quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Xadrez do marco zero das esquerdas


As eleições municipais simbolizam um marco zero para as esquerdas, de fim da era de predominio  absoluto do PT.

O partido nasceu moderno nos anos 80, como uma confluência de coletivos. 

Nos anos 90 amoldou-se para a luta política convencional, revendo dogmas, aplainando radicalismos estéreis. Mas, para tanto, recorreu a um centralismo que pouco a pouco foi  inibindo o protagonismo dos coletivos. 

Com a chegada ao poder, tentou manobrar as ferramentas de luta institucional. Nesse período, perdeu quatro elementos centrais: José Genoíno e Luiz Gushiken, tragados pela AP 470; o ex-Ministro Márcio Thomaz Bastos; manteve ainda José Dirceu atuando como eminência parda, mas sem dispor mais das ferramentas institucionais e afastado do centro de poder pelo isolamento a que foi confinado pelo governo Dilma, crítica de seus métodos.

Finalmente, no governo Dilma Rousseff perdeu a identidade ideológica.

Assim, ocorreu uma quádrupla derrota nos campos político, institucional, midiático e ideológico. A esquerda terá que ser refundada.

As características dos novos tempos são as seguintes.

Peça 1 - fim do lulismo

A legenda Lula compreendia um conjunto de símbolos pouco captados pelas novas gerações: a criação da CUT, os comícios da Vila Euclides, a campanha de Collor, a campanha do impeachment.

Manteve-se como o grande aglutinador dos grupos de esquerda e como o maior símbolo da política brasileira do século. Mas tombou, vítima da falta de lembrança das novas gerações, da campanha sistemática de destruição pela aliança da Procuradoria Geral da República (PGR), Lava Jato e mídia. E pelos erros tremendos de não ter entendido os aspectos institucionais e midiáticos da guerra política.

Na verdade, o único líder do PT com essa visão era José Dirceu.  Explicitou demais o seu poder, atuou com excessiva desenvoltura em todas as áreas, do Judiciário aos grandes grupos e terminou fuzilado por uma armação: a tal  "teoria do fato", magistralmente definida pela Ministra Rosa Weber com seu célebre "não tenho provas, mas a doutrina me permite condená-lo".

Depois, foi alvo de todas as armações acusatórias possíveis e de uma bala de prata real: suas relações com Milton Pascowitch.

O sonho de Lula 2018 está comprometido pelos resultados da campanha política de desconstrução de sua imagem e pela continuidade do jogo político escandaloso da Lava Jato, visando inabilitá-lo juridicamente.

Continuará sendo figura referencial das esquerdas, a liderança capaz de aglutinar os diversos setores. Mas os cenários possíveis para a esquerda têm que começar a trabalhar com a hipótese concreta de não contar com Lula em 2018.

Peça 2 - a mediocridade da direita

Nos anos 80, ganhou popularidade uma velha piada sobre o inferno. 

O sujeito morre, vai para o inferno e precisa escolher entre três, o inferno norte-americano, o alemão ou o brasileiro. O brasileiro, além de incorporar todas as  funcionalidades dos dois anteriores, ainda tem um cardápio adicional de tortura, dentre as quais meia hora diária ouvindo o José Serra falando sobre o perigo bolivariano no mundo.

O condenado se espantou:

·         Se o brasileiro é tão pior assim, porque está cheio e os dois outros vazios?
·         É porque no brasileiro nada funciona. O Secretário de Governo desviou o carvão da fornalha, o demônio da Casa Civil montou uma concorrência fraudada e a cadeira do Dragão dá curto circuito, o Satanás só herdou as mesóclises de Jânio. E o Serra nunca aparece porque dorme até tarde e passa o resto do dia tentando decorar siglas: Brics, NSA, Mercosul, União Europeia… Brics, NSA, Mercosul, União Europeia… Bracs, perdão, Brics, GSA, perdão NSA...

Piadas à parte, a direita brasileira não se mostra capaz de desenhar um projeto minimamente articulado de país. Nos anos 90, embarcou na onda Reagan-Thatcher, que começava a dominar o mundo pós-muro de Berlim. Agora, nada tem, nem utopias globais às quais recorrer. Atualmente único fator de aglutinação é atacar a velha esquerda e exalar toda forma de preconceito. E importar das ondas globais a intolerância mais retrógrada.

Terá vida curta. Sua única saída será ampliar o Estado de Exceção. Mas mesmo para isso teria que dispor de características  morais e de capacidade de desenhar o futuro. Só com mesóclises será insuficiente...

Portanto o novo tempo do jogo está próximo, de menos de uma década, com novos atores que ainda estão em formação.

Peça 3 - a ampliação do estado de exceção

Antes de ingressar no novo tempo político, há o enorme desafio de enfrentar a maré do Estado de Exceção.

Quando comecei a apontar a participação do PGR Rodrigo Janot no golpe, procuradores bem intencionados preferiram se iludir com a presunção de isenção. Nas suas entranhas, o processo jurídico é burocratizado e lento. E as regras de accoutibility suficientemente vagas para que os operadores do direito manobrem com prazos, com avaliações  subjetivas sobre os inquéritos e, principalmente, com o uso seletivo dos vazamentos.

O inquérito contra Aécio Neves dormiu por anos na gaveta do PGR. O julgamento do “mensalão tucano” foi atrasado por anos graças a um mero "esquecimento" do Ministro Ayres Brito.

Até hoje é impossível saber quais e quantos inquéritos repousam nas gavetas da PGR ou em pedidos de vista intermináveis do STF.

Agora, o MPF e a Polícia Federal se constituem na maior ameaça à democracia. E há razões de sobra para temer.

Qualquer avaliação sobre o avanço do Estado de Exceção tem que analisar dinamicamente o que ocorre, levando em conta todos esses sinais.  

O que Mirian Leitão fez foi uma mistificação histórica, ao comparar o quadro politico atual com a ditadura pós-AI5, em plena maré de torturas, para concluir que hoje em dia não existe regime de exceção. 

Para chegar a 1968, a ditadura passou por 1964, período no qual foram plantadas as sementes da radicalização posterior - principalmente quando o regime entendeu que não tinha possibilidades eleitorais. E surgiu porque avançou-se dia a dia em medidas de exceção, criminalizando os críticos, fossem comunistas ou liberais. E, na mídia, as Miriam Leitão da época estimulavam a caça às bruxas recorrendo a um legalismo de araque.

Se Mirian e outros colegas forem bem sucedidos em seu trabalho diário de fomentar a caça às bruxas, é possível que dentro de pouco tempo possamos chegar ao padrão AI5.

O direito penal do inimigo está proliferando por todos os poros da república, dos colunistas de jornais a procuradores da República, diretores de escola expurgando “comunistas” e redações expurgando quem ousar criticar o golpe.

É um sentimento disseminado.

É possível que em um ponto qualquer do futuro erga-se alguma onda de resistência contra o arbítrio. No momento, não.

No CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público) as piores asneiras de direita são perdoadas. Hoje em dia, no entanto, as ameaças do CNMP pairam sobre o pescoço do procurador que questionou a reforma trabalhista em artigo, os bravos procuradores da República em São Paulo que correram até a delegacia para defender jovens vítimas de arbitrariedades policiais; a Procuradora Federal dos Direitos do Cidadão, Deborah Duprat, por ter decidido filmar as passeatas para coibir as truculências da Polícia Militar paulista.

Em quadro de normalidade democrática, de discernimento mínimo jurídico, nem o mais obtuso procurador da República proibiria exposição de obras de Paulo Freire na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) ou cartazes de “fora Temer” em colégios - como fez ontem o procurador da República no Rio de Janeiro, Fábio Moraes de Aragão.

