terça-feira, 4 de abril de 2017

TECNOLOGIA E EDUCAÇÃO

Meu comentário sobre o 5º módulo do curso de Cidades Inteligentes, do Fórum Cidades Inteligentes, que estou fazendo. Tema: Tecnologia e Educação. Segue o debate no WatsApp que se seguiu com a companheira Aline, jornalista de Nova Iguaçu, após minha publicação no grupo.

Sérgio Mesquita: Como já colocado em comentário anterior, trabalhei 30 anos com TIC. Nas Fundações que geriam e produziam a antiga TVE-RJ, hoje TV Brasil e as Rádios MEC, AM e FM. Nos último 15 e 20 anos, incluiu-se a TV Escola e recentemente, em 2013, a TV INES voltada para o surdo mudo. Um trabalho bem próximo a educadores e pedagogos. Meu papel era colocar a tecnologia disponível, entre outras, a serviço da TV Escola e demais.

Portanto, me preocupa quando no campo da Educação, a tecnologia ficar reduzida a questão das máquinas e dos softwares, que são sim importantes como ferramentas de apoio.  Em especial quando se tratando de crianças no Ensino Fundamental. Mesmo entendendo que essas crianças praticamente já nascem conectadas.

Em 2012, realizamos um final de semana de palestras, ao estilo das palestras TED - Technology, Entertainment, Design, sem muito tempo para o entretenimento. Foram dois dias que iniciavam às 9h e terminavam próximo das 21h, onde o tema era Tecnologias Educacionais.

Tivemos de tudo, de computadores a bonecos de panos que eram vestidos como luvas. O grupo CESAR de Pernambuco apresentou sua gincana educacional que mesclava tecnologia e os livros na biblioteca. Na última prova as equipes só podiam usar livros como apoio. Assisti também a uma palestra sobre a melhora do ensino em uma escola do interior de Minas, onde as professoras passaram a fazer aulas de teatro e a confeccionarem seus bonecos de mão. Quando a aula ficava chata, quem assumia era o boneco através da professora. As notas subiram e as turmas passaram a ler de 3 a 4 livros por ano.

Portanto na área da Educação, em especial, tecnologia é toda e qualquer ferramenta que apoie o desenvolvimento do aprendizado, inclusive o computador que tem seu lugar de destaque nos dias de hoje. Uma criança bem formada em seus tenros anos, com certeza terá uma visão de utilização da tecnologia bem mais avançada, muito além daquelas de minha geração.

Aqui em Maricá, como Sec. de Ciência e Tecnologia, deixo bem claro quando falo em público, seja em pequenas reuniões ou grandes, digo que a enxada na mão de um lavrador é a tecnologia, o saber abrir a cova para colocar a semente é a ciência. A máquina (a nova tecnologia), só acelera o processo de semeadura, que se realizada fora da época, não passará de trabalho perdido.

Outro ponto que me preocupou foi a ênfase na ”Educação para a economia.” Acredito que a tecnologia, como colocado na primeira aula por mim, existe para dar qualidade de vida às pessoas. Educar nossos jovens para a economia que temos hoje é incentivar o egoísmo, a disputa com o próximo. Se hoje temos as ferramentas colaborativas, que as usemos para a verdadeira colaboração, que a utilizemos para o bem comum e não por uma posição individual, passageira, em uma economia que ignora o cidadão e incentiva o indivíduo. Se um dos pontos que definem uma Cidade Inteligente, passa pela economia criativa, em especial na Cultura, porque não podemos pensar em um mercado criativo, onde todos os setores da economia, também sejam criativos?

Como já exposto e sendo repetitivo, a tecnologia deve ser utilizada para o bem comum e não para atender o que temos posto hoje no mundo. Para tanto, nossos estudantes devem ser preparados a partir de um pensamento social que privilegie a solidariedade, a vida em comunidade. Não a vida em seus quartos, resumidas a conversas sem o olho no olho, a viajarem pelo mundo sem sentir o vento no rosto. Toda a tecnologia citada neste ponto do curso, também permite este outro crescimento. A questão é política.

Aqui, sempre que discutimos uma nova aplicação tecnológica, perguntamos: Para que? E para quem? Respondida as perguntas, aí vamos para a aplicação.

Aline: Companheiro Sérgio Mesquita eu acrescentaria uma provocação ao seu comentário: vc não acha que os novos paradigmas da Educação na Sociedade de Consumo inverte a lógica do uso da Tecnologia pela Educação? Explico: Eu acredito que, cada vez mais, são os usos das tecnologias que levam à Educação. É um caminho diferente ao qual estamos costumamos a traçar. Por que digo isso? quando eu estava fazendo entrevistas para o mestrado, observei um caminho inversamente conflitante no uso das tecnologias para fins informacionais e educacionais (ou seja, usos que não eram para o entretenimento). Dentre os meus entrevistados, sobretudo os jovens, disseram "aprender mais coisas interessantes" quando estavam navegando aleatoriamente pelas redes do que quando estavam lendo um livro obrigatório da escola. Eles diziam-se guiados pelo fenômeno que nós comunicólogos chamamos de "serendipidade". A serendipidade acontece quando você vai atrás de alguma informação ou conhecimento depois de se deparar com algo que lhe chama atenção. É como descobrir algo novo quando você nem estava procurando aquilo. É uma "descoberta por coincidência", digamos. Nas redes sociais, por exemplo, é muito comum vermos uma propaganda ou uma postagem sobre determinado assunto que não sabemos, e aí nos vemos despertados a pesquisar mais sobre aquilo. Quem já passou por isso?

Esse tipo de "fenômeno" está cada vez mais frequente, e portanto usual, na medida em que aumentam os nossos hábitos e consumo de informação. E, querendo ou não, isso gera um impacto muito grande na forma como as pessoas adquirem conhecimento.

Pois bem, você não acha então que, do ponto de vista da Educação, deveríamos olhar com mais atenção para esses hábitos de consumo informacional?

Afinal, esses hábitos não atravessam também (e hoje em dia muito mais!) os processos educacionais?

Enfim, eu gostaria de ouvir sua opinião sobre isso, pois tenho encontrado certa dificuldade de debater essa perspectiva com alguns amigos da Educação, que acreditam que as tecnologias sempre serão "auxiliares" no processo pedagógico. Eu não acho que são auxiliares. Mas também não acho que sejam protagonistas (não me entenda mal). Pra dizer a verdade, eu acredito que as tecnologias representam uma inversão de paradigmas no processo educacional que, cada vez mais, se verá impelido pela construção do conhecimento de maneira horizontal e distribuída. Isto é, formado e compartilhado por redes. E, ao meu ver, a gente precisa urgentemente discutir como a Educação "formal" vai disputar o seu espaço nessa dinâmica.

Você não acha?
*desculpe os erros de digitação...

Sérgio Mesquita: Vamos começar concordando quanto a horizontalidade. Outro ponto está na importância de algumas ferramentas que podem sim ajudar na cooperação. Mas essas ferramentas não possuem inteligência própria, e quando com alguma inteligência, a mesma está colocada por alguém com objetivos bem definidos.

Em relação a busca aleatória,  vale a mesma observação acima. O que está lá disponível, não está lá aleatoriamente, alguém disponibilizou. E nos dias de hoje, onde a manipulação é a regra, podemos questionar qual aprendizado estamos obtendo.

Em qualquer linha de aprendizado, seja à direita ou esquerda, tem-se que ter uma linha de ação, uma cadeia a ser seguida e deve ter um mínimo de coerência para que haja encadeamento das ideias. Qualquer linha de pensamento deve ter início, meio e fim. Podemos comparar o conhecimento compartimentado a linha de produção fordista, onde o operário só sabia executar determinada função. Os japoneses criaram as células, o toyotismo, onde cada um tinha o conhecimento do todo.
Posso ter falado um monte de besteiras...rsrsrs...mas não vejo como alguém poderá discutir alguma ideia conhecendo somente pedaços dela, que lhe pareceram mais agradável em sua navegação.

Há braços.
Ps...desculpas pelos erros também.

Aline: Legal você ter lembrado da lógica da linha de produção. No entanto, o que segue sendo uma dificuldade pra mim em aceitar esse ponto de vista é o seguinte: estamos falando de tecnologias apenas como ferramentas (do capitalismo)?

Eu, na verdade, me referia não apenas às TICs num sentido material, mas também aos espaços que elas ocupam nas nossas vidas. Falava, portanto, das experiências que a minha geração acostumou-se a entender como "natural" da vida cotidiana. Essa relação de quase ubiquidade da vida/lugar/tempo digital coloca a nossa relação com as tecnologias num outro patamar.

