segunda-feira, 9 de julho de 2018

Uma Justiça que cumpra e um Direito que nos conheça.


Escrevo este texto para os companheiros que, como eu, defendem a Justiça e o Direito definidos pelo Saramago no livro “Terra” de Sebastião Salgado, quando Deus percebe o resultado de sua criação...

“Deus falando a multidão, anunciou: A partir de hoje chamar-me-eis Justiça. E a multidão respondeu-lhe: Justiça, já nós a temos, e não nos atende. Deus responde: Sendo assim, tomarei o nome de Direito. E a multidão tornou a responder-lhe: Direito, já o temos, e não nos conhece. E Deus: Nesse caso ficarei com o nome de Caridade, que é um nome bonito. Disse-lhe a multidão: Não necessitamos caridade, o que queremos é uma Justiça que se cumpra e um Direito que nos respeite”.

Depois do colocado acima será que continuará difícil enxergarmos o óbvio? VIVEMOS EM UM ESTADO DE EXCEÇÃO. E em Estado de Exceção as instituições passam a ser de “faz de conta”, de “mentirinha”, “para inglês ver”. Não existe saída “legal” na ilegalidade. Não vivemos em uma Democracia.

Lula está preso por conta de um Golpe que se iniciou em 2005 e teve sua primeira etapa findada na farsa do “mensalão” e continuou com a outra farsa da Lava Jato. Lula não será solto enquanto o andar de cima não se unificar contra a gente. Enquanto estiverem disputando entre eles o poder, não nos sobrará nada. E caso cheguem a um acordo, nada nos sobrará.

As corporações já decidiram que vão tomar nosso petróleo, nossa água, nossos minérios e as empresas como se colônia fôssemos. E nenhum país de nossa democracias ocidental irá se opor. Pelo contrário, estão a disputar o espólio da viúva, como a Noruega (país nórdico), já garantiu seu quinhão no pré sal e com isso o pagamento da aposentadoria de seus cidadãos.

Por outro lado, nossos vassalos da” justiçinha” ainda não sabem se era a voz do Aécio dizendo que mandaria matar o primo, se a mala “chipada” era para o Temer, ou se o Cunha comprou o impeachment da Dilma. Também não sabem onde está a PORRA do elevador e a cozinha do triplex. Além de uma infinidade de outros exemplos.

E o que fazemos nós?

Tirando uns poucos mais preocupados com seus umbigos e as eleições de 18 e 20, podemos sim agir no sentido de resgatarmos a Justiça e o Direito, aquela que se cumpra e aquele que nos sirva. Não precisamos pegar em armas, mas podemos paralisar o país. Não com as greves gerais que não acontecem, mas paralisando umas poucas vias de acesso nas cidades. Aquelas que irão causar enormes engarrafamentos, e não precisamos de caminhões e tratores, pois são comandados pelos de cima. Uma ou duas vezes por semana até um monte de merdas se mudarem para Miami de vez, vira-latas que são. Desobediência civil até tirar os estrumes do Alvorada.

Não deve ser difícil, paralisa-se aqui, quando os dos cassetetes chegarem...paralisa-se ali, até que nem eles e nem ninguém cheguem em seus destinos. Fica a ideia.

Lula não será liberto até que só sobre do país o que não lhes interessa.

Sérgio Mesquita
Sec. Formação do PT-Maricá/RJ

terça-feira, 12 de junho de 2018

O BRASIL QUE NÃO SE EXPLICA...22, COISA DE LOUCO


Transtornos Delirantes Persistentes - CID10 F22

Todos os dias recebo referências feitas aos “coxinhas” golpistas nas redes sociais. E, em igual proporção, postagens questionando suas sanidades por causa das mesmas postagens. Coisas como: “Greve a favor da ditadura”... Como? As greves são proibidas nas ditaduras. “Durante a ditadura não se roubavam celulares”. E eles existiam? Campanha para que não se abastecesse o carro porque a gasolina aumentou para R$2,80 e filas para abastecer, agradecidos, com a gasolina a custar mais de R$ 5,00. E a pior de todas, defendem as privatizações, mas se esquecem que serão privados de tudo. Esses são alguns dos exemplos, entre outros, com que a classe média nos brinda.

Porém, se pensarmos melhor e nos inspirarmos na letra da música, “22”, do artista mineiro radicado em Maricá, Délcio Teobaldo, podemos entender um pouco desse país e dessa gente. Um pouco da loucura do sistema capitalista e de nosso “viralatismo”. Bem como entender melhor a afirmação colocada pelo escritor português José Saramago, que nos diz que democracia e capitalismo são convivem num mesmo espaço de tempo.

Em uma situação de “normalidade”, ditos como “quem não chora não mama”, “teme quem deve” e outros, fariam sentido. Mas na atual situação por que passamos, viver num estado exceção, toda e qualquer lógica se perde, ou melhor se encaixa no absurdo do sistema e certeza e incertezas se confundem ou se misturam, como nos coloca o fragmento da letra da música “22”, abaixo:

Nessa terra de incertezas, “em se plantando tudo dá”: café, fumo e ouro, barraco no morro, vergonha na cara.
Nessa terra de incertezas, acreditando, tudo há: escola sem muros, Pivetim com futuro, Caipora na mata.

Ou seja, o incerto é quando existem condições de crescimento para aquela parcela empobrecida pelo sistema. Porém, mesmo em meio as (in)certezas, o sistema consegue sangrar a população:

Se eu planto, tu plantas, nós plantamos, vós plantais, eles comem mais...

E nos momentos de certeza, o sistema mostra sua cara, a verdadeira cara:

Nessa terra de certezas, nada como é, será: Só não teme quem deve; só chora quem mama; quem tudo quer tudo ganha.
Nessa terra de certezas, quem duvida chega lá: “Tupi or not Tupi”; “Viva a palhoça-ça”; “Ó-Blésq-Blom”.

E, como nos momentos de (in)certeza, o sistema continua ganhando.

Se eu toco, tu tocas, nós tocamos, vós tocais, eles dançam mais...

Ao final da música, somos brindados com um trecho da carta de “achamento” do Brasil, onde o futurólogo Pero Vaz Caminha dá a pista para que quase 500 anos depois, Nelson Rodrigues definisse o brasileiro, a classe média, como “vira-lata”.

Neste dia, enquanto ali andaram, dançaram e bailaram sempre com os nossos, ao som dum tamboril dos nossos, em maneira que são muito mais nossos amigos que nós seus...”

