreparada para o golpe, sem capacidade alguma de reação efetiva diante dos retrocessos que se seguiriam.

A lição de Marighella não foi ouvida. Tanto que a esquerda brasileira fará o mesmo erro com o final da ditadura militar e com o advento da Nova República. A história será simplesmente a mesma: o movimento em direção a um jogo de alianças entre demandas sociais e interesses de oligarquias locais descontentes tendo em vista mudanças “graduais e seguras” que serão varridas do mapa na primeira reação bem articulada da direita nacional.

Nesse sentido, nossa história segue os passos da história argentina: outro campo de ensaio do populismo de esquerda. Mas há uma diferença substancial aqui. Depois da experiência ditatorial, a Argentina soube criar uma linha de contenção de impulsos golpistas. Hoje, quase mil pessoas ainda se encontram nas cadeias argentinas por crimes da ditadura. No Brasil, ninguém foi preso. A resposta argentina produziu uma linha de contenção, inexistente entre nós, que permitiu ao peronismo ter ressureições periódicas. Dificilmente, essa será a história brasileira daqui para frente, pois o risco de deriva militar é real entre nós.

Mas há ainda um outro fator decisivo. O colapso do lulismo não foi seguido apenas de um golpe parlamentar apoiado em práticas criminosas de setores do poder judiciário. Ele foi seguido da criação de uma espécie de antídoto à “reemergência” do corpo político populista. O que vimos, e agora isto está cada vez mais claro, foi a emergência de um corpo fascista. Mas o corpo político fascista é normalmente a versão terrorista e invertida de um corpo político anterior, marcado pela emergência do povo e pelas promessas de transformação social. Dessa forma, ele acaba por bloquear sua ressurgência. Já se disse que todo fascismo nasce de uma revolução abortada. Nada mais justo.

Theodor Adorno um dia descreveu o líder fascista como uma mistura de King Kong e barbeiro de subúrbio (certamente pensando no Chaplin de O grande ditador). Essa articulação entre contrários é fundamental. A pretensa onipotência do líder fascista deve andar juntamente com sua fragilidade. O líder fascista deve ser “alguém como nós”, com a mesma falta de cerimônia, a mesma simplicidade e irritação que nós. A identificação é feita com as fraquezas, não com os ideais. Ele deve ser alguém que come miojo em banquetes presidenciais, que se veste de maneira desajeitada como alguém do povo. Ele deve a todo momento dizer que está a combater as elites que sempre governaram esse país (que agora serão os artistas, as universidades, os “cosmopolitas” e “globalistas”). Ele deve mostrar que não é alguém da elite política, que na verdade tal elite o detesta. Pois se trata de criar um antídoto para toda forma de tentativa de recuperar a produção do povo como processo de emergência de dinâmicas de transformação social.

Dessa forma, tudo se passa como se Bolsonaro fosse uma versão militarizada de seu oposto, a saber, Lula. Não se trata com isso de afirmar que estamos presos em uma polaridade. Ao contrário, trata-se de dizer que tudo foi feito para anular a polaridade real, criando um duplo imaginário. Nunca entenderemos nada das regressões fascistas se não compreendermos estas lógicas dos duplos políticos. Se há algo que nos falta é exatamente polaridade. Temos pouca polaridade e muita duplicidade.

O fato é que tal dinâmica se demonstrou eficaz. Ela quebrou os processos de incorporações populistas que foram, até agora, a alma da esquerda brasileira. Por isso, o que vemos agora é uma esquerda sem capacidade de ação, pois atordoada com o fato de a direita brasileira ter, enfim, produzido a sua figura com capacidade de incorporação do povo, agora sem o erro de apostar em um egresso da elite político-econômica (Collor) ou em alguém sem vínculos orgânicos com o militarismo fascista (Jânio).

Numa situação como essa, a esquerda nacional ainda paga o preço de ter sido formada para a coalizão e para a negociação. Esse é seu DNA, desde a política de alinhamento do PCB aos ditames antirrevolucionários do Soviete Supremo. Por isso, ela não sabe o que fazer quando precisa mudar o jogo e caminhar para o extremo. Sua inteligência não age nesse sentido, suas estruturas não agem nesse sentido, sua classe política não age nesse sentido. Seus movimentos de revolta perdem-se no ar por não ter nenhuma sustentação ou coordenação de médio e longo prazo. Foi assim que ela morreu. Se ela quiser voltar a viver, toda essa história tem que chegar a um fim. Ela deverá tomar ciência de seu fim.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

O POTE DO TÉDIO


Antes da leitura do texto abaixo, três explicações:

1 – Retirado do livro “Mulheres da Letras”, Ed. Litere-se;

2 – O livro chega em minhas mãos pela escritora Kelly Crisntiny, que possui um conto no livro (coletânea de escritoras). Kelly foi funcionária da Cultura enquanto lá estive, e com ajuda de outros companheiros, a convencemos a procurar um emprego que não dependesse dos humores da política e investir em sua arte, a escrita;

3 – O conto a seguir, é próximo a nossa linha de trabalho enquanto Ciência e Tecnologia, em Maricá. Linha essa, em crescimento no mundo, mas ainda em gesta em Maricá. Acreditamos na Tecnologia como ferramenta de resgate do bem viver na e com a sociedade. Passado, presente e futuro (intergeracionalidade) em iteração e interação. A tecnologia como ferramenta e não fim.