Por tudo isso, o primeiro grande desafio será conter essa escalada da violência, do dedurismo, que entrou por todos os poros da sociedade.

Peça 4 - a reconstrução de um modelo de esquerda

Essa reconstrução passa não apenas pela recuperação dos valores centrais - inclusão social, políticas sociais, estado do bem estar social, tolerância, defesa das minorias, defesa do meio ambiente etc. -, mas por rediscussão sobre modelos de estado, instituições e mídia.

Sobre instituições

A maneira das corporações entrarem no jogo político foi atrás do associativismo. Criado como uma instância de supervisão do Judiciário, por exemplo, o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) só levanta dados para justificar gastos do Judiciário. O CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público) é incapaz de ações mais severas contra abusos de procuradores. Hoje em dia, o Judiciário já consome 1,8% do PIB e caminha para 2,1%, fato inédito em qualquer economia global.

Pior, há um desconhecimento amplo dessas corporações em relação a temas políticos e econômicos, mais ainda em relação a projetos de país.

Nenhum governo será viável se não tiver o controle dessa agenda e se não instituir uma accountibility ampla nesses setores. Hoje em dia não se tem acompanhamento nem sobre processos em tramitação no Supremo, nem na Câmara, não se tem controle sobre a gaveta do PGR.

Terá que se recuperar os princípios originais de independência do Ministério Público e do Judiciário: para assegurar a independência de julgamento do juiz e o trabalho independente do procurador. e não como ferramenta de instrumentalização política de um poder de Estado.

Sobre gestão

Os governos Lula e Dilma revelaram grandes exemplos de boa gestão, especialmente nos programas desenvolvidos por Fernando Haddad no MEC (Ministério da Educação), no Bolsa Família e no Brasil para Todos. E alguns arremedos de gestão compartilhada no PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

Mesmo assim, não trataram de definir um padrão, a partir do acúmulo de experiências bem sucedidas.

Mas, apesar dos avanços, ainda se deixou muito a desejar. 

1.       A institucionalização  de políticas públicas passa por definir métodos claros de parceria com estados, municípios e terceiro setor. Só se consegue com a criação de protocolos de procedimentos para cada programa, facilmente assimiláveis na ponta, fiscalizáveis e reprodutíveis. 
2.       Desenvolvimento de modelos de comunicação, para facilitar a compreensão da opinião pública sobre os benefícios dos projetos. 
3.       Institucionalização de canais de participação da sociedade nas diversas instâncias de discussão das políticas públicas.

Sobre mídia

Nenhuma democracia é compatível um mercado dominado por grandes grupos de mídia atuando de forma cartelizada e com poder de fogo similar ao das Organizações Globo.

Em todos os fóruns de direitos humanos, o direito à informação ganhou status de direito fundamental, tão relevante quanto o direito à vida, à alimentação e à saúde.

A Globo conseguiu seu maior feito politico ao ser a protagonista principal de um golpe de Estado. Criou uma conta enorme a ser saldada em um ponto qualquer do futuro. Desde então, se transformou no inimigo número um de qualquer governo progressista que surja nas próximas décadas.




terça-feira, 4 de outubro de 2016

Apertem os cintos: estamos entrando na era da pós-verdade

Carlos Castilho
Pós verdade parece mais uma expressão de impacto para chamar a atenção de um público saturado de informações e inclinado para a alienação noticiosa. Mas o fato é que estamos diante de um fenômeno que já começou a mudar nossos comportamentos e valores em relação aos conceitos tradicionais de verdade, mentira, honestidade e desonestidade , credibilidade e dúvida.

As evidências desta nova era estão nas manchetes de jornais, em declarações como as do candidato republicano Donald Trump ou nas dos procuradores e acusados na Lava Jato. Se antes havia verdade e mentira, agora temos verdade, meias verdades, mentira e afirmações que podem ser verdadeiras, conforme afirma o escritor norte-americano Ralph Keyes, o autor do livro The Post Truth Era: Dishonesty and Deception in Contemporary Life (St. Martin’s Press, 2004. ISBN 978-0-312-30648-9).

Quando Trump afirmou num discurso que o presidente Barack Obama foi um dos fundadores do Estado Islâmico, até os ultraconservadores norte-americanos acharam que ela estava exagerando. Mas o candidato republicano não se abalou, nem mesmo na televisão, quando explicou que Obama permitiu o surgimento do grupo radical islâmico porque este cresceu no vácuo politico deixado no Iraque pelo que Trump classificou de fracassos da diplomacia do presidente norte-americano. A polêmica criada em torno da afirmação gerou a percepção de que ela poderia ser verdadeira. Foi o suficiente para que Trump saísse ileso da discussão.
Os conservadores transformaram a insegurança pública num dos seus carros chefes na campanha pela implantação da doutrina do medo social, como forma de domesticar a população. Mas eles negam a evidência estatística de que na maioria dos grandes centros urbanos do planeta a incidência de crimes diminuiu em relação ao número de habitantes. A explicação para a discrepância entre a sensação de insegurança e as estatísticas criminais é complexa e exige uma boa dose de esforço e isenção. É mais fácil partir para aquilo que uma parte do publico quer ouvir.

A “cognição preguiçosa”

É um caso típico de aplicação da teoria da “cognição preguiçosa”, criada pelo psicólogo e prêmio Nobel Daniel Kahneman, para quem as pessoas tendem a ignorar fatos, dados e eventos que obriguem o cérebro a um esforço adicional.

Aqui no Brasil, a pós verdade é nítida no caso das investigações da Lava Jato. Separar o joio do trigo no emaranhado de versões e contra versões produzidas pelas delações premiadas é bem complicado. Há poucas dúvidas sobre a existência de esquemas de propinas, caixa dois eleitoral, superfaturamento, formação de cartéis e enriquecimento de suspeitos, mas provar cada um deles com base em evidências é uma operação complexa e demorada. Em alguns casos até inviável dada a sofisticação dos esquemas adotados pelos suspeitos de corrupção.
Mas como existe o interesse político envolvendo a questão e como existe a “cognição preguiçosa”, as convicções passam a ocupar o espaço das evidências e provas. A dicotomia jurídica clássica entre o legal e o ilegal passa a ser substituída por justificativas tipo “domínio do fato”, ou seja, convicções construídas a partir da repetição massiva de percepções individuais ou corporativas, pelos meios de comunicação.

Segundo a revista The Economist, o mundo contemporâneo está substituindo os fatos por indícios, percepções por convicções, distorções  por vieses. Estamos saindo da dicotomia tradicional entre certo ou errado, bom ou mau, justo ou injusto, fatos ou versões, verdade ou mentira para ingressarmos numa era de avaliações fluidas, terminologias vagas ou juízos baseados mais em sensações do que em evidências. A verossimilhança ganhou mais peso que a comprovação.

A pós verdade, um termo já incorporado ao vocabulário da mídia mundial, é parte de um processo inédito provocado essencialmente pela avalancha de informações gerada pelas  novas tecnologias de informação e comunicação (TICs). Com tanta informação ao nosso redor é inevitável que surjam dezenas e até centenas de versões sobre um mesmo fato. A consequência também inevitável foi a relativização dos conceitos e sentenças.

Mas o que parecia ser um fenômeno positivo, ao eliminar os absurdos da dicotomia clássica num mundo cada vez mais complexo e diverso, acabou gerando uma face obscura na mesma moeda. Os especialistas em informação enviesada ou distorcida (spin doctors no jargão norte-americano), aproveitaram-se das incertezas e inseguranças provocadas pela quebra dos paradigmas dicotômicos para criar a pós verdade, ou seja, uma pseudo-verdade apoiada em indícios e convicções já que os fatos tornaram-se demasiado complexos.

