sexta-feira, 8 de maio de 2020

Pós-Covid-19: que visão de mundo e que valores desenvolver?

Leonardo Boff

Causa séria preocupação o ataque sistêmico que a natureza mediante um pequeníssimo e invisível vírus está movendo contra a humanidade, levando milhares à morte. Entretanto, fundamental é também a nossa reação frente à pandemia. Que lição ela nos passa? Que visão de mundo e que espécie de valores ela nos leva a desenvolver? Seguramente devemos aprender tudo o que devíamos ter aprendido e não aprendemos. Devíamos ter aprendido que somos parte dela e não os seus “senhores e donos” (Descartes). Vigora uma conexão umbilical entre ser humano e natureza. Viemos do mesmo pó cósmico como todos os demais seres e somos o elo consciente da corrente da vida.

A erosão da imagem do “pequeno deus na terra”

O mito dos modernos de que nós somos “o pequeno deus” na Terra e que podemos dispor dela ao nosso bel-prazer pois ela é inerte e sem propósito foi desfeito. Um dos pais do método científico moderno Francis Bacon dizia que devemos tratar a natureza como os esbirros da inquisição tratam suas vítimas, torturando-as até que elas entreguem todos os seus segredos.

Pela tecnociência levamos este método até o extremo alcançando o coração da matéria e da vida. Isso se implementou com um furor inaudito ao ponto de termos destruído a sustentabilidade da natureza e assim do planeta e da vida. Desta forma, rompemos o pacto natural que existe com a Terra viva: ela nos dá tudo o que precisamos para viver e em contrapartida nós devíamos cuidá-la, preservar seus bens e serviços e dar-lhe descanso para repor tudo o que lhe tiramos para a nossa vida e progresso. Nada disso fizemos.

Por não termos observado o preceito bíblico de “guardar e cuidar do Jardim do Éden (da Terra: Gn 2,15) e ameaçado as bases ecológicas que sustentam toda vida, ela nos contra-atacou com uma arma poderosa, o coronavírus 19. Para enfrentá-lo retornamos ao método da Idade Média que superou suas pandemias mediante o isolamento social rigoroso. Para fazer o povo, amedrontado, sair à rua, na prefeitura de Munique (Marienpltatz) se construiu um engenhoso relógio com dançarinos e cucos para todos acorrerem para apreciá-lo o que é feito até os dias atuais.

A pandemia que é mais que uma crise, mas uma exigência de mudança de visão de mundo e de incorporação de novos valores nos coloca esta questão: queremos verdadeiramente evitar que a natureza nos envie vírus ainda mais letais que até podem dizimar a espécie humana? Esta seria uma entre as dez que desaparecem definitivamente a cada dia. Queremos correr esse risco?

A inconsciência generalizada do fator ecológico

Já em 1962 a bióloga e escritora norte-americana Rachel Carson, autora de “Primavera Silenciosa”(Silient Spring) advertiu:” É pouco provável que as gerações futuras tolerem nossa falta de preocupação prudente pela integridade do mundo natural que sustenta toda a vida…A questão consiste em saber se alguma civilização pode levar adiante uma guerra sem tréguas contra a vida, sem se destruir a si mesma e sem perder o direito de ser chamada de civilização”.

Parece uma profecia da situação que estamos vivendo a nível planetário. Temos a impressão de que a maioria da humanidade e mesmo os líderes políticos não demonstram uma consciência suficiente dos perigos que estamos correndo com o aquecimento global, com a demasiada proximidade de nossas cidades e principalmente do agronegócio massivo da natureza virgem e das florestas sendo desmatadas. Desta forma destruímos os habitats dos milhões de vírus e bactérias que acabam se transferindo para os seres humanos.

É imperioso que abandonemos o velho paradigma da vontade de poder e de dominação sobre tudo (o punho cerrado) na direção de um paradigma do cuidado de tudo o que existe e vive (a mão estendida) e da corresponsabilidade coletiva. Escreveu Eric Hobsbawn na última frase de seu livro A era dos extremos (1995):

“Uma coisa é clara. Se a humanidade quer ter um futuro reconhecível, não pode ser pelo prolongamento do passado ou do presente. Se tentarmos construir o terceiro milênio nesta base, vamos fracassar. O preço do fracasso, ou seja, a alternativa para a mudança da sociedade é a escuridão” (p.506).

Isto significa que não podemos voltar simplesmente à situação anterior ao coronavírus. Nem pensar numa volta ao passado pré-iluminismo como quer o atual governo brasileiro e outros de extrema-direita.

O pós-pandemia: o novo ou a radicalização do antes?

Não são poucos os analistas que prognosticam que o pós-pandemia poderá significar uma radicalização extrema da situação anterior, uma volta ao sistema do capital e ao neoliberalismo, procurando dominar o mundo com o uso da vigilância digital (big data) sobre cada pessoa do planeta, coisa aliás que já está em curso na China e nos USA. Aí entraríamos na era das trevas, com o risco, aventado por Raquel Carson da nossa autodestruição. Daí a exigência de uma radical conversão ecológica, cuja centralidade deverá ser ocupada pela Terra, pela vida e pela civilização humana: uma biocivilização. Caso quisermos sobreviver.

Sigmund Freud respondendo a uma carta de Albert Einstein de 1932 que perguntava se era possível superar a violência e a guerra, deixava aberta a questão. Respondeu ponderando que não podia afirmar qual instinto iria prevalecer: se o instinto de morte (thánatos) ou se o instinto de vida (éros). Eles estão sempre se tensionando sem termos a certeza de quem no final triunfará. Termina resignado: “Esfaimados pensamos no moinho que tão lentamente mói que poderemos morrer de fome antes de receber a farinha”.