Um exemplo pitoresco q me ocorre agora é o fato de vivenciarmos uma grande liquidez da vida pública e privada. Há quem diga que estamos vivendo uma crise da vida privada, já que nossas experiências digitais são, por tabela, compartilhadas com todo mundo, a todo momento. Somos todos vigiados, uns pelos outros, e todos por um grande sistema de controle-capital. O problema está, justamente, no fato das pessoas não estarem preocupadas com isso (e aqui estou falando de achismo). Os jovens não me parecem preocupados se, a cada check-in que eles fazem na rua, milhões de dados ficam armazenados, e portanto controlados, em algum lugar da Big Data.

Isso não é uma questão para a maioria das pessoas que usam redes sociais a todo momento, por exemplo. É uma questão para nós, que problematizamos a realidade e seus contextos.

Com isso, quero dizer que, inevitavelmente, a sociedade está caminhando para o uso generalizado das tecnologias não apenas como "ferramenta" mas como forma de Ser e de Existir dos espaços públicos (digitais, bora não só...).

Acredite, tô falando sério! Já vi gente séria falando isso e nos alertando para os "modos de ser" das próximas gerações...

Agora você pode me perguntar "mas o q isso tem a ver com o nosso papo sobre educação?".

Bom, eu defendo que não dá mais pra gente ficar dizendo q as tecnologias são ferramentas dentro de uma linha de aprendizado ditada por nós. Eu ainda bato na tecla que há uma diferença sutil aí - entre relegar à tecnologia o papel de "máquina" ou aceitar q ela integra um processo de inteligência q é coletivo, q é complexo, q não é linear e que, portanto, não é coerente.

Dentro de um espectro de experiências únicas que cada um de nós pode ter, isso significa que é possível aprender mesmo onde as ideias parecem fragmentadas, ou parecem não fazer sentido.

A disposição da informação, portanto, me parece favorecer a autonomia do aprendizado, na medida em que desperta o sentido do que seja "conhecimento" para cada um.

A gente não aprende nas relações políticas do cotidiano? Nas relações políticas, muitas vezes tomamos atitudes ou fazemos escolhas sem sentido (ou até contraditórias), que, se observadas no contexto maior, dizem respeito ao modo como aprendemos a lidar com o universo de complexidades que é a política. Eu costumo dizer que o caos vai nos ensinando a tirar proveito apenas do for melhor pro nosso conhecimento de mundo. E é assim que eu enxergo a política. É assim que eu enxergo a vida.

Na minha vida, eu chamo de conhecimento o conjunto de cacos; o conjunto das ideias que foram surgindo no meu caminho, e que, em algum momento, me despertaram um saber útil.

Mas, ainda que essa seja uma ideia pessoal e leiga sobre o que seja "aprendizado" e "conhecimento", acho q podemos aproveitá-la para a seguinte questão:

Ora, se esse tipo de experiência de aprendizagem (não linear e aleatória) acontece na vida e nas relações off-line, seria muito absurdo dizer que assim também ocorre nas experiências de quem passa 16h por dia conectado?

Por outro lado, deixando um pouco de lado a minha provocação, concordo que as tecnologias são agências e não agentes do conhecimento; e que estão atreladas aos meios de produção e gestão do consumo em suas diversas instâncias capitalistas. Todavia, me parece q se quisermos realmente aproximar as pessoas, sobretudo jovens, para um debate mais crítico acerca do uso das tecnologias de informação, temos que falar sobre essa realidade que nos assalta o cotidiano: a realidade dos hábitos; hábitos que nos constituem enquanto sujeitos-digitais!

Enfim... Essa reflexão ainda vai longe e é muito bom poder trocar ideias com quem está disposto a refletir para além do que nos é colocado. Espero ansiosa pela sua resposta, e agradeço a oportunidade de aprender contigo!

Sérgio Mesquita: Bom dia.
Segundamente, Fora Temer. Primeiramente, você é maravilhosa. Obrigado por nos permitir essa troca. Peço-lhe um favor, me permita expor nossa conversa com meus próximos, em especial na Sec. de Ciência e Tecnologia. Foi montada com um grupo de educadores e pedagogos tão preocupados quanto nós. Mas só se permitir. Voltemos a nossa troca.

A tecnologia não tem ideologia. Quem a tem somos nós, capitalistas, socialistas, budistas e outros "istas". Mas não podemos esquecer que o Face, Google e o próprio zap aqui, são criações capitalistas e ganham muito dinheiro a partir de nossos usos. Poucos sabem ou se preocupam com isso, talvez por conta, quem sabe, da fragmentação do conhecimento. Aliás, acredito que nem os militares americanos tinham ideia de que a Internet poderia chegar onde chegou ou têm ideia de onde pode chegar ainda. Fiz uma redação sobre a Internet quando voltei ao banco da escola, onde a partir do colocado acima, citei dois exemplos do uso da ferramenta. Um chinês que leiloa a alma e o subcomandante Marcos que barra o avanço do exército mexicano em Chiapas, a partir de seu lap top nas montanhas. Portanto, enquanto usuários, nós ditamos a linha. Mas enquanto empresa, ela serve às corporações e nossos dados são vendidos e manipulados em interesse do capitalismo. Isso é fato.

Agora, o grande nó da questão, por que uma geração inteira que não se preocupa ou acha isso natural, a fragmentação? Esse achismo é espontâneo ou é fruto de um trabalho de anos, pensado e aplicado?

São décadas de imposição de uma contra cultura em detrimento da cultura. Você aprende na escola que deve ser o melhor, o mundo esta aí para te servir e pronto. Thatcher na década de 70 dizia que não existia sociedade, o que existe são indivíduos e no máximo a família.  Doutrinação pelo consumo, pela publicidade. Você não é mais o responsável pela educação dos seus, você terceiriza para a escola e para televisão,  pois você  acredita não ter tempo. Para que aula de história e educação física. O mundo deve ser dos sedentários, basta teclar. Perder tempo viajando, visitando um migo enfermo? Basta a carinha triste disponível na rede.

As consequências estão aí. Porque não estamos nas ruas brigando pelo o que acreditamos? Porque o golpe na democracia e nos direitos é visto com naturalidade pela a maioria das pessoas? Nesse exato momento, estou deitado em minha cama nesse rico debate. Não seria melhor estarmos com um grupo de preocupados  e não  preocupados, olhando olho no olho? Exaltados, ficando vermelhos, mas sem perder a ternura? Ah! E as vídeos conferências? Ótima ferramenta para a continuidade do debate, mas não serve para a geração do mesmo, em minha opinião.

Esse nosso debate aqui, não seria tão enriquecedor se tivesse mais gente nessa tecnologia. Temos o exemplo das conversas em grupo do próprio zap. E se formos levar em consideração a frieza do texto...ferrou tudo.

Concordo que devemos sim, levar em consideração e com a devida atenção que merece, as novas tecnologias ao pensarmos o projeto educacional que queremos. Nossas universidades ainda trabalham no modelo criado pelos militares e nossas secretarias de educação devem repensar seus modelos também. As reformas anteriores e a atual só estão presentes para agravar a contra cultura, e criar autômatos. O sistema precisa da fragmentação para sua sobrevivência. Esse deve ser o ponto de partida.

Há braços....

Aline: Hahaha, pode usar a conversa certamente. Aliás, melhor mesmo que a tivéssemos pessoalmente! Gostei muito dos seus esclarecimentos e gostaria que me avisasse quando for oferecer/participar de cursos com essa temática. Agradeço sua disposição! Um ótimo fim de semana.

Marcos De Dios: Grande diálogo Sérgio Mesquita e Aline. Temos vida inteligente na rede. Uma luz no fim do túnel.