No sistema capitalista que vivemos, onde nosso papel é servir, temos o brilhantismo do Darcy Ribeiro, quando nos diz que no máximo, seremos o gerente do Engenho. Por isso, hoje, temos presos sem provas e criminosos governando o país e fazendo (in)justiças.

Há braços

Sérgio Mesquita
Secretário de Formação do PT-Maricá

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Resposta a Matéria do O Globo de 20.05.18


Lendo nas redes sociais a matéria do O Globo (não compro o jornaleco e nem assisto sua versão televisiva), publicada neste domingo, 20.05, arrisco-me em algumas considerações, após um rápido histórico das escolhas políticas dos “marinhos” da vida.

Quem são seus editorialistas para opinarem na administração econômica dos entes federados? Desde a década de 50, século passado, que só divulgam o que for de interesses de suas corporações ou, daquelas que respondem lá de fora. Ninguém acredita mais em vocês, bastam mostrarem o balanço de suas publicações ou a atual audiência na televisão. Inventam e ignoram fatos em benefício de interesses próprios - basta uma pequena análise sobre a questão do “triplex do Lula”. Mas vamos ao texto.

Seus 2 primeiros parágrafos deixam clara a intenção do texto: as eleições de 18 (se acontecerem) e as de 2020, municipais, como deixa claro o texto, ao darem continuidade as críticas à administração do PT em seu terceiro mandato em Maricá. A narrativa da má administração mesmo após Quaquá ter saído com mais de 80% de aprovação e o Fabiano manter e aumentar este índice. Só interessa a construção de uma narrativa que vá ao encontro de seus interesses.

Ainda em seu segundo parágrafo, a confirmação dos interesses políticos. Até há pouco tempo, a Petrobras devia ser privatizada por ser deficitária e ineficiente, mas para combater a única cidade administrada pelo PT no RJ, a empresa vai de bem a melhor, com promessas de aumento de sua produção e dividendos. Haja paciência.

No terceiro e quarto parágrafos, volta a narrativa com a citação das más administrações anteriores, dando como certa a sua repetição pela administração de Maricá, citada explicitamente a partir dos próximos parágrafos. De novo os interesses pessoais/políticos. Essas administrações só passaram a ser ruins recentemente, nos atuais tempos de golpe. Antes eram exemplos em suas páginas e vídeos. Curioso é que só nos estados administrados pelo PT e pelo Pc do B, não houve atraso de pagamentos e fechamentos de escolas e hospitais. No Rio, só Maricá construiu novas escolas, creches (até então inexistentes), um novo hospital e paga seus funcionários dentro do mês. Tarifa zero em sua empresa de transporte, uma moeda social estudada no mundo, cessão de posse de terras e muito mais. Mas administra mal, segundo o jornal.

No quinto e sexto parágrafos, fica explícito o forçar narrativo contra a cidade. Cita os erros (antes acertos) do Rio e coloca como certo suas repetições pela administração local. Dá exemplos que são sim verdadeiros, Maricá vai realizar concurso público para professores, médicos e outras profissões. Até porque experimenta um processo de crescimento artificial de sua população por conta das administrações políticas de seu entorno e Estado, bem como a exploração da insegurança pela mídia. A população cresce e o MP vai cobrar a real necessidade de vagas nas escolas e atendimento médico. Mas, para o jornal...é administrar mal.

Em nenhum momento o jornal informa os projetos que permitirão a subsistência da cidade no pós royalties. Temos um porto que não inicia suas obras por questões colocadas como ambientais (e são). Mas não se discute, por exemplo, que a política também impede a sua realização (a má política), quando não é de interesses dos demais portos, a operação portuária em Maricá, que possui o maior calado da América do Sul para operação dos grandes navios. Não cita a criação do Parque Tecnológico e do Industrial, que iniciarão atendendo as questões do petróleo, mas com diretiva de manter a cidade no pós-roylties. O aeroporto que passará atender o campo de Lula, a custo mais baixo para as operadoras das plataformas e depois ao PqT e PqI, e a interligação de todo o município por fibra ótica, em execução.

A questão da água e saneamento citados “en passant”, não informa que está em negociação com a CEDAE a construção de uma barragem em Tanguá, com dinheiro de Maricá, para atender o município e seu entorno. O governo também negocia assumir a coleta do esgoto no município e seu tratamento, com a construção de duas estações (ETEs) e sua “eliminação” via emissário submarino. Mas administra mal seus recursos, segundo o jornal.

E para finalizar em grande estilo, de novo por possíveis interesses corporativos, encerra trazendo a baila, uma nova rediscussão sobre a distribuição dos royalties, a partir das “más administrações” antes apoiadas e hoje colocadas como premiadas pela distribuição dos royalties.

Há braços,

Sérgio Mesquita
Sec. de Ciência, Tecnologia e Comunicações de Maricá
Executiva do PT-Maricá

terça-feira, 8 de maio de 2018

Em Defesa do Manifesto Comunista!


Para que um Manifesto tenha êxito, ele tem de falar aos nossos corações tal qual um poema, enquanto infecta a mente com imagens e idéias que são fascinantemente novas. Ele precisa abrir nossos olhos para as verdadeiras causas das desconcertantes, perturbadoras e empolgantes mudanças que ocorrem ao nosso redor, expondo as possibilidades que a nossa realidade atual pode vir a dar a luz. Ele deve nos fazer sentir desesperadamente deslocados por não termos podido reconhecer, por nós mesmos, tais verdades, e ele tem ainda que levantar o véu da inquietante constatação de que estivemos agindo como cúmplices insignificantes, ao reproduzir um passado sem saídas. Por fim, ele precisa ter o poder de uma sinfonia de Beethoven, instando a nos tornar agentes de um futuro que acabe com o desnecessário sofrimento em massa e, assim, inspire a humanidade a realizar seu potencial de liberdade autêntica.

Nenhum manifesto teve mais êxito em fazer tudo isso do que aquele publicado em fevereiro de 1848, no número 46 da rua Liverpool, em Londres. Encomendado por revolucionários ingleses, O Manifesto Comunista (ou o Manifesto do Partido Comunista, como fora inicialmente publicado) é da autoria de dois jovens alemães – Karl Marx, um filósofo de vinte e nove anos com um gosto pelo hedonismo epicurista e pela racionalidade hegeliana, e Friedrich Engels, um herdeiro de vinte e oito anos de uma fábrica em Manchester.