Há uma opinião nada otimista de um dos maiores intelectuais norte-americanos e crítico severo do sistema imperialista, Noham Chomsky. Diz ele:” «O coronavírus é algo sério o suficiente, mas vale lembrar que há algo muito mais terrível se aproximando, estamos correndo para o desastre, algo muito pior que qualquer coisa que já aconteceu na história da humanidade e Trump e seus lacaios estão à frente disso, na corrida para o abismo. Há duas ameaças imensas que estamos encarando. Uma é a crescente ameaça de guerra nuclear, exacerbada pela tensão dos regimes militares e a outra, é claro, pelo aquecimento global. Ambas podem ser resolvidas, mas não há muito tempo e o coronavírus é terrível e pode ter péssimas consequências, mas será superado, enquanto as outras não serão. Se nós não resolvermos isso, estaremos condenados”.

Chomsky tem asseverado que o presidente Trump é suficientemente insano para deflagar uma guerra nuclear, sem se importar com o que pode acontecer para toda a humanidade.

Não obstante esta visão dramática do prestigiado linguista e pensador, nossa esperança é que se a humanidade for posta sob grave risco de realmente se autodestruir, o instinto de vida irá prevalecer. Mas à condição de termos construído uma forma diferente de habitar a Casa Comum sobre outras bases que não sejam nem do passado nem do presente.

Reinventar a humanidade e remodelar a Terra

O coronavírus nos obrigará a nos reinventar como humanidade e remodelar de forma sustentável e includente a única Casa Comum que temos. Se prevalecer o que dominava antes, ainda exacerbado ao extremo, aí sim poderemos nos preparar para o pior. Entretanto, cabe recordar que o sistema-vida passou por várias grandes dizimações (estamos dentro da sexta) mas sempre sobreviveu.

Ela pareceria – me permito uma metáfora singular – uma “praga” que ninguém até hoje conseguiu exterminar. Porque é uma “praga” bendita, ligada ao mistério do cosmo-gênese e daquela Energia de Fundo, misteriosa e amorosa que preside a todos os processos cósmicos e também os nossos.

De todos os modos, o coronavírus nos mostrou de que não somos “pequenos deuses” que pretendem poder tudo; somos frágeis e limitados; que a acumulação de bens materiais não salva a vida; que a globalização financeira sozinha, nos moldes competitivos do capitalismo, impede de criar, como propõem os chineses “uma comunidade de destino comum para toda a humanidade”; que temos que criar um centro global e plural para gestionar os problemas globais; que a cooperação e a solidariedade de todos com todos e não o individualismo, constituem os valores centrais de uma geosociedade; que se deve reconhecer e respeitar os limites do sistema-Terra que não tolera um projeto de crescimento ilimitado; que devemos cuidar da natureza, como cuidamos de nós mesmos, pois somos parte dela e é ela que nos fornece todos os bens e serviços necessários para a vida; que devemos buscar uma economia circular que realiza os famosos três erres (R): reduzir, reutilizar e reciclar tudo que entrou no processo produtivo; que a economia seja de subsistência digna e universal e não da acumulação de alguns à custa de todos os outros e da natureza; que este tipo de economia da subsistência diminui as necessidades para dar lugar à sobriedade e assim reduzir enormemente as desigualdades sociais; que a nova ordem econômica não se regeria pelo lucro mas por uma racionalidade econômica com sentido social e ecológico; que seria altamente racional e humanitário criar uma renda universal mínima; que a assistência à saúde é um direito humano universal (One World-One Health); que não podemos dispensar, antes favorecer, a ciência e a técnica feitas com consciência e destinadas a servir à vida e não ao mercado; que é importante garantir um Estado regulador do mercado, impulsionador do desenvolvimento necessário e apetrechado para atender demandas coletivas, seja sanitárias seja de calamidades naturais; que devemos incentivar o capital humano-espiritual, sempre ilimitado, fundado no amor, na solidariedade, na busca da justa medida, na fraternidade, na compaixão, no encantamento do mundo e na busca incansável da paz.

Estas são algumas lições, entre outras, que o coronavírus nos permite tirar. Citando a Carta da Terra, um dos documentos oficiais (UNESCO) mais inspiradores para a transformação do nosso modo de ser no planeta Terra, ”são necessárias mudanças fundamentais nos nossos valores, instituições e modos de vida…Nossos desafios ambientais, econômicos, políticos, sociais e espirituais estão interligados e juntos podemos forjar soluções includentes” (Preâmbulo c).

Que visão de mundo e que valores incorporar?

Saber e tomar conhecimento dos dados da realidade não é ainda fazer. O que nos move a agir? Que visão de mundo e que valores devemos incorporar? Orienta-nos um importante texto da parte conclusiva da Carta da Terra, de cuja redação também participei.

“Como nunca antes na história, o destino comum nos conclama a buscar um novo começo. Isto requer uma mudança na mente e no coração; demanda um novo sentido de interdependência global e de responsabilidade universal. Devemos desenvolver e aplicar com imaginação a visão de um modo de vida sustentável aos níveis local, nacional, regional e global” (O caminho adiante).

Observemos: não se trata de apenas melhorar o caminho andado. Esse nos levará às crises cíclicas que já conhecemos e eventualmente ao desastre. Mas se trata de “buscar um novo começo”. Vale dizer, somos desafiados a remontar a “Terra, nosso lar, que está viva com uma comunidade de vida única” (CT, Preâmbulo a). Enganoso seria cobrir as feridas da Terra com band-aid, pensando assim curá-la. Temos que revitalizá-la e refaze-la para ser a Casa Comum.

“Isto requer uma mudança de mente”. A mudança de mente significa um novo olhar sobre a Terra assim como a nova cosmologia e biologia a apresentam. Ela é um momento do processo evolucionário que já possui 13,7 bilhões e anos e a Terra, 4,3 bilhões de anos. Depois do big bang, todos os elementos físico-químicos se forjaram ao longo de uns três bilhões de anos no coração das grandes estrelas vermelhas. Ao explodirem, jogarem para todas as direções estes elementos que formaram as galáxias, as estrelas como o Sol, os planetas e a Terra.

Ela é viva com uma vida que irrompeu há 3,8 bilhões de anos, um superorganismo sistêmico que se auto-organiza e continuamente se autocria. Num momento avançado de sua complexidade, cerca de 8-10 milhões de anos atrás, uma porção dela começou a sentir, pensar, amar e venerar. Surgiu o ser humano, homem e mulher. Ele é Terra consciente e inteligente, por isso se chama homo, feito de húmus.