Victória: Quero agradecer aos companheiros Aline e Sérgio, por me permitir acessar o conteúdo da excelente conversa. Achei a análise das redes pertinente. Este é um dilema que vivemos no mundo contemporâneo. Usar as redes é uma forma de comunicação rápida, mas além de alimentar às multinacionais que estão por trás delas, alimenta também o distanciamento pessoal entre as pessoas. Inclusive àquelas que amamos. Valeu.

sábado, 18 de março de 2017

Crônica de uma morte anunciada II (18.02.2017)

Em 2015, escrevi a primeira versão do texto em que “pego emprestado” um dos títulos do Gabrial Garcial Marquez, “Crônica de uma morte anunciada”, em que discuti as posturas do PT e, em especial, de nossa presidenta.
Pouco tempo depois, em outro texto, que discutia a Lava Jato, tive o mesmo abrilhantado pela visão de um garoto, com então 18 anos, Bernardo, filho do companheiro Marcos de Dios, que em seu comentário coloca que um dos objetivos principais da Lava Jato era acabar com as empreiteiras nacionais, que ganhavam espaços no mundo por conta da política internacional do PT em Brasília. Visão mais que confirmada posteriormente, em especial após discursos do Cunha no Plenário da Câmara,  defendendo a abertura total do país para as empreiteiras estrangeiras.
O Brasil é o único país do mundo, onde quando uma diretoria de uma empresa é flagrada em processo de corrupção, quem paga são os empregados e país com o fechamento ou proibição de abertura de novos contratos. Na Alemanha e na Holanda por exemplo, a Siemens e a Alston, condenadas “na Suíça” por corrupção nas obras do Metro de São Paulo, continuam funcionando aqui, muito bem obrigado. As empresas foram multadas e os diretores envolvidos afastados, e a remessa dos lucros para o exterior, continuam bem obrigado. Mas nossos valorosos Juízes, Deputados, Procuradores e outros serviçais, defendem abertamente o desemprego e o fechamento das empresas em prol de seus patrões acima da linha do Equador. E você, de amarelo dizendo “somos milhões de Cunhas “ – acredito.
Agora, recentemente assistimos a mais um grande escândalo. Dessa vez as vítimas (que cometeram crimes contra a humanidade e devem ser punidas) estão na indústria de alimentos.
Lendo o blog do Nassif (jornalggn.com.br – link ao final), ele coloca muito bem as consequências e o como e porque essas empresas foram denunciadas. Briga interna na Polícia Federal. Delegado que quer lugar de outro, arma o circo de forma midiática (acredito que de hoje em diante, deva ser matéria obrigatória e eliminatória nas provas para juízes, delegados e procuradores, Comunicação e Marketing. Matérias que envolvam os direitos civis, administrativos e constitucionais passam a ser eletivas), e desmascara a indústria de alimentos. Em especial uma das que mais bancou o “por fora” de nossos políticos, a Friboi que tem como um de seus acionistas o Maílson da Nóbrega e não o Lulinha.
De novo se repete a estratégia da Lava Jato. A destruição em vez da punição dos responsáveis e a correção do processo. Perdemos as empreiteiras, perdemos o petróleo, a indústria naval e agora é a indústria de alimentos. Que venham as estrangeiras, nosso papel como produtor, deve se resumir ao setor primário. Voltar a ser colônia.
E os delegados, os juízes e promotores que defendem o fim do país enquanto nação soberana? Tudo bem voltarmos ao Mapa da Fome? Aqueles que foram de maior agrado da mídia (bandida) sobreviverão, e os demais se aposentarão com seu vencimentos integrais ou ascenderão a cargos maiores. E você, de amarelo, não entendendo porque vai trabalhar mais, ganhar menos e não ter nenhum direito, só deveres.

Há braços.