Como obra de literatura política, o Manifesto permanece insuperável. Suas linhas mais infames, incluindo a de abertura (Um espectro ronda a Europa – o espectro do comunismo), têm uma qualidade shakespeariana. Assim como Hamlet confrontado pelo fantasma de seu pai assassinado, o leitor é compelido a se perguntar: “Devo me conformar à ordem vigente, sofrendo as pedradas e flechadas com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja? da Fortuna concedida a mim pelas forças irresistíveis da História? Ou devo me unir a essas forças, me insurgindo contra o status quo e, em luta, inaugurar um admirável mundo novo?

Para os leitores de primeira hora de Marx e Engels, esse não era um dilema acadêmico, debatido nos salões da Europa. O Manifesto deles era um chamado à ação; atender à invocação desse espectro significava, com frequência, sofrer perseguição ou, em alguns casos, encarceramento prolongado. Hoje, um dilema semelhante confronta os jovens: conformar-se a uma ordem estabelecida que está desmoronando, e que é incapaz de reproduzir a si mesma, ou  antagonizá-la, a um custo pessoal considerável, em busca de novas formas de trabalhar, se divertir e conviver? Ainda  que os partidos comunistas tenham desaparecido quase por completo da cena política, o espírito do comunismo que move o Manifesto se mostra difícil de silenciar.

Enxergar para além do horizonte é a ambição de qualquer manifesto, mas lograr como lograram Marx e Engels em descrever com precisão uma era que chegaria um século e meio mais tarde, bem como analisar as contradições e escolhas que enfrentamos hoje, é realmente espantoso. No final da década de 1840, o capitalismo estava naufragando, isolado, fragmentado e tímido. E, no entanto, Marx e Engels deram uma boa olhada nele e anteviram nosso capitalismo globalizado, financeirizado, blindado, e todo cantarolante. Foi essa a criatura que surgiu depois de 1991, no exato momento em que o establishment proclamava a morte do marxismo e o fim da história.

É certo que há muito se vem exagerando sobre o fracasso preditivo do Manifesto Comunista. Lembro-me de como até mesmo os economistas de esquerda, no início dos anos 1970, contestaram a previsão central do Manifesto, segundo a qual o Capital “se imiscuiria  em toda parte, se instalaria em toda parte, criaria relações em toda parte”. Baseando-se na triste realidade daqueles que eram então chamados de países do terceiro mundo, eles argumentavam que o capital havia “perdido o gás” muito antes de se expandir para além de suas “metrópoles” na Europa, América e Japão.

Empiricamente, eles estavam certos: empresas multinacionais europeias, estadunidenses e japonesas operando nas “periferias” da África, Ásia e América Latina estavam se limitando ao papel de extratores coloniais de recursos e fracassando em difundir o capitalismo por lá. Ao invés de imbuir nesses países o desenvolvimento capitalista (impelindo  “todas as nações, mesmo as mais bárbaras para a torrente da civilização”), eles argumentavam que o capital estrangeiro estava reproduzindo o desenvolvimento do subdesenvolvimento no terceiro mundo. Era como se o Manifesto tivesse depositado confiança demais na capacidade do capital de se espalhar em cada canto e recanto. A maioria dos economistas, incluindo os simpatizantes de Marx, duvidavam da previsão contida no Manifesto de que “a exploração do mercado mundial” tornaria “cosmopolita a produção e o consumo de todos os países”.

Como se viu, o Manifesto estava certo, ainda que tardiamente. Ainda seriam necessários o colapso da União Soviética e a inserção de dois bilhões de trabalhadores chineses e indianos no mercado de trabalho capitalista para que fosse feita justiça à sua previsão. De fato, para que o capital se globalizasse plenamente, os regimes que juraram lealdade ao Manifesto tiveram primeiro de ser estilhaçados. Já nos deu a História ironia mais deliciosa?

Qualquer um que leia o Manifesto hoje ficará surpreso ao descobrir o retrato de um mundo muito parecido com o nosso, cambaleando temerosamente nos limites da inovação tecnológica. No tempo do Manifesto, era a locomotiva a vapor que representava o maior desafio aos ritmos e rotinas da vida feudal. O campesinato foi arrastado para dentro das engrenagens e polias desse maquinário e uma nova classe de senhores, os donos das fábricas e os comerciantes, usurpou da aristocracia rural o controle sobre a sociedade. Agora, é a inteligência artificial e a automação que emergem como ameaças disruptivas, prometendo dissolver “todas as relações imutáveis e esclerosadas”. “Revolucionar permanentemente… os instrumentos de produção”, proclama o Manifesto, transforma “o conjunto das relações sociais”, trazendo “O revolucionamento permanente da produção, o abalo contínuo de todas as categorias sociais, a insegurança e a agitação sempiternas”.

Para Marx e Engels, no entanto, essa ruptura deve ser celebrada. Ela age como um catalisador do último empurrãozinho de que precisa a humanidade para acabar de vez com nossos preconceitos remanescentes, que sustentam o grande fosso entre aqueles que possuem as máquinas e aqueles que as projetam, operam e com elas trabalham. “Tudo o que era estável e sólido desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado”, escrevem eles no manifesto sobre o efeito da tecnologia, “e os homens são obrigados a encarar com olhos desiludidos, seu lugar no mundo e suas relações recíprocas”. Ao pulverizar impiedosamente nossas ideias pré-concebidas e falsas certezas, as transformações tecnológicas estão nos forçando, aos gritos e pontapés, a encarar o quão patéticas são nossas relações uns com os outros.

Hoje, vemos esse acerto de contas em milhões de palavras, impressas e online, usadas para debater os descontentamentos da globalização. Enquanto celebram a forma com que a globalização deslocou bilhões de pessoas da pobreza extrema à pobreza relativa, veneráveis ​​jornais ocidentais, personalidades de Hollywood, empresários do Vale do Silício, bispos e até investidores multibilionários, todos lamentam algumas de suas ramificações menos desejáveis: desigualdade insuportável, ganância descarada, mudanças climáticas e sequestro de nossas democracias parlamentares por banqueiros e pelos ultra-ricos.

Nada disso deveria surpreender um leitor do Manifesto. “Cada vez mais,”, argumenta, “a sociedade divide-se em dois grandes blocos inimigos, em duas grandes classes que se enfrentam diretamente”. Conforme a produção é mecanizada, e a margem de lucro dos donos das máquinas torna-se a força motriz da nossa civilização, a sociedade divide-se entre acionistas que não trabalham e trabalhadores assalariados que nada possuem. Quanto à classe média, ela é o dinossauro na sala, marcada para a extinção.

