quinta-feira, 27 de agosto de 2020

INOVAR A INOVAÇÃO

 

Texto postado no blog de discussão do curso “CURSO DE PARCERIAS EM CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO: compras públicas de inovação e encomendas tecnológicas. Promovido pela Prefeitura de Maricá, através do Instituto de Ciiência, Tecnologia e Inovação de Maricá, em parceria com a escola de Administração de Maricá.

 

INOVAR A INOVAÇÃO

 

O maior perigo em tempos de turbulência,

não é a turbulência em si, mas agir com a lógica do passado.

Peter Druker

 

Vivemos há mais de 400 anos sob o domínio do poder do capital. Neste interim, aconteceram “n” crises por conta de sua incoerência. Foram “n” crises não resolvidas, todas contornadas por novas facetas do mesmo. Primeiro o Mercantil, depois o industrial, e o atual, financeiro, que ainda não se recuperou da crise de 2008. Ao longo de suas fases e séculos, sempre se pautou a partir da escassez, para que poucos acumulassem capital.

 

A grande desigualdade que foi sendo criada ao longo do tempo, e a destruição do planeta, seus recursos e clima, só recentemente começou a ser entendida e também negada pelos defensores do sistema, mais radicais. A surpresa, não tão surpresa assim, da pandemia causada pela Covid-19, fez com que a máscara da prosperidade sem fim, caísse. A ponto de alguns grandes, hoje pensarem em até, voltarem a fazer alguma concessão ao velho “Estado de Bem Estar”. Tentam inclusive se apropriar da Agenda 2030 da ONU.

 

O que isso tem a ver com a inovação? Começo lembrando a citação do Peter Druker colocada acima.

 

Segundo o relatório Oxfam de 2019, 2.153 bilionários detém a mesma riqueza que 60% da população da Terra, algo próximo a mais de 4 bilhões e 600 milhões de pessoas[i]. E continuamos a pensar em Tríplice Hélice, e achar que inovação é aquilo que chega ao mercado e a sociedade. Pergunto: qual mercado e qual sociedade?

 

Aprendi o significado do mundo VUCA, que em uma das características, da Complexidade, por exemplo, é baseada no enxergar o todo, no contexto e ambiente em que se dá o problema. Se é para abrir o campo de visão, não devemos ignorar o ambiente e no que vai mudar a vida das pessoas como um todo, e não somente daquela parte que dizem ser necessária para manter o sistema, aqueles 20% da população mundial.

 

Transformemos a Hélice em Quíntupla: Academia, Empresa, Governo, Sociedade e Ambiente. Com certeza poderemos atingir mais do que os tradicionais 20% da população. Pois se assim não for, as chances do novo capitalismo bater à porta, são fortes: o capitalismo da vigilância. Esse poderá vir a ser o Novo Normal.

 

Que as inovações sejam auto disruptivas.

 

Há braços.

Sérgio Mesquita

 

*Transformar em imperdoável o que hoje é aceitável*

sexta-feira, 31 de julho de 2020

Thammy Miranda, Natura, a categoria social pai e o que a antropologia do consumo tem a ver com isso

·        Publicado em 29 de julho de 2020

Valéria Brandini, PhD

 "You can't stop the world from changing, dad". Essa frase é da personagem Blanca Trueba, filha de Steban Trueba, na obra "A casa dos espíritos" de Isabel Allende (1985), dita quando a jovem conversa com o pai, um latifundiário conservador, a respeito das revoltas de trabalhadores e do momento revolucionário do Chile no início dos anos 1970. A frase diz muito sobre os tempos em que vivemos e sobre a forma como as pessoas em seus diferentes backgrounds percebem e se relacionam com as mudanças de paradigmas de um mundo vivendo entre extremos.

 Como cientista social, meu papel não é dizer às pessoas, em especial, às empresas, o que elas devem ou não abraçar ideologicamente, ou rechaçar, mas traçar um mapa das sensibilidades emergentes e investigar a forma como as pessoas absorvem esses indicadores culturais de valores e como reagem a eles, conforme os códigos de valores estruturantes de seu grupo social. E hoje, mais do que nunca, a sensibilidade à diversidade e à inclusão social emerge como a tônica determinante do consumo ideológico. Eu ouvi consumo? Sim. Pois o que mais consumimos, para além de produtos, são significados codificados em bens e em todo tipo de comunicação, da pauta jornalística à publicitária. O mercado e a publicidade sempre operaram como um léxico dos significados do momento presente, já dizia o antropólogo Everardo Rocha (1985), pois o mercado precisa absorver essas sensibilidades emergentes para codificar produtos e criar o "cenário que embala" os bens de consumo, o que hoje entendemos como storytelling.

 Sem essa "codificação" atribuída aos bens, os produtos não teriam o capital simbólico percebido que se converte em capital financeiro, ou seja, no mundo do homo economicus, eles não teriam "valor percebido" suficiente para orientar o princípio de tomada de decisão de consumo. Um perfume é apenas um líquido que ao ser utilizado na pele emana um odor. Mas o que desperta um universo de sentidos associados a esse odor para o consumidor tem a ver com a marca que o produz e todos os significados atribuídos por meio da construção simbólica da propaganda. A publicidade traz o "cenário", o sistema da moda, da produção e reprodução de tendências incorporadas a bens que, conforme Grant McCracken (2004), compõe o par que transmite os significados do mundo social em que vivemos, do mundo culturalmente construído aos produtos.

 Toda essa introdução de Antropologia do Consumo para dizer que, não importa se você, como indivíduo, aceita ou não, reconhece como legítimo, ou não, o fato de a marca Natura trazer o pai transexual Thammy Miranda como seu ícone para a campanha de Dia dos Pais. A fricção causada pela polêmica da campanha faz parte de todo o composto da incorporação de sensibilidades emergentes na codificação de produtos. A própria tentativa de "cancelamento" por parte de indivíduos e grupos conservadores também é um elemento chave desse mosaico, pois vai instigar ânimos e posições contrárias e favoráveis e isso vai levar a marca ao topo dos trend topics. E se perder consumidores, também é parte da contabilização de perdas e ganhos que contempla a estratégia de campanha a partir do posicionamento de marca frente a indicadores culturais do momento presente.