A herança de Goebbels

Diante das dificuldades crescentes para materializar a verdade por conta da avalanche informativa, especialmente na politica e na econômica, criaram-se as pós verdades, ou factoides (no jargão brasileiro), onde a repetição e a insistência passam a ocupar o espaço das evidências.

Na era da pós verdade, as versões ganharam mais importância do que os fatos, o que não é bom e nem mau. É simplesmente uma realidade. O que chamamos de fatos, na verdade são representações de um fato, dado ou evento desenvolvidas pela mente de cada indivíduo.
Assim, teoricamente, podemos ter um número de representações de um mesmo fato igual ao número de seres humanos no planeta Terra. E como as TICs permitem a disseminação massiva destas representações ou percepções, fica fácil intuir a complexidade da avaliação de fatos, dados ou eventos.  “Uma mentira repetida mil vezes vira verdade”,  a controvertida máxima cunhada pelo chefe da propaganda nazista, Joseph Goebbels, tornou-se preocupantemente atual.

Os meios de comunicação, principalmente a imprensa, ganharam um papel protagônico no fenômeno da pós-verdade porque a circulação de mensagens passou a ser o principal mecanismo de produção de novos conhecimentos numa economia digital movida a inovação permanente. A relevância conquistada pelos meios de comunicação os transformou em agentes fundamentais no processo que prioriza uma forma de descrever a realidade. Quando a imprensa norte-americana endossou a tese da existência de armas de destruição maciça no Iraque de Saddam Hussein, ela  deixou de lado a verificação dos fatos e foi decisiva na transformação de uma possibilidade em certeza acima de suspeitas.

Teoricamente a pós verdade pode ser usada tanto pela esquerda como pela direita no terreno politico, mas como a imprensa joga um papel fundamental no processo, os rumos obviamente serão determinados pela ação de jornais, revistas, meios audiovisuais e pelas redes sociais. A imprensa portanto, não é uma observadora mas uma protagonista do processo de transformação de mentiras ou meias verdades em fatos socialmente aceitos.

A pós verdade e o jornalismo

A pós verdade é apenas um dos itens da era digital que estão abalando nossas crenças e valores. Nós jornalistas e toda a sociedade estamos vivendo um momento de insegurança e incertezas porque estamos passando de um contexto social para outro.  Esta insegurança não é um fenômeno inédito na humanidade porque já aconteceu antes quando grandes inovações tecnológicas alteraram radicalmente o contexto social da época. Basta ver o que ocorreu após a invenção da pólvora, dos tipos móveis por Gutemberg, da máquina a vapor e dos processos de produção industrial.

Um dos grandes, talvez o maior de todos, dilemas enfrentados pela sociedade atual, é a necessidade de conviver com a complexidade do mundo contemporâneo. Tomemos o caso da polêmica científica sobre o meio ambiente. É um tema complexo onde o bombardeio informativo confunde as pessoas comuns com afirmações contraditórias entre cientistas e pesquisadores. Do ponto de vista dos cientistas é natural que existam posicionamentos distintos mas para o público, acostumado pela imprensa a esperar verdades absolutas, as contradições e divergências geram incertezas, que acabam conduzindo ao descrédito generalizado.

A pós verdade coloca para nós jornalistas o desafio da repensar a credibilidade e os parâmetros profissionais para avaliar dados, fatos e eventos. Não é uma casualidade o fato da credibilidade da imprensa, em países como os Estados Unidos, estar hoje num dos pontos mais baixos de sua história. O leitor está cada vez mais confuso e desconfiado em relação à imprensa. É uma resistência intuitiva ao fenômeno da complexidade informativa gerada pela internet.

A pós verdade é talvez o maior desafio para o jornalismo contemporâneo porque ela afeta a relação de credibilidade entre nós e o público. A nossa atividade está baseada na confiança das pessoas de que o que publicamos é verdadeiro. Quando uma nova conjuntura informativa interfere nesta confiabilidade, temos serias razões para nos preocupar, e muito, sobre o futuro da profissão.


O Efeito Dunning-Kruger na qualidade do debate político

Marcio Valley

O primeiro atributo necessário à pessoa que busca um conhecimento honesto sobre qualquer assunto é a humildade de reconhecer a própria ignorância. O segundo é admitir a existência de um sem números de pessoas - sábios, pensadores e cientistas - que se debruçaram sobre o tema exaustivamente e, a partir de uma reflexão profunda, produziram e divulgaram obra do pensamento através da qual exteriorizam, não somente os contornos, a superfície, mas uma visão de profundidade sobre todos os aspectos da questão, alguns inclusive apresentando as respostas possíveis para a solução do problema. O terceiro é aceitar os ensinamentos desses sábios para, a partir deles, construir uma identidade intelectual própria sobre a matéria.

É perfeitamente saudável questionar o trabalho intelectual de pensadores e cientistas, todavia exigindo-se, primeiro, o conhecimento da obra criticada e, segundo, uma capacidade técnica própria - cognitiva e intelectual - para produzir conclusão contrária, a ser demonstrada de forma racional e lógica. O "achismo", nesse campo, é inadmissível. Pode-se dizer caber a qualquer um não aceitar determinada conclusão, mas não se pode aceitar essa recusa como refutação. É apenas pirraça intelectual que, se não freada pela humildade, transmuta-se em mera arrogância autoritária.

A palavra chave aqui é humildade. Sem ela, vence a soberba e prevalece a ignorância, possivelmente decorrente da síndrome de superioridade intelectual ilusória denominada Efeito Dunning-Kruger. Em resumo, trata-se de um fenômeno muito mais comum do que se imagina ou se gostaria e que cega as pessoas sobre a extensão do próprio conhecimento ou habilidade, que deliram ser muito superior ao que efetivamente possuem. Grosseiramente falando, trata-se do idiota ignorante que pensa saber mais do que o sábio erudito. Cegado por essa superioridade ilusória, o iludido resta inapto para identificar os limites da própria habilidade, reconhecer a amplitude de sua inabilidade e admitir a maior habilidade alheia. Isso ocorre justamente porque o iludido não possui as ferramentas intelectuais necessárias à constatação da própria incompetência e à identificação do que é competência real quando a vê no outro. Infelizmente, não há cura externa ao iludido, que somente será capaz de admitir sua inabilidade após, e se, adquirir o conhecimento do qual carecia, o que depende de um esforço espiritual interno. Caso contrário, morrerá reafirmando a própria idiotia.

Pelo que se observa dos debates públicos, esse efeito pernicioso que conspurca a vontade possivelmente deve ser tanto mais intenso quanto maior for o grau de escolaridade do iludido e sua inapetência intelectual sobre assuntos que extrapolem a sua área de atuação profissional, o chamado "especialista sem espírito".

As ciências humanas, por não serem propriamente ciência, no sentido estrito da palavra, é o reduto preferido de atuação dos iludidos pela superioridade ilusória. São poucos, muito poucos, os que as conhecem com um mínimo de aprofundamento, os que leram ao menos um livro de história, de filosofia ou de sociologia, mas são muitos, muitos mesmo, os que se consideram aptos a falar em nome delas.