Ao mesmo tempo, os ultra-ricos sentem-se culpados e se estressam ​​enquanto assistem a vida de todos os demais afundar na precariedade da insegura escravidão assalariada. Marx e Engels previram que essa minoria supremamente poderosa acabaria por se mostrar “incapaz de dominar” sociedades tão polarizadas, pois não teriam condições de assegurar aos seus escravos uma existência segura. Entrincheirada em seus condomínios fechados, ela se vê consumida pela ansiedade e incapaz de desfrutar de suas riquezas. Parte dessa minoria, inteligente o suficiente para perceber seu verdadeiro interesse próprio de longo prazo, reconhece o estado de bem-estar social como a melhor apólice de seguro disponível. Mas, infelizmente, nos explica o Manifesto, enquanto classe social, será da sua natureza economizar no prêmio de seguro, e ela trabalhará incansavelmente para evitar ter de pagar os impostos necessários.

Não foi isso que aconteceu? Os ultra-ricos são uma panelinha insegura, permanentemente insatisfeita, que entra e sai constantemente de clínicas de desintoxicação, e que busca incansavelmente o consolo de paranormais, psiquiatras e gurus do empreendedorismo. Enquanto isso, todos os demais batalham para colocar comida na mesa, pagar as mensalidades, fazer malabarismos com seus cartões de crédito ou lutar contra a depressão. Agimos como se nossas vidas fossem sem preocupações, alegando gostar do que fazemos e fazer o que gostamos, quando na realidade, choramos baixinho antes de dormir.

Os filantropos, políticos do establishment e os acadêmicos da área econômica, todos respondem da mesma maneira a essa difícil situação: emitindo ácidas condenações dos sintomas (desigualdade de renda) enquanto ignoram suas causas (a exploração resultante dos desiguais direitos de propriedade sobre máquinas, terras, recursos). Alguém se admira que estejamos num impasse, chafurdando em um desespero que só serve aos populistas que procuram cortejar os piores instintos das massas?

Com o rápido surgimento de tecnologia avançada, nos aproximamos do momento no qual teremos de decidir como nos relacionar uns com os outros de maneira racional e civilizada. Não podemos mais nos esconder por trás da inevitabilidade do trabalho e das normas sociais opressivas de que ele necessita. O Manifesto dá ao seu leitor do século 21º  uma oportunidade de ver através dessa bagunça e reconhecer o que precisa ser feito para que a maioria possa escapar do descontentamento rumo a novos arranjos sociais nos quais “o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos”. Mesmo que ele não contenha um roteiro de como chegar lá, o Manifesto continua sendo uma fonte de esperança que não deve ser descartada.

Se o Manifesto mantém o mesmo poder de nos estimular, entusiasmar e envergonhar que ele possuía em 1848, é porque a luta entre as classes sociais é tão antiga quanto o próprio tempo. Marx e Engels resumiram isso em 15 palavras audaciosas: “A história de toda sociedade até nossos dias é a história da luta de classes”.

Das aristocracias feudais aos impérios industrializados, o motor da história sempre foi o conflito entre constantes tecnologias revolucionárias e convenções de classes vigentes. A cada disrupção na tecnologia da sociedade, o conflito entre nós muda de forma. Velhas classes se extinguem e, por fim, apenas duas permanecem de pé: a classe que tudo possui e a classe que não possui nada – a burguesia e o proletariado.

Esta é a difícil  situação em que nos encontramos hoje. Embora devamos ao capitalismo por ter reduzido todas as distinções de classes ao abismo entre proprietários e não-proprietários, Marx e Engels querem nos fazer perceber que o capitalismo não é suficientemente desenvolvido para sobreviver às tecnologias que ele gera. É nosso dever romper com a antiga noção de meios de produção privados e forçar uma metamorfose, que deve incluir a propriedade social do maquinário, da terra e dos recursos. Atualmente, quando novas tecnologias são introduzidas em sociedades vinculadas pelo primitivo contrato de trabalho, o que se segue é miséria por atacado. Nas palavras inesquecíveis do Manifesto: “a sociedade burguesa moderna que gerou, como por encanto, meios de produção e de troca tão poderosos assemelha-se ao feiticeiro que já não consegue dominar as potências demoníacas que evocara”.

O feiticeiro sempre pensará que os seus aplicativos, motores de busca, robôs e sementes geneticamente modificadas trarão riqueza e felicidade à todos. Mas, uma vez soltas em sociedades rachadas entre trabalhadores assalariados e proprietários, essas maravilhas tecnológicas empurrarão os salários e os preços a níveis que geram lucros baixos para a maioria das empresas. São somente as gigantes da tecnologia, a grande indústria farmacêutica e as poucas empresas que detêm um poder político e econômico excepcionalmente grande sobre nós que realmente se beneficiam disso. Se continuarmos a assinar contratos de trabalho entre empregador e empregado, os direitos de propriedade privada irão governar e irão conduzir o capital para fins desumanos. Somente com a abolição da propriedade privada dos instrumentos de produção em massa e através da sua substituição por um novo tipo de propriedade comum que trabalhe em sincronia com as novas tecnologias, diminuiremos a desigualdade e encontraremos a felicidade coletiva.

De acordo com a teoria da história em 15 palavras de Marx e Engels, o atual impasse entre trabalhador e proprietário foi sempre garantido. “Igualmente inelutáveis”, declara o Manifesto, são a “queda (da burguesia) e a vitória do proletariado”. Até agora, a história não realizou essa previsão, mas os críticos se esquecem que o Manifesto, como qualquer instrumento de propaganda digno desse nome, apresenta a esperança na forma de certeza. Assim como o Lorde Nelson motivou suas tropas antes da Batalha de Trafalgar anunciando que a Inglaterra “esperava” que eles cumprissem o seu dever (mesmo que ele tivesse sérias dúvidas de que o fariam), o Manifesto concede ao proletariado a expectativa de que cumprirá o seu dever para consigo mesmo, inspirando os proletários a se unirem e se libertarem uns aos outros das amarras da escravidão assalariada.Eles o  farão? Na forma atual, parece improvável.