O POTE DO TÉDIO – Elisângela Medeiros

A Família Nunes era bem de vida. Tinham três filhos, dois meninos e uma menina. Saíram da periferia e conseguiram alcançar estabilidade financeira com muito trabalho e criatividade. Os patriarcas da família passaram por muitas dificuldades na infância. Pobreza, alimentação restrita e brinquedos só os que criavam, babavam nas vitrines das lojas ou sonhavam em ter os brinquedos que viam nos comerciais de TV.

Quando casaram, prometeram um ao outro que seus filhos não iriam passar por nenhuma dificuldade. Presenteavam-lhes com tudo que desejassem, e sem perceber os afastavam um dos outros. Um dia sua mãe deu um basta... Sumiu com todos os eletrônicos da casa, pois com esse veneno nas mãos não conversavam nem brincavam como crianças normais. Elas procuraram o dia inteiro até cansar. As crianças acharam a vida sem celular um verdadeiro tédio e foram dormir mais cedo, esperando que a noite passasse logo e seus pais mudassem de ideia, devolvendo no dia seguinte os eletrônicos.

O caçula foi o primeiro a acordar. Ao chegar à cozinha, havia um pote de plástico transparente cheio de papéis coloridos escrito com letras garrafais: “Pote do Tédio”. Ele já ia pegar e mamãe disse:

- Não, não, não! Esse pote só pode ser aberto na presença dos três irmãos!

O mais novo correu e chamou os outros:

- Maninhos, corram que tem surpresa na cozinha!

Com um pulo ligeiro, os dois saíram correndo e viram o “Pote do Tédio” que mais parecia o pote do mistério. Mamãe disse que só poderiam abrir depois do café, depois de escovarem os dentes e ainda teriam de abrir juntos na varanda. Que café ligeiro os três tomaram, escovaram os dentes e se arrumaram correndo. O caçulinha era o guardião do pote, já que o havia descoberto primeiro que os mais velhos. Na varanda, os três abriram o pote com o coração acelerado! O que havia naqueles papeizinhos coloridos? O mais velho foi o primeiro a pegar o papel laranja, abrir e ler o que estava escrito... “ESCONDE-ESCONDE”.

De olhos arregalados descobriram o mistério... O pote é de brincadeiras: pula corda, amarelinha, pique-pega, adedonha, forca...

Era brincadeira que não faltava mais! Algumas eles nem conheciam. E assim se passaram três dias sem lembrarem-se dos eletrônicos. No sábado pela manhã quem levou um susto foi a mamãe... para fazer o café tinha um pote escrito... “POTE DA FAMÍLIA”.

O mesmo pote: transparente, com tampa, cheio de papeizinhos coloridos.

Mamãe correu e foi acordar papai...

- Papai acorda... Tem uma surpresa na cozinha deixada pelas crianças!

Quem pulou da cama foi o papai... Não era dia das mães, dos pais, nem Natal... Que surpresa era essa?! Ao chegar à cozinha, o “POTE DA FAMÍLIA” estava lá convidando os dois para abri-lo... Papai abriu, mas quem pegou o papel primeiro foi a mamãe... E ao abrir estava escrito... “JOGO DE TABULEIRO”.

Os outros papéis diziam: assistir filme à tarde com pipoca, andar de bicicleta, brincar na pracinha, jogar bola, e assim por diante. Papai e mamãe perceberam que as crianças estavam precisando de atenção e que dinheiro não é tudo na vida. Sempre que o tédio batia, os potes do tédio e da família eram abertos, e a alegria reinava naquela casa cheia de amor e paz.

- PRESENTE + PRESENÇA

A Tecnologia como ferramenta de convivência e endoculturação dos saberes tradicionais de cada comunidade.

Sérgio Mesquita
Sec. de Ciência, Tecnologia e Comunicações de Maricá-RJ

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

As “identidades” e a invisível luta de classes, por Nuno Ramos de Almeida


“Tentam, por exemplo, resolver o problema da pobreza mantendo os pobres vivos; ou, no caso de uma escola muito avançada, divertindo-os...”
Oscar Wilde

No drama dos imigrantes, uma chave para compreender o estratagema das elites dominantes: querem converter conflito social a mera disputa entre etnias ou gêneros. É outra máscara do eterno esforço para dividir os explorados

A portuguesa Ana Telma Rocha interrompeu um direto da Sky News para expressar a sua revolta. Vive há quase 20 anos no Reino Unido. Serviu nesse país “em 32 empregos diferentes”, segundo confessa. Trabalha 63 horas semanais. Cria riqueza na Grã-Bretanha, mas só serve para trabalhar calada. Na hora de decidir, sobre o seu futuro e a sociedade em que vive, ela não é chamada.