 As marcas, o mercado, a publicidade não "criam" esses temas, apenas se apropriam deles para atribuir os sistemas de significados da nossa sociedade - seus pontos de fricção, suas dores e suas alegrias - aos bens de consumo, a começar pela comunicação que consumimos. Então, se você, sua família, seu grupo de amigos, seu grupo ideológico não aceitam que um homem trans seja o símbolo de pai na campanha de uma marca, sua "treta" não é com essa marca, é com a sociedade e sua constante transformação no código de valores culturalmente construído e socialmente operado. Sua briga não é com a Natura, mas é com o mundo que está mudando - sempre - e que no presente imediato incorpora como código cultural a perspectiva e lugar de fala de grupos que foram durante a história humana, oprimidos, excluídos, execrados, destituídos de poder e de lugar de fala. E minha perspectiva aqui não é militante, nem passional, mas baseada em indicadores culturais e mapeamento de sensibilidades emergentes e sua capilarização na sociedade como um todo.

 A cultura das bordas sempre foi o maior polo de inovação para o mercado, que sempre se apropriou, expropriou e manipulou os signos de movimentos e manifestações de grupos excluídos para codificar produtos, trazendo o signo e deixando o significado de fora, trazendo o elemento cultural e deixando o grupo produtor de seu significado em seu espaço de exclusão social. O que mudou, é que agora o mercado entendeu que continuar na dinâmica de apropriação cultural não coaduna com a sensibilidade emergente no mundo social que diz respeito, justamente, não mais ao signo, mas ao produtor de significado. Não adianta trazer a cultura negra, se não trouxer a comunidade negra para a pauta publicitária e dar a ela seu lugar de fala por direito. Não adianta trazer signos do mundo LGBTQ+, se não trouxer o indivíduo que produz os significados codificados em produtos, suas dores, sua experiência, sua vivência.

 Então, quem se incomoda com um homem trans como pai numa campanha de marca de cosméticos, tem uma questão muito maior do que "o cancelamento da marca" para lidar, sua questão é com o código cultural presente, com os valores que hoje são compartilhados e moldam a perspectiva, o pensamento e o comportamento das pessoas. Seu problema é com um mundo em mudança, não com uma marca. E cada um escolhe as batalhas que quer lutar.

 #thammymiranda #natura #antropologiadoconsumo #consumoideologico #businessanthropology #naturathammymiranda #valeriabrandini #socialbranding #naturadiadospais #LGBTQ+ #inclusaosocial #diversidade

 


segunda-feira, 20 de julho de 2020

Como o coronavírus vai mudar nossas vidas - Uma outra visão


Em 13.07.20, o El País publicou a seguinte matéria: “Como o coronavírus vai mudar nossas vidas: dez tendências para o mundo pós pandemia”. Excelente matéria onde concordo com o colocado lá, porém com ressalvas. Por quê?

Acabei por lembrar do excelente livro do Alvin Toffler, “A Terceira Onda”, onde a questão do “home office” já era tradada ainda no começo da década de 80, quarenta anos atrás. Um dos problemas colocados foi que, casais que se davam bem, poderiam vir a brigar mais por conta da convivência ou, a se conhecerem mais por conta desta mesma convivência. O que é verdade. Vemos isto nos dias de hoje. O que me incomodou foi que, questões como carga horária a ser prestada, trabalho nos fins de semana, e outros problemas, não foram levados em conta. Problemas estes que se repetem/continuam nos dias atuais. A ponto da França, proibir e-mail de trabalho fora do horário do expediente, como um rápido exemplo.

Participo de grupos de discussão sobre nova governança das cidades, renda básica – moro em Maricá, onde mais de 40 mil moradores recebem uma renda em sua moeda local - e o futuro do trabalho. Não existe incoerência entre os desejos e o que a tecnologia poderá nos permitir fazer. O problema está em nossas cabeças e, em especial, na cabeça dos donos das corporações, do empresariado em geral, que no Brasil, em sua esmagadora maioria, é escravocrata.

Como lidar com pessoas que, ao menor movimento de “abertura” do isolamento, lota os shoppings, bares e deixam de promoverem festas as escondidas? Como convencer estas pessoas, onde algumas voltam a discutir se a Terra é plana, dos benefícios e das responsabilidades que, a mesma tecnologia que pode nos permitir uma vida longa, também pode nos matar? Como convencer as corporações, aliadas ao “deep state”, o estado profundo, seja de qual banda for, em não enxergar o isolamento social como possibilidade de confinamento/reclusão das populações para que não aconteçam manifestações? Como convencer ao “deep state” a não usar o chip ID2020, proposto pela ONU como um chip de identificação pessoal, em um chip de vigilância? A pandemia não gerou crise financeira, ela foi o alfinete que furou a bolha que escondia a crise. A crise é mais uma do sistema capitalista que, até hoje não resolveu a sua primeira crise, ainda no século XIX. O capitalismo sempre contorna suas crises, e atual não é exceção. O “deep state”, estuda a substituição do capitalismo financeiro, pelo capitalismo de vigilância. Mais uma mágica que não discutimos, mas eles estão.

A pandemia, não nos leva só a pensar em mudanças em nossa vida, para melhorar a nossa qualidade de vida e da manutenção do planeta. Para nós é fácil! Mas não podemos ignorar que existe um “lado negro da força”, que continuará desmatando, produzindo plásticos e derivados do petróleo até a exaustão da fonte e/ou perda de sua lucratividade. A experiencia de isolamento social, de quase metade da população, está sim, sendo estudada como possibilidade de futuras confinamentos/prisões domiciliares em massa pelos os defensores do capitalismo, dos “bonzinhos” aos perversos. O mesmo Hobsbawm citado na matéria, define bem a democracia ocidental em seu texto “As perspectivas da democracia”, publicado em seu livro “Globalização, Democracia e Terrorismo”:

 “(...) A política, por conseguinte, continuará. Como continuaremos a viver em um mundo populista, em que os governos tem que levar em conta ‘o povo’, e o povo não pode viver sem os governos, as eleições democráticas também continuarão. Hoje existe um reconhecimento praticamente universal de que elas dão legitimidade e proporcionam aos governos, paralelamente, um modo conveniente de consultar ‘o povo’ sem necessariamente assumir qualquer compromisso muito concreto. (...)”. Trocando em miúdos, capitalismo não combina com democracia.

Finalizando, defendemos em Maricá, que as tecnologias devem ser trabalhadas como ferramenta de resgate das humanidades. O momento não é de radicalização de soluções, acredito mais nas soluções híbridas, que envolvam a tecnologia e os olhos nos olhos. Pois não enxergo a possibilidade de existência de ambientes criativos com você isolado em quarto. E não devemos ignorar que existem no mundo, aqueles que pensam diferente da gente.

Certo é que a Luta continua, e continua sendo de Classe.