A história e a filosofia, com suas filhas sociologia, antropologia, psicologia, ciência política, teoria do direito e economia são, provavelmente, os ramos mais instigantes a integrar o cabedal de conhecimento humano, pois são esses saberes que se preocupam com a humanidade enquanto subjetividade e interssubjetividade, ou seja, com o indivíduo como um elemento constituinte da coletividade em intensa e próxima inter-relação com os demais. Mais do que as ciências naturais, como física e química, cujos objetos - por exemplo, partículas atômicas e cadeias de elementos químicos - são mais distantes da realidade vivida, as humanas são instigantes justamente por que nos identificamos com seus objetos de pesquisa, que são o indivíduo e suas diversas formas de vinculação com os outros, ou seja, nós.

Cada um desses distintos ramos de conhecimento produziu e produz incontáveis narrativas sobre a conduta humana e civilizatória, que são realizadas à luz da aplicação do método científico. Não se trata meramente de "achar" que algo é assim ou assado, mas de coletar elementos no campo de observação e conduzi-los ao microscópio epistemológico da análise intelectual parametrizada. Um historiador, um sociólogo ou um antropólogo não se resignarão com apenas um dado proveniente de uma fonte para situar o objeto da pesquisa e, assim, categorizá-lo. Sempre que possível, irá rebuscar todas as fontes possíveis para conferir a maior credibilidade alcançável sobre a conclusão que obtiver.

Imagine-se um antropólogo fundando sua pesquisa atual sobre determinada tribo da Polinésia em um único artigo de jornal do século XVII. Dificilmente será levado a sério. O antropólogo certamente irá à Polinésia para conhecer presencialmente a tribo em questão e, sempre que possível, nela conviverá por algum tempo e tentará mesmo aprender sua língua para assim ser capaz de determinar com maior precisão seus hábitos, costumes e idiossincrasias. Publicada sua obra, pode-se discutir as conclusões obtidas, mas sempre com a extrema reserva da humildade de quem não possui as mesmas fontes, os mesmos saberes e nem o mesmo tempo de reflexão.

Num comentário sobre política, um internauta lamentava o fato de que, segundo ele, "a academia se encontra entulhada de esquerdopatas". A afirmação, muito comum, além de ser marcada por um conteúdo autoritário que embute a vontade velada de silenciar a voz contrária, é típica de pessoa acometida pela síndrome de superioridade intelectual ilusória: o crítico considera-se superior aos acadêmicos que condena. Claro que a assertiva não é, em absoluto, verdadeira, pois a academia produz trabalhos múltiplos, polissêmicos e polissonantes. Não são poucas as oportunidades nas quais, divulgada a fala de um acadêmico respeitado, ao mesmo tempo vozes de todas as cores partidárias, muitas vezes das mesmas cores, a ela se opõem acidamente ou aderem entusiasticamente, o que revela que, na verdade, talvez o pensamento publicado tenha sido pautado por uma isenção e um equilíbrio que passaram despercebidos, não tendo o pensador incorrido em filiação a qualquer ideologia político-partidária.

Talvez seja verdade que exista um leve predomínio do pensamento de esquerda entre os acadêmicos das ciências humanas, mais propensos a idealizar uma sociedade mais justa e menos desigual. Isso, todavia, longe de ser repelido com violência leviana, deveria ser motivo de reflexão por parte daquele que sinceramente admitisse não possuir os mesmos atributos de conhecimento. Ora, se um grupo de pessoas sem afinidades entre si no tempo e no lugar, após uma vida dedicada a estudar e refletir sobre a sociedade, passa a entender que o mundo, tal como se apresenta, é profundamente injusto socialmente, com repartição desigual dos benefícios oriundos da Terra, e mereceria uma refundação político-econômica como meio de mitigar os efeitos daninhos observados, quem sou eu, que não me dedico a tal estudo, para dizer que esse grupo é formado por "esquerdopatas"? É muito provável que a afirmação da "esquerdopatia acadêmica" tenha sido comemorada, pelo internauta que a proferiu, como demonstração de inteligência racional, mas é pura idiotia arrogante, um efeito da superioridade ilusória da qual padece.

Obviamente que não cabe advogar a renúncia à crítica e uma espécie de adesão incondicional a argumentos de autoridade. Apenas se ressalta que a refutação de um trabalho sério de pesquisa, realizado com base epistemológica, não pode ser levianamente produzida na base do "achismo" ou a partir da primazia da incredulidade desfundamentada. Ao ser confrontado com uma pesquisa acadêmica, realizada por pesquisadores da Unicamp, que demonstrava que o programa bolsa-família não produz o voto de cabresto e possui baixo índice de desvio, um crítico limitou-se a afirmar não acreditar nisso. Por quê?, indagou-se ao crítico, que respondeu que não era isso que "via" nas pessoas que conhecia e que eram beneficiárias do programa. E ponto final. Uma pesquisa que envolveu trabalho de campo com centenas, talvez milhares de beneficiários do programa, em um sem número de municípios distintos, além de dados obtidos em instituições como IBGE e posterior adensamento intelectual na redação da monografia, que sempre exige longa reflexão, de meses ou mesmo anos, foi jogada fora em cinco minutos de conversa porque não era isso que o iludido "via" em três ou quatro pessoas que conhecia, a acreditar em sua palavra. Não há como remar contra argumentos desse tipo, que representam um verdadeiro tsunami de insipiência.

Nos últimos anos parece que houve uma epidemia de ocorrências do Efeito Dunning-Kruger. Para piorar as consequências daninhas da prevalência da ignorância ressentida sobre a inteligência verdadeira, a voz da ilusão de superioridade intelectual predomina no discurso que é ressoado pela mídia, multiplicando o seu efeito devastador.

Em prejuízo da construção de uma sociedade mais equilibrada, menos desigual, pari passu com a figura do idiota arrogante, movido por superioridade intelectual ilusória, têm-se os intelectuais verdadeiros que escrevem textos de forma totalmente hermética, prenhe de jargões incompreensíveis para os leigos, que são produzidos para ser publicados nos jornais, obviamente com a intenção de alcançar o público comum, não acadêmico. Tais textos são dirigidos a um público diferente daquele formado pelo universo dos idiotas arrogantes: os ignorantes deslumbrados.

Em termos sociológicos, quanto à discussão pública dos dilemas sociais a serem enfrentados coletivamente, discursos teóricos construídos com alta complexidade, e não direcionados ao estrito âmbito da academia, longe de solução, costumam ser um problema. Os discursos reducionistas também complicam as coisas. Os primeiros com muita frequência são paralógicos, muitas vezes simplesmente vazios de conteúdo e em outras apenas sofistas. Em ambos os casos buscam produzir a ilusão da verdade para alcançar um objetivo oculto, em geral, mas não necessariamente, apologéticos ao conservadorismo. Quanto mais profundamente se deseja enganar muitas pessoas simultaneamente, mais palavras fora do comum são necessárias ser ditas para o sucesso do intento. Os ignorantes deslumbrados ficam fascinados por textos que não compreendem, entendendo-os como demonstração de profundo conhecimento de quem os escreve.

O mesmo ocorre com os discursos reducionistas. O reducionismo na conversa política busca dar a falsa impressão de que a ação coletiva almejada é facilmente alcançável, como, por exemplo, na invocação da assim chamada "vontade política", uma espécie de varinha de condão política que tudo viabiliza, em relação a uma certa figura pública, sem levar em conta o grau de dificuldade da ação pretendida, não somente com relação às condições materiais exigidas, como na amplitude do convencimento político-institucional necessário. Parece claro que a vontade política capaz de solucionar a maioria dos problemas coletivos dificilmente será proveniente de um determinado agente político - caso em que seria praticamente anódina - possuindo potência transformadora somente aquela que é adotada pela maioria de dado universo de pessoas políticas com efetivo poder. Historicamente, tal vontade política dos poderosos, no que concerne aos reais interesses do povo, ocorre apenas em situações especialíssimas, como revoluções ou calamidades públicas.