“O que me preocupa é o estado das coisas, o estado da sociedade da qual uma pessoa fez parte durante 20 anos e do nada é apagada, é invisível”, diz.

A operação que permite descartar os imigrantes como se fossem lixo baseia-se numa correlação de forças que faz com que lhes seja negada a voz nas nossas democracias.

As sociedades europeias têm como modelo a Grécia antiga: não a sua elevação filosófica, mas o fato de só os nacionais terem alguns direitos, o resto são metecos, que servem para trabalhar calados.

Aqueles que trabalham têm a força do trabalho, mas a sua fraqueza política baseia-se na divisão. Metade dos pobres da Europa dirigem o seu ódio e rancor para a outra metade dos pobres, por razões tão curiais como não terem nacionalidade, “raça” ou religião que os mandantes de turno garantem que é a certa. Os pobres de todas as “raças”, credos e nacionalidades podem bater-se à paulada, mas o resultado é que ficarão sempre na mesma, pobres e subalternos.

A criação da invisibilidade é uma operação ideológica que se alicerça na privação de poder da maioria da população do planeta. É um poderoso instrumento que permite fazer várias coisas, desde não conceder direitos políticos aos imigrantes nos países europeus, até negar o direito à vida às milhares de pessoas que são literalmente jogadas ao mar para morrerem afogadas no Mediterrâneo. Gente que tem como único crime procurar uma vida melhor para si e para os seus.

Para os pobres se sentirem contra outros pobres e esquecerem que quem fica com a sua parte são os ricos é preciso um processo histórico, econômico, político e conseguir condicionar a forma como os oprimidos, migrantes ou não, veem a realidade.

As migrações são um dos processos que se aceleram com a globalização. Tal como acontecem, no capitalismo globalizado, elas não derivam da liberdade para circular, mas da liberdade de explorar. Os imigrantes – mantidos propositadamente com poucos direitos sociais e nenhuns direitos políticos – são usados como tropa de choque para implodir os poucos direitos conquistados ao longo de gerações pelas classes operárias locais. Esta degradação das condições sociais para a maioria da população é acompanhada por uma outra operação ideológica de relevo: a tentativa de etnização do conflito social.

Quem manda na política define um território e escolhe aqueles que são amigos e aqueles que são inimigos, como explicava Carl Schmitt. Quem consegue tornar hegemônicas essas regras ganha o tabuleiro do confronto político. As elites que mandam no capitalismo vendem-nos, nos países desenvolvidos, como uma divisão entre uma enorme classe média, a que eles também pertenceriam, e uma matilha de imigrantes que habitam nos territórios selvagens dos subúrbios.

Entre as elites autoritárias, do novo populismo de extrema-direita, e as elites com o discurso clássico, apenas muda o tom. Nos primeiros, os imigrantes devem ser controlados pela polícia e não ter apoios sociais; nas elites do bloco central dos interesses, os imigrantes não devem ter direitos, mas devem ter caridade e reconhecimento da sua diferença cultural. Na maioria dos países da Europa os governos reconhecem com mais facilidade a existência de comunidades com culturas próprias que a existência de direitos sociais para toda a gente.

Nessa operação ideológica, em que se divide a sociedade em classes médias e gente de fora, consegue-se fazer desaparecer as classes populares originárias do país e, mais importante, fazem-se desaparecer da vista das pessoas o fato das elites ganharem uma fatia cada vez maior do rendimento mundial.

Transforma-se o conflito social num jogo de sombras em que se opõem comunidades culturais e étnicas diferentes, tornando invisível a luta de classes. Essa estrutura generaliza-se para a sociedade no seu conjunto. Todo o campo da luta social se torna um conflito entre identidades diferentes. A luta das mulheres pela igualdade, dos migrantes pelos direitos políticos e sociais, dos homossexuais pelo direito a não serem discriminados, dos negros contra o racismo deixam de ser lutas universais pela igualdade para passarem a ser apenas políticas identitárias. A ideologia dominante aprofunda divisões e identidades de modo a que nunca haja uma maioria social pela igualdade de todos, e para que toda a luta seja uma continua multiplicação de divisões entre aqueles que não têm nenhum poder.

Blanqui esteve preso 37 anos. Na sua última prisão, nas vésperas da Comuna de Paris, escreveu um enigmático texto chamado “A Eternidade Conforme os Astros”. Páginas esquecidas que o malogrado pensador Walter Benjamin comparava a Baudelaire. Nelas, o homem das muitas conspirações dos iguais remetia para um universo frio e infinito as possibilidades de novas formas de vida e sociedade que triunfassem onde a humanidade tinha tropeçado. “Saberão por certo que o céu obedece às leis da igualdade, e encontra em si mesmo os recursos para escapar à morte. Mas saberão que esse combate da vida contra a morte é um drama que não tem nem começo nem fim, que obriga os que o tomam como modelo a travar um combate indefinidamente repetido, e certo apenas quanto a uma coisa, que nenhum final feliz se encontra no fim do caminho”.