“Transformar em insuportável o que hoje é aceitável”
Octávio Ferraz

Há braços,

Sérgio Mesquita
Diretório Municipal PT-Maricá/RJ

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Militância Ideológica como Soberba e Manipulação: o Perigo do Esvaziamento das Causas Sociais no Mercado - Separando o Joio do Trigo



O papel do cientista junto à sociedade vem sendo, com ênfase, desde o século XX, o de denúncia acerca de padrões de comportamento, ideias e normas adotadas que causam desigualdade e ferem indivíduos e grupos em desigualdade de poder. Mas também é papel do cientista, manter um mínimo de isenção, a fim de não tornar-se ele um escravo de ideologias e perder a sua maior vocação - a capacidade crítica que lhe confere uma visão científica dos fatos. É claro que enquanto parte da sociedade, a extrema objetividade é uma ilusão. Mas é obrigação do cientista (e digo isso no lugar de fala de alguém que há 25 anos atua na ciência que mais necessita desse espaço de distanciamento posterior à imersão cultural - a antropologia) trabalhar esse distanciamento para que sua atuação na sociedade seja a de separar o joio do trigo, na apreensão e decodificação de fatos, narrativas, movimentos, ideologias, comportamentos e indicadores socioculturais.

Há 25 anos desenvolvi uma pesquisa de mestrado sobre a indústria fonográfica onde mapeei a relação entre produtores independentes e grandes gravadoras, onde diagnostiquei uma relação simbiótica onde não existem "mocinhos e bandidos", mas um movimento de apropriação cultural do mercado e expropriação de conteúdos, onde se separa o signo do significado para tornar o código cultural dos outsiders um "produto", ao ressignificar elementos culturais desterritorializados de sua origem. Parece sopa de letrinha? Mas é fácil entender: o mercado expropria o sentido original do movimento gótico e cria a tendência "gótica suave". O consumidor quer o o sentido de autenticidade do outsider para que o produto tenha uma lógica de diferenciação que atraia, mas quer o conforto e segurança de "não ter contato com os outsiders, os excluídos, os marginalizados". Fetiche da mercadoria? Mercado predatório? Apropriação cultural? Expropriação? É tão fácil dar uma solução óbvia e que veste ideologias, mas durante a pesquisa percebi que, é graças a esse sistema que muitos produtores alternativos conseguem se alavancar e que é assim que bandas, selos, produtores culturais e toda uma gama de pessoas excluídas de um sistema consegue viabilizar sua produção. Os alternativos "se relacionam" com os majors e é onde conseguem estabelecer seu valor e seu preço, sua distinção e elevam seu grupo a objeto de desejo, conseguindo levar sua mensagem e seus códigos ao Outro.

Já no doutorado, há 22 anos, minha pesquisa, realizada entre Brasil, Inglaterra e Itália teve como objetivo mapear a relação entre a indústria do vestuário e a cultura urbana dos excluídos esteticamente, onde uma vertente da moda inglesa tornou aquilo que a moda mais abominava, tendência estética em voga, como quando Alexander Mcqueen vestiu Aimée Mullins, uma atleta com as pernas amputadas como Joana D'arc num desfile e colocou uma mulher obesa nua numa caixa de vidro em outro desfile, mostrando que o mercado faz o mesmo processo de se apropriar da cultura das margens para gerar significados para as elites. Na mesma lógica do meu mestrado, mapeei, há 20 anos, o processo de apropriação de culturas excluídas e como seus indivíduos, ao mesmo tempo que tem seus conteúdos expropriados, também conseguem "dar seu preço", numa relação onde conseguem ser "vistos" e valorizados justamente naquilo que a sociedade rejeita, pois aí reside a chave da inovação e diversidade que alimentam o sistema e que a elite não consegue produzir, pois não tem o "raw", o significado gutural capaz de impactar, surpreender, diferenciar do "mais do mesmo". O sistema continua predatório, mas os excluídos, também aqui, se relacionam com o sistema e levam sua mensagem e seu "preço", o que repercute em capital de valor.

Todo esse "recitativo de currículo acadêmico chato e autorreferencial" (rs) pra dizer que, 20 anos depois vejo com grande alegria, mas sem espanto, a tendência mundial de ascensão de grupos excluídos na mídia, no mercado, no sistema e sua - necessária - exigência de respeito, de valorização, de reconhecimento à sua dignidade como indivíduos e como grupo. Há 20 anos quando falávamos sobre o racismo, a homofobia e o sexismo no mercado, éramos os loucos, os chatos, os acadêmicos que não entendem nada de como a economia funciona. Quando falávamos sobre como o preconceito é estrutural e não é compreendido mesmo pelos grupos que sofrem dele, pois é naturalizado, recebíamos pedras e deboche.

Pois bem, no momento atual, onde o mercado se apropriou das causas sociais - tema do meu último pos doc - "A Era das Causas - O Propósito como Capital de Valor" - vejo indivíduos, grupos, profissionais e marcas "comprarem a briga contra o preconceito" e isso é tão essencial, necessário e manifestação macro do processo que estudo há 25 anos, que quando observo com o distanciamento necessário para entender o que ocorre, percebo uma nova anomalia que, realmente, não sei se seria possível não ocorrer, dado que a sociologia mostra como o sapiens sempre manifesta alguns comportamentos padrão em relações de poder sendo o objeto dessas relações algo de esquerda, de direita, da elite, do periférico, no maisntream, ou no underground - Sempre haverá aquele, ou aqueles, que se apropriam da ideologia vigente e serão "mais sofredores que o próprio sujeito do sofrimento" (pensemos na Idade Média e os fiéis que se automutilavam para serem mais próximos de Deus ao reproduzirem o sofrimento de Jesus), o que é brilhantemente mencionado por George Orwell, na obra "A Revolução dos Bichos": “Os animais são todos iguais, mas uns são mais iguais do que outros". Ou que Jean Baudrillard abordou em sua "Lógica da Diferenciação", na obra "O sistema dos Objetos", onde pessoas utilizam signos e códigos culturais para se diferenciarem no mosaico social. Isso nos leva a um dos tópicos de minha pesquisa em "A Era das Causas" - a lógica da busca por diferenciação por meio de status não mudou, o sistema continua o mesmo, o que mudou foi a estrutura de significação do que é status HOJE. Se há 30 anos ter status era ter um carro caro e bonito, diferenciando-se pelo consumo de bens de luxo, atualmente, ter status atualmente é não ter carro e usar transporte alternativo, pois status hoje é consumo moral, consciente, baseado em ideologias que defendem causas sociais e a inclusão de grupos excluídos. Assim, da mesma forma como há algumas décadas pessoas buscavam diferenciação sendo "mais que as outras ao consumir luxo", pessoas hoje buscam "ser mais que as outras ao consumir ideologias, causas e ser mais inclusivos e mais militantes da inclusão do que os próprios excluídos".