Esta visão muda a nossa concepção da Terra. A ONU em 22 de abril de 2009 oficialmente a reconheceu como Mãe Terra, pois tudo gera e nos dá. Por isso a Carta da Terra afirma: “Respeitar a Terra e a vida em toda a sua diversidade e cuidar da comunidade de vida com compreensão, compaixão e amor” (CT 1 e 2). Terra como solo podemos comprar e vender, cavar e fazer tantas coisas. Mãe, no entanto, nós não compramos nem vendemos; nós a amamos e veneramos. Tais atitudes devem ser transferidas para a Terra, nossa Mãe. Essa é a nova mente que importa incorporar.

“Requer uma mudança no coração”. O coração é a dimensão do sentimento profundo, da sensibilidade, do amor, da compaixão e dos valores que orientam nossa vida. Especialmente no coração reside o cuidado que é uma forma amigável e afetuosa de se relacionar com a natureza e os seus seres. Temos a ver com a razão sensível ou cordial, com o cérebro límbico, que emergiu há 220 milhões de anos quando irromperam na evolução os mamíferos. Todos eles, como o ser humano, têm sentimentos, amor e cuidado para com sua cria. Esse é o pathos, a capacidade de afetar e ser afetado, a dimensão mais profunda do ser humano.

A razão (o logos), a mente da qual nos referimos anteriormente, surgiu há apenas 8-10 milhões de anos com o cérebro neocortical e na forma avançada como homo sapiens (o homem atual) há cerca de cem mil anos. Ele, na modernidade, foi desenvolvido de forma exponencial, dominando nossas sociedades e criando a tecnociência, os grandes instrumentos de dominação e de transformação da face da Terra, inclusive criando uma máquina de morte com armas nucleares e outras que podem pôr fim à vida humana e da natureza.

O excesso da razão, o racionalismo, criou uma espécie de lobotomia: o ser humano tem dificuldade de sentir o outro e o seu sofrimento. Precisamos completar a inteligência racional, necessária para dar conta das necessidades de sobrevivência da nossa vida, mas há que completá-la com a inteligência emocional e sensível para sermos mais completos e assumirmos com paixão a defesa da Terra e da vida.

Valem-nos as palavras do Papa Francisco em sua encíclica de ecologia integral “Sobre o cuidado da Casa Comum”: “Devemos alimentar uma paixão pelo cuidado do mundo. Não é possível empenhar-se em coisas grandes apenas com doutrinas, sem uma mística que nos anima, sem uma moção interior que impele, motiva, encoraja e dá sentido à ação pessoal e comunitária”(n.216) E acrescenta: ”Implica ainda a consciência amorosa de não estarmos separados das outras criaturas, mas de formarmos com os outros seres do universo uma esplêndida comunhão universal”(n.220).

Portanto, é o coração que nos leva a ouvir simultaneamente o grito da Terra e o grito do pobre e nos leva a socorrê-los, mudando a forma como nos relacionamos com eles, como produzimos e como consumimos, com esse ideal formulado pelo primeiro ministro chinês XI Jinping: “criar uma sociedade moderadamente abastecida” ou como nós dizemos: uma sociedade com um consumo sóbrio e solidário.

Segue ainda o texto da Carta da Terra: “Requer-se um novo sentido de interdependência global”. A relação de todos com todos e por isso a interdependência global representa uma constante cosmológica. Tudo no universo é relação. Nada e ninguém estão fora da relação. O cosmos é constituído pelo conjunto das redes de relação mais do que do número inumerável dos corpos celestes. É também um axioma da física quântica segundo o qual todos os seres são inter-retro-relacionados. Nós mesmos, seres humanos, somos um rizoma (bulbo com raízes) de relações voltado para todas as relações. Isso implica entender que todos os problemas ecológicos, econômicos, políticos e espirituais têm a ver uns com os outros. Tocando em um tocamos na rede toda das relações. A ação que fizermos afeta toda a rede de ações.

Esta compreensão holística supera a atomização dos saberes e fragmentação das atividades humanas. Só salvaremos a vida se nos alinharmos à esta lógica universal que é lógica da natureza com sua esplêndida diversidade. Todos os seres se entreajudam, até os mais débeis, pois também estes possuem um valor em si mesmo e comunicam alguma mensagem do universo.

Segue o texto da Carta Terra:” requer-se uma responsabilidade universal”. Responsabilidade significa dar-se conta das consequências de nossas ações, se são benéficas ou maléficas para o conjunto dos seres. Hans Jonas escreveu um livro clássico sobre o “Princípio Responsabilidade”. Ele inclui o princípio de prevenção e o de precaução. Na prevenção podemos calcular os efeitos quando interviermos na natureza. O princípio de precaução não nos permite medir as consequências e por isso não devemos arriscar com certas ações e intervenções porque podem produzir efeitos altamente danosos para a vida.

A responsabilidade deve ser universal, de todos. Não é assim que um grupo ou uma empresa assumam sua responsabilidade socioecológica, protegem o ar e garante a pureza das águas, enquanto outras não cuidam destes efeitos danosos e os consideram simplesmente como exterioridades (coisas que não entram na contabilidade dos negócios). Ou todos assumem uma atitude responsável, por isso universal, e assim praticamos comportamentos ecologicamente benéficos ou então seguiremos acumulando problemas para a vida e o futuro de nossa existência.

Mais ainda diz a Carta da Terra: “desenvolver e aplicar com invenção a visão (de um modo sustentável de vida). Nada de grande neste mundo sem fez sem a invenção do imaginário que projeta novos mundos e novos modos de ser. É aqui o lugar das utopias viáveis. Toda utopia alarga o horizonte e nos torna inventivos. O próprio ser humano emerge como um ser utópico, pois é um projeto infinito e um ser habitado pelo desejo, cuja natureza, segundo os antigos e Freud, é ilimitado. A utopia nos leva de horizonte a horizonte, fazendo-nos sempre caminhar na feliz expressão de Eduardo Galeano.