Vendem-nos muitas vezes que a política é a arte do possível. E que qualquer acordo medíocre é melhor que uma divergência de princípios. É desta massa que é feita a atual Europa, onde se promete aos eleitores votarem em candidatos a presidente da Comissão Europeia, mas no fim, o Conselho Europeu resolve mandar fechar esse circo de ilusões e vender os lugares de poder à melhor licitação negocial.

Num livro de Slavoj Zizek, A Europa à Deriva, encontram-se duas citações da obra de Oscar Wilde, A Alma do Homem e o Socialismo: “É muito mais fácil ter-se simpatia para com o sofrimento do que ter-se simpatia para com o pensamento”, acrescentando-lhe uma outra passagem de Wilde em que este defende que o simples horror ao sofrimento e a caridade em relação à pobreza não fazem mais que prolongar as suas causas e aliviar a consciência dos responsáveis por essa situação. “Tentam, por exemplo, resolver o problema da pobreza mantendo os pobres vivos; ou, no caso de uma escola muito avançada, divertindo-os. Mas isso não é uma solução, é um agravamento da dificuldade. O objetivo adequado é tentar reconstruir a sociedade sobre uma base em que tal pobreza venha a ser impossível. E as virtudes altruístas têm, sem dúvida, impedido a realização de tal desígnio”, conclui o autor de A Importância de ser Ernesto.

Não é por acaso que Zizek escolhe o grande provocador britânico para inventariar aquilo que se propõe neste livro. O esloveno coloca-se na posição que mais gosta: a de provocador. Mas sempre vai dizendo algumas coisas fundamentais. A solução para a questão dos refugiados, apesar dos horrores das imagens, não passa pela simples caridade para resolver o problema imediato de centenas de milhares de pessoas; embora esse drama tenha que ser já resolvido, a urgência da ação não nos pode dissuadir de afirmar que essas pessoas são sujeitas de direitos e não apenas objetos de caridade. O autor defende que a resolução da crise humanitária não se faz pela abertura, maior ou menor, das fronteiras, mas por responder aos problemas globais e às suas implicações nos países de origem dos refugiados. Zizek defende, também, que não se pode deixar à extrema-direita o monopólio da proximidade das pessoas e da preocupação sobre a situação criada na Europa com o enorme fluxo de refugiados. É talvez aí o ponto mais polêmico do livro, a ideia que uma posição de abertura de fronteiras aqui e agora, é meramente uma posição simbólica de quem sabe que isso não acontecerá. Slavoj Zizek, num capítulo sugestivamente chamado “Quebrar os Tabus da Esquerda”, atira-se a uma concepção muito difundida da esquerda, dita multiculturalista, segundo a qual “um inimigo é alguém cuja história nunca ouvimos”.

Para o filósofo, “existe um claro limite para este procedimento. Também estaremos prontos a afirmar que Hitler era só um inimigo porque a sua história não foi ouvida? Ou, será que, pelo contrário, quanto mais conheço e ‘compreendo’ Hitler, mais Hitler é o meu inimigo?” E não se fica por aí, há em parte da esquerda a ideia que tudo o que vem dos oprimidos é necessariamente bom. Para além de defender que essas pessoas não sejam oprimidas, deveríamos, segundo essa esquerda, compreender de tal maneira a sua situação e circunstâncias, que tudo o que eles fazem deve ser defendido. Para o autor da Europa à Deriva, as coisas quase nunca são assim. Faz uma crítica similar a Etore Scola no filme Feios, Sujos e Malvados. A miséria não nos faz ser boas pessoas e gente aconselhável. Mas isso só reforça a convicção que se deve combater as causas que levam as pessoas a ser exploradas. No seu pensamento, a contemporização com os aspetos retrógrados da religião, em prol de um multiculturalismo fofo, não existe. Ele recupera a ideia de Marx que “a religião é o ópio do povo” ao defender que “o próximo tabu a ser descartado sem piedade é a equiparação de qualquer referência ao legado emancipatório europeu com o imperialismo cultural e o racismo”. Criticar práticas e concepções culturais do islamismo dos refugiados não significa ser cúmplice da sua opressão. “O próximo tabu esquerdista a deixar para trás é o de obstar a qualquer crítica ao islão como um caso de ‘islamofobia’”. A superação desta situação de profunda desigualdade que se vive no mundo, e a situação de selvageria a que foram levados grande parte de territórios do mundo, a golpes de mísseis, não se corrigem por uma questão de tolerância multicultural, mas resolvendo as questões através de um novo projeto de  universalismo emancipatório. Para Zizek, existem quatro antagonismos que podem permitir que o capitalismo global, que gera os racistas e os fundamentalistas, não se reproduza eternamente: “a ameaça iminente de catástrofe ecológica, a inadequação da propriedade privada para a chamada ‘propriedade intelectual’, as implicações sócio éticas dos novos desenvolvimentos técnico-científicos (sobretudo a biogenética), e , por último mas não menos importante, as novas formas de apartheid, os novos muros e bairros de lata”. É, para o autor, este aspeto final que politiza e dá tom às contradições existentes no sistema.