Por outro lado, tivemos que esperar que a globalização aparecesse na década de 1990, antes que a avaliação do Manifesto sobre o potencial do capital pudesse ser plenamente justificada. Não seria possível que o novo proletariado mundial, cada vez mais precário, precisasse de mais tempo para poder desempenhar o papel histórico que o Manifesto antecipou? Enquanto o júri delibera, Marx e Engels nos dizem que, se temermos a retórica da revolução, ou tentarmos nos distrair do nosso dever uns para com os outros, nos encontraremos presos em uma espiral vertiginosa na qual o capital satura e descolore o espírito humano. A única coisa de que podemos ter certeza, segundo o Manifesto, é que, a menos que o capital seja socializado, estamos nos encaminhando rumo a acontecimentos distópicos.

Sobre o tema da distopia, o leitor cético se animará: o que do Manifesto sugeriria cumplicidade na legitimação de regimes autoritários e fortalecimento do espírito dos guardas dos gulags? Em vez de responder defensivamente, apontando que ninguém culpa Adam Smith pelos excessos de Wall Street, ou o Novo Testamento pela Inquisição Espanhola, podemos especular como os autores do Manifesto poderiam ter respondido a essa acusação. Acredito que, com o benefício da retrospectiva, Marx e Engels confessariam um erro importante em sua análise: reflexividade insuficiente. Isto é para dizer que eles falharam em dar pensamento suficiente, e mantiveram um silêncio criterioso, sobre o impacto que sua própria análise teria sobre o mundo que eles estavam analisando.

O Manifesto contou uma história poderosa em linguagem intransigente, destinada a tirar os leitores da apatia. O que Marx e Engels não previram foi que textos poderosos e prescritivos têm a tendência de obter discípulos, crentes — até mesmo um sacerdócio — e que esses fiéis podem usar o poder conferido a eles pelo Manifesto em proveito próprio. Com isso, eles podem abusar de outros camaradas, construir sua própria base de poder, ganhar posições de influência, acampar com estudantes impressionáveis, assumir o controle do Politburo e prender qualquer um que resista a eles.

Da mesma forma, Marx e Engels não conseguiram estimar o impacto de suas escritas sobre o próprio capitalismo. Na medida em que o Manifesto ajudasse a desenhar a União Soviética, seus satélites do leste europeu, a Cuba de Castro, a Iugoslávia de Tito e vários governos social-democratas no Ocidente, esses acontecimentos não causariam uma reação em cadeia que frustraria as previsões e análises do Manifesto? Depois da revolução russa e depois da Segunda Guerra Mundial, o medo do comunismo forçou regimes capitalistas a adotarem sistemas de aposentadoria e pensões, serviços nacionais de saúde e até mesmo a ideia de fazer os ricos pagarem aos estudantes pobres e pequeno-burgueses para frequentar universidades liberais. Enquanto isso, hostilidade raivosa à União Soviética provocou paranoia e, assim, criou um clima de medo que se mostrou particularmente fértil para figuras como Joseph Stalin e Pol Pot.

Acredito que Marx e Engels teriam lamentado não antecipar o impacto do Manifesto nos partidos comunistas que ele previa. Eles estariam chutando a si mesmos que ignoravam o tipo de dialética que gostavam de analisar: como os estados operários se tornariam cada vez mais totalitários em sua resposta à agressão capitalista do Estado e como, em sua reação ao medo do comunismo, esses estados capitalistas cresceriam cada vez mais civilizado.

Abençoados, é claro, são os autores cujos erros resultam do poder de suas palavras. Ainda mais abençoados são aqueles cujos erros são autocorrigidos. Em nossos dias atuais, os estados operários inspirados pelo Manifesto quase desapareceram, e os partidos comunistas debandaram ou desorganizaram-se. Libertado da competição com regimes inspirados pelo Manifesto, o capitalismo globalizado está se comportando como se estivesse determinado a criar um mundo mais bem explicado pelo Manifesto.

O que torna o Manifesto verdadeiramente inspirador hoje é sua recomendação para nós no aqui e agora, em um mundo onde nossas vidas estão sendo constantemente moldadas pelo que Marx descreveu em seus Manuscritos Econômicos e Filosóficos anteriores como “uma energia universal que quebra todos os limites e todos os vínculos e se posiciona como a única política, a única universalidade, o único limite e o único vínculo ”. De motoristas e ministros de finanças da Uber a executivos do setor bancário e aos miseráveis e pobres, todos nós podemos ser desculpados por nos sentirmos sobrecarregados por essa “energia”.

O alcance do capitalismo é tão difundido que às vezes parece impossível imaginar um mundo sem ele. É apenas um pequeno passo de sentimentos de impotência para ser vítima da afirmação de que não há alternativa. Mas, surpreendentemente (afirma o Manifesto), é precisamente quando estamos prestes a sucumbir a essa ideia que abundam as alternativas.

O que não precisamos neste momento são sermões sobre a injustiça de tudo, denúncias de desigualdade crescente ou vigílias para a nossa desaparecida soberania democrática. Nem deveríamos aguentar atos desesperados de escapismo regressivo: o grito de retornar a algum estado pré-moderno, pré-tecnológico, onde podemos nos apegar ao seio do nacionalismo. O que o Manifesto promove em momentos de dúvida e submissão é uma avaliação clara e objetiva do capitalismo e seus males, vistos através da luz fria e dura da racionalidade.

O Manifesto argumenta que o problema com o capitalismo não é que ele produz muita tecnologia, ou que é injusto. O problema do capitalismo é que é irracional. O sucesso do Capital em espalhar seu alcance via acumulação por acumulação está fazendo com que trabalhadores humanos trabalhem como máquinas por uma ninharia, enquanto os robôs são programados para produzir coisas que os trabalhadores não podem mais pagar e os robôs não precisam.

O capital falha em fazer uso racional das máquinas brilhantes que ele engendra, condenando gerações inteiras à privação, a um ambiente decrépito, ao subemprego e ao lazer real zero da busca do emprego e da sobrevivência em geral. Até mesmo os capitalistas são transformados em autômatos angustiados. Vivem em permanente temor de que, a menos que mercantilizem seus semelhantes, deixarão de ser capitalistas — se unindo às fileiras desoladas do proletariado-precariado em expansão.

Se o capitalismo parece injusto, é porque escraviza a todos, ricos e pobres, desperdiçando recursos humanos e naturais. A mesma “linha de produção” que produz uma riqueza incalculável produz profunda infelicidade e descontentamento em escala industrial. Então, a nossa primeira tarefa — de acordo com o Manifesto — é reconhecer a tendência dessa “energia” que tudo conquista se enfraquecer.