A lógica da vaidade e da diferenciação social é a mesma. A diferença é que no consumo moralmente orientado por causas, a necessidade de se fazer mais militante que o Outro, apontar dedos e dizer que o Outro diz que é militante, mas não é tão militante assim, pois não apoia tal ação, não participa de tal grupo, incorreu numa fala preconceituoso, racista, ou homofóbica, é a nova marcação social de status, em nada diferente dos cristãos que se automutilavam e faziam votos de pobreza, ou dos consumidores de luxo que eram mais "trendy" do que a própria elite que tinha acesso ao luxo de exceção e assim apontava dedo ao Outro pois ele era "cafona", antiquado, ou apenas pobre.

Tudo isso pra dizer, meus amigos, que, sem nenhuma tentativa de estar expondo "verdades" (que não existem em ciências sociais), apenas tecendo um relato sobre um encadeamento lógico observado ao longo de minha vivência como pesquisadora, acredito que a função dos cientistas sociais, nesse momento, é a função que exercemos como orientadores no campo científico, orientar, não é dizer o que se tem ou não que fazer, ou expor uma verdade incontestável, mas é trazer os olhos do orientando ao caminho do Oriente, que é onde nasce o Sol, onde nasce a luz, para que ele, a sociedade, tenham maior clareza ao observar os fenômenos que ocorrem na sociedade contemporânea, sem impor ideologias que, mesmo que como pesquisadores acreditemos que são corretas, não devem ser impostas por cientistas. Nosso papel é mostrar dados, pesquisas que refletem o momento presente e, nesse contexto, expor também os desvios que mapeamos ao observar sistematicamente a realidade.

É nosso papel expor as raízes e naturalização do preconceito, as formas veladas e explícitas da discriminação étnica, social, de gênero, mas também é nosso papel expor o quanto a apropriação que pessoas, grupos e empresas estão fazendo do novo capital de status social - a militância por causas - também vem sendo utilizada como uma ferramenta de diferenciação e exclusão social, de soberba, de manipulação e causando comportamentos ferinos onde indivíduos e grupos se posicionam como instituições sociais a demonizarem pessoas que são, muitas vezes, apenas ignorantes. Nosso papel é primeiro educar, levar a luz do conhecimento, mostrar como são engendradas as vilanias sociais do preconceito e da discriminação e todo educador de verdade sabe que o processo de educação leva tempo, pois existe a necessidade de desconstruir paradigmas que fazem parte de pessoas, grupos e empresas desde sempre. Apenas apontar dedos e cobrar comportamentos de quem não entende as estruturas da desigualdade, demonizando o Outro antes de fazê-lo entender os processos sociais, não é o papel do cientista.

Assim como a produção da tendência "gótica suave" esvazia o sentido do ser gótico, do movimento gótico e do lugar de fala dos membros desse grupo, a era das causas como código de diferencial de status, esvazia o sentido que cada causa social tem para aqueles que são excluídos e sujeitos dessas causas. Nesse contexto, proponho uma atitude reflexiva sobre o momento presente das causas para que um processo necessário de equanimidade e inclusão não se transforme em ferramenta de diferenciação social, de criação de "iguais mais iguais que os outros", pois se isso ocorrer, a Era das Causas será mais uma tendência a obsolescer e seus efeitos sociais serão superficiais e inócuos.

https://brasil.elpais.com/cultura/2020-07-08/chomsky-rushdie-steinem-e-outros-150-intelectuais-reivindicam-o-direito-de-discordar-nos-eua.html
Bibliografia
BRANDINI, Valéria. Rock alternativo, do underground ao mainstream: mercado fonográfico, produção e tendências do rock nos anos 90. 1998.Universidade de São Paulo, São Paulo, 1998.
BRANDINI, Valéria. Vestindo a rua: moda, cultura & metrópole. 2003.Universidade de São Paulo, São Paulo, 2003.
BRANDINI, Valéria. A ERA DAS CAUSAS. O Propósito como Capital na Estética Publicitária. Universidade de São Paulo, São Paulo, 2003.
BAUDRILLARD, Jean. O sistema dos objetos. São Paulo. Editora Reflexiva. 1979
ORWELL, George. A revolução dos Bichos. São Paulo. Editora globo. 1990


sexta-feira, 3 de julho de 2020

Porque não desejo um “novo normal”


A gente não quer só comida
A gente quer comida, diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída para qualquer parte

A gente não quer só comida
A gente quer bebida, diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida como a vida quer

Titãs

A matéria abaixo, do El Pais, explicita o porquê do discurso do novo normal ser tão repetido, ser quase um mantra. Também deixa claro porque a Renda Básica Universal sempre teve problema em sua aceitação e, quando discutida, discute-se qual seria o valor a ser recebido por um africano morador de uma aldeia e por um americano do Norte da classe média.

Somos um mundo onde, infelizmente, existem duas espécies de humanos, uma que merece viver em segurança, bem alimenta e acesso aos bens de consumo de melhor qualidade e a outra, que deve ser contentar com o que os do andar de cima, acha que no máximo merecem.

A matéria revela o que incomodou a nossa classe média durante os governos Lula e Dilma, a possibilidade do empobrecido, mudar de estamento social.

Conversando com Dieguinho, ex-Secretário de Economia Solidária de Maricá-RJ, sobre a pesquisa, ele me recorda uma votação na Câmara, onde se abria a possibilidade do uso da moeda Mumbuca (moeda social digital do município), para se pagar corrida de taxi. Vereadores ligados a oposição votaram contra, e felizmente, foram a minoria. O mesmo Dieguinho encerra o papo, cantando os versos de uma música do Titãs, colocado na abertura acima.

Perderemos a oportunidade que nos coloca a Covid-19, em sermos pessoas melhores? O Prefeito Fabiano Horta, em uma inauguração recente, termina sua fala com a seguinte frase: “não existe fascista que resista a um cumprimento sincero e carregado de emoção”.

Há braços.