Balanço de 2019: o império da impostura - 26/12/2019


Afora os grandes empresários que aplaudem calorosamente o ministro Paulo Guedes porque ganham com a crise, o balanço de 2019 na perspectiva das vítimas dos ajustes fiscais, dos que perderam direitos na reforma da previdência e dos resistentes é repudiável.

Instalou-se aqui o império da impostura. Um presidente que deveria dar exemplo ao povo de virtudes que todo governante deve ter, realizou atos acintosos que na linguagem religiosa, bem entendida por ele, são verdadeiros pecados mortais. Pela moral cristã mais tradicional é pecado mortal caluniar certas ONGs, bem o ator Leonardo di Caprio culpando-os de incentivar os incêndios da Amazônia ou difamando o reconhecido educador Paulo Freire e o cientista Ricardo Galvão ou mentir contumazmente mediante fake news e alimentar ódio e rancor contra homoafetivos, LGBTI, indígenas, quilombolas, mulheres e nordestinos. A lentidão no julgamento do massacre de Brumadinho-MG e de Mariana-MG está mostrando a insensibilidade das autoridades. Algo parecido ocorreu com o derrame ignoto(?) de petróleo em 300 praias de 100 municípios do Nordeste.

Não cabe a ninguém julgar sua intenção subjetiva. Isso é coisa para Deus. Mas cabe fazer um juízo sobre fatos e atos, portanto, realidades objetivas e concretas para as quais cabe um juízo ético e teológico. Tal atitude imoral foi entendida por muitos como carta branca para desmatar mais, assassinar lideranças indígenas e a polícia tornar-se mais violenta e até assassina.

Estamos vivendo sob o império da impostura no campo nacional e no internacional. Um psicanalista francês, Roland Gori escreveu um instigante livro “La fabrique des imposteurs” (Paris 2013). Para ele o impostor é aquele que prefere os meios aos fins, que nega as verdades científicas, que distorce a realidade solar, que não se rege por valores porque é apenas um oportunista, que afirma algo e logo depois o nega conforme suas conveniências, que pratica a arte de iludir as pessoas ao invés de emancipá-las pelo pensamento crítico, que despreza o cuidado pelo meio ambiente, que passa por cima das leis, que culpabiliza os pobres e que não demonstra  amor nem  piedade.

O que transcrevi aqui está referido no livro “La fabrique des imposteurs” e representa um retrato da atmosfera de impostura reinante nas mais altas instâncias políticas do Brasil.

As medidas contra a educação, a saúde, a ciência, ao meio ambiente e aos direitos humanos concretiza a mais rude impostura contra tudo o que se construiu de positivo nos últimos decênios. Somos conduzidos a um estágio regressivo, anterior ao iluminismo, numa mentalidade fundamentalista com viés fascistóide.

Talvez o ato para nós mais humilhante foi o gesto de vassalagem explícita do atual governante ao presidente dos USA, oferecendo-lhe o que podia sem receber nada em troca. Risível e ridículo foi quando, numa recepção de chefes de estado lhe diz a Trump “I love you” e recebeu apenas 17 segundos de atenção.

A impostura grassa veemente, em primeiro lugar, nos USA onde o presidente Trump, segundo repete Paul Krugman, Nobel de economia, constitui um perigo para a humanidade. Mente a mais não poder e se justifica ao dizer que são “verdades alternativas”. Igual impostura ocorre nos países ultra neoliberais onde o povo se rebela como no Chile, no Equador, na Colômbia, culminando com um golpe de estado contra a população indígena e seu representante na Bolívia, lançando o povo na fome e no desespero.

Perigosa impostura ocorreu na COP25 em Madrid que contra todas as evidências e dados científicos predominaram os negacionistas do aquecimento global, o Brasil incluído. Contra eles o relatório final recolhe a advertência da ONU: ”Se nada fizermos, no final do século, a temperatura pode aumentar de 4-5 graus”. Com estes níveis, a vida que conhecemos não subsistirá. Será um verdadeiro Armagedom ecológico. Nossa espécie correrá perigo.

Não obstante esta atmosfera tenebrosa cabe celebrar a libertação de Lula, vítima da aplicação da law fare, instrumento de perseguição política com o objetivo de prendê-lo. O que ocorreu.

Termino com as palavras severas do prêmio Nobel de medicina de 1974, Christian de Duve: ”A perspectiva não é apenas preocupante: é aterrorizante. Se não conseguirmos conter o crescimento demográfico (poderia dizer o aquecimento global) racionalmente, a seleção natural fará isso por nós irracionalmente, às custas de privações sem precedentes e de danos irreparáveis ao meio ambiente. Tal é a lição que quatro bilhões de anos nos oferece a história da vida na Terra” (Poeira vital 1997,369).

Bem o enfatizava o Papa Francisco em sua encíclica ecológica: ”as previsões catastróficas não se podem olhar com desprezo e ironia”(n,161). A impostura nos faz surdos a estes clamores. Por causa disso, o destino humano dificilmente escapará de uma tragédia.

Leonardo é teólogo e filósofo e escreveu: A saudade de Deus - a força dos pequenos, Vozes 2019.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Sobre o Pacto pela Inovação para o Desenvolvimento do Leste Fluminense


A ideia é transmitir aos participantes do PIDLF algumas preocupações que me ocorrem.