Sérgio Mesquita
Secretário de Formação do PT Maricá


domingo, 26 de fevereiro de 2017

QUIETISMO, AQUIESCÊNCIA E EMULAÇÃO - Paul Kugman

“mesmo aqueles de nós que saíram das fronteiras do mundo acadêmico e tentaram falar com o exterior não se comprometeram o suficiente para encontrar formas adequadas para se comunicar com um grupo mais amplo de pessoas. Continua-se confiando demais no código, dando por descontado que as pessoas sabem ou entendem coisas que muitas delas não sabem e não entendem. Não é o suficiente”.
O que você não deveria fazer depois deste ano tão desanimador? Três grandes tentações serão sentidas, em diferentes graus, dependendo das pessoas. Vou chamá-las de quietismo, aquiescência e emulação.
Quietismo
Comecemos pelo quietismo. Significa, substancialmente, renunciar a tentar dialogar com o mundo em geral. Significa encurvar-se sobre si mesmo. Significa se concentrar na própria especialização. Se você é economista, significa voltar a escrever ensaios que serão lidos por algumas centenas de pessoas e renunciar a qualquer tentativa de fazer com que essa palavra chegue ao mundo mais amplo. Pelo menos no que se refere a mim, essa é uma tentação muito forte.
Quero contar-lhes o que eu fiz no domingo passado. Eu tinha um editorial para escrever, mas decidi que precisava esclarecer algumas coisas na minha cabeça e, depois, talvez escrevê-las para outros. Então, passei algumas horas muito agradáveis lendo artigos acadêmicos e, depois, abraçado no meu velho amigo Fred (Fred está para “Federal Reserve Economic Data”, um site fantástico para encontrar estatísticas.)
Foi uma experiência maravilhosamente relaxante, calmante, um pouco o equivalente nerd de assistir vídeos de gatinhos no YouTube (eu também faço isso, aliás). Em suma, foi ótimo.
Obviamente, as pessoas vão continuar fazendo coisas desse tipo. Vão continuar trabalhando nos seus mundos específicos, trabalhando em coisas que não são necessariamente destinadas a atingir um público de massa. Ao contrário, a maioria das pessoas vai fazer isso: nem todos podem tentar, ou deveriam tentar, influenciar a opinião dos não especialistas, dos não adeptos aos trabalhos.
Eu acho que, no fim, mesmo se você for a pessoa mais introvertida e acadêmica do mundo, para todos nós, a justificativa última daquilo que fazemos é fazer algo que vai mudar o mundo, que vai melhorar as coisas.
Se você ler a obra-prima de um economista extremamente influente como John Maynard Keynes, a “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”, que é um livro notoriamente difícil (é um trabalho duro até mesmo para os economistas de profissão), você vai ver que, no fim, ele fornece uma autojustificação. Por que ele escreve esse livro que, com efeito, é dirigido a um público de adeptos aos trabalhos, sabendo que os políticos não vão lê-lo? Porque as ideias importam, dizia. “Os homens práticos, que se acreditam imunes a qualquer influência intelectual, geralmente são escravos de algum economista já falecido. Os líderes loucos, que ouvem vozes vindas do ar, destilam sua exaltação de algum escrevinhador acadêmico de alguns anos atrás.” Em suma, as ideias vêm e vão pelo mundo. Mas o que acontece se os líderes loucos destilam a sua exaltação de um site de mentiras gerido por São Petersburgo? Qual o papel, nesse caso, para o raciocínio aprofundado?
Bem, a menos que se acredite que existe um canal que permite que o saber acadêmico penetre no mundo real, todo o esforço é bastante desanimador. Por isso, é o caso de continuar trabalhando duro para tentar estabelecer essa conexão. Das várias coisas que eu estou falando, o quietismo é a tentação que exerce a maior atração em mim: mas também é uma tentação à qual eu não quero ceder.
Aquiescência
Vocês já estão vendo, não é mesmo? Se um conjunto de ideias têm sucesso politicamente, isso significa que alguma validade elas devem ter. Há alguns intelectuais que são centristas de profissão: se há duas inclinações, a verdade deve estar sempre no meio; e, se há extremismo, deve ser, por força, igualmente extremo, independentemente do contexto.
Vocês certamente estão vendo muitos que já começam a encontrar subterfúgios para defender que o presidente [Trump] e os seus colaboradores mais próximos devem ter alguma razão. O problema dessa atitude, naturalmente, é que o fato de ter o poder não torna certo aquilo que você diz, o fato de ter o poder não decide onde está a verdade. Só porque algo funcionou bem, isso não significa que possui qualquer validade.
Vocês devem aferrar com força os seus princípios. Não devem acreditar que o seu lado está sempre certo (certamente não é o caso), não devem acreditar que são infalíveis (absolutamente não é o caso), mas devem acreditar que os instrumentos da razão – tentar compreender realmente como o mundo funciona e tentar basear a sua visão de como o mundo deveria ser sobre essa compreensão – não são influenciados pelos destinos políticos. Vocês devem continuar acreditando nisso. Se vocês cederem a essa tentação, renunciem ao próprio sentido da existência de vocês.
Emulação
O que acabamos de ver, e não é a primeira vez, é que ideias simplistas, completamente erradas, funcionaram muito bem. Que aqueles que afirmam coisas simplistas, facilmente refutáveis, não pagam nenhum imposto. E que ter uma narrativa forte, mesmo que totalmente falsa, aparentemente funciona melhor do que ter uma narrativa sofisticada, mas pouco convincente. Talvez, então, deveríamos fazer a mesma coisa?
Nesse ponto, eu deveria fornecer exemplos correspondentes para o outro lado do espectro político, mas a verdade é que não há nada de realmente comparável. E aqui voltamos a uma das coisas que eu dizia antes sobre os centristas de profissão: é uma espécie de axioma pelo qual duas partes do debate político devem necessariamente ser simétricas, mas não é assim. Simplesmente há uma enorme diferença.
Quando ouço as pessoas dizerem: “Se introduzirmos os deveres de Trump e abraçarmos o protecionismo, vai se desencadear outra depressão que irá destruir milhões e milhões de postos de trabalho”, eles estão dizendo algo que não é validado pela análise econômica. O argumento de que o protecionismo destrói postos de trabalho não é aquilo que dizem os manuais de economia (e eu escrevi vários manuais de economia). Aquilo que os manuais dizem é que o protecionismo reduz a eficiência e nos torna mais pobres no longo prazo. Eles não dizem que vai destruir muitos postos de trabalho. Porém, vê-se muita gente – que deveria saber dessas coisas – propagando análises alarmistas.
A Moody’s publicou uma análise sobre os efeitos da política comercial de Trump que é chocante na sua falta de fundamentos. Não é que o modelo econômico esteja errado, é justamente que ele não está baseado em nada, em nenhum modelo que qualquer pessoa possa utilizar para qualquer coisa. Eles simplesmente fabricaram uma história ali para assustar as pessoas contra os efeitos da política comercial. E é uma tentação que eu entendo. Alguém pode dizer: “Você vai pagar um preço quando vierem à tona as coisas que você disse que estavam erradas”, mas, nos últimos meses, a verdade é que não vimos ninguém pagar preço algum por dizer coisas inexatas. Existem muitos outros exemplos como esse e, em alguns casos, provavelmente muito mais graves.
Vocês devem lembrar por que estamos lutando realmente. Eu tenho valores, uma preferência política: há coisas que eu quero ver realizadas. Eu quero uma sociedade que seja mais benevolente para com os infelizes, que conforte os aflitos e aflija os ricos, e não o contrário. Quero uma sociedade aberta, em muitos sentidos.
Mas há algo maior do que a simples questão do que vai acontecer com a política fiscal, com os programas sociais ou com o salário mínimo. Tornou-se cada vez mais evidente que, embora a luta de fundo, obviamente, seja entre direita e esquerda (entre um Estado concebido como a serviço da oligarquia e um Estado concebido como protetor), ela é também, em certo nível, uma luta entre aqueles que querem defender o Iluminismo e aqueles que querem destruí-lo.
A honestidade intelectual é um valor fundamental. Vocês não devem começar contando mentiras nobres, porque sacrificariam aquilo que vocês são. Não se escondam no seu jardim. Não comecem a encontrar truques para defender que coisas insensatas, no fim das contas, têm sentido.
O que fazer?
Mesmo aqueles de nós que saíram das fronteiras do mundo acadêmico e tentaram falar com o exterior não se comprometeram o suficiente para encontrar formas adequadas para se comunicar com um grupo mais amplo de pessoas. Continua-se confiando demais no código, dando por descontado que as pessoas sabem ou entendem coisas que muitas delas não sabem e não entendem. Não é o suficiente.
O pior de tudo é quando se sobe na cátedra, quando se defende algo aproveitando-se da própria autoridade. Eu não acho que já tenha feito isso ou, pelo menos, tento evitá-lo. Pediram-me para assinar diversos abaixo-assinados sobre os terríveis efeitos das políticas de Trump. Eu tinha uma desculpa: o New York Times não me permite fazer coisas desse tipo. Mas o fato é que essa estratégia é incrivelmente ineficaz. Ela simplesmente não funciona: não nestes Estados Unidos, não nesta fase da nossa civilização. Dizer “eu sou um especialista, acreditem em mim” simplesmente não funciona.
Mas, mesmo para além disso, a tentação de ficar calmo e não se esforçar para traduzir abstrações em coisas mais concretas, que as pessoas possam compreender, é muito grande. E devemos combatê-la. Uma forma para combatê-la, também aqui, é evitar não só o jargão técnico, mas também certos modos de enquadrar a questão que são de difícil compreensão.
Há muito tempo, quando eu estudava para o mestrado, o meu orientador na época, o falecido Rudi Dornbusch, dizia que, quando se escreve para um público genérico, não é preciso começar dizendo: “Tomemos uma economia pequena e aberta…”. É preciso dizer: “Na Bélgica…”.
Ora, eu não quero ser aquele que simplesmente diz: “Faça o que eu faço. Todos deveriam ser como eu”. Eu também fiz um exame de consciência, e uma coisa que é importante e que eu não faço, e que não é natural para mim fazer, é individualizar, focar a atenção nas histórias de pessoas individuais. Realmente não é o meu estilo. Eu não sou aquele tipo de pessoa que vai para outro país e encontra um artigo local que, coincidentemente, diz exatamente as coisas que eu penso. Eu também não sou aquele tipo de pessoa que faz jornalismo in loco e encontra uma família que foi afetada pelo problema. E há um motivo pelo qual eu não faço isso: sempre me irritou, e continua me irritando, quando os políticos fazem um discurso e dizem: “Deixem-me contar sobre a família Garcia”. Mas eles fazem isso por uma ótima razão: fazem porque é a maneira pela qual a maioria das pessoas se relacionam. É preciso ir para o lado pessoal, e é uma coisa que os intelectuais públicos também devem encontrar a maneira de fazer.
Outra coisa que vocês devem fazer é focar o assunto. Não significa que vocês devem renunciar aos seus padrões, mas vocês devem se perguntar: o que é que funciona? Há pessoas que é preciso persuadir, há uma tese a ser defendida: como fazemos isso? E que pontos precisam ser postos em relevo? As pessoas têm pouco tempo e um intervalo de atenção limitado, e se distraem facilmente se vocês começarem pela tangente. Vocês devem manter o foco.
Recentemente, eu participei de um evento com o ex-deputado democrata Barney Frank sobre a possibilidade de novos progressos na reforma das finanças, e acabou-se discutindo se havia esperança de salvar alguma coisa. Barney disse uma coisa muito afiada sobre a comunicação política: “Devemos nos comprometer em dizer a verdade e nada além da verdade, mas não necessariamente toda a verdade. Às vezes, ela é uma distração”.
Para mim, ele tem razão. Vocês devem focar o assunto. E, acima de tudo, levar adiante rixas com os seus colegas e querer passar por cima dos outros são sempre uma coisa feia, mas, nesse contexto, são um pecado capital. Aqui, não se trata de vocês, trata-se do mundo.
Continuem insistindo. A minha avó, que às vezes falava um inglês excêntrico, sempre dizia que “Roma não foi construída da noite para o dia”. Vocês devem ter paciência e aceitar que, em muitas ocasiões, não conseguirão vencer a discussão, pelo menos não imediatamente. Indivíduos péssimos vão ganhar as eleições, pessoas que dizem bobagens totais vão chamar a atenção de quem está no poder e talvez vão conseguir persuadir grande parte da opinião pública. Mas isso não significa que vocês não podem fazer a diferença em sentido positivo, se persistirem. Vocês simplesmente devem perseverar. Vocês devem ter a pele dura e estar preparados para reviravoltas. Vocês também devem estar preparados para receber muitos ataques pessoais.
Continuem promovendo a vida da mente como um caminho, pelo menos, para uma possível melhoria da vida em geral. As forças que acabamos de ver são algo que aqueles que prestavam atenção sabiam que existiam, mas se revelaram mais fortes do que se imaginava. Provavelmente, será uma longa noite. Se eu lhes pareço calmo e reconciliado, vocês estão muito enganados. Não passa um dia, certamente não passa uma noite sem que eu atravesse uma fase de pessimismo e de pânico. Mas vocês devem fazer o seu dever.
Em tudo isso, o papel do raciocínio aprofundado e a tentativa de fazer com que esse raciocínio aprofundado chegue a um público mais amplo e mais inteligente será mais essencial do que nunca. Talvez, daqui a dez anos, vamos pensar novamente neste discurso e diremos: “Nossa, como estávamos deprimidos. Mas, no fim, tudo correu bem”.


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

TER OU NÃO TER CARNAVAL...EIS A QUESTÃO

É fato que vivemos em meio a um processo golpista no Brasil, como também em algumas outras partes do mundo, em especial nas áreas fronteiriças com a Rússia e no Oriente Médio. Lá como cá, o capataz das corporações é o mesmo e age de forma direta ou indireta, o governo dos EUA. O mesmo dos Bushs, do Barack de dentes alvos e do Trump de cabelos esvoaçantes.

Mas o que isso tem a haver com a cabeleira do Zezé?

O Golpe, que se iniciou em 2005, com Jeferson e os seus (PTB) recebendo propina nos Correios, foi concretizado com a farsa do “Mentirão”, apelidado pela mídia de “mensalão”. Prendeu Zé Dirceu, com três juízes (Fux, Weber e Lúcia) escrevendo em seus votos que, apesar de não terem encontrado nenhuma prova contra o réu, o condenariam assim mesmo. O PT se recolhe e deixa Zé ir preso. Desde então, se iniciam várias negociações antes, durante e depois das eleições que, não impedem o processo de impeachment da Dilma. A máscara (que não é da Colombina) cai e os escroques tomam conta do país.

Golpe sacramentado e confirmadíssimo, o país entra em uma espiral descendente onde a democracia já ferida, é ignorada completamente por aqueles que assumiram Brasília. O país piora fisicamente, moralmente e retorna aos tempos da República Velha. Direitos são transformados em negócios, as riquezas do país, como nos idos de FHC, voltam a ser entregues por quaisquer trinta moedas (aquelas do Judas),  e a miséria, a falta de segurança, o desemprego e a fome batem a nossa porta como antes de 2002.

E o cacete da cabeleira do Zezé...cadê!

Hoje a mídia ainda tenta esconder o caos que tanto pediu, mas fica difícil. E pelo jeito, nem o Carnaval vai adiar o processo crescente de revolta. Já são vários os Blocos que denunciam ou simplesmente puxam o “Fora Temer”. Globo e capangas terão que inventar um carnaval em paralelo para não noticiar o impossível de se esconder. Nem na Sapucaí conseguirão.

Arf!!! É ou não peruca a cabeleira do Zezé?

O fato é que a crise chegou e, aqueles governos do tucanato e do pmdb, entre outros, fizeram água e praticamente faliram por esse brasilzão a fora. E no Rio não foi diferente. Várias cidades turísticas cancelaram seus carnavais por conta da crise que eles mesmos criaram. Em Maricá, a exceção de Niterói, todo seu entorno cancelou o carnaval, bem como as famosas cidades da Região dos Lagos e da Costa Leste.

Tá bom...esquece a cabeleira. E o índio? Quer ou não quer apito?

Bom. Colocada a minha visão da crise, vamos ao que me levou a escrever.

Pego um taxi em Maricá e escuto do motorista algo como... ainda bem que vamos ter Carnaval. É o período em que conseguimos faturar bem. Ano que vem vai ser melhor ainda, o desfile das Escolas vai retornar. Dois dias depois, em outro taxi... não poderia ter Carnaval em Maricá. A cidade vai encher muito, os assaltantes vão vir para cá. Isso aqui vai virar um inferno.

Independente de o índio querer ou não apito, o fato é que não agradaremos os gregos, os troianos e muito menos os espartanos (vi nesse sábado 18.02 um cara fantasiado de espartano). Mas é fato também que Maricá sobreviveu e com algumas sobras. Teve e tem competência em seu governo. Pode sim fazer os shows que vem fazendo desde 2008. E para aqueles que pensam que as cidades atingidas pela má administração e apoio ao Golpe, sofrerão perda de receitas. Sei não. São locais turísticos por suas belezas – para sorte dos golpistas que lá estão – não pelo Carnaval. Vão encher, vai faltar água e as praias estarão lotadas. Em Maricá, vai faltar água também, a cidade vai encher sim, suas praias irão encher e... você vai saber se é peruca ou não a cabeleira do Zezé e o que o índio vai fazer se não derem o apito.

Há braços.

Sérgio Mesquita
Secretário de Comunicação, Ciência e Tecnologia de Maricá

Secretário de Formação do PT-Maricá

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Crise da UERJ: o governo está secando a seiva da vida intelectual e artística do Rio de Janeiro.

25/01/2017
Já se disse quase tudo e se fez de tudo em termos de crítica, de manifestações de professores, estudantes, artistas e intelectuais no sentido de salvar um dos patrimônios culturais mais caros à cidade do Rio de Janeiro: a Universidade do Rio de Janeiro, fundada em 1950. Quero ater-me a um testemunho pessoal dos anos em que fui professor de ética e de filosofia da religião naquela Universidade que teve a generosidade de me oferecer uma cátedra logo após a minha condenação ao “silêncio obsequioso”pelas autoridades doutrinais do Vaticano. Poteriormente ingressei por concurso público. Mas antes vale recordar uma política exemplar vinda de Cuba.
A dissolução política da União Soviética que apoiava economicamente Cuba nos quadros de uma política de solidariedade, seguiu-se formidável crise generalizada, pois a nova Rússia não tinha mais condições de ajudar o país. Entregou-o à própria sorte. Tudo foi duramente reduzido e reajustado. Mas dois campos ficaram intocáveis: a saúde e a educação. Aí se mantiveram todos os investimentos necessários. É conhecido o alto nível da educação e da saúde de Cuba. A razão era óbvia: um povo doente e ignorante nunca poderá levar avante qualquer projeto nacional.
Pois não é isso que ocorre no Brasil. Cortou-se na saúde e na educação. Parece que a falta de educação e de saúde obedece à lógica da dominação das classes endinheiradas e do Estado refém de suas estratégias. É mais fácil explorar um povo ignorante e doente que sadio e educado. Muito do analfabetismo e dessasistência sanitária têm raízes políticas, o que é eticamente desumano e politicamente perverso.
Assistir à derrocada da UERJ, uma das melhores universidades do país, com méritos em quase todos os campos do saber e da pesquisa, a primeira a abrir-se à política de cotas face à carência de pobres e negros, é aceitar que se mate a seiva da criatividade e se feche o horizonte de um futuro da atual geração de estudantes e de professores. Bem dizia Celso Furtado em seu “O longo amanhecer: “Uma sociedade só se transforma se tiver capacidade de improvisar, de ter ou não acesso à criatividade: eis a questão”(1999,p.67). O que caracterizava a UERJ era e continua sendo sua criatividade, sua abertura a fronteiras novas, seja ligadas a pesquisa de ponta em várias áreas técnicas e na saúde –a primeira a introduzir a medicina integral – seja sua articulação com as bases populares com cursos de extenção na formação de liderenças, em direito social e em educação em direitos humanos em vários municípios, sua atuação corajosa nos conflitos de terras.
Aceitei ser professor nesta universidade à condição de que minhas aulas fossem abertas a quem quisesse das comunidades e de outros interessados. Sempre havia representantes das bases que animavam as discussões, pois eles não falam palavras, falam coisas. Minha preocupação em filosofia era levar os estudantes a pensar com suas próprias cabeças e tomar como temas de tese realidades brasileiras. Não basta saber o que Aristóteles, Heidegger, Habermas, Bergson, Deleuse ou Gatarri sabiam. Importa pensar o que sabemos. Daí nasceram teses brilhantes, como, por exemplo, uma sobre o profeta Gentileza, outra sobre espiritualidade nos tempos modernos no diálogo com a psicologia analítica de C.G. Jung. Uma estudante grávida deveria observar-se nas várias fases da gravidez e fazer uma leitura filosófico-fenomenológica no sentido de vida que ia se revelando nela. Produziu um texto, digno de publicação. Exemplos entre outros tantos.
Contudo, o que mais me impressionou nesta Universidade da qual trago as melhores lembranças e cujo nome levei a todos os países nos quais dei paletras e cursos, na Rússia, na China e até entre os samis (esquimós) perto do pólo norte, foi o ambiente de abertura e de representação do que é o Brasil real, com a presença de estudantes vindos das classes populares da Baixada Fluminese, a coexistência sem qualquer discriminação entre negros e brancos, a orientação social de todo o ensino da Universidade, com forte acento na construção de uma nação livre, criativa, soberana e insubmisa às lógicas da dominação. Há que recordar a resistência da UERJ à ditadura militar com a morte de um estudante pelos órgãos de repressão .
O lema das manifestações é “luto e luta”: luto pela agonia deste centro de excelência e luta para garantir sua existência contra o sucateamento e sua eventual privatização. Salvar a UERJ é garantir a seiva da vida intelectual e artística da cidade e permitir que o Brasil inteiro se beneficie com seus serviços sérios e excelentes.

Leonardo Boff é professor aposentado da UERJ e sempre aberto a convites de palestras e de mesas redondas.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Discurso de Evo Morales

É sempre bom relembrar o belo.

Fugindo um pouco do cotidiano do Golpe, agora possivelmente, como compararam ao futebol, na fase do mata-mata (modelo mineira, policial mineiro, Teori), mas sem sair do foco, segue abaixo o discurso do Evo Morales, feito em 2013 para nossos “amigos da onça” europeus.

O discurso além de brilhante, e tratar dos 500 anos de nossa história comum, deixa bem claro que, do Descobrimento de nossas terras ao Sul até os dias de hoje, nada mudou. Evo, como coloca Leonardo Boff, que disponibilizou em seu blog o discurso, calou a plateia de líderes e autoridades europeia.

 Diálogos do Sul • Publicado em: 26/07/2013.

“Aqui eu, Evo Morales, vim encontrar aqueles que participam da reunião.

Aqui eu, descendente dos que povoaram a América há quarenta mil anos, vim encontrar os que a encontraram há somente quinhentos anos.

Aqui pois, nos encontramos todos. Sabemos o que somos, e é o bastante. Nunca pretendemos outra coisa.

O irmão aduaneiro europeu me pede papel escrito com visto para poder descobrir aos que me descobriram. O irmão usurário europeu me pede o pagamento de uma dívida contraída por Judas, a quem nunca autorizei a vender-me.

O irmão rábula europeu me explica que toda dívida se paga com bens ainda que seja vendendo seres humanos e países inteiros sem pedir-lhes consentimento. Eu os vou descobrindo. Também posso reclamar pagamentos e também posso reclamar juros. Consta no Archivo de Indias, papel sobre papel, recibo sobre recibo e assinatura sobre assinatura, que somente entre os anos 1503 e 1660 chegaram a San Lucas de Barrameda 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata provenientes da América.

Saque? Não acredito! Porque seria pensar que os irmãos cristãos pecaram em seu Sétimo Mandamento.

Expoliação? Guarde-me Tanatzin (a Mãe Terra) de que os europeus, como Caim, matam e negam o sangue de seu irmão!

Genocídio? Isso seria dar crédito aos caluniadores, como Bartolomé de las Casas, que qualificam o encontro como de destruição das Índias, ou a radicais como Arturo Uslar Pietri, que afirma que o avanço do capitalismo e da atual civilização europeia se deve à inundação de metais preciosos!

Não! Esses 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata devem ser considerados como o primeiro de muitos outros empréstimos amigáveis da América, destinado ao desenvolvimento da Europa. O contrário seria presumir a existência de crimes de guerra, o que daria direito não só de exigir a devolução imediata, mas também a indenização pelas destruições e prejuízos. Não

Eu, Evo Morales, prefiro pensar na menos ofensiva destas hipóteses.

Tão fabulosa exportação de capitais não foram mais que o início de um plano ‘MARSHALLTESUMA’, para garantir a reconstrução da bárbara Europa, arruinada por suas deploráveis guerras contra os cultos muçulmanos, criadores da álgebra, da poligamia, do banho cotidiano e outras conquistas da civilização.

Por isso, ao celebrar o Quinto Centenário do Empréstimo, poderemos perguntar-nos: Os irmãos europeus fizeram uso racional, responsável ou pelo menos produtivo dos fundos tão generosamente adiantados pelo Fundo Indoamericano Internacional? Lastimamos dizer que não. Estrategicamente, o dilapidaram nas batalhas de Lepanto, em armadas invencíveis, em terceiros reichs e outras formas de extermínio mútuo, sem outro destino que terminar ocupados pelas tropas gringas da OTAN, como no Panamá, mas sem canal. Financeiramente, tem sido incapazes, depois de uma moratória de 500 anos, tanto de cancelar o capital e seus fundos, quanto de tornarem-se independentes das rendas líquidas, das matérias primas e da energia barata que lhes exporta e provê todo o Terceiro Mundo.

Este deplorável quadro corrobora a afirmação de Milton Friedman segundo a qual uma economia subsidiada jamais pode funcionar e nos obriga a reclamar-lhes, para seu próprio bem, o pagamento do capital e os juros que, tão generosamente temos demorado todos estes séculos em cobrar. Ao dizer isto, esclarecemos que não nos rebaixaremos a cobrar de nossos irmãos europeus as vis e sanguinárias taxas de 20 e até 30 por cento de juros, que os irmãos europeus cobram dos povos do Terceiro Mundo. Nos limitaremos a exigir a devolução dos metais preciosos adiantados, mais o módico juros fixo de 10 por cento, acumulado somente durante os últimos 300 anos, com 200 anos de graça.

Sobre esta base, e aplicando a fórmula europeia de juros compostos, informamos aos descobridores que nos devem, como primeiro pagamento de sua dívida, uma massa de 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata, ambos valores elevados à potência de 300. Isto é, um número para cuja expressão total, seriam necessários mais de 300 algarismos, e que supera amplamente o peso total do planeta Terra.

Muito pesados são esses blocos de ouro e prata. Quanto pesariam, calculados em sangue?

Alegar que a Europa, em meio milênio, não pode gerar riquezas suficientes para cancelar esse módico juro, seria tanto como admitir seu absoluto fracasso financeiro e/ou a demencial irracionalidade das bases do capitalismo.


Tais questões metafísicas, desde logo, não inquietam os indoamericanos. Mas exigimos sim a assinatura de uma Carta de Intenção que discipline os povos devedores do Velho Continente, e que os obrigue a cumprir seus compromissos mediante uma privatização ou reconversão da Europa, que permita que a nos entregue inteira, como primeiro pagamento da dívida histórica.”

domingo, 25 de dezembro de 2016

A embaixadora dos golpes – Liliana Ayalde

Muitos vão achar que não passa de coincidência e, eu não ficaria assustado, se entre essas pessoas encontrássemos nomes como o do Kim, do Rodrigo Constantino e do mais novo intelectual brasileiro, guru do governo Temer, Alexandra Frota.  Por suas atuações seria de estranhar se não achassem mera coincidência. Mas a embaixadora Liliana Ayalde foi enviada para o Paraguai a época do golpe parlamentar em Lugo e depois, enviada ao Brasil, após o escândalo de espionagem da Dilma, ficando até o desenrolar do golpe e a entrega da presidência ao vampiro, golpista e usurpador, Temer.

O problema é que existem mais pessoas que pensam como os citados acima. Foram essas pessoas que foram para as ruas de amarelo e hoje, estão se descobrindo “ferrados” como eu. Agora irão trabalhar mais e receber bem menos de aposentadoria, perderão como se operários fossem as justezas da CLT, como o horário de 8h de trabalho, as férias de 30 dias corridos e muito mais.

O problema é que a direita e a esquerda ainda não entenderam que vivemos um golpe mais perverso do que foi em 64, com todos os assassinatos e torturas. A direita, como fez em 64, vai procurar os “comunistas” e tentar recuperar o status perdido. E a esquerda o que fará? Como se comportará aquela esquerda que, como a classe média, acredita que basta ganhar as eleições com Lula para tudo voltar a ser como antes. Ambos os lados não entenderam que as ditaduras de 60 e 70, tiveram o apoio e o interesse das corporações, mas os golpes eram pensados nos governos. Hoje os golpes não possuem mais a figura do Estado, da fronteira. No máximo, como coloca Márcio Valley, o Estado, como os EUA, não passam de exércitos das corporações, meros braços armados das corporações, a serviço das mesmas.

Em 64 você sabia por que estava na luta, e hoje? Por conta do poder das mídias, as corporações subornam e matam mais pessoas do que as ditaduras do século passado. A partir da falácia da luta pela democracia, do “regime change”, as intervenções nesse século são sempre pelo bem do povo e por sua liberdade, mas na prática sabemos não ser.

Moniz Bandeira, em seu livro “A Desordem Mundial”, no capítulo que fala da farsa da Revolução Laranja na Ucrânia, onde Obama apoiou os nazistas com dinheiro e armas para levar o país para a OTAN, nos brinda com o seguinte texto:

“O cientista político Albert Alexander Stahel, professor de Estudos Estratégicos da ETH Zurich (Instituto Federal de Tecnologia) e da Universidade de Zurique, ao comentar que a violenta deposição de ViKtor Yanukovych pelo Parlamento desestabilizou e fragmentou a Ucrânia, com os separatistas em Dombass a lutarem contra as milícias e o exército de Kiev, escreveu que, com base nesse e em outros casos, se podia concluir que a política de regime change dos EUA não levou a democracia a nenhuma parte. Pelo contrário, provocou guerras civis e caos, em todos os países onde os Estados Unidos tentaram promover a mudança do regime, a pretexto de promover a democracia – acentuou o professor Albert Alexander Stahel -, citando, entre outros exemplos: Afeganistão, em interminável guerra desde 2001, lastreada pelos negócios das drogas; Iraque, onde a guerra ainda perdurava, desde 2003, com a origem ao Estado Islâmico; Tunísia, que se tornou instável após a derrubada do ditador Zine al-Abidine Ben Ali, com o fortalecimento do islamismo radical; Egito, onde, após a derrubada de  Hosni Mubarak, a Irmandade Mulçumana elegeu Mohammed Mursi para a presidência, da qual o marechal Abd al-Fattah as-Sisi o derrubou com um golpe militar, e o exército passou a combater os islamitas radicais da península do Sinai; Síria, onde os EUA com a Turquia e a Arábia Saudita fomentaram protestos contra Bashar al-Assad e apoiaram com recursos e armas as organizações salafistas – Jabhat Al-Nusra e Estado Islâmico, em uma guerra que produziu mais de 279.000 mortos, até o começo de 2016, e mais de 4,5 milhões de refugiados, entre março de 2011 e fevereiro de 2016; Líbia, transformada em um Estado falido, brutal guerra civil, após a destruição do regime de Muammar Gaddafi pela guerra aérea da OTAN (EUA, Inglaterra e França), a respaldar as milícias islamitas. Segundo o professor Albert Alexander Stahel, melhor seria se Washington usasse o dinheiro investido em tais operações de regime change para resolver seus próprios problemas e restaurar a sua infraestrutura, que quase não mais funcionava, e seus sistemas de educação, saúde e previdência ruins”.

Ainda no livro, segundo Victoria Nuland, secretária-assistente dos EUA, o país gastou U$ 5 bilhões para levar a “democracia” nazista para a Ucrânia...

O exemplo acima demonstra bem o poder das corporações. No Iraque a questão se tornou clássica, onde uma das empreiteiras que foram reconstruir o país, era do vice do Bush. O governo americano pagou a indústria armamentista, pagou os mercenários e depois, ainda pagam a reconstrução do país. Tudo para que as corporações de energia (petróleo) possam explorar os campos e... venderem o óleo para o governo americano.

O golpe no Brasil não foi tão diferente das Primaveras Árabes, tivemos nuances como aconteceu no Paraguai e, terminamos na mão de um usurpador golpista. Em 2013, também tivemos o ensaio de uma primavera, mas para nossa sorte ou azar, a enorme maioria de nosso empresariado é tão bandida e burra, que acabam por atrapalhar o projeto das corporações, como aconteceu na época do Collor.

Agora diz você... com um quadro desse, se deixarem o Lula concorrer, isso nos bastará?

Feliz 2017

Sérgio Mesquita

Secretário de Formação do PT-Maricá/RJ

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Entrega dos certificados de conclusão do Curso de Direitos Humanos – Prefeitura de Maricá.

Turma: Casa da Mãe Joana

Pediram-me para vir aqui e representar a “gangue” da Casa da Mãe Joana, ser seu orador nesse evento. E aí me pergunto, falar sobre o que? Sobre o que muitos do que estão aqui já sabem, que o curso foi um sucesso? Que o pessoal do pedagógico, os docentes e administrativos foram fantásticos? Que nós aprendemos muito? Saímos mais respeitosos para com o próximo? É tudo verdade, mas não vou falar sobre isso não. Vou citar uma das belas metodologias porque passamos e apresentar uma preocupação, que pode estar passando ao largo, da maioria dos movimentos que lutam por direitos.

O grande barato do curso, é que fomos apresentados a várias formas de discriminação, a partir da troca de papéis. Eu tive que representar um juiz que tentava justificar seu auxílio moradia para uma desempregada, e também fui um pastor conservador que descobria e recebia a notícia do casamento de seu filho homossexual. Foram várias as situações que tivemos que passar, “sentir na pele”, o outro lado. Não aquele que estamos acostumados a defender, mas o que combatemos. Viche...

Na Casa da Mãe Joana, e pelas apresentações realizadas na aula do sábado, dia 17.12, podemos afirmar que o curso idealizado a partir da emenda parlamentar da deputada Benedita da Silva, foi eficiente e eficaz. Paradigmas e preconceitos se desmancharam. Os depoimentos prestados ao longo do curso, e em especial na última terça, dia 20.12, deixou claro que, sem qualquer exceção, todos que o iniciaram e o estão encerrando, estão vendo os seus entornos com um outro olhar. Um olhar mais amigo, um olhar de respeito. Entendendo, que os Direitos Humanos, vão muito além das mentiras exibidas na Rede Globo.

Mas o que me animou mesmo a estar aqui na frente foi a oportunidade de falar de uma prática da qual devemos lutar muito para manter e melhorar, antes de qualquer outra luta. Falo da prática democrática, que é muito citada, cantada e atualmente, decantada. Sem termos a firmeza da prática democrática, qualquer outra luta será para inglês ver. Àqueles que brigam pelo resultado, acabarão por cansar, mas continuarão na luta. Já aqueles que dependem da luta para sua sobrevivência pessoal, continuarão a gritar e a balançar bandeiras que, mesmo que justas, só servirão a propósitos egoístas.

Nenhuma luta, seja da minoria ou maioria, produzirá frutos verdadeiros, se buscada em um ambiente não democrático ou pretensamente democrático, como no Brasil que vivemos hoje, e no mundo em geral. Quando a democracia passa a ser tratada como mero folclore, como um faz de conta, quem perde é a sociedade, o cidadão. E quem ganha é a barbárie, o caos.

Vou citar aqui fragmentos de textos de dois autores que se preocuparam com essa faceta da democracia, Hobsbawn e Saramago. O primeiro entre os anos de 2007 e 2009, e o segundo, em uma entrevista dada em 1993. Ambos, infelizmente, já falecidos.

Hobsbawn nos colocava o seguinte:

Mas aí está precisamente o problema. O ideal da soberania do mercado não é um complemento à democracia liberal, e sim uma alternativa a ela. É, na verdade, uma alternativa a todos os tipos de política, pois nega a necessidade de decisões políticas (...) A política, por conseguinte, continuará. Como continuaremos a viver em um mundo populista, em que os governos têm de levar em conta “o povo”, e o povo não pode viver sem os governos, as eleições democráticas também continuarão.  Hoje, existe um reconhecimento praticamente universal de que elas dão legitimidade e proporcionam aos governos, paralelamente, um modo convincente de consultar “o povo” sem necessariamente assumir qualquer compromisso mais completo.

Saramago, mais direto como todo bom português, nos colocava:

Um dos dramas de nosso tempo é que há um poder – o único poder que existe no mundo, que é o financeiro – que não é democrático! E as pessoas não reparam nisto, apesar de estarem sempre a falar de democracia. Tanto mais que sabemos que os governos, indireta ou diretamente, estão ali para executar políticas que não são suas.

Cada um, de maneira própria, nos alertava sobre os perigos da pretensa democracia em que vivíamos no século passado e que hoje, cada vez mais, se desmancha no ar.

Hoje mais do que nunca, precisamos de todas as formas de lutas e representações civis, sejam de maiorias ou minorias. Mas que essas lutas por nossos direitos de escolha, por nossos direitos humanos, tenham como pano de fundo, o exercício da democracia. Que as decisões tomadas, partam de práticas democráticas horizontalizadas e não verticais como assistimos hoje.

Ao contrário do Churchill, Saramago não achava a democracia o menos pior dos sistemas. Mas tinha a certeza que não era o melhor, e que é nosso papel não nos contentar com isso e inventar alguma coisa melhor. Também colocava que direitos humanos e globalização econômica, são incompatíveis.

E para acabar com o sofrimento de todos, o meu e o de vocês, outra vez abuso do Saramago em outra citação sobre os diretos humanos: Não nos cansemos à toa com mais propostas. Tudo está ali. Façam-no. Cumpram-no.

Fora Temer, boa noite e a Luta Continua!

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

O QUE NÃO ACONTECE HOJE

“O que mais me custa a aceitar é o apetite camaleônico de alguns que os leva a adaptar-se com demasiada facilidade ao que lhe é imposto. Fiz jornalismo durante três anos. Recordo-me ainda da autocensura que éramos obrigados a fazer, por forma a fazer passar o que pretendíamos. Mas a situação ajudou-nos a escrever nas entrelinhas, o que não acontece hoje”.
José Saramago

O QUE NÃO ACONTECE HOJE

Normalmente inicio meus textos com o título e depois alguma citação. Inovei. A partir da citação, o Título. Na realidade, o texto será uma tentativa de uma carta aberta, aos profissionais da mídia oficial. Em especial, àqueles que deveriam ser especiais, os jornalistas e os “comentaristas”, que por conta de suas “camaleonices”, viraram animadores de plateia.

Mentem ou escondem a verdade, mesmo que no dia de amanhã, precisem desmentir ou expor a verdade sem qualquer rubor em suas faces. Da mesma forma que a corrupção cresceu por conta do sentimento de impunidade, a mentira e manipulação virou notícia por conta desse mesmo sentimento. Nunca foi tão fácil criar, esconder ou supervalorizar uma situação, de maneira que fique em total acordo com o pensamento da empresa, e não com a notícia, o fato em si.

Saramago explicita que tinha que fazer autocensura e pensar, desenvolver linhas de pensamento, de maneira que, como colocado no texto, nas entrelinhas, outra visão fosse transmitida. Hoje, essa preocupação é inexistente, a entrelinha não existe mais. O que existe são manchetes, títulos e “lides”, que expressam uma única opinião, a do empresário, acionista, que apoia ou é contra o governo. Uma única verdade.

O problema é que chegará o momento, em que as imagens e tintas não esconderão a realidade. A televisão e o jornal continuarão a noticiar o mar de rosas ou uma pretensa desgraceira, mas os cidadãos irão olhar para o lado e verão a realidade que estará em cada esquina, em suas portas. E quando falamos em cidadãos, podem ser qualquer um, inclusive os jornalistas e “comentaristas” responsáveis pelo atual circo de notícias, os camaleões. Aqueles que esqueceram e os que nunca aprenderão a usar as entrelinhas para exporem uma outra versão. Hoje, 08.12, comemorei meu aniversário – acontece nessa mesma data há 59 anos. Comentei com os amigos, que pela primeira vez eu ficava mais velho e meu tempo para aposentadoria aumentava em razão superior ao aumento de minha idade. Antes, diminuía na mesma proporção. Vai ter como esconder isso?

É certo que a classe dominante, os donos da “bufunfa” já estão pensando em como viver em um planeta que destroem, e em como não serem incomodados pelos demais mortais. Devem estar pensando em seus Elysiuns ou em novas construções de muros, mais para a realidade dos dias de hoje. Devem estar preocupados também, em como irão viver em um mundo automatizado, cheios de robôs, mas sem qualquer espaço para o cidadão comum. Mais muros? Mais controle de natalidade, disfarçado na distribuição de leite em pó, como na década de 60 e 70? Ou teremos a nossa mídia escondendo dos “afortunados” a desgraceira e, dos desgraçados, o mundo colorido que existe do outro lado do muro. De novo a manipulação e a mentira.

O parágrafo acima foi colocado para que esses jornalistas e “comentaristas” que se acham privilegiados, sócios do clube, do andar de cima, caiam na real. Pois quando olharem para o lado e sentirem a realidade, se descobrirão cunhas, cabrais, constantinos e moros. Meras ferramentas que nunca serão aceitos no andar de cima, no clube. Quando isso acontecer, já não terão as cores para se adaptarem à nova realidade. Suas “camaleonices” estarão carcomidas pelos excessos que cometeram. Irão entrar em depressão? Andar pelos cantos escuros das ruas, para não serem reconhecidos por aqueles que tripudiaram? Não sei! A única certeza que tenho, é que comparar esses seres aos camaleões é sacanagem. Minha e de Saramago.
Te abraço.

Sérgio Mesquita
Secretário de Formação do PT-Maricá







quarta-feira, 30 de novembro de 2016

O PT E O CACHORRO CORRENDO ATRÁS DO RABO


Essa foi, infelizmente, a impressão, a imagem, com que retornei à Maricá, após o encerramento da reunião do DR do Rio de Janeiro, neste domingo 27.11. Não por se tratar do DR do RJ, mas por se tratar do PT como um todo. O Rio é mais um espelho do que acontece no Brasil por inteiro. Vi e sei de muita gente preocupada em como tratar do futuro do Partido, mas vi muita gente que ainda não caiu a ficha ou recusa-se a deixar cair. No conjunto da obra, muitos querem continuar correndo atrás do rabo.

Falas contundentes e concordantes quanto à necessidade da autocrítica, mas sem fazê-las, admitiu-se um erro aqui e acolá, e ouviram-se perguntas como, “só nós erramos?” Até reduziram a história do partido e seus possíveis erros aos seus últimos 14. Em especial nos dois últimos anos da Dilma. Parece que esqueceram a década de 90, em especial no Rio de Janeiro.

Maurício, presidente da CUT, expos uma verdade. O militante do PT, sindicalista, não participa mais do Partido e vice-versa, mas sem uma proposta efetiva de como mudar isso. Nem mesmo os novos núcleos e movimentos que surgiram na onda das ocupações das escolas, apresentaram nas redes sociais ou em seus textos, o que fazer para convencer a população voltar para as ruas conosco. Não pelo leite derramado, mas pelo olho na panela.

E como faremos uma nova política, uma vez que o modelo atual, “fez água”? Não percebi nenhum movimento nesse sentido. Mais me pareceu um encontro para reclamar divisão de poder e possíveis cargos, que poderão ou não existirem mais à frente. Outro ponto não tão unanime, está no absurdo (minha opinião) das eleições no Partido (PED) terem sido adiantadas em seu calendário. Elegeremos uma direção e depois faremos um Congresso, onde não necessariamente a direção possa estar alinhada com as diretrizes do Congresso. Um dos poucos momentos de maior atualidade foi quando colocaram que o Partido não deveria continuar a propor ações e encaminhamentos como se ainda governo fosse. Muito justo, pois perdemos postos, verbas e poder de influencia. Temos que desapegar.

O consenso ocorreu na fala do Quaquá, abrindo a reunião e na apresentação de uma Moção ao Lula, no final, que pedia sua candidatura à presidência nacional do Partido. Todos, inclusive eu, temos a clareza de que seu nome poderá unir o partido, e sua candidatura a presidente em 18, aplacar um pouco a ira de parte classe dominante. Apesar de em minha humilde opinião, achar que ele também tenha responsabilidades na situação em que nos encontramos atualmente. Mas, me preocupam duas coisas. A primeira, é que não deve ser de bom tom propor uma Frente de Ampla de Esquerda, já com indicação de um nome para concorrer. Mesmo que saibamos que o nome do Lula será um nome consensual. Não é de bom tom. A segunda está na criação de mais um “ismo”, o “Lulismo”. A História nos mostra que todos os “ismos” quando personalizados, não tem vida longa. A exceção do Maxismo, por não tratar-se de um movimento criado por ele ou para ele, mas sim por sua obra. Quando personalizamos e a personalidade se ausenta, por qualquer motivo, o movimento fica órfão e tudo pode acontecer inclusive sua total descaracterização. O Brizolismo não nos deixa mentir.

A questão colocada na reunião e por Lula nacionalmente, de que devemos nos preocupar mais com os cargos legislativos em detrimento dos cargos executivos, me parece justa. Aqui em Maricá, o companheiro Rogerinho colocava que Jandira deveria ser uma candidata laranja – acabou um laranjão. A nossa candidatura a Prefeito do Rio, deveria usar de seu tempo para denunciar o golpe e fortalecer a necessidade de elegermos vereadores. Nem uma nem outra. Eleger deputados é sim importante, mas para manter o status quo do modo atual de fazer política, de nada nos adiantará. Pois no frigir dos ovos, quando acontece um golpe, de nada adianta ter ou não a maioria, golpe é golpe. Termos congressistas sem bases nas ruas, estaremos de novo participando de jantares e sendo chamados de ladrões. O Partido tem que se inventar (não adianta se reinventar), de modo que a população venha para dentro de suas instâncias de decisão. Não porque assim desejamos, mas porque a população entenderá, a partir de nossas ações, que o espaço é dela e para ela, nós somos só a ferramenta.

A vontade de escrever esse texto, teve “start” a partir de uma das primeiras falas na reunião, que apontou como um dos nossos erros, o Partido não ter discutido os papéis de Lula ou Dilma. Repito o colocado acima – personalismo. O erro foi o Partido não ter discutido qual o seu papel, e como Lula e Dilma se colocariam a partir desse papel.

Encerro, sem ter uma fórmula também, mas na certeza de entender que, como está não teremos existência efetiva. Um companheiro em Maricá me disse uma vez, “ocupamos um espaço feito para eles, pelas Leis feitas por eles, para atender as necessidades deles. Somos intrusos”. Acredito que só deixaremos de ser intrusos, se ao retomarmos o espaço, levarmos para as suas instâncias de decisão os movimentos sociais e a sociedade civil, a população. Mas para isso, é preciso inventar uma nova maneira de fazer política. A estudantada já nos mostrou por onde começar, primeiro com as quase 200 ocupações em São Paulo contra o desmanche das escolas. Hoje, com as mais de 1000 ocupações pelo Brasil contra a PEC da Maldade. Seja qual for o caminho, o começo nos é o mais difícil hoje, o caminho da horizontalidade nas decisões do Partido.

Sérgio Mesquita

Sec. de Formação de Maricá-RJ