Para superar o modo costumeiro de habitar a Casa Comum, sem sequer tê-la descoberto (isso ocorreu somente a partir das viagens espaciais), explorando seus ecossistemas, descuidando das florestas, das águas, do ar puro e da fertilidade dos solos e de relações justas e fraternas nas sociedades, precisamos da invenção que nasce de uma utopia ou de um sonho. Toda utopia é, por natureza, irrealizável. Mas existem as utopias viáveis, aquelas que podemos juntos trazer para a realidade. Assim que precisamos sonhar com o planeta como “A Terra da Boa Esperança” (Ignace Sachs) antes de pôr as mãos no seu fazimento. Essa utopia é realizável pela humanidade, quando despertar de seu sono de um mundo de mão a mão e abri-se ao grande sonho possível de outro mundo possível e necessário.

Mais ainda afirma a Carta da Terra: “uma visão de um modo sustentável de vida. Estamos acostumados à expressão que está em todos os documentos oficiais e na boca da ecologia dominante “desenvolvimento sustentável”. Todas as análises sérias têm mostrado que o nosso modo de produzir, distribuir e consumir é insustentável. Vale dizer não consegue manter o equilíbrio entre o que tiramos da natureza e que lhe deixamos para sempre poder se reproduzir e coevoluir. Nossa voracidade tornou o planeta insustentável, pois se os países ricos quisessem universalizar seu bem-estar à toda a humanidade, precisaríamos, pelo menos, de três Terras iguais a esta, o que é absolutamente impossível.

O atual desenvolvimento que significa crescimento econômico medido pelo Produto Interno Bruto (PIB) revela espantosas desigualdades a ponto de a grande ONG Oxfam no seu informe de 2019 nos revelar que 1% da humanidade possui a metade da riqueza do mundo e que 20% controla 95% desta riqueza (do 1%) enquanto os restantes 80% têm que contentar-se com apenas 5% da riqueza. Tais dados revelam a completa insustentabilidade do mundo em que vivemos.

A Carta da Terra não se rege pela economia, mas pela vida. Daí o grande desafio consiste em criar um modo sustentável de vida e todos os âmbitos, pessoal, familiar, social, nacional e internacional. Para isso se impõem a necessidade de “um novo começo” e não apenas de melhorias, mantendo o sistema desigual.

Por fim, este modo sustentável de vida deve realizar-se no nível local, nacional, regional e global. Evidentemente se trata de um projeto global que deverá ser realizado com prazos, na medida em que cresce a consciência ecológica e nos dermos conta de nossa responsabilidade pelo futuro comum Terra e humanidade. Hoje o ponto mais avançado na busca da sustentabilidade se realiza no nível local e regional. Fala-se então do bioregionalismo como a forma realmente viável de concretizar a sustentabilidade. Tomando-se a região como referência, não segundo as divisões arbitrárias ainda persistentes, mas aquelas que a própria natureza fez com os rios, as montanhas, as florestas e outras que configuram um ecossistema regional. Dentro deste quadro pode realizar-se uma autêntica sustentabilidade, incluindo os bens naturais, a cultura e tradições locais, as personalidades que marcaram aquela história, com o favorecimento de pequenas empresas e uma agricultura orgânica, com a participação maior possível, num espírito democrático. Desta forma se propiciará um “bem viver e conviver” (o ideal ecológico andino) suficiente, decente e sustentável com a diminuição das desigualdades.

Esta visão formulada pela Carta da Terra é grandiosa e factível. O que mais precisamos é de boa-vontade, a única virtude que para Kant não possui nenhum defeito e limitação, pois se tiver, deixará de ser boa. Essa boa-vontade impulsionaria as comunidades e, no limite, a inteira humanidade a realmente realizar “um novo começo”.

Virtudes para um outro mundo possível

Esse modo sustentável de vida se traduz por práticas virtuosas que tornam real o modo sustentável de viver. São muitas as virtudes para um outro mundo possível. Serei breve, pois sobre isso publiquei três volumes com esse mesmo título “Virtudes para um outro mundo possível” (Vozes 2005-2006). Enumero 10 sem detalhar-lhes o conteúdo, o que nos levaria longe.

A primeira é o cuidado essencial. Chamo de essencial pois segundo uma tradição filosófica que nos vem dos romanos, atravessou os séculos e ganhou sua forma maior entre vários autores especialmente no núcleo central de Ser e Tempo de Heidegger. Aí se vê o cuidado como da essência do ser humano. Ele é a pré-condição para o conjunto de fatores que permitem a emergência da vida. Sem o cuidado a vida jamais irromperia e subsistiria. Alguns cosmólogos como Brian Swimme e Stephan Hawking viram no cuidado como a dinâmica mesma do universo. Se as quatro energias fundamentais não tivessem o sutil cuidado de atuarem sinergicamente, não teríamos o mundo que temos. Todo ser vivo depende do cuidado. Se nós não tivéssemos o infinito cuidado de nossas mães, não saberíamos como deixar o berço e buscar o nosso alimento, dado que somos seres biologicamente carentes, sem nenhum órgão especializado. Precisamos do cuidado de outros. Tudo o que amamos também cuidamos, tudo o que cuidamos também amamos. Face à natureza significa uma relação amigável, não agressiva e respeitosa de seus limites.

A segunda virtude é o sentimento de pertença à natureza, à Terra e ao universo. Somos partes de um grande Todo que nos desborda por todos os lados; somos a parte consciente e inteligente da natureza, somos aquela porção da Terra que sente, pensa, ama e venera. Esse sentimento de pertença nos enche de respeito, de encantamento e de acolhimento.

A terceira virtude é a solidariedade e a cooperação. Somos seres sociais que não apenas vivem mas convivem com outros. Sabemos pela bioantropologia que foi a solidariedade e a cooperação de nossos ancestrais antropoides que ao buscar o alimento e traze-lo para o consumo coletivo, lhes permitiu deixar para trás a animalidade e inaugurar o mundo humano. Hoje, no caso do coronavírus, o que nos está salvando é a solidariedade e a cooperação de todos com todos. Esta solidariedade deve começar pelos últimos e invisíveis sem o que, ela deixa de ser inclusiva de todos.