Nada que se oponha a necessidade, ao acerto, ao “o tiro na mosca”, que entendo ser a viabilização deste Pacto. Pacto que será benéfico para os municípios participantes, bem como para o Estado do Rio em sua totalidade, e porque não, para o Brasil. Pode vir a ser um exemplo, como o consórcio do NE na Saúde.

Passamos por um momento que não é privilégio do Estado do Rio, ou mesmo do Brasil. Ainda sofremos com a continuidade da crise de 2008 e seus fantasmas.

Na questão nacional, está claro para o mundo, que as medidas tomadas pelo governo federal somada a pouca lucidez de muitos de seus dirigentes, faz com que a luz no final do túnel não seja alcançada. Pelo contrário, nos leva a crer que o túnel se alonga em seu tamanho. Ao contrário da Utopia, que nos serve para a caminhar, segundo Galeano, este alongamento nos leva a mais miséria, perda de soberania, injustiças e um retorno criminoso a Idade Média.

Na questão estadual, temos seus problemas aumentados pela questão nacional. Navega em mares revoltos, alinhado com Brasília. Não tem demonstrado capacidade de enfrentamento da crise e das questões políticas. Segue a corrente, torcendo para que o “pibinho” anunciado com pompas pela Globo, realmente seja um alento.

Por outro lado, os grandes meios de comunicação, continuam pulando de galho em galho e, de acordo com seus interesses ou verbas de publicidade, no geral, mantêm as mesmas práticas de 50 anos. São contra a democracia e soberania do país. Funcionam para menos de 10% da população do país. O restante só serve para manipulação.

Mesmo com todo esse quadro, e claro, pelo clã de Brasília não ter encontrado ainda uma fórmula que leve a uma nova distribuição dos “royalties” ou mesmo ao seu fim, enquanto riqueza distribuída. Cidades como Maricá e outras poucas, pensam em sua utilização como indutor de um crescimento regional e não local. Não por ser boazinha, madre Tereza. Mas sim, por entender a necessidade, a urgência de um crescimento regional e não como uma ilha de prosperidade cercada de pobreza. Como é comum acontecer com empreendimentos em que só são levados em questão, planilhas financeiras e não a sua população.

Não repitamos os erros de muitos estados e municípios, que por conta de uma guerra fiscal, distribuíram ao léu isenções fiscais por decênios e decênios. O resultado são uns poucos bolsões de prosperidade cercados de vários bolsões de pobrezas, pois os municípios ficam sem arrecadação fiscal para cuidar de seu povo.

Uma região que tem em seu território estruturas como o COMPERJ, um Parque Tecnológico nascendo, um futuro Porto e acesso a um Anel Rodoviário, deve é cobrar contrapartidas das empresas que aqui se instalarem, em prol de sua população empobrecida.

Fazer como nos conta Requião. Quando governava o Paraná e uma fábrica de tratores agrícolas queria isenções absurdas para se instalar no estado. O empresário ameaçava ir para Minas, que cedia as suas exigências. Requião pega o telefone e dá os parabéns ao Hélio, pois ele havia ganho uma fábrica de tratores. Passados dois meses, a fabrica se instala no Paraná sem as benesses exigidas. O Porto de exportação de grãos era no Paraná, a produção agrícola era no Sul, porque o empresário iria montar uma fábrica no interior de Minas para depois vender os tratores no Sul?

Vamos ao exemplo de minha querida Santa Rita do Sapucaí, MG, o vale da eletrônica, nosso vale do silício. Cidade pujante, uns dos melhores “hacktown” do Brasil. Várias empresas de ponta e faculdades instaladas. Pobre. Sem orçamento.

Lá trás aprovaram uma Lei de incentivo onde, as empresas quando cresciam em faturamento e tamanho, poderiam se subdividir em empresas menores...

São vários os exemplos e várias as mentiras como a geração de emprego, pois a automação está aí e devemos estar preparados, não para os empregos que serão criados, mas para os empregos não criados. E sem orçamento, não teremos solução.

Há braços.

Sérgio Mesquita
Secretário de Ciência, Tecnologia e Comunicações de Maricá-RJ

segunda-feira, 25 de novembro de 2019


As tecnologias nos contos de fadas

Délcio Teobaldo

As pedrinhas deixadas por Joãozinho, no chão da floresta, para sinalizar a ele e à imã Maria, a volta segura para casa, seriam um Protótipo de Baixa Fidelidade do atual sistema de posicionamento global (GPS)?! Por que não? Ora, assim como, pelos séculos dos séculos, os Contos de Fadas têm transmutado a realidade em fantasia; sem perder o fluxo, na mesma vibe (pensei usar aqui a palavra dinâmica, mas vibe é mais adequada ao tema), as novas tecnologias comprovam que, hoje, quaisquer fantasias podem se tornar reais.