Como costuma ocorrer em relação a todas as instituições humanas, parece que o equilíbrio repousa no meio. Nem complexificação exagerada, nem reducionismo extremo.

E, claro, tentando reconhecer valor ao conhecimento de quem realmente o possui.


domingo, 25 de setembro de 2016

Se os Tubarões fossem homens...

Utilizo-me no título deste texto, de forma desavergonhada, Bertold Brecht. Uso seu texto “Se os tubarões fossem homens”, como também, o reproduzo ao final desse meu texto.

Mas antes, viajo mais um pouco na “maionese”. Depois que foi apresentada pelo governo GOLPISTA do Temer e do PSDB, as mudanças no Ensino Médio, veio à minha cabeça, outras estripulias que a classe dominante vem nos empurrando paulatinamente. Como o Golpe, com seu roteiro próprio, porém paralelo ao do Golpe ainda não completado – falta impedir a candidatura do Lula.

Entre os vários pontos necessários para o bom andamento do Golpe, destaco aqui três, não mais, mas importantes também. Primeiro, “conquistar” os corações e mentes da maioria dos profissionais da mídia (que pode acontecer por convencimento ou medo); segundo, dar o Golpe sem a coisa antipática das armas e o parlamentar tradicional. É preciso travesti-lo do embasamento jurídico; Terceiro, fazer a cabeça da juventude pela ausência de pensamento ou discussão – qualquer discussão. Agora vamos às coincidências, ou se preferir a teoria da conspiração.

Começa em nossa “democrática e ética” mídia, a discussão sobre a necessidade ou não da exigência de um diploma – papel – que de ao profissional de Jornalismo o status de Nível Superior. Como os sindicatos da categoria entraram na luta de forma corporativa, e não para discutir o principal problema da categoria que é o monopólio da Comunicação, não a “perderam” oficialmente, mas a perderam de fato. Digo isso devido a pasmaceira da categoria em relação aos mandos e desmandos de seus patrões. Ninguém mais se posiciona, Conselho de Comunicação, entidades representativas e outras que envolvem a categoria. Fazem barulho, mas sem qualquer encaminhamento de luta, de fato, contra a postura dos donos das mídias. O resultado é a manutenção do emprego, dos trocados no final do mês, à ética e democracia.

Na questão da Justiça, do Estado de Direito, começaram por atacar a política através de sua criminalização a qualquer custo. Depois, por não ter havido reação ao contrário por parte dos políticos, passaram a atacar as próprias Leis, em especial a Constituição de 88. A estratégia acirrou no Mensalão, quando juízes declaram em seus votos não terem encontrado culpas a imputar aos condenados, mas os condenariam assim mesmo. De novo, sem reações. Agora temos a Lava Jato, que tem a mão de Deus guiando advogados e procuradores, na “republiqueta de Curitiba”. Que por se considerarem o próprio Deus, declaram a Lava Jato acima das Leis que regem os simples mortais. O Estado de Exceção implantado com apoio da mídia.

Para finalizar, até o dia de hoje, 25 de agosto de 2016, o ataque à Educação, como se fosse o último baluarte de resistência da Democracia. Acreditam no “ser de luz”, Alexandre Frota, e mudam a Educação Média. Atacam os professores e alunos, ao reduzirem a necessidade da formação de mestres e de um currículo mais amplo e reflexivo para a juventude. Encerram com os projetos de alfabetização, reduzem a necessidade de formação dos professores e capam o Ensino Médio. Na realidade, preocupados com uma das muitas máximas de Paulo Freire, “Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”. Querem acabar com qualquer possibilidade de transformação do mundo em algo diferente do que planejaram para eles. Pois não passamos de intrusos, nos espaços feitos para eles, criados pelas leis feitas por eles, para atender as necessidades deles.

Segundo minha impressão, após assistir a palestra do Nildo Ouriques (https://www.youtube.com/watch?v=QJziflgyHdk), nossas Universidades já são “sem partido”. Falta agora, apresentar para nossa juventude, a “escola sem partido”. E estão trabalhando com afinco para tal.

E o que fazem a maioria de nossos políticos – de qualquer coloração? Tratam da manutenção de seus carguinhos, como fossem ser esquecidos pelas corporações que usaram e abusaram deles, como usaram e abusaram do Barbosa, e agora usam e abusam do Sérgio Moro e sua republiqueta.

Encerro aqui reproduzindo do Bertold “Se os tubarões fossem homens” ou, como fazer uma escola sem partido. Sim... o projeto é antigo, as reações é que arrefeceram.


Sérgio Mesquita
Sec. Formação do PT-Maricá-RJ

SE O TUBARÕES FOSSEM HOMENS

Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar, para os peixes pequenos com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais, quanto animais.

Eles cuidariam para que as caixas tivessem água sempre renovada e adotariam todas as providências sanitárias, cabíveis se por exemplo um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente ele faria uma atadura a fim que não morressem antes do tempo.

Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres tem gosto melhor que os tristonhos.

Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas, nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a guela dos tubarões.

Eles aprenderiam, por exemplo a usar a geografia, a fim de encontrar os grandes tubarões, deitados preguiçosamente por aí. Aula principal seria naturalmente a formação moral dos peixinhos.
Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos.

Se encucaria nos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência.

Antes de tudo os peixinhos deveriam guardar-se antes de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista e denunciaria imediatamente aos tubarões se qualquer deles manifestasse essas inclinações.
Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre sí a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros.

As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos. Eles ensinariam os peixinhos que entre eles os peixinhos de outros tubarões existem gigantescas diferenças, eles anunciariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas, sendo assim impossível que entendam um ao outro.

Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos
Da outra língua silenciosos, seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói.

Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, havia belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas guelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nos quais se poderia brincar magnificamente.

Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as guelas dos tubarões.

A música seria tão bela, tão bela que os peixinhos sob seus acordes, a orquestra na frente entrariam em massa para as guelas dos tubarões sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis pensamentos .

Também haveria uma religião ali.

Se os tubarões fossem homens, ela ensinaria essa religião e só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida.

Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros.

Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores, isso só seria agradável aos tubarões pois eles mesmos obteriam assim mais constantemente maiores bocados para devorar e os peixinhos maiores que deteriam os cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos para que estes chegassem a ser, professores, oficiais, engenheiro da construção de caixas e assim por diante.

Curto e grosso, só então haveria civilização no mar, se os tubarões fossem homens.

Bertolt Brecht

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Entre a prisão e o ócio remunerado, que tipo de sociedade desejamos?

Segue mais um texto do Márcio Valley para se tentar entender esse país/mundo em que vivemos..

Presumindo-se que todos ainda sejamos capazes de sonhar, que tipo de sociedade nós, brasileiros, desejamos para viver? Que espécie de comunidade humana reside em nossas utopias mais longínquas?

Assim como todo objeto de estudo, sociedades podem ser categorizados de diversas formas. Costumam ser rotuladas como abertas ou fechadas, capitalistas ou comunistas, democráticas ou ditatoriais, modernas ou primitivas, e diversas outras, sendo possível avançar em infinitas divisões categóricas mais adequadas ao estudo que se pretende.

No presente caso, interessa a divisão próspera ou opressiva, mais adequada e abrangente do que, simplesmente, feliz e infeliz, que também caberia, porém dizendo menos do que se pretende.

Embora semanticamente a palavra opressão envolva imediatamente o significado de dominação e autoritarismo, subjaz em seu sentido mediato a ideia de tristeza, depressão e frustração decorrente do sentimento sempre presente de impotência e ausência de livre-arbítrio. Uma sociedade oprimida é geralmente formada por indivíduos que sentem perdedores, impotentes e infelizes.