Sérgio Mesquita
Secretário de Ciência, Tecnologia e Comunicações

Por que julgamos mais duramente as decisões dos pobres
El Pais, Javier Salas, 03.07.20

Uma série de estudos realizados em Harvard revela um preconceito: as pessoas com menos recursos deveriam se contentar com menos, mesmo que isso prejudique sua saúde ou segurança

“Para vocês seria porcaria, para estes pais não era porcaria. Quando falam assim, não me ofendem, ofendem a eles.” Quando Isabel Díaz Ayuso, presidente da Comunidade de Madri, defendeu com essas palavras os menus da Telepizza para crianças vulneráveis, talvez o debate subjacente não fosse sobre a qualidade dos alimentos. Porque os especialistas não tinham dúvidas. Um estudo recentemente divulgado pela Universidade Harvard mostra que talvez o debate não fosse, na realidade, sobre o que consideramos aceitável para famílias pobres. Esse limite do aceitável é mais baixo para pessoas com menos recursos? Pesquisadoras da universidade dos EUA queriam responder a essa pergunta e as conclusões de seu trabalho são reveladoras: “Temos um padrão duplo preocupante”.

Por meio de 11 experimentos, as pesquisadoras mostram que pessoas de baixa renda são julgadas de modo mais negativo por consumirem os mesmos itens do que outras com renda mais alta, o que acrescenta uma pressão social extra às restrições materiais que já enfrentam. Mas não é por terem menos para gastar, mas porque se considera que suas despesas deveriam ser mais parcimoniosas. “Descartamos a explicação de que pessoas com renda mais alta podem consumir socialmente mais simplesmente porque podem pagar mais; pelo contrário, observamos que para as pessoas de baixa renda se considera socialmente que tenham de consumir menos porque se supõe que necessitam de menos”, diz Serena Hagerty, principal autora do artigo. Segundo Hagerty, o estudo revela que as necessidades básicas têm que ser mais básicas para os pobres.

Em um dos testes, a história de Joe é apresentada a dois grupos diferentes: para um, esse personagem tem baixa renda, para outro, tem uma boa renda. Joe ganhou 200 dólares (1.070 reais) em um sorteio, tudo bem se gastar o dinheiro em uma nova televisão? Se Joe é de baixa renda, isso é muito mais malvisto do que se tem um bom padrão de vida. Curiosamente, há um terceiro grupo, o de controle, ao qual não se conta nada sobre a situação financeira de Joe. Para este grupo, é tão admissível que o Joe neutro compre a TV como para o grupo do Joe rico. Só é malvisto pelo que tem como referência o Joe pobre.

À medida que o estudo, publicado na PNAS, vai mais fundo, os experimentos se tornam mais complexos para delinear melhor os mecanismos pelos quais as pessoas são julgadas de acordo com seus recursos. Por exemplo, em outro teste a pergunta é que cartão-presente dariam ao Joe pobre ou ao Joe rico, um de 100 dólares para comprar comida ou outro de 200 dólares para uma TV? O pobre Joe recebe principalmente o cartão da comida, enquanto o Joe rico ganha o que lhe permite comprar uma TV, ou seja, o dobro do dinheiro. No cômputo final, em média, o Joe pobre recebe 125 dólares e o rico, 152. Ou seja, mesmo quando se trata de um presente, quem tem mais, merece mais, e quem tem menos, ganha um presente inferior. Mesmo que saibam que Joe disse expressamente que gostaria de uma nova TV, os participantes do estudo dão muito menos TVs ao Joe pobre do que ao rico.

“Uma implicação desse duplo padrão é que as pessoas parecem mais confortáveis dirigindo e limitando as decisões de gastos dos pobres”, resume Hagerty. Este estudo é muito revelador no contexto atual, como indicam essas pesquisadoras, em que se discute a promoção da renda mínima em países como a Espanha. “Uma crítica potencial à renda vital mínima pode ser que as pessoas de baixa renda gastarão o dinheiro em coisas erradas”, diz Hagerty sobre o caso espanhol. “No entanto, é provável que esse medo resulte em primeiro lugar de uma visão limitada de quais produtos são considerados ‘necessários’ para pessoas de baixa renda”, diz ela.

É algo claro em outro de seus experimentos, como o que mostra 20 objetos de consumo cotidiano que uma família poderia comprar: jornais, móveis, relógios, computadores, equipamentos esportivos, etc. Em todos é mais malvista sua compra por uma família de baixa renda, exceto em um item: produtos de higiene corporal. Com essa mesma abordagem propuseram 20 critérios a serem levados em consideração por uma família que procure uma nova casa: garagem, ar-condicionado, bairro barulhento, proximidade de áreas de lazer, etc. A aquisição de todos esses itens é mais malvista quando se considera uma família de baixa renda, exceto em dois deles: que a casa esteja perto de um supermercado e do transporte público. O mais revelador é que se considera supérfluo que uma família pobre procure uma casa perto de um hospital ou em um bairro seguro, o que implica que, mesmo com pouca renda, até buscar segurança é considerado um capricho desnecessário.

A segurança como um luxo para famílias sem recursos também aparece em outro experimento do estudo, no qual se propõe a compra de um carro com um sistema de câmera traseira. Mesmo quando se explica aos participantes que é um item adicional importante para a segurança do veículo, isso é considerado menos necessário para uma família de poucos recursos. É malvisto que os pobres comprem um objeto que para os ricos é fundamental para sua segurança. De novo, não é que o rico tenha mais condição, é que os vulneráveis não merecem tanto, mesmo que esteja em jogo sua saúde.

“A principal contribuição deste estudo é que definimos as necessidades a partir dos recursos que as pessoas têm, porque o que definimos como necessário ou supérfluo muda de acordo com a renda da pessoa”, afirma o economista Luis Miller, pesquisador do CSIC. E acrescenta: “Isso tem implicações importantes, sobretudo no que chamamos de armadilha da pobreza, esse círculo vicioso que nega os recursos necessários para se ter acesso a mais recursos”.

Quando alguém critica um sem-teto ou um refugiado por ter um smartphone é porque isso é considerado um capricho desnecessário, embora para todos seja uma ferramenta imprescindível para nos relacionarmos com nossos familiares, empregadores ou clientes. Sem esse tipo de recurso, é impossível romper o círculo de que Miller fala: sem uma casa, chuveiro, telefone celular etc., é impossível conseguir um emprego que permita sair da armadilha da pobreza.

“Há a ideia de que, se você ajuda uma família, faz com que ela trabalhe menos. Um projeto de monitoramento analisou isso, e não é assim”, disse recentemente Esther Duflo, ganhadora do Prêmio Nobel de Economia. “Isso não os torna mais preguiçosos, como também lhes proporciona o bem-estar e a segurança que os tornam mais produtivos “. Todas as pessoas precisam sair da “visão de túnel” imposta pelas carências, essas penúrias que as impedem de tomar decisões calmas, como explicaram Sendhil Mullainathan e Eldar Shafir em seu livro Escassez: uma nova forma de pensar a falta de recursos na vida das pessoas e nas organizações (Editora Best Business): “A escassez arrebata nossa atenção e Isso nos proporciona um benefício muito estreito: temos um desempenho melhor ao nos ocuparmos das necessidades mais prementes. Mas, de modo mais amplo, pagamos um custo: negligenciamos outros assuntos e somos menos eficientes no resto de nossos afazeres cotidianos”. Dar uma TV ao Joe pobre talvez lhe proporcione um estímulo emocional que lhe permita acordar mais animado pela manhã. Ou não. Mas, em geral, pensamos que ele deveria se contentar com o que tem e se concentrar em comprar o imprescindível para subsistir.