Sonhos prototipados, num mundo onde, sem dúvida, o “Abre-te e o fecha-te Sésamo!” de As Mil e uma Noites, assim como o Tapete Voador, eram Protótipos de Alta Fidelidade das senhas de comando de voz e dos drones tripulados. Seriam os hieróglifos, emojis? Seria o desafio “Decifra-me ou devoro-te?”, da Esfinge de Tebas, a senha derradeira que daria ao usuário o acesso seguro ao pluriverso da Internet? Por que não?

A partir dessas evidências, proponho as releituras, tão urgentes, quanto necessárias, dos Contos de Fadas sob a ótica das tecnologias. A troca é justa: se, através dos contos ancestrais, herdamos a fantasia e, dela, extraímos a força e a possibilidade de sonhar acima e muito além do óbvio, nada mais compatível que, pelo bem do próprio bem desta geração, sejam respeitados seus ideogramas, tanto quanto deve ser mantida a reverência à oralidade, onde o contos foram gerados e ao abecedário, que os mantém vivos e interessados.

Esse respeito, reverência e reconhecimento se baseiam, logicamente, em perpetuar o “quem conta um conto aumenta um ponto”, pois a fantasia é um alinhavo sempre pra frente. Ascendente. Transcendente. O respeito, reverência e reconhecimento se baseiam, também, no compromisso de continuarmos conjugando o verbo ser no passado, pois sempre foi e será “Era uma vez...”, não importa o deslumbramento pelas belezas do presente, porque a criação e a fantasia sempre estarão (devem estar!) a um passo da realidade, não importa se os avanços da Tecnologia da Informação (TI) nos coloquem, diariamente, no ventre do seu admirável assombro novo.

Nesses tempos em que o fantasma da Nomofobia ronda corações e mentes e amplia a lista de doenças a que estão vulneráveis os que têm medo irracional de ficar sem o celular ou quaisquer meios de interação e compartilhamento, nada mais saudável e sensato que amenizar danos, num mergulho ao mundo do “Era uma vez...” (Re) imaginar, experimentar, fazer contrapontos, um exercício que, seja aplicado à música ou às partilhas cotidianas, sempre harmoniza. Enriquece. Oxigena. Poderia, para isto, utilizar, como reconto, a tela do smartphone, associando-a à deslumbrante Toca do Coelho Branco de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll... Ou, quem sabe, invocar Kobold, o duende que habita as minas. O demônio brincante que, se não for respeitado, enlouquece tanto aqueles que se aventuram pelo coração da terra, sem lhe pedir licença, quanto os que vivem na superfície.

Seria um caminho seguro a seguir, afinal, Kobold e Cobalto, o minério azulado que sai das minas da República Democrática do Congo para alimentar as empresas fabricantes de celulares, são sinônimos. Estaria Kobald, fazendo valer sua natureza mágica, atazanando o cotidiano dos usuários de celulares que, além de o ignorarem, sequer o agradecem, pelas maravilhas que essas ferramentas, simples artefatos da metalurgia, acrescentam às suas vidas? Os celulares estão sendo manuseados de maneira afetiva e cuidadosa, como Kobold exige, seja utilizado o minério que ele fornece ao bem estar lúdico e para otimizar as relações humanas? Hem?

Bom, aqui caberiam todas as perguntas e especulações possíveis, mas vou me limitar ao reconto do clássico João e Maria (Hansel e Gretel), dos Irmãos Grimm. Não há motivo especial, mas como iniciei o artigo falando do conto, ensina a boa norma da oralidade, uma vez puxado, não se deve soltar o fio da meada. Então...

Partindo do princípio que, na tentativa de reencontrar o caminho de volta à casa dos pais, Joãozinho antecipou em centenas de anos a criação do GPS, podemos afirmar, sem receio algum, pois somente a fantasia se permite contrariar a Rosa dos Ventos, que a Casa de Doces da Bruxa Ranheta era um gigantesco smartphone. Afinal, quem resiste ao desejo de saborear (não se esqueçam que sabor e saber possuem o mesmo radical latino, sapere), tocar, provar, experimentar o alcance, os recursos de um tablet, ou de um celular, achados numa floresta?

Foi o que Joãozinho e Maria fizeram, devorando a casa da Bruxa Sinistra. E por que ela era cega? Ora, ora, mesmo sabendo o que é Nomofobia, todos os fabricantes de celulares, assim como a Bruxa Cabulosa, também, não fazem vista grossa, fecham os olhos ou se fingem de cegos diante disso? E para fechar este reconto, vamos desfazer, definitivamente, o enredo em que Joãozinho era o protagonista da história ou que a Bruxa Carcereira planejava comê-lo, após a engorda. O que ela queria, realmente, era ter o domínio da senha digital de Joãozinho para, a partir dela, navegar no mundo virtual. Vasto. Ilimitado. Sem vassoura voadora. Livre. Leve. Solta. Por isso, semanalmente, verificava se o menino havia “engordado”, se estava no ponto, ou melhor, empanturrado de guloseimas e satisfeito, a ponto de oferecer-lhe a senha digital. Não fosse esta a intenção ou a verdade, que explicação pode ser dada ao ato de avaliar a engorda de alguém, com a ordem bizarra: “Mostre-me o dedo!”?
Mais surreal, impossível, mas é do improvável que se alimentam as fantasias...