A ideia mais simples de opressão é a de alguma coisa mais forte exercendo pressão sobre outra mais fraca, de modo a impedir que a mais fraca realize qualquer movimento não desejado pelo mais forte.

Em regra, toda sociedade é opressora, dado que viver em sociedade implica necessariamente abdicar do desejo individual em favor do benefício coletivo. Todavia, em certos casos a sociedade oprime muito além do que seria minimamente necessário para o bem comum. Freud, em seu opúsculo "O mal-estar na civilização", pontificou que a vida em sociedade, ou seja, a civilização, por ele também identificada como cultura, é sempre caracterizada pela antítese liberdade x segurança. No início do século XX, quando o escreveu, o pai da psicanálise já considerava que as pessoas haviam cedido liberdade demasiada em favor de uma suposta segurança, sendo daí que derivava a maior parte dos problemas psicológicos. Ou a infelicidade, acrescento.

Atualmente, quando a hipotética profundidade do terrorismo conduz estados considerados altamente ciosos da liberdade, como os Estados Unidos, a prender cidadãos sem ordem judicial, sem o direito de defesa e por prazo indeterminado, o que Freud diria?

São exemplos gritantes de excesso opressor as questões que envolvem a homoafetividade e o exercício da sexualidade em geral, o uso de drogas, a prostituição, o aborto e outras que em geral impõem ao indivíduo restrições que visam exclusivamente satisfazer uma duvidosa, e muitas vezes hipócrita, satisfação moral coletiva, que é coletiva somente para eles, os incomodados que possuem voz, e não para a efetiva coletividade. Exemplos drásticos de sociedades opressoras seriam as que permitissem o trabalho escravo, adotassem o genocídio como programa de governo ou a transformação compulsória dos cidadãos em espiões uns dos outros, com delações obrigatórias, sob pena de prisão ou morte. É interessante relembrar que, nesse último exemplo, o regime de governo da sociedade se transformaria em totalitarista, segundo descreveu Hanna Arendt, pois o terror difuso daí decorrente, de ser delatado pelo parente ou pelo vizinho, se dissemina e atomiza a sociedade, ou seja, a degenera, tornando o que era sociedade em mero ajuntamento de pessoas, cada uma preocupada apenas com os próprios e imediatos interesses e, de preferência, encerrada solitariamente em sua casa, com temor de interrelações.

Uma forma mais branda de opressão, em geral admitida pelo silêncio obsequioso de quem produz opinião pública, mas nem por isso menos importante, se materializa através da má distribuição da riqueza. A miséria e a pobreza são, sempre, opressivas, capazes de impedir o exercício dos mais elementares direitos da pessoa, não somente os mais óbvios, como o de ter abrigo e alimento, mas também os de ir e vir (aprisionando a pobreza em guetos) e o de obter conhecimento (imobilizando o pobre no estamento em que nasceu).

Uma sociedade opressora, pois, é aquela que exerce abusivamente o direito de restringir a liberdade individual, assim impedindo que os indivíduos que a compõem se autodeterminem e, consequentemente, se realizem nos modos por eles desejados.

Prosperidade, por sua vez, deve ser compreendida no sentido abrangente de bom êxito na vida e costuma ser acompanhada da sensação geral de felicidade. Claro que não cabe, de forma alguma, igualar "bom êxito na vida" ao significado rasteiro e frívolo de "ganhar muito dinheiro". A palavra guarda maior afinidade com a ideia de florescimento pessoal desenvolvida pelo economista ecológico inglês Tim Jackson, em seu livro "Prosperidade sem crescimento – Vida Boa em um Planeta Finito", cuja leitura é enriquecedora.

Dentro dessa significação, ganhar dinheiro até o ponto da obtenção de uma renda digna é apenas um dos diversos requisitos necessários ao atingimento da meta de florescimento pessoal, que obviamente não é passível de ser alcançada por quem sequer possui alimento ou abrigo. A prosperidade individual, o florescimento pessoal, somente se inicia a partir da satisfação das necessidades básicas, nunca antes.

Renda digna, todavia, não é riqueza e nem chega perto desse conceito. Riqueza corresponde à acumulação de bens além do necessário à manutenção de uma vida digna. A riqueza, na verdade, pode se tornar um empecilho à prosperidade, pois traz consigo, além da fartura em satisfações materiais, os abalos espirituais decorrentes da mera posse já que, via de regra, quem tem alguma coisa se preocupa com essa coisa e, sob diversos ângulos, a ela está aprisionado.

A prosperidade, pois, se identifica amplamente com os seguintes desejos: manter bom relacionamento com familiares e amigos; segurança material para si e para essas pessoas; realização de ações gratificantes, profissionais ou não; manutenção de um emprego decente e atrativo com renda suficiente para que se viva dignamente; e participação ativa nas decisões de sua comunidade, com isso desenvolvendo um sentimento de pertencimento.

Assim entendido, renova-se a indagação inicial: que Brasil queremos? Próspero, e portanto, feliz? Ou opressivo e, assim, infeliz?

Fruto da melhoria geral na renda dos brasileiros ocorrida nos últimos anos, é cada vez mais comum que brasileiros viajem para outros países, tendo a oportunidade de conhecer outros povos, outras culturas, outras experiências de vida em comunidade. E não são poucos os que ficam maravilhados com o que veem. Um ponto muito comum é a sensação de segurança e respeito às leis que percebem no exterior. Espantam-se com a ausência de roubos a transeuntes. Admiram o fato de que automóveis param em faixas de pedestre, sem sinal vermelho, para o pedestre atravessar.

Deixando de lado o fato de que, em geral, sente-se mais segurança em lugares cuja amplitude dos riscos desconhecemos, surge daí a pergunta: por que esses povos tendem a respeitar mais a ordem legal, serem mais urbanos e possuir menos criminalidade?

Como resposta, afirma-se que essas sociedades possuem uma cultura superior, mais antiga e por isso mais desenvolvida, com um povo mais educado e menos propenso ao roubo e à corrupção. Em geral, brasileiros, os novos viajantes, acabam por concluir que a culpa é de quem habita o Brasil, ou seja, o povo brasileiro, ignorante, inculto e desonesto por natureza.
Trata-se do que foi maravilhosamente bem sintetizado por Nelson Rodrigues através da expressão "complexo de vira-lata". Disse o dramaturgo que o "brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima".

Não há dúvida de que certas sociedades são mais antigas, educadas e cultas do que a nossa. Isso, porém, por si só, não dá conta de explicar por que suas sociedades respeitam mais as leis e são menos propensas à violência do que a brasileira.

O fato é que a conclusão simplista, fundada no reducionismo da comparação direta entre povos que se encontram em momentos históricos distintos, não pode ser admitida como verdadeira. Nenhum povo é mais ou menos propenso ao respeito às leis ou a descambar em violência. Nem os admirados, nem os cuspidos (nós, os brasileiros). De forma geral, seres humanos submetidos aos mesmos níveis sociais de temperatura e pressão, agirão de forma similar. Trata-se de questão evolutiva e não cultural e, por isso mesmo, é uma inclinação mais forte do que a que decorre da civilização na qual se inserem.

Se sociedades inseridas no estado de direito e fundadas na lei autorizam a prevalência do interesse do opressor politicamente mais forte (é a elite que elabora as leis), com muito mais razão prevalecerá, e de forma exponenciada, a opressão pela força física direta num ambiente sem a presença inibidora da lei e do Estado ou, ainda pior, quando a iniciativa opressora do indivíduo encontrar eco na estrutura do Estado. De fato, vários experimentos acadêmicos foram capazes de demonstrar que a ausência de controle externo ao indivíduo é capaz de conduzi-lo à prática do mal banal e ao crime, sendo exemplo o que foi conduzido pelo psicólogo Philip Zimbardo na Universidade Stanford, na Califórnia, Estados Unidos, que pode ser visto no filme alemão "A experiência", filmado em 2001.