Miller acredita que esses mecanismos ocorrem na Espanha de uma maneira mais sutil, porque lá as pesquisas mostram claras preferências pela redistribuição e não há com tanto peso “a figura do libertário dos EUA, aquele que diz que cada um tem o que merece”. E acrescenta: “Aqui esses mecanismos têm mais a ver com a necessidade de nos diferenciarmos dos pobres”. Segundo explica Hagerty por e-mail, a renda dos participantes do estudo não influenciou em suas opiniões: independentemente de sua renda, todos reduziam o círculo das compras aceitáveis para o Joe pobre, mesmo que pusessem em risco sua saúde, como uma cadeirinha para as crianças no carro, um bairro sem criminalidade ou acesso próximo a um posto de saúde, que são vistos quase como caprichos somente quando a pessoa tem pouca renda. “O fato de darmos menos margem de manobra às decisões dos economicamente desfavorecidos parece expressar noções mais básicas de mérito e autonomia”, diz a pesquisadora.

Voltando ao menu da Telepizza, Hagerty tem uma resposta clara à luz de seu trabalho: “Essa visão parcial da necessidade também pode explicar por que deram comida porcaria às crianças de baixa renda [em Madri], quando a mesma comida pode não ser adequada para crianças de alta renda”. E ela ressalta que suas descobertas sugerem que debates como esse estão na realidade fazendo duas perguntas diferentes que terão duas respostas substancialmente diferentes: O acesso a alimentos saudáveis é necessário? O acesso a alimentos saudáveis é necessário para as pessoas de baixa renda? “Isso precisa ser levado em consideração no debate político: como são feitas as perguntas relevantes em política e que preconceitos implícitos podem influir nas respostas?”.

terça-feira, 9 de junho de 2020

NOVO NORMAL, OU COCÔ ENFEITADO?

Não me importo com padrões.
Os princípios da normalidade são estabelecidos
por homens anormais, capitalistas, corrompidos e inconstantes.


A princípio, também gostei da possibilidade do pós pandemia nos levar a um mundo novo, e continuo gostando desta possibilidade. Novos paradigmas de relacionamento, atenção com o Ambiente, e um novo enxergar sobres as reais necessidades, individuais e coletivas. Porém, com o andar da carruagem e a cabeça pensando melhor, após leituras, “lives” e muito debate com os amigos, a ficha cai.  Para que isso fosse possível, não devemos esperar pelo retorno da normalidade e nem de um Novo Normal, termo badalado nos dias de hoje. Precisamos é de uma sacudida geral, espanar a poeira dessa tal normalidade, que pelo menos a quatro séculos nos explora a favor de uma pequena minoria. Pequena mesmo! Segundo o relatório Oxfam, de 2019, 26 pessoas acumulam a mesma riqueza que a metade da população mundial, algo como 3,5 bilhões de pessoas (26 x 3.500.000.000).

Desejar uma nova normalidade, na prática, é aceitar mais uma reinvenção do sistema, na busca de contornar a sua enésima crise, sem resolver a sua causa primeira – prática histórica. Depois de todos os medos, mortes e privações será este o nosso desejo? Mudar para deixar tudo como está, lembrando Giuseppe di Lampedusa em seu livro, “O Leopardo”, denuncia.

É preciso estar atento e forte, como na música de Gil e Caetano. Pois os donos do poder estão trabalhando o seu (nosso) novo normal. E pelo o que as redes nos tem denunciado, este novo normal começa a ter como apelido o termo “Capitalismo de Segurança”, em substituição ao atual, Financeiro, que substituiu o Industrial, que substituiu o Mercantil. O recheio do bolo é o mesmo, a cobertura muda, ou, como colocado no título, o cocô se apresenta mais cheirosinho.

O perverso do Capitalismo de Segurança, é sua aposta na potencialização do nosso sentimento de proteção individual e de proteção aos demais da possibilidade de você transmitir o vírus, ao praticarmos o isolamento social. Quase metade da população do mundo, se isolou na expectativa de findar a pandemia. Os donos do poder, através da mídia, nos passam a ideia de estarmos em uma guerra contra o vírus, militarizando os termos usados na busca do tratamento, além das ameaças de se colocar os exércitos nas ruas e mudar as leis, como colocam Trump e seus vassalos.

As manifestações públicas, as provocadas pela pandemia e as demais, como as recentes, provocadas pelo assassinato do Floyd no EUA, começam a ser tratadas como atos de terrorismo, para em seguida, deturpando a ideia inicial da ONU e a proposta de implantação do chip ID2020 nas pessoas, o usar para o controle das mesmas. O Isolamento Social, passa a ser normalizado para ser pensado como futuros confinamentos ou prisões domiciliares em massa, pelo “novo” Capitalismo de Segurança.

Por essas e outras, me recuso a usar o termo “novo normal”.

Há braços.

Sérgio Mesquita
Secretário de Ciência e Tecnologia e Comunicações de Maricá-RJ
Diretório Municipal PT/Maricá

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Algo deve mudar para que tudo (NÃO) continue como está. Giuseppe Tomasi di Lampedusa


Não sei por desesperança ou muita esperança, mas me impressiona como a esquerda, que sempre denunciou a falta da memória de nosso povo, esquece com muita facilidade, o quem é quem?

A quantidade de viúvas do Bolsonaro só cresce, e cada novo “comunista” que surge, segundo os seguidores do fascista alojado em BSB, aplaudimos e os adotamos como paladinos da Justiça e da inclusão social. Não é que seja contra alguém mudar de opinião, não se trata disso. Eu já mudei de opinião também, mas não mudo de princípio e nem a minha ética, combinação que sempre deve nortear nossas ações.