A quarta virtude é a responsabilidade coletiva. Já temos exposto o seu sentido acima. É o momento da consciência em que cada um e uma inteira sociedade se dão conta dos efeitos bons ou ruins de suas decisões e atos. Seria absolutamente irresponsável o desmatamento desenfreado da Amazônia pois desequilibraria o regime de chuvas de vastas regiões e eliminaria a biodiversidade indispensável para o futuro da vida. Nem precisamos nos referir a uma guerra nuclear cuja letalidade eliminaria toda a vida especialmente a humana.

A quinta virtude é a hospitalidade como dever e como direito. O primeiro a apresentar a hospitalidade como dever e como direito foi Immanuel Kant no seu famoso texto “Em vista da paz perpétua” (1795). Entendia que a Terra é de todos, pois, Deus não deu título de propriedade de algum pedaço dela a ninguém. Ela pertence a todos os habitantes que podem andar por todas as partes. Ao encontrarem alguém o dever de todos é oferecer a hospitalidade, como sinal de pertença comum à Terra e todos têm o direito de serem acolhidos, sem qualquer distinção. Para ele, junto com o respeito dos direitos humanos constituiriam as pilastras para uma república mundial (Weltrepublik). Esse tema é atualíssimo dado o número de refugiados e as muitas discriminações por vários títulos. Talvez seja uma das virtudes mais urgentes no processo de planetização embora uma das menos vividas.

A sexta virtude é a convivência de todos com todos. A convivência é um dado primário, pois todos viemos da convivência que nossos pais tiveram. Nós somos seres de relação que é o mesmo que dizer, não vivemos simplesmente, mas de forma diuturna convivemos. Participamos da vida dos outros, de suas alegrias e angústias. Especialmente custa a muitos a conviver com os diferentes, seja de etnia, de religião, de partido político. O importante é estar aberto à troca. O diferente sempre nos traz algo novo que nos enriquece ou desafia. O que jamais podemos fazer é transformar a diferença numa desigualdade. Podemos ser humanos de muitas formas diferentes, na forma brasileira, italiana, japonesa, yanomami. Mas cada forma é humana e possui a sua dignidade.     Hoje pelos meios de comunicação cibernéticos abrimos janelas para todos os povos e culturas. Saber conviver com essa diferença abre novos horizontes e entramos numa espécie de comunhão com todos. Esta convivência implica também a natureza, conviver com com as paisagens, com as florestas, com os pássaros e animais. Não apenas olhar para o céu estrelado, mas entrar em comunhão com as estrelas, pois delas viemos e formamos um grande Todo. Por fim, formamos uma comunidade de destino comum junto com a totalidade da criação.

A sétima virtude é o respeito incondicional. Cada ser, por menos que seja, possui valor em si mesmo, independentemente do uso humano. Quem desenvolveu o tema em profundidade foi Albert Schweitzer, grande médico suíço que foi ao Gabão na África para atender a hansenianos. Para ele o respeito é a base mais importante da ética, pois comporta acolhida, solidariedade e amor. Devemos começar com o respeito a nós mesmos, ao manter atitudes e modos dignos que suscitam o respeito dos outros. Importa respeitar todos os seres da criação, pois valem por eles mesmos; existem ou vivem e merecem existir ou viver. Mais que tudo, vale o respeito diante de cada pessoa humana, pois é portadora de dignidade, de sacralidade e de direitos inalienáveis, pouco importa sua procedência. Respeito supremo devemos ao Sagrado e a Deus, o mistério íntimo de todas as coisas. Só diante dele podemos cair de joelhos e reverenciar, pois só a Ele cabe esta atitude.

A oitava virtude é justiça social e igualdade fundamental de todos. A justiça é mais que dar a cada um o que é seu ; entre os humanos, a justiça é o amor o respeito mínimo que devemos devotar aos outros. A justiça social é garantir os mínimos a todas as pessoas, não criar privilégios e respeitar seus direitos em pé de igualdade, pois todos somos humanos e merecemos ser tratados humanamente. Desigualdade social significa injustiça social e, teologicamente, uma ofensa ao Criador e a seus filhos e filhas. Talvez ela seja a maior perversidade hoje existente que deixa milhões na miséria e condenados a morrer antes do tempo. Neste tempo de coronavírus se mostrou a violência da desigualdade social e da injustiça. Enquanto uns podem viver sua quarentena em casas ou apartamentos adequados, a grande maioria pobre é exposta à contaminação e, não raro, à morte.

A nova virtude é a busca incansável da paz. A paz é um dos bens mais ansiados, pois vivemos, por causa do tipo de sociedade que construímos, em permanente concorrência, apelos ao consumo e à exaltação da produtividade. A paz não existe em si, pois, ela é consequência de valores que devem ser vividos anteriormente e que têm como resultado a paz. Uma das mais pertinentes compreensões da paz nos vem da Carta da Terra, na qual se diz: “a paz é a plenitude que resulta de relações corretas consigo mesmo, com outras pessoas, com outras culturas, com outras vidas, com a Terra e com o Todo maior do qual somos parte”(n.16 f). Como se depreende, a paz é consequência de relações adequadas e é o fruto da justiça social. Sem estas relações e a justiça só conheceremos tréguas, mas nunca uma paz permanente.

A décima virtude é o cultivo do sentido espiritual da vida. O ser humano possui uma exterioridade corporal com a qual nos relacionamos com o mundo e as pessoas; temos uma interioridade psíquica onde se aninham, na estrutura de desejo, nossas paixões, os grandes sonhos e nossos anjos e demônios que devemos controlar estes últimos e cultivar amorosamente os primeiros. Só assim gozaremos de um equilíbrio necessário para a vida.