A sociedade mais culta e educada da Europa, a alemã, nos proporcionou o exemplo mais hediondo de opressão, o nazismo. Outra cultura antiga, a russa, foi vencida pelo totalitarismo comunista. A cultura mais antiga e ordenada do planeta, a chinesa, cedeu à violência opressiva de Mao, principal responsável pela maior carnificina da história da humanidade. Filhos diletos dos civilizados europeus, os americanos não hesitam em guerrear e matar, e não hesitaram em dolosamente matar centenas de milhares de civis inocentes com a bomba atômica, fundados em racionalismos antiéticos e amorais.

Num certo sentido, e dado que o Brasil não se envolve costumeiramente em guerras, pode-se afirmar que, desde 1500, nosso país possui um dos povos mais pacíficos do mundo, que abomina a violência.

Isso significa que deve haver algum elemento social que nos distinga da sociedade europeia, e de outras admiradas sob o viés do vira-latas complexado, que seja responsável pelo maior número de crimes contra o patrimônio e contra a vida que ocorrem no Brasil e, também, pelo maior descaso com a legislação.

Claro que há e são, principalmente, dois elementos. Chamam-se universalização da educação de qualidade e transferência de renda ou, mais comumente, reunidos ambos em uma expressão só, estado de bem-estar social.

Trata-se de obviedade: quanto menos pressão ambiental o animal enfrenta em relação à obtenção de abrigo e alimento, menos ele reagirá em relação ao outro. Serve para o leão, para a formiga e para o ser humano.

É mais fácil ser gentil e educado com vizinhos e estranhos quando a família está abrigada e alimentada e o filho estuda em bom colégio. Se isso é alcançado por renda própria ou através de programa governamental de transferência não importa, o efeito será o mesmo. O que importa é que, em geral, quem sobrevive dignamente tende a estar mais satisfeito com a sociedade que integra e menos propenso a surtos de ira ou revolta.

Claramente o ressentimento, a depressão e o estado geral de infelicidade são fatores determinantes para o descumprimento da lei e para a ação criminosa. Uma pessoa preocupada com a próxima refeição ou onde sua família irá dormir terá menos inclinação a parar na faixa de pedestres (presumindo-se que por alguma razão esteja dirigindo embora não tenha dinheiro para comer), simplesmente porque terá menos respeito por todas as pessoas que a cercam.

Pode-se imaginar um agrupamento humano do tipo "cada um por si". Difícil seria categorizar tal agrupamento como sociedade humana, cujo valor semântico embute a noção de associação para ajuda mútua. Um agrupamento "cada um por si" seria socialmente inferior a um bando de leões, já que, nele, todos comem independentemente de terem caçado, mesmo os dorminhocos.

Em qualquer agrupamento animal do tipo "cada um por si" é natural que os indivíduos menos favorecidos ataquem a caça dos mais favorecidos. Portanto, a opção por essa espécie de sociedade importa a ciência prévia de que haverá um certo incremento nos assaltos à propriedade privada.

Eis aí, pois, uma explicação para a aparente bonomia europeia, japonesa ou qualquer outra: são países cujos habitantes, por emprego ou por transferência de renda, não sofrem as pressões pela sobrevivência que os brasileiros sofrem.

Os Estados Unidos em geral são exemplificados como país no qual o estado de bem-estar social não existe. Não é verdade. A taxa de pobreza absoluta nos EUA é de 21% da população, índice que cai para cerca de 12% após as transferências governamentais (1). E esse é um país desenvolvido que transfere pouco. Os europeus são mais arrojados.

Na Suécia, a taxa inicial de pobreza absoluta é de cerca de 24%, que cai para cerca de 6% após a intervenção do estado. Na França, 36% e 10%, respectivamente. A Noruega, de forma mais ousada, praticamente elimina a pobreza, pois reduz para cerca de 2% da população uma miséria que, sem transferência de renda, seria de mais de 9% (1).

E no Brasil? Como melhoramos a renda dos menos afortunados?

O pobre brasileiro que trabalha possui direito ao salário-família, cujo valor é de R$ 37,18, para quem ganha até R$ 725,02, e de R$ 26,20, para quem ganha até R$ 1.089,72 (2). Acima desse valor, nada.

R$ 26,20 e R$ 37,18, ou seja, o correspondente a cerca de 4% de um salário mínimo que, por si, já é ridículo (R$ 880,00 a partir de janeiro de 2016). Será que não vai fazer falta no orçamento federal?

O brasileiro que tem emprego, e ganha até dois salários mínimos mensais, também possui direito a um salário mínimo anual, através do PIS, o que corresponderia ao 14º salário, o que, considerado o novo salário mínimo, equivale a um acréscimo salarial mensal de R$ 73,00 (3). Novamente: não vai fazer falta essa derrama de dinheiro?

Fica-se assim: um cidadão brasileiro que está empregado e recebe salário mínimo, na verdade ganha o equivalente a cerca de novecentos reais após o incremento de salário-família, projeção da parcela duodecimal do PIS e dedução da contribuição previdenciária. É isso: o afortunado brasileiro empregado ganha cerca de 225 dólares mensais.

O Dieese projetou, para novembro de 2015, o valor de R$ 3.399,22 para o salário mínimo ser capaz de atender às necessidades de habitação, alimentação, educação e lazer (4).

Conheço vários críticos do bolsa-família que dariam um tiro na cabeça se recebessem como salário o valor projetado pelo Dieese. Portanto, não sofreriam com o real salário mínimo, de R$ 880,00, pois já teriam morrido antes.

Mas, esses são os sortudos, os brasileiros que têm emprego. E os que não conseguem emprego?

Quem não consegue emprego possui, basicamente, o bolsa-família, o qual somente é dado às mães ou aos pais solteiros ou viúvos.

Brasileiros sem filhos, homens e mulheres, e sem renda somente possuirão amparo a partir dos 65 anos, quando terão direito a uma aposentadoria especial sem contribuição. Até lá, é como diz Bauman, terão que resolver individualmente os problemas que decorrem do coletivo. Soluções privadas para questões públicas nada mais significam do que o império do "cada um por si" descrito no início, que nos involui à animalidade.

A falta de emprego ou de empregabilidade não decorre de ação ou omissão do indivíduo, mas de circunstâncias da sociedade, que tanto não produz a educação necessária, como não é capaz de gerar o número suficiente de empregos. Aliás, a civilização humana será cada vez mais incapaz de produzir empregos em número satisfatório, trata-se de uma bomba-relógio já acionada e que deve ser desativada o quanto antes. A ideia de pagamento social sem trabalho parece que será uma das soluções possíveis.

Como transferir às pessoas a solução de problemas que estão muito acima de sua potência e capacidade de decisão? A resposta é simples: não é possível.

Não cabe invocar a Índia, como se costuma fazer, como exemplo de sociedade pobres e pacífica. De pacífica a Índia possui pouco, tratando-se de país em eterno conflito de fronteiras, com terrorismo e fundamentalismo religioso que chega aos embates físicos entre indivíduos de religiões diferentes. Embora o que foi dito antes, há o esforço em exercer a cultura da não-violência, famosa em Gandhi, que não é típica na maioria das demais civilizações. Deve ser considerado também que aquele país iniciou um projeto de redução da desigualdade antes do Brasil, de modo que a desigualdade afrontosa que oprime e conduz à reação é inferior á do Brasil. Paralelamente, se a propriedade é algo respeitada pelos indianos, outros valores não são, gerando conflitos sociais que não possuem tal dimensão no Brasil, como os estupros e os já apontados tremores religiosos.