Rio de Janeiro, 11 de novembro de 2019

A terra treme


*A terra treme*
Mario Sérgio Conti
23.nov.2019 às 2h00


NO MUNDO...
É tanta revolta que, para não esquecer nenhuma, é bom botá-las em ordem alfabética. Em um mês, houve rebeliões na Argélia, Catalunha, Chile, Colômbia, Equador, Haiti, Hong Kong, Irã, Iraque e Líbano. Milhões e milhões de pessoas querem mudar de vida. Agora, e não depois.

Diferentes entre si, os motins têm traços insurrecionais pela duração (desde fevereiro, Argel fecha para protestos às sextas-feiras), pela abrangência (em Santiago, mais de um milhão de pessoas participaram de uma passeata) e pela coragem (centenas de mortos em Teerã e Bagdá).

Na regra, os levantes começaram com demandas particulares que logo se alastraram. Secundaristas pularam catracas do metrô para se insurgir contra o aumento das passagens —e em dez dias uma greve geral parou o Chile.

O governo libanês quis impor uma taxa para mensagens de WhatsApp —e 12 dias depois o primeiro ministro se demitiu. O reajuste da gasolina desencadeou quebra-quebras em Quito. A corrupção alimentou convulsões em Bagdá e Teerã.
As reivindicações foram atendidas e as praças não se aquietaram. A China voltou atrás na intenção de querer que o Partido Comunista julgasse os dissidentes de Hong Kong. Mas, como quando da renúncia do presidente argelino, a contestação só fez aumentar.

Com o quebra-quebra,  governo chileno teve que convocar plebiscito sobre constituinte. No Líbano, a palavra de ordem passou a ser a unidade nacional, acima das divisões religiosas. O separatismo ganhou força na Catalunha e em Hong Kong.

É preciso aguardar os desdobramentos para avaliar a insurgência. Dá para dizer, contudo, que ela lembra as revoluções europeias de 1848 e tem algo da explosão do stalinismo, em 1989-1991. Parece um segundo momento da Primavera Árabe de 2011, só que agora em vários cantos do globo.

Embora o seu alcance geográfico seja muito maior, as explosões não pegaram em cheio os países centrais. Mas, também neles, algo fermenta: coletes amarelos na França; passeatas pró e contra o brexit na Inglaterra; a greve da GM nos Estados Unidos.

O que fermenta é a insatisfação com a política apodrecida. Com o status quo criado pela economia neoliberal. Com a ordem mundial sino-americana. Com a espoliação de milhões por um punhado de bilionários. O combustível da turbulência é a desigualdade social.

As multidões sabem o que repudiam. Mas apenas intuem o que querem: justiça, democracia, igualdade.

Os poderes constituídos têm horror a isso. Sua reação automática foi cair de pau na plebe rude.

A teocracia tirou a internet do ar no Irã e, segundo a Anistia Internacional, matou mais de cem. O exército encarcerou dezenas de dissidentes na Argélia, a começar pela médica Louisa Hanoune. A polícia chilena atirou na cabecinha e cegou dezenas de insatisfeitos.

JÁ NO BRASIL...

As multidões cantam seus mutilados e mártires. E os bens de vida zelam para que os pés-rapados não se aposentem nunca, os desempregados sejam taxados e o agronegócio queime a Amazônia: é cultural, tá oquei?

Bolsonaro vem se armando para enfrentar eventuais revoltas. Pôs 2.500 militares em ministérios e cargos de chefia (Folha de 14/10). Moro quase dobrou o contingente verde-oliva no Ministério da Justiça; e toda a milicada trabalha fardada às quartas-feiras.

*Agora, o presidente mandou ao Congresso um projeto de lei que isenta de punições policiais e militares que, em defesa da lei e da ordem, “cometam excessos”. Na prática, inocenta previamente soldados e meganhas que cegarem, aleijarem ou matarem quem protestar contra Bolsonaro.*

Por fim, lançou a Aliança pelo Brasil. Seu manifesto de fundação fala em “ordem nova”, “degeneração moral” e de “livrar o país dos larápios, dos espertos, dos demagogos e dos traidores”. É explícito: não usa nunca a palavra democracia.

A Aliança não precisa disputar as próximas eleições, como admitiu. Seu objetivo implícito é juntar a banda podre das polícias, do Exército, das seitas, das milícias e de toda a corja lúmpen numa organização de combate —de luta ideológica e física, nas ruas.

*Enquanto os bem-pensantes batem papo sobre 2022, e avaliam as chances de Huck e Haddad, Bolsonaro se prepara. Tem o apoio de empresários e de Guedes, de moralistas e de Moro, de generais e de Villas Bôas, de pastores e do bispo Macedo, do “império” e de Trump.*

Continuará a provocar arruaças, a destruir direitos e a solapar as liberdades públicas. Se a revolta vier e tiver condições, Bolsonaro posará de salvador da pátria, de Bonaparte. Tentará um golpe.

*Mario Sergio Conti*
*Jornalista, é autor de "Notícias do Planalto".*