Mas possuímos também a profundidade, aquela dimensão onde habitam as grandes interrogações da vida: quem somos, de onde viemos, para onde vamos, o que podemos esperar depois desta vida terrena? Qual é a Energia Suprema que sustenta o firmamento e conserva nossa Casa Comum ao redor do Sol e a mantém sempre viva para nos permitir viver? É a dimensão espiritual do ser humano feita de valores intangíveis como o amor incondicional, a confiança na vida, a coragem de enfrentar as agruras inevitáveis. Damo-nos conta de que o mundo está repleto de sentidos, que as coisas são mais que coisas, pois são mensagens e possuem um outro lado invisível. Intuímos que há uma Presença misteriosa que perpassa todas as coisas. As tradições religiosas e espirituais chamaram a esta Presença de mil nomes, sem, contudo, poder decifrá-la totalmente. É o mistério do mundo que remete ao Mistério Abissal que faz ser tudo aquilo que é. Cultivar este espaço nos humaniza, nos torna mais humildes e nos enraíza numa realidade transcendente, adequada ao nosso desejo infinito.

Conclusão:  ser simplesmente humanos

A conclusão que tiramos destas longas reflexões a propósito do coronavírus 19 é: devemos ser simplesmente humanos, vulneráveis, humildes, ligados uns aos outros, parte da natureza e a porção consciente e espiritual da Terra com a missão de cuidar da herança sagrada que recebemos, a Mãe Terra, para nós e para as futuras gerações.

Inspiradoras são as últimas frases da Carta da Terra: “Que o nosso tempo seja lembrado pelo despertar de uma nova reverência face à vida, pelo compromisso firme de alcançar a sustentabilidade mediante a intensificação da luta pela justiça e pela paz, na alegre celebração da vida”

sábado, 2 de maio de 2020

Como pensar o Pós-Planeta Confinamento Os tempos pedem que ajamos como poetas, não como políticos

O jornalista Pepe Escobar escreve sobre o cenário global depois da pandemia do coronavírus: "Não é a crise do Covid-19 que levará a um outro mundo - mas a reação da sociedade à crise."

Por Pepe Escobar, para o Asia Times
Tradução de Patrícia Zimbres, para o 247

Entre a falta de responsabilização das elites e a total fragmentação da sociedade civil, o Covid-19, como um circuit breaker, está mostrando que o rei - o design sistêmico - está nu. 

Estamos sendo sugados para dentro de uma dança macabra de múltiplos sistemas complexos "colidindo uns com os outros", produzindo uma infinidade de ciclos de realimentação, na sua maioria negativos.

O que já sabemos com certeza, como Shoshana Zuboff demonstrou em detalhes em seu The Age of Surveillance Capitalism (A Era do Capitalismo de Vigilância), é que "o capitalismo industrial seguiu sua própria lógica de choque e terror" para conquistar a natureza. Mas agora o capitalismo de vigilância "está de olho na natureza humana".

Em The Human Planet: How We Created the Anthropocene (O Planeta Humano: Como Criamos o Antropoceno), analisando o crescimento populacional explosivo, o aumento do consumo de energia e o tsunami de informações "movidos a ciclos de realimentação positivos de reinvestimento e lucro", Simon Lewis e Mark Maslin, do University College de Londres, sugerem que nosso atual modo de vida é a "menos provável" entre diversas opções possíveis. "Um colapso ou uma troca para um novo modo de vida é mais provável".
Com a distopia e a paranoia em massa parecendo ser a lei da (perplexa) terra, as análises de Michel Foucault sobre biopolítica nunca foram tão oportunas, agora que estados de todo o mundo assumem o biopoder - o controle sobre a vida e os corpos das pessoas.

David Harvey, mais uma vez, demonstra o quanto Marx foi profético, não apenas em suas análises do capitalismo industrial mas, também no Grundrisse: Fundações da Crítica da Economia Política – onde ele chegou a prever os mecanismos do capitalismo digital.

Marx, escreve Harvey, "fala de como as novas tecnologias e o novo saber se incorporam à máquina: eles deixam de residir no cérebro do trabalhador, e o trabalhador é empurrado para a margem, tornando-se um mero apêndice da máquina, um mero cuidador de máquinas. Toda a inteligência e todo o saber que antes pertenciam aos trabalhadores e conferiam a eles um certo monopólio de poder frente ao capital, agora desaparecem".
  
Assim, Harvey acrescenta, "O capitalista, que antes precisava das habilidades do trabalhador, agora se livra dessa limitação, e a habilidade é incorporada à máquina. O conhecimento produzido pela ciência e pela tecnologia é canalizado para a máquina, e a máquina se torna a 'alma' do dinamismo capitalista.

A vida na 'deflação psíquica' 

Um efeito imediato - de ordem econômica - da colisão de sistemas complexos é a Nova Grande Depressão que se aproxima. Enquanto isso, muito poucos tentam entender em profundidade o Planeta Confinamento e, principalmente, o Pós-Planeta Confinamento. Entretanto, uns poucos conceitos já se destacam. Estado de exceção. Necropolítica. Um novo brutalismo. E, como veremos, um novo paradigma viral.

Vamos, portanto, recapitular o que disseram algumas das melhores e mais brilhantes cabeças da vanguarda do pensamento sobre o Covid-19. Um excelente mapa de viagem é a Sopa de Wuhan, uma coletânea independente publicada em língua espanhola, trazendo ensaios de, entre outros, Giorgio Agamben, Slavoj Zizek, Judith Butler, David Harvey, o sul-coreano Byung-Chul Han e o espanhol Paul Preciado.

Os dois últimos, juntamente com Agamben, foram mencionados em ensaios anteriores desta série sobre os estoicos, Heráclito, Confúcio, Buda e Lao-Tzu, e também sobre filosofia contemporânea, em A Cidade em Tempo de Peste.

Franco Berardi, ícone do movimento estudantil de 1968 e agora professor de filosofia em Bolonha, propõe o conceito de "deflação psíquica" para explicar a dificílima situação por que estamos passando. Estamos vivendo em uma "epidemia psíquica... gerada por um vírus, no momento em que a Terra atingiu um estágio de extrema irritação e o corpo coletivo da sociedade sofre, o que vem acontecendo já há bastante tempo, um estado de tensão intolerável: a doença se manifesta nesse estágio, devastando as esferas sociais e psíquicas, como uma reação de autodefesa do corpo planetário".