Tampouco cabe se irresignar pela circunstância de ser possível a alguém viver sem trabalhar. Primeiro, porque ninguém escolhe quando ou onde nascer e, ao nascer, encontra uma cultura completamente formada e contra a qual não pode se opor. A sociedade humana não fornece opções aos incomodados que não desejam integrá-la, aos que não se adaptam às suas regras. Antes do domínio da propriedade privada, sempre era possível aos desajustados o retorno ao estado de natureza, à caça e à coleta. Se Buda nascesse atualmente, teria dificuldades em vagar pelo mundo em busca de elevação: encontraria um sem número de arames farpados a barrar o seu corpo e, portanto, a ferir o seu espírito. Hoje, com as propriedades cercadas e muradas, com as fronteiras fechadas à imigração e com as florestas, a fauna e a flora protegidas por lei (ainda bem), se tornou impossível abdicar da convivência social.

Segundo, porque não trabalhar se constitui em opção individual e legítima. Se alguém resolve viver de forma mínima, frugal, quase ascética, sem preocupação com o consumo, com exigência apenas de abrigo e alimento razoáveis, e não há como viver do meio natural, o que fazer? Encarcerá-lo? Essa opção, com o aparato estatal necessário à repressão e com a construção de um sem número de prisões, poderia sair bem mais cara, além de claramente ser desumana. Fuzilá-lo? Infeliz da sociedade que mata seus desajustados. Claro que não. Então é melhor que seja sustentado pela coletividade, o que pode resultar inclusive em benefícios. Quantos não se dedicariam a alguma arte ou ao conhecimento, retornando em beleza e cultura a pequena migalha que lhe foi entregue?

A inveja do ócio alheio não deveria afligir quem possui ânsia de aquisição de maior quantidade de bens materiais. Com certeza um programa como o bolsa-família não será capaz de preencher a vaidade de possuir um smartphone último tipo ou de custear uma viagem de turismo internacional. Quem deseja uma renda ótima jamais se contentará em receber apenas uma pequena ajuda do governo.

São realidades distintas e não deveriam provocar choque.

Terceiro, porque nem sempre quem recebe auxílio do governo está desempregado. O auxílio, cujo valor é quase insignificante no Brasil, é, em princípio, para complementar renda e não para ser sua única fonte. Isso significa que o benefício é, em grande parte, dirigido a pessoas que são exploradas por alguém, que obtém lucro através do pagamento de salário irrisório. Sendo assim, a transferência de renda ganha a dimensão nobre de redução de flagrante injustiça social.

Como é difícil, nesse momento, exigir que empregadores em geral paguem um salário mínimo superior, inclusive porque, ao lado dos exploradores, encontram-se microempregadores sem condição de pagar mais, aplica-se o paliativo de aumentar a renda através da carga tributária.

Como criticar isso num país que transfere mais de um terço (36%) de toda a arrecadação tributária para os ricos (mais de 240 bilhões de reais), através do pagamento de juros dos títulos da dívida pública?

Se somados os valores pagos a título de aposentadoria rural, benefício de prestação continuada, renda mensal vitalícia, seguro-desemprego, PIS e bolsa-família, a transferência de renda para os pobres não chega a 17% do orçamento federal, sendo que o bolsa família responde por menos de 1% dessa fatia.

Então o que está travando o Brasil é a transferência de renda para os pobres, de 17%, e não a dos ricos, de quase 40% do mesmo orçamento?

Isso sem considerar que a transferência para os ricos, em geral, é definitiva, ou seja, não volta aos cofres públicos, enquanto a dos pobres, destinada basicamente ao consumo mais urgente, em geral retorna por metade na forma de impostos indiretos. E essa conta também deixa de levar em conta que os ricos igualmente são beneficiados por transferências indiretas, sendo exemplo a prática de empréstimos concedidos com juros subsidiados no BNDES ou isenção fiscal aplicada como incentivo à instalação de fábricas ou incremento das vendas.

Aquelas sociedades que, vistas de longe, causam salivação pavloviana em certos vira-latas, por inveja, tributa pesadamente suas classes média e rica e em geral impedem a transmissão da totalidade da herança pela via de dura taxação. Em certos países europeus, a carga tributária é de quase 50%, enquanto no Brasil é de pouco mais de 34% (5).

Apenas como exemplo, um trabalhador que receba alto salário, digamos, R$ 800.000,00 (oitocentos mil reais) por ano - ficará em média com 74% desse valor se brasileiro for, enquanto, mantido o mesmo padrão salarial em dólares, ficará com 54% na Itália e 56% na Alemanha (6).

Como outro exemplo de favorecimento aos cidadãos do andar de cima, afirma o senador Lindbergh Farias (7), em discurso no Senado, que somente o Brasil e a Estônia, em todo o mundo, isentam totalmente os dividendos recebidos por rentistas.

Da lista elaborada em 2012 pela instituição inglesa Legatum Institute (8), dos países considerados mais prósperos do mundo a partir dos critérios de saúde da economia, empreendedorismo e oportunidades, governança, educação, saúde individual, segurança e sensação de segurança pessoal, liberdade pessoal e capital social, os três primeiros colocados são escandinavos: Noruega em primeiro, Dinamarca em segundo e Suécia em terceiro. Todos com carga tributária elevada e com programas de transferência de renda que não podem ser comparados ao bolsa-família. A transferência de renda é real, pesada, em valores altos inclusive para os padrões europeus. E todos países pequenos se comparados ao Brasil, necessitando, portanto, de um compromisso orçamentário menos impactante para atender às demandas sociais, não somente de renda, mas de educação, saúde e segurança.

Aí está a evidência cabal de que tributação elevada nas camadas superiores, com auxílio aos desamparados e prestação de serviços públicos de qualidade, principalmente educação, é capaz de reduzir a desigualdade e as tensões sociais, contribuindo para a sensação de paz testemunhada pelos nossos viajantes e causa de tanta dor de cotovelo.

São brasileiros, entretanto, que, mais favorecidos, reclamam de serviços públicos que não usam, do gigantismo de um Estado do qual pouco necessitam e também de uma carga tributária que não lhes pesa no bolso, teses que se contradizem se analisadas a fundo.

O problema de quem se opõe ao auxílio governamental aos pobres brasileiros é que invejam sociedades que consideram civilizadas apenas no que toca aos efeitos visíveis, mas não às causas subjacentes. O motorista que para na faixa de pedestre é o último degrau numa escada de causalidades cujo primeiro degrau é a participação mais significativa, honesta e fraterna dos empoderados nesse grande condomínio que se chama nação.

Essa conclusão em nada é afetada ou mitigada pelo insano esforço mundial atual de reduzir ou acabar com o welfare state na Europa. Trata-se de gigantesco equívoco que, se levado a efeito, produzirá efeitos nefastos no futuro. Hitler nasceu do grito dos desesperados e foi isso que, cessado o conflito, conduziu ao estabelecimento do estado de bem-estar social. Quem não aprende com a história...

Que tipo de sociedade desejamos para viver?

Uma no qual o vizinho desempregado consiga sobreviver ou uma na qual ele seja obrigado a pular o seu muro e roubar para alimentar a família?

Para mim a resposta parece clara e cristalina: prefiro viver no estado de bem estar social e andar em paz nas ruas, ainda que isso me custe uma facada mais aguda em meu salário.