Quando perguntado por jornalistas que ou qual é a maior ameaça ao capitalismo hoje, eu desafio suas expectativas respondendo: o capital! É claro que essa é uma ideia que venho plagiando há décadas no Manifesto. Dado que não é possível nem desejável anular a “energia” do capitalismo, o truque é ajudar a acelerar o desenvolvimento do capital (para que ele queime como um meteoro correndo pela atmosfera) enquanto, por outro lado, resistir (através do racional, ação coletiva) a tendência do dito-cujo para tratorar nosso espírito humano. Em resumo, a recomendação do Manifesto é que levemos o capital a seus limites enquanto limitamos suas consequências e nos preparamos para sua socialização.

Precisamos de mais robôs, melhores painéis solares, comunicação instantânea e sofisticadas redes de transporte verde sofisticadas. Mas igualmente, precisamos nos organizar politicamente para defender os fracos, capacitar muitos e preparar o terreno para reverter os absurdos do capitalismo. Em termos práticos, isso significa tratar a ideia de que não há alternativa com o desprezo que merece, rejeitando todos os apelos por um “retorno” a uma existência menos modernizada. Não havia nada ético sobre a vida sob as formas anteriores do capitalismo. Programas de TV que investem maciçamente em nostalgia calculada, como Downton Abbey, devem nos deixar felizes de viver quando o fazemos. Ao mesmo tempo, eles também podem nos encorajar a soar o acelerador da mudança.

O Manifesto é um daqueles textos emotivos que falam a cada um de nós de forma diferente em diferentes momentos, refletindo nossas próprias circunstâncias. Alguns anos atrás, eu me considerava um marxista libertário errático e era muito menosprezado por não-marxistas e marxistas. Logo depois, me encontrei investido em uma posição política de certa proeminência, durante um período de intenso conflito entre o então governo grego e alguns dos agentes mais poderosos do capitalismo. Reler o Manifesto com o propósito de escrever esta introdução foi um pouco como convidar os fantasmas de Marx e Engels a gritarem, uma mistura de censura e apoio, bem no meu ouvido.

Adults in the Room (N. de T. — próximo livro de Varoufakis que será publicado, em alguns meses, pela Autonomia Literária), minhas memórias do tempo em que eu servi como ministro das Finanças da Grécia em 2015, conta a história de como a Primavera Grega foi esmagada por uma combinação de força bruta (por parte dos credores da Grécia) e uma frente dividida dentro do meu próprio governo — da forma mais honesta e precisa que eu poderia fazer. Visto da perspectiva do Manifesto, no entanto, os verdadeiros agentes históricos estavam confinados a meras aparições ou ao papel de vítimas quase passivas. “Onde está o proletariado em sua história?” Eu quase posso ouvir Marx e Engels gritando para mim agora. “Eles não deveriam ser os que enfrentam o capitalismo mais poderoso, com você os apoiando dos bastidores?”

Felizmente, reler o Manifesto também ofereceu algum consolo, endossando minha visão dele como um texto liberal — até mesmo libertário. Onde o Manifesto critica as virtudes liberais burguesas, o faz por causa de sua dedicação e até amor por elas. Liberdade, felicidade, autonomia, individualidade, espiritualidade, desenvolvimento autoguiado são ideais que Marx e Engels valorizam acima de tudo. Se eles estão zangados com a burguesia, é porque a burguesia procura negar à maioria qualquer oportunidade de ser livre. Dada a aderência de Marx e Engels à ideia fantástica de Hegel de que ninguém é livre enquanto uma pessoa estiver acorrentada, sua briga com a burguesia é que ela sacrifica a liberdade e a individualidade de todos no altar de acumulação do capitalismo.

Embora Marx e Engels não fossem anarquistas, eles detestavam o Estado e seu potencial de ser manipulado por uma classe para reprimir a outra. Na melhor das hipóteses, eles viam isso como um mal necessário par viver num bom e pós-capitalista porvir, coordenando uma sociedade sem classes. Se esta leitura do Manifesto faz sentido, a única maneira de ser comunista é ser libertário. Atender ao apelo do Manifesto para “Unir-vos!” é, de fato, incoerente com se tornar um stalinista com síndrome de dono da bola — ou em tentar refazer o mundo à imagem de regimes comunistas agora extintos.

Quando tudo é dito e feito, então, qual é a pedra de toque do Manifesto? E por que alguém, especialmente o jovem de hoje, deveria se preocupar com história, política e afins?

Marx e Engels basearam seu Manifesto em uma resposta tocantemente simples: a autêntica felicidade humana e a liberdade genuína que deve acompanhá-la. Para eles, estas são as únicas coisas que realmente importam. Seu Manifesto não se baseia em invocações germânicas estritas do dever, ou apela para responsabilidades históricas para nos inspirar a agir. Não moraliza nem aponta seu dedo. Marx e Engels tentaram superar as fixações da filosofia moral alemã, e também das causas do lucro capitalista, com um apelo racional, embora apaixonado, aos próprios fundamentos de nossa natureza humana compartilhada.

A chave para a análise deles é o abismo sempre crescente entre aqueles que produzem e aqueles que possuem os instrumentos de produção. O nexo problemático do capital e do trabalho assalariado nos impede de desfrutar do nosso trabalho e dos nossos artefatos, e transforma patrões e trabalhadores, ricos e pobres, em peões trêmulos que estão sendo feitos marchar, rumo a uma existência sem sentido, por forças além de nosso controle.

Mas por que precisamos de política para lidar com isso? A política não é estupidificante, especialmente a política socialista, aquela que Oscar Wilde uma vez afirmou que “rouba demasiados entardeceres”? A resposta de Marx e Engels é: porque não podemos acabar com essa idiotice individualmente; porque nenhum mercado pode emergir sem que se produza um antídoto para essa estupidez. A ação política coletiva e democrática é nossa única chance da liberdade e do prazer. E para isso, as longas noites parecem um pequeno preço a pagar.

A humanidade pode conseguir arranjos sociais que permitam “o livre desenvolvimento de cada um” como a “condição para o livre desenvolvimento de todos”. Mas, novamente, podemos acabar na “ruína comum” da guerra nuclear, do desastre ambiental ou do descontentamento agonizante. No nosso momento atual, não há garantias. Podemos nos voltar para o Manifesto em busca de inspiração, sabedoria e energia, mas, ao final, o que prevalece depende de nós.