Então, como propõe Berardi, um "vírus semiótico na psicosfera bloqueia o funcionamento abstrato da economia ao subtrair dela corpos".  Apenas um vírus seria capaz de paralisar por completo a acumulação do capital: "O capitalismo é axiomático, ele opera com base em uma premissa não-verificada (a necessidade de crescimento ilimitado que torna possível a acumulação de capital).

Toda concatenação lógica e econômica é coerente com esse axioma, e nada pode ser testado fora desse axioma. Não há saída política que permita escapar do capitalismo axiomático, não há possibilidade de destruir o sistema", porque até mesmo a linguagem é refém desse axioma e não admite a possibilidade de nada que seja "eficientemente extra sistêmico".

Então, o que sobra? "A única saída é a morte, como aprendemos com Baudrillard". O falecido grande mestre do simulacro já previa uma paralisação sistêmica nos pós-modernos anos 80.
  
O filósofo croata Srecko Horvat , por outro lado, traz uma hipótese menos conceitual e mais realista sobre o futuro imediato: "O medo da pandemia é mais perigoso que o próprio vírus. As imagens apocalípticas da mídia de massa escondem um nexo profundo entre a extrema-direita e a economia capitalista. Tal como um vírus que precisa de células vivas para se reproduzir, o capitalismo irá se adaptar à biopolítica do século XXI.

Para o químico e filósofo catalão Santiago Lopez Petit, o coronavírus pode ser visto como uma declaração de guerra: "O neoliberalismo, desavergonhadamente, se fantasia de estado de guerra. O capital está apavorado", mesmo que "a incerteza e a insegurança invalidem a necessidade de um tal estado". No entanto, pode haver possibilidades criativas quando a vida obscura e paroxística, incalculável em sua ambivalência, escapa do algoritmo".

Nossa exceção normalizada 

Giorgio Agamben provocou imensa controvérsia na Itália e por toda a Europa quando, em fins de fevereiro, publicou uma coluna sobre a "invenção de uma epidemia". Ele, mais tarde, teve que explicar o que queria dizer. Mas seu principal insight permanece válido: o estado de exceção foi completamente normalizado.
E fica ainda pior. "Um novo despotismo que, em termos dos controles onipresentes e da cessação de toda e qualquer atividade política, será pior que os totalitarismos que conhecemos até agora".

Agamben insiste em suas análises da ciência como sendo a religião de nosso tempo: "A analogia com a religião é tomada literalmente; os teólogos declararam não serem capazes de definir o que Deus é, mas em Seu nome ditaram regras de conduta aos homens e não hesitaram em queimar heréticos. Os virologistas admitem não saber exatamente o que um vírus é, mas em seu nome fingem decidir como os seres humanos irão viver".

O filósofo e historiador camaronense Achille Mbembe, autor de dois livros indispensáveis, Necropolítica e Brutalismo, identificou o paradoxo de nosso tempo: "O abismo entre a crescente globalização dos problemas da existência humana e o recuo dos países para dentro de suas velhas e antiquadas fronteiras".

Mbembe investiga o fim de um certo mundo, "dominado por gigantescos dispositivos de cálculo", um mundo móvel no sentido mais polimórfico, viral e quase cinematográfico", referindo-se à ubiquidade das telas (novamente o Baudrillard da década de 80) e à lexicografia, "que revela não apenas uma mudança de linguagem mas o fim do mundo".

Aqui temos Mbembe dialogando com Berardi – mas Mbembe leva a questão muito mais longe: "Esse fim de mundo, esse triunfo definitivo do gesto e dos órgãos artificiais sobre a palavra, o fato de que a história da palavra chega ao fim frente a nossos olhos, esse para mim é o desenvolvimento histórico por excelência, o que o Covid-19 revela.

As consequências políticas são inevitavelmente terríveis: "Parte da política de poder das grandes nações não residiria no sonho de uma organização automatizada do mundo graças à fabricação de um Novo Homem que seria o produto de montagem fisiológica, montagem sintética e eletrônica e montagem biológica? Chamemos a isso de tecno-libertarianismo".
  
Isso não é exclusivo do Ocidente: "A China está no mesmo caminho, vertiginosamente".

Esse novo paradigma de uma pletora de sistemas automatizados e decisões algorítmicas "onde a história e a palavra não existem mais, choca-se frontalmente com a realidade de corpos de carne e osso, micróbios, bactérias e líquidos de todos os tipos, o sangue inclusive".

O Ocidente, afirma Mbembe, há muito optou por "imprimir um curso dionisíaco a sua história, levando consigo o resto do mundo, mesmo que este não entenda. O Ocidente não conhece mais a diferença entre começo e fim. A China está no mesmo caminho. O mundo foi mergulhado em um vasto processo de dilaceramento, onde ninguém é capaz de prever as consequências".


Isso, acrescenta ele, corresponde ao nosso novo paradigma viral.

Sua análise certamente se encaixa com a de Agamben: "Tenho a impressão de que o brutalismo vai se intensificar sob o ímpeto tecno-libertarianista, seja na China ou sob as roupagens da democracia liberal. Da mesma forma que o 11 de setembro abriu caminho para um estado de exceção generalizado e para sua normalização, a luta contra o Covid-19 será usada como pretexto para aproximar ainda mais a política do domínio da segurança".

"Mas desta vez", acrescenta Mbembe, "será uma segurança quase biológica, comportando novas formas de segregação entre os "corpos imunes" e os "corpos virais".  O viralismo se transformará no novo palco para o fracionamento das populações, agora identificadas como espécies distintas".

Parece mesmo um neo-medievalismo, uma reencenação digital do fabuloso afresco O Triunfo da Morte, em Palermo.

Poetas, não políticos

É útil contrastar toda essa ruína sombria com a perspectiva de um geógrafo. Christian Grataloup, um excelente geo-historiador, insiste em um destino comum para a humanidade (aqui ele ecoa Xi Jinping e o conceito chinês de "comunidade de destinos compartilhados": "Há um sentimento de identidade sem precedentes. O mundo não é simplesmente um sistema espacial econômico e demográfico, ele se transforma em um território. Desde as Grandes Descobertas tudo o que era global vinha encolhendo, resolvendo uma série de contradições. Agora, temos que aprender a reconstruí-lo, dar-lhe mais consistência, uma vez que corremos o risco de deixá-lo apodrecer com as tensões internacionais".