Abraçamos, passamos a seguir nas redes, número de seguidores passou a definir a importância do da pessoa, não a sua linha de pensamento. Não ficaria surpreso se alguns não fossem indicados como candidatos da esquerda, em detrimento dos nossos e de outros das forças próximas. Se quer perguntamos se hoje, ainda acreditam que destruímos o país? Se somos os criadores da corrupção? Se acreditam na distribuição de renda? Nem como maneira de sobrevivência daqueles que nos servem com mão de obra aviltada ou como forma de transformação e melhora da qualidade de vida? Não! Simplesmente abraçamos e ignoramos o quanto fomos chamados de ladrões, assassinos, comedores de criancinha e outros tantos adjetivos.

Alguém parou para pensar que, alguns sim se arrependeram do Boso, como ouve arrependimento em relação ao Collor. Outros, por serem “liberais”, acabaram perdendo seus empregos... Nada contra, se eu fosse liberal ou conservador, algumas das atitudes do governo me incomodariam também, e acabaria por somar às fileiras de viúvas do Bolsonaro.

Alguém acredita que os Mainards, Vilas, Olavos (peguei pesado – como em tribunal - peço para os leitores ignorarem este exemplo), Netos, os globais e outros, votariam em nosso retorno a BSB? São de direita e continuarão sendo com ou sem Bolsonaro. Não defenderão o imposto para os mais ricos e a distribuição de renda (salvo para manter viva a mão de obra). Votarão na Marina, no Ciro no PSDB, no queridinho da Globo ou outro qualquer que esteja alinhado com o sistema. Mas não votarão no candidato/os da esquerda. Neste momento vale parafrasear Churchill, nos aliemos ao demônio, mas daí a colocá-lo dentro da nossa casa....

E as instituições? STF, Câmara, Polícias, Promotorias e outras... Agora vai... agora o STF vai tirá-lo... Vai é substituir por outro mais palatável. STF e STE se fossem justos, não tinha mentirão, Dilma terminaria o mandato e Lula estaria em BSB, mas como priorizamos o pragmatismo eleitoral e abandonamos as ruas e a sociedade civil... O problema agora é como resgatar este trabalho, utilizando a tecnologia que está aí, para o bem comum e não pessoal.

Devemos sim sermos republicanos e trabalhar uma frente contra o fascismo e o neoliberalismo. Mas daí a declarar amor nas redes sociais? Lembrem-se do “i love you” do Boso para o Trump.

Sérgio Mesquita
Secretário de Ciência, Tecnologia e Comunicações de Maricá-RJ
Diretório Municipal do PT-Maricá

terça-feira, 19 de maio de 2020

Como a biossegurança vem possibilitando o neo-feudalismo digital


Mais um texto excelente do Pepe Escobar.
Me preocupa seu quarto parágrafo, que soa como crítica ao isolamento. Não sou cientista e muito menos, fora a minha que é precária, sem qualquer ligação com a Saúde. Mas acredito que sem o isolamento social a coisa poderia ser pior. O problema, iniciado no parágrafo, está no brilho dos olhos daqueles que comandam os Estados (as corporações) em identificar o isolamento como uma ferramenta de manutenção do sistema, substituindo o capitalismo financeiro, pelo capitalismo da segurança, como ferramenta de sobrevivência do sistema a sua enésima crise. O que fecho em gênero, grau e número com a "denuncia" colocada no texto.
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O neo-feudalismo digital já estava em vigor mesmo antes do Covid-19. Pode-se chamar a isso de turbo-neoliberalismo de vigilância. Onde não há nenhuma "liberdade" intrínseca e tudo é alcançado por meio da servidão voluntária.

17 de maio de 2020, 22:08 h
Por Pepe Escobar, para o Strategic Culture
Tradução de Patricia Zimbres, para o 247

O mestre pensador italiano Giorgio Agamben vem atuando na controversa linha de frente da tentativa de identificar o novo paradigma que pode estar surgindo do desastre da atual pandemia.

Ele, recentemente, chamou atenção para um extraordinário livro publicado há sete anos, que já então examinava a questão.

Em Tempetes Microbiennes (Tempestades Microbianas), Patrick Zylberman, professor de História da Saúde em Paris, detalhou o complexo processo pelo qual a segurança sanitária, até então relegada às margens das estratégias políticas, começou a se esgueirar para o centro do palco em inícios do século XXI. A Organização Mundial da Saúde (OMS) já havia criado um precedente em 2005, quando advertiu sobre a possibilidade de a nova gripe suína vir a provocar "50 milhões de mortes" em todo o mundo. No pior cenário projetado para uma pandemia, Zylberman previu que o "terror sanitário" seria usado como um instrumento de governança.

O pior cenário possível está sendo reformulado neste exato momento. A ideia de um confinamento generalizado e obrigatório não é corroborada por nenhuma justificativa médica ou pesquisa epidemiológica no caso de combate a uma pandemia. Mesmo assim, essa medida foi sacramentada como a política hegemônica - trazendo o inevitável corolário de incontáveis multidões mergulhadas no desemprego. Tudo isso tomando como base modelos matemáticos fracassados e delirantes do tipo Imperial College, impostos por poderosos grupos de pressão que vão desde o Fórum Econômico Mundial (FEM) até a Conferência de Segurança de Munique. 

Entra em cena o Dr. Richard Hatchett, membro do Conselho de Segurança Nacional durante o primeiro governo Bush Jr. que, já em 2001, recomendava o confinamento obrigatório de toda a população. Hatchett agora dirige a Coalizão para Inovações na Prontidão para Epidemias (CEPI, em inglês), uma poderosíssima entidade responsável pela coordenação dos investimentos globais em vacinas, e muito próxima à Grande Farma. A CEPI, por acaso, é a cria cerebral da conjunção FEM-Fundação Bill e Melinda Gates.

É de importância crucial saber que Hatchett vê a luta contra o Covid-19 como uma "guerra". A terminologia - adotada por todos, do Presidente Trump ao Presidente Macron - entrega o jogo. Ela remete a - o que mais? - a guerra global contra o terror, tal como solenemente anunciada em setembro de 2001 pelo próprio Donald “Desconhecidos Conhecidos" Rumsfeld.

Rumsfeld, o que é da máxima importância, foi presidente da gigante da biotecnologia, a Gilead. Depois do 11 de setembro, no Pentágono, ele fez todo o possível para borrar a distinção entre civis e militares no caso da guerra global ao terror. Foi então que o "confinamento generalizado obrigatório" foi conceituado, tendo Hatchett como um dos principais autores.

Esse conceito, embora criado pela Grande Farma militarizada, não tinha, naquela época, nada a ver com saúde pública. O importante era a militarização da sociedade americana, a ser adotada em resposta ao bioterror - naquela época automaticamente atribuído a uma al-Qaeda esquálida e pobre em tecnologia.