 Yanis Varoufakis é economista.

domingo, 6 de maio de 2018

O Brasil está duro demais para quem é humano - Fernando Horta


Um dos conceitos-chave para entender a obra de Marx é o conceito de “alienação”. É um conceito do Marx jovem, porque da forma como é colocada no Capital ele é um conceito incompleto. Na sua maturidade, Marx trocou o uso do termo “alienação” pelo composto processual mais explicativo que é “opressão” ou “exploração”. É um suposto afirmado não pontualmente, mas em toda a obra de Marx que à toda alienação sobrevém a opressão e exploração que é o motivo de alienar.
Sacar alguém das suas amarras materiais, ideológicas, culturais – enfim – amarras que permitem que os homens se situem no tempo o no espaço é jogá-lo no vazio. Isto é alienação. Mas deixar o homem no vazio não é o objetivo, até porque ele ali não sobrevive sequer como ente produtivo. O objetivo final de todo o processo de alienação é o uso físico inescrupuloso para gerar valor, o uso ideológico do ser por um impostor intelectual que o coordena e o uso político do cidadão por uma classe a qual ele não pertence.
Marx nos seus “Manuscritos econômicos e filosóficos” de 1844, mostra cinco etapas da alienação que ocorrem dentro do sistema capitalista. Primeiro, o homem seria alienado da natureza em função do trabalho. Vive o dia e não o sol, a noite e não a Lua, nas palavras belas de Toquinho e Belchior. Quantos de nós hoje, saímos pela manhã para trabalhar, nos enfiamos num ônibus ou trem, depois numa fábrica ou escritório e na volta outro trem até que não se percebe que não se viu o Sol o dia inteiro?
A segunda e terceira formas de alienação seriam a alienação de si e de seus próprios desejos. Não sabemos mais o que realmente queremos, tudo é ditado pelo consumo e pela propaganda. Se conseguimos saber o que queremos, não nos parece viável, afinal “temos que trabalhar”. As pessoas falam da sexta-feira como um momento de alforria. É quase uma libertação de escravos toda a semana. Mas a empolgação da sexta esconde o ocaso de nós mesmos nos outros dias. “Seja feliz no trabalho”, “ache o que gosta de trabalhar”, “seja produtivo” e tudo mais dito hoje com nome de “coaching”, que no fundo é uma super-alienação em looping. No fim, esquecemos de nós, da família, do que nos dá prazer e nos deixa feliz. Em troca, produzimos para alguém, sobrevivemos e tomamos boletas para que quimicamente possamos entorpecer nossa alma.
Todas estas três primeiras formas estão presentes e arraigadas no nosso dia-a-dia. Provocando imensas dificuldades em termos de saúde. Mudando nossa anatomia, fazendo com que vivamos menos, mas criando mercado para a indústria farmacêutica, para a televisão, redes sociais ...
Contudo, o mais apavorante são as duas últimas formas de alienação.
Marx disse que a quarta forma de alienação era a alienação quanto à sua espécie. O homem deixaria de se reconhecer como homem. A classe opressora se veria como algo mais do que homem. Talvez melhores, talvez mais “meritórios”. Talvez o dinheiro seja um signo do sucesso per se. Quem tem mais é porque fez e tem condições de fazer melhor. Como se fosse decorrência lógica inafastável do sistema capitalista premiar os “melhores de nós”. A classe oprimida se veria como inumanos, não dignos de postularem-se semelhantes. O fato de não ter dinheiro, indicaria, na cabeça destes alienados (tanto dos oprimidos quanto dos opressores), que eles são incompetentes, que não valem para a sociedade.
Temos seitas de pastores inteiros convencendo as pessoas desta nefasta e absurda ideia “em nome de Cristo”.
Quando vi a queda do prédio em SP, e a forma como uma elite mesquinha e ignorante tratava as pessoas-vítimas, vi o conceito de alienação de Marx. Nem vou falar de Dória ou Covas que são arremedos mal-feitos de humanidade incapazes de qualquer raciocínio mais elaborado e qualquer crítica da sua situação no mundo. Se fossem críticos e inteligentes, e – de repente – acordassem para a sua situação, certamente poriam fim nas próprias vidas, ao contemplarem diretamente sua pequenez e suas vilanias.
A agressão e ofensa aos pobres é o reconhecimento, por conta da completa ignorância, de que existem duas espécies de seres: uma que trabalha e tem dinheiro e a outra vagabunda que precisa ser “dedetizada por fogo”, como li – com ânsia – nos portais da grande mídia. Um bombeiro, cujo nome gostaria de saber, calou a boca de uma repórter inepta. Ao ser perguntado sobre caráter ilegal da ocupação respondeu, ao vivo, “não estou aqui para discutir legalidade, mas para salvar vidas”.
O golpe alienou a sociedade brasileira. Hoje, uma parcela acredita-se superior aos humanos. E este quantum de superioridade alcança inclusive suas Santidades Togadas, que já se enxergam como profetas a guiarem seu rebanho pelo deserto da corrupção, rumo à Terra Prometida.
Marx ainda falava numa quinta forma de alienação. Seríamos afastados da noção de humanidade como um coletivo social. Não apenas no sentido biológico como o caso da quarta forma, mas do sentido de humanidade como construto histórico-cultural. Nosso passado não seria mais importante, nosso futuro tampouco. Nosso presente seria marcado pela noção imediatista da sobrevivência mesmo que por sobre os outros seres. A palavra “irmão” não teria mais sentido num mundo em que o individualismo é a chave da sobrevivência. Achille Mbembe, filósofo negro camaronês, fala do “fim da era da humanidade”. Para Mbembe, estamos entrando num momento em que toda significação pelo que tantos morreram nos séculos anteriores será desconstruída. O mundo será refundado sem os valores que nos trouxeram até aqui, como espécie e como sociedade.
Marx e Mbembe explicam o absurdo de São Paulo.
E eu fico com os pobres que, mesmo alienados, não têm culpa de sua alienação. Choro de raiva e de dor ao ver que nem mais respeitam o legado de Cristo, o homem. Se a era do humanismo vai acabar, vai me consumir junto. E eu temo muito pelos meus filhos.
Ser humano hoje no Brasil é sentir dor todos os dias. Imposta por pessoas que estamos quase desistindo de tentar salvar. E enquanto choramos a decadência moral deles, vamo-nos nos convencendo de que eles não têm mais salvação. Ao deixarmos de acreditar, vamos morrendo também.

quarta-feira, 28 de março de 2018

O trem da chegada é o mesmo trem da partida


Tristezas e Alegrias comungam o mesmo espaço e tempo

Em pouco mais de 48h encontrei-me na música “Encontros e Despedidas”, de Milton e Brant. Naquela estação do interior onde, entre a chegada e a partida do trem, sorrisos, vivas e choros. O abraço da chegada e o adeus da partida.