Não é a crise do Covid-19 que levará a um outro mundo - mas a reação da sociedade à crise. Não haverá uma noite mágica, com shows dos pop stars da "comunidade internacional", quando a vitória será anunciada ao antigo Planeta Confinamento.
  
O que é realmente importante é o longo e árduo combate político que nos levará ao próximo nível. Os conservadores extremos e os tecno-libertarianistas já tomaram a iniciativa - da recusa à tributação sobre grandes fortunas para socorrer as vítimas da Nova Grande Depressão até a obsessão com a dívida, que impede novos e necessários gastos públicos.
   
Nesse quadro, proponho ir além da biopolítica de Foucault. Gilles Deleuze pode ser o conceituador de uma nova e radical liberdade. Aqui temos uma deliciosa série britânica que pode ser curtida como se fosse um enfoque sério à la Monty Python a Deleuze.

Foucault foi insuperável na descrição de como o significado e os quadros de verdades sociais mudam ao longo do tempo, constituindo em novas realidades condicionadas por poder e conhecimento.

Deleuze, por outro lado, concentrou-se em como as coisas mudam. Movimento. Nada é estável. Nada é eterno. Ele conceituou o fluxo - de forma muito heracliteana.

As novas espécies (até mesmo o novo Ubermensch criado pela Inteligência Artificial) evoluem em relação a seu ambiente. É usando Deleuze que podemos investigar como os espaços entre as coisas criam possibilidades para O Choque do Novo.

Mais que nunca, sabemos agora que tudo é conectado (obrigado, Spinoza). O mundo (digital) é complicado, interconectado e misterioso a ponto de abrir um número infinito de possibilidades.

Já nos anos 1970, Deleuze dizia que o novo mapa - a potencialidade inata da novidade - deveria ser chamado de "o virtual". Quanto mais a matéria viva se complexifica, mais ela transforma esse virtual em ação espontânea e movimentos imprevistos.

Deleuze colocou um dilema que agora nos confronta em termos ainda mais radicais. A escolha entre "o poeta, que fala em nome do poder criativo, capaz de subverter todas as ordens e representações para afirmar a diferença no estado de revolução permanente que caracteriza o eterno retorno; e o político, que se preocupa, acima de tudo, em negar aquilo que 'difere', a fim de conservar ou prolongar a ordem histórica estabelecida, ou de estabelecer uma ordem histórica que já faz surgir no mundo as formas de sua representação".

Os tempos nos chamam a agir como poetas, e não como políticos.

A metodologia talvez possa ser a exposta por Deleuze e Guattari no seu formidável  Mil Platôs – que traz o significativo subtítulo de Capitalismo e Esquizofrenia, onde o movimento é não-linear. Estamos falando de filosofia, psicologia, política, conectadas por ideias que correm em diferentes velocidades, em um incessante movimento contínuo que mistura linhas de articulação, em diferentes estratos, dirigidas a linhas de voo, movimento de desterritorialização.

O conceito de "linhas de voo" é essencial para essa nova paisagem virtual, porque o virtual é formado por linhas de voo entre diferenças, em um processo contínuo de mudança e liberdade.

Todo esse frenesi, contudo, tem que ter raízes - como nas raízes de uma árvore (a do conhecimento). E isso nos leva à metáfora central de Deleuze, o rizoma, que é não apenas uma raiz, mas uma massa de raízes brotando em novas direções.

Deleuze mostrou como o rizoma conecta assembleias de códigos linguísticos, relações de poder, as artes - e, o mais importante, a biologia. O hyperlink é um rizoma, que antes representava um símbolo da deliciosa falta de ordem da Internet, até ser aviltado, quando o Google começou a impor seus algoritmos. Os links, por definição, deveriam sempre nos levar a destinações inesperadas.

Os rizomas são as antíteses dos traços-padrão da "democracia" liberal ocidental – o parlamento e o senado. As trilhas, ao contrário, são rizomas - como na trilha Ho Chi Minh. Não há plano ordenador. Múltiplas entradas e múltiplas possibilidades. Sem começo nem fim. Como Deleuze o descreveu, "O rizoma opera por variação, expansão, conquista, captura, ramificações".

Isso pode servir de projeto para uma nova forma de participação política que se seguiria à queda do design sistêmico. Esse projeto incorpora uma metodologia, uma ideologia, uma epistemologia, sendo também uma metáfora. O rizoma é inerentemente progressivo, enquanto as tradições são estáticas. Como metáfora, o rizoma pode substituir nossa concepção de história como linear e singular, oferecendo diferentes histórias que se movem em diferentes velocidades. A TINA, ou "não há alternativa“ (There Is No Alternative) está morta: há alternativas múltiplas.

E isso nos traz de volta a David Harvey inspirado em Marx. Para embarcar em um novo caminho emancipador, temos que antes nos emancipar a nós mesmos e ver que um novo imaginário é possível, paralelamente a uma nova realidade de sistemas complexos.

Então, vamos relaxar - e desterritorializar. Se aprendermos a fazer isso, o advento do Novo Tecno-Homem vivendo em servidão voluntária e controlado remotamente por um estado de segurança todo-poderoso que tudo vê deixará de ser fatal.
  
Deleuze: um grande escritor é sempre como que um estrangeiro na língua por meio da qual ele se expressa, mesmo que ela seja sua língua materna. Ele não mistura uma outra língua com a sua própria língua. Ele constrói uma língua estrangeira não pré-existente dentro de sua própria língua. "Ele faz a própria língua gritar, gaguejar, murmurar. Um pensamento deveria brotar rizomaticamente - em muitas direções.

Estou resfriado. O vírus é um rizoma.

Lembra-se de quando Trump disse que este era um "vírus estrangeiro"?

Todos os vírus são estrangeiros – por definição.

Mas Trump, é claro, nunca leu o Almoço Nu do Grande Mestre William Burroughs.

Burroughs:  A palavra é um vírus".