A versão atual desse projeto - estamos em "guerra" e todos os civis devem ficar em casa - toma a forma daquilo que Alexander Dugin definiu como uma ditadura médico-militar.

Hatchett sem dúvida alguma faz parte desse grupo, juntamente com o ubíquo Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas (NIAID, em inglês), muito próximo à OMS, ao FEM, à Fundação Bill e Melinda Gates e a Robert Redfield, diretor da divisão  dos Estados Unidos do Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC).

Entre outros aplicativos a serem incorporados ao projeto está a vigilância digital total, vendida como monitoramento da saúde. Já implementada na atual narrativa, uma demonização implacável acusa a China de ser "culpada" por tudo que se relacione à Covid-19, tática essa herdada de um outro e muito bem testado jogo de guerra, o esquema Red Dawn.

Mostre-me sua fragilidade 

Agamben conseguiu chegar à quadratura do círculo: não é que os cidadãos de todo o Ocidente tenha o direito à segurança sanitária. Agora eles são judicialmente forçados (itálicos meus) a serem saudáveis. Isso, em poucas palavras, é o que biossegurança significa. 

Não é de admirar, portanto, que a biossegurança seja um paradigma de governança ultra eficiente. Ela foi enfiada goela abaixo nos cidadãos, sem o mínimo debate político. E seu enforçamento, escreve Agamben, mata "qualquer atividade política e qualquer relação social como exemplo máximo de participação cívica". 

Já estamos passando pela experiência do distanciamento social como modelo político - com uma matriz digital que toma o lugar da interação humana que, por definição, de agora em diante será vista como fundamentalmente suspeita e politicamente "contagiosa".  

Agamben se horroriza com esse "conceito de destino da sociedade humana, que em muitos aspectos parece ter tirado de religiões decadentes a ideia apocalíptica de fim do mundo". A economia já havia substituído a política - como em tudo o que é sujeito aos ditames do capitalismo financeiro. Agora, a economia está sendo absorvida pelo "novo paradigma da biossegurança, ao qual todos os demais imperativos têm que ser sacrificados".

Como lutar contra isso? Armas conceituais existem, tais como os cursos sobre biopolítica dados por Michel Foucault no College de France entre 1972 e 1984. Eles agora podem ser consultados por meio de uma plataforma descentralizada criada por um coletivo que se descreve com o delicioso nome de "o lagostim" , que "avança de lado", um conceito que faz justiça ao grande mestre rizomático Gilles Deleuze.

O conceito de Antifrágil, de Nassim Taleb, é também bastante útil. Como ele explica, o "Antifrágil é o antídoto contra os Cisnes Negros". Bem, o Covid-19 foi uma espécie de Cisne Negro: afinal, as elites decisórias sabiam que algo dessa natureza fatalmente aconteceria – embora os políticos de baixo escalão, principalmente os ocidentais, tenham sido pegos totalmente de surpresa.

O Antifrágil postula que, devido ao medo (muito em evidência no atual momento) ou a uma "sede de ordem" (natural em qualquer poder político), "alguns sistemas humanos, ao perturbar a lógica invisível ou não tão visível das coisas, tendem a se expor a danos causados pelos Cisnes Negros, e quase nunca extraem qualquer benefício. Consegue-se uma pseudo ordem quando se busca a ordem; só se consegue alguma medida de ordem e controle quando se aceita o aleatório".

A conclusão é que "no mundo do cisne negro, a otimização não é possível. O melhor que se pode alcançar é uma redução da fragilidade e uma maior robustez". 

Não há, até o momento, razões para crer que uma "redução da fragilidade" no sistema mundial dos dias de hoje vá levar necessariamente a uma "maior robustez". O sistema nunca se mostrou tão frágil. O que temos é uma abundância de indicações de que o colapso do sistema vem sendo remodelado, em uma velocidade vertiginosa, como um neo-feudalismo digital.

Perdidos em uma quarentena biopolítica

Byung-Chul Han, o filósofo sul-coreano que leciona em Berlim, tentou formular a questão. O problema é que ele é demasiadamente refém de uma visão idealizada do liberalismo ocidental.

Byung-Chul Han está certo quando observa que a Ásia lutou contra o Covid-19 com rigor e disciplina inconcebíveis para o Ocidente - algo que acompanhei de perto. Mas ele então evoca o sistema de crédito social chinês para desferir um ataque contra a sociedade de disciplina digital chinesa.  Não há dúvida de que o sistema cria as condições para a vigilância biopolítica. Mas é tudo uma questão de nuances.  

O sistema de crédito social é como a fórmula "socialismo com características chinesas": um híbrido que só funciona em relação às complexas especificidades da China.

O labirinto de câmeras de reconhecimento facial; a ausência de restrições sobre os dados trocados entre os provedores de internet e o poder central; o código QR que diz se você é "vermelho" ou "verde" em termos de infecção; todos esses instrumentos foram aplicados com sucesso na China em benefício da saúde pública.

Byung-Chul Han é forçado a admitir que isso não acontece apenas na China. A Coreia do Sul - uma democracia ao estilo ocidental - vem pensando na possibilidade de exigir que as pessoas em quarentena usem uma pulseira digital. Ao falarmos dos diferentes modelos asiáticos empregados na luta contra o Covid-19, a nuance é a norma.

O espírito coletivista e a disciplina que vigoram em toda a Ásia - em especial nas sociedades de influência confucionista - funcionam independentemente do sistema político. Pelo menos, Byung-Chul Han admite que "todas essas particularidades asiáticas são vantagens sistêmicas para a contenção da epidemia". 

Não se trata de ver a sociedade disciplinar asiática como modelo para o Ocidente. Nós já vivemos em um Panóptico digital global (onde está Foucault quando precisamos tanto dele?) A vigilância - e a censura - das redes sociais empregadas pelos gigantes do Vale do Silício já foi internalizada. Todos os dados dos cidadãos são traficados e instantaneamente marquetizados visando a lucros privados. Então, sim: o neo-feudalismo digital já estava em vigor mesmo antes do Covid-19.

Pode-se chamar a isso de turbo-neoliberalismo de vigilância. Onde não há nenhuma "liberdade" intrínseca e tudo é alcançado por meio da servidão voluntária.

A vigilância biopolítica é apenas mais uma camada, a última fronteira, porque agora, como Foucault nos ensinou, esse paradigma controla nossos próprios corpos. Há muito o "liberalismo" foi reduzido a um bicho morto na beira da estrada. A questão não é a China servir ou não de modelo ao Ocidente. A questão é que talvez tenhamos sido jogados em uma interminável quarentena biopolítica sem nem ao menos perceber.