Ao tomar conhecimento do assassinato dos cinco jovens no condomínio Minha Casa Minha Vida, de Itaipuaçu, o Carlos Marighella, tristeza e preocupação tomaram conta de meu corpo. Lembrando Garcia Marquez, mortes anunciadas. Previsíveis neste Brasil envolto no caos e na falta de conhecimento e respeito às leis. Um país onde os criminosos possuem código de conduta e aqueles que deveriam zelar pelas leis e segurança, praticamente, não as respeitam nem possuem quaisquer condutas morais ou éticas. Que fique registrado aqui, existem as exceções nas pontas da corda, mas infelizmente, do lado das pessoas que deveriam ser “do bem”, cada vez menos, por conta do Golpe e seu incentivo ao fascismo.

O que aconteceu no Carlos Marighella poderia ocorrer em qualquer área de empobrecidos do país. Mas em Maricá, a “coisa” torna-se emblemática, pois o município tem se apresentado como o de maior crescimento econômico e gerador de empregos no Estado do Rio de Janeiro. Mas ao contrário do que muitos pensam e comemoram, “Maricá ser uma ilha”, a solução está exatamente em NÃO ser uma ilha. Não nos adianta viver “em prosperidade”, cercados de pobreza e/ou de violência. Como também não nos adianta viver em prosperidade se não tivermos a população empoderada e participativa, em vez de tutelada.

Ainda de cabeça cheia por conta dos assassinatos, vou à formatura das primeiras turmas do Instituto Federal Fluminense, campus avançado Maricá. O trem da chegada, pois o da partida já foi acima.

Vendo aqueles estudantes inflados pelo orgulho, juntos com seus familiares e amigos, igualmente inflados, resolvi “vampirizá-los” tomando emprestado um pouquinho daquela energia de luz e animar-me para o evento. Maricá conseguiu trazer o IFF para o município e, estamos prestes a entregar sua nova sede em Ubatiba, com capacidade para 1200 alunos. E mais: este ano o Ensino Médio/Técnico poderá ser mesclado com o Ensino Superior, um verdadeiro avanço para cidade. Uma grande valia no empoderamento de nossa população. Ensino de qualidade e “gratuito”.

Solenidade bem organizada, só alegria e felicidade dos presentes. Mas o clímax do evento, na minha opinião, foi o fechamento da solenidade, através da fala do Magnífico Reitor Jeferson Azevedo. Não foi uma fala política partidária e/ou eleitoral, e sim, uma fala com muita política, voltada à formação moral e profissional dos estudantes presentes.

O Reitor começou expondo a importância de se ter cursos como IFF no município, pois não só cuidam dos que lá estão, lucra o município como um todo, pois o saber e a formação humanista que acompanham os cursos técnicos espalham-se além dos muros do Instituto. Segundo o Reitor, há um alargamento das fronteiras municipais pelo saber.

Na segunda parte o Reitor fala diretamente aos então já formados. Quase de costas para a plateia, olhando nos olhos de seus ex-estudantes, informa que aquele curso não havia sido “gratuito”, pois cada familiar e demais presentes haviam pago a “mensalidade” do curso. “Cada um dos 14 milhões de desempregados, hoje, no Brasil, também pagou para que vocês estudassem”, disse. Em seguida destacou a importância das escolhas que fariam a partir daquela data, como profissionais e como pessoas; das escolhas que podem dar certo ou errado, devido uma decisão equivocada ou por conta da ganância. Ilustra o discurso com o acidente, hoje esquecido, em Mariana (MG), causado pela mineradora Samarco e fala aos alunos dos milhares de pescadores que ficaram sem seus sustentos por causa da poluição do Rio Doce. “Eles, também, custearam seus estudos”, concluiu. Uma verdadeira aula de cidadania.

Ao encerrar a solenidade, um pouco mais recomposto, fui agradecer o Reitor pelas palavras e pedi um abraço, prontamente, atendido.

A aula do Reitor Jeferson Azevedo deve servir de exemplo para a atuação dos membros do governo junto à população, pois todos temos responsabilidades em aprender e a trocar experiências. Precisamos fazer entender que tudo tem um custo, e este custo é dividido por todos. Vamos alargar nossas fronteiras, dividindo responsabilidades, custos e dividendos.

No dia seguinte, conversando na Secretaria sobre a formatura e a fala do Reitor, Délcio Teobaldo comenta que o teor do discurso segue a mesma linha do raciocínio “leitmotiv” (interdependências sociais) expresso no poema “Moça tomando café”, do poeta modernista Cassiano Ricardo:

Num salão de Paris
a linda moça, de olhar gris,
toma café.
Moça feliz.

Mas a moça não sabe, por quem é,
que há um mar azul, antes da sua xícara de café;
e que há um navio longo antes do mar azul…
E que antes do navio longo há uma terra do Sul;
e antes da terra um porto, em contínuo vaivém,
com guindastes roncando na boca do trem
e botando letreiros nas costas do mar…
E antes do porto um trem madrugador
sobe-desce da serra a gritar, sem parar,
nas carretilhas que zunem de dor…
E antes da serra está o relógio da estação…
Tudo ofegante como um coração
que está sempre chegando, e palpitando assim.
E antes dessa estação se estende o cafezal.
E antes do cafezal está o homem, por fim,
que derrubou sozinho a floresta brutal.
O homem sujo de terra, o lavrador
que dorme rico, a plantação branca de flor,
e acorda pobre no outro dia… (não faz mal)
com a geada negra que queimou o cafezal.
A riqueza é uma noiva, que fazer?
que promete e que falta sem querer…
Chega a vestir-se assim, enfeitada de flor,
na noite branca, que é o seu véu nupcial,
mas vem o sol, queima-lhe o véu,
e a conduz loucamente para o céu
arrancando-a das mãos do lavrador.

Quedê o sertão daqui?
Lavrador derrubou.
Quedê o lavrador?
Está plantando café.
Quedê o café?
Moça bebeu.
Mas a moça, onde está?
Está em Paris.
Moça feliz.

Há braços,

Sérgio Mesquita
Sec. de Ciência, Tecnologia e